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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Estado e movimentos sociais

A insatisfação revelada nos últimos tempos no interior dos movimentos sociais explica-se num contexto muito amplo. É este contexto que convém desvendar e analisar, para tentar revertê-lo, antes que seja tarde demais
Exagerando, Lula parece gerar mais consenso que Jesus,
94% das pessoas aprovam ou dizem que é regular o governo dele.

Gilmar Mauro
Setores da classe trabalhadora, como por exemplo a Força Sindical,
que não apoiavam o Lula, agora estão apoiando Dilma.
Movimentos religiosos não apoiavam Lula, mas agora apoiam Dilma.
Essas forças populares, no atual governo, são maiores, mais amplas
.
João Pedro Stédile
1.
As classes dominantes, tanto os políticos como os donos e administradores de empresa, esforçam-se por ocultar os mecanismos do poder. Não conseguem ocultar a repressão, porque a ação da polícia tem como uma de suas características ser muito visível. Mas a polícia e os tribunais servem muitas vezes de biombo, para esconder outros mecanismos de poder mais eficazes e muito mais discretos. E nós, na extrema-esquerda, contribuímos frequentemente para essa ilusão, quando lamentamos e celebramos as vítimas e acusamos os responsáveis imediatos pela repressão, mas nos esquecemos de desvendar a teia de interesses profunda e silenciosa que está subjacente à violência das instituições.
No capitalismo os mecanismos de dominação não são apenas exteriores à classe trabalhadora, como sucede com a polícia e os tribunais. Os mecanismos de dominação permeiam igualmente o interior da classe trabalhadora, nomeadamente através dos partidos políticos e dos sindicatos. Contrariamente ao que é usual imaginar, as classes dominantes apoiam-se em bases mais sólidas quando dispõem de governos ocupados ou hegemonizados por partidos políticos oriundos de esquerda. Se estes partidos mantiverem ramificações no interior da classe trabalhadora, torna-se muito mais fácil executar as medidas exigidas pelo desenvolvimento do capitalismo. Em dois séculos de história do capitalismo e em todos os países sem exceção, esta é uma regra geral: o capitalismo renova-se e desenvolve-se apropriando-se de movimentos que nasceram na esquerda e apropriando-se deles para os seus fins. Os exemplos são públicos, para quem os quiser estudar, e não deviam constituir segredo para ninguém.
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Tem-se verificado — e os últimos anos fornecem numerosos exemplos — que os partidos de esquerda conseguem mais facilmente do que os partidos de direita acelerar o desenvolvimento do capitalismo ou implementar medidas onerosas para os interesses econômicos da maioria da população. Isto ocorre porque os partidos de esquerda dispõem de mais mecanismos de dominação internos à classe trabalhadora e, portanto, podem fazer menos apelo à repressão do que os partidos de direita.
Do mesmo modo, quando as burocracias sindicais se encarregam de postos governamentais, é muito mais fácil para o governo fazer com que a classe trabalhadora aceite as medidas capitalistas ou mesmo entusiasmar uma parte significativa da classe por estas medidas. Os sindicatos atrelados aos governos cumprem aqui uma função muito importante porque podem lançar movimentos e greves e, depois, apresentar como conquistas parciais precisamente aquelas medidas que os governantes e os empresários tinham a intenção de promulgar. Os trabalhadores ficam assim transformados num agente ativo da modernização do capitalismo.
2.
Desde a eleição de Outubro de 2002, o Brasil é um bom exemplo de um governo atuando, além da habitual repressão, mediante mecanismos de dominação internos à classe trabalhadora. Muito do que se tem discutido nos últimos meses em torno da evolução do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e de outros movimentos sociais fica bastante mais claro se for colocado nesta perspectiva.
No Brasil contemporâneo, os dois principais mecanismos de dominação infiltrados na classe trabalhadora são os sindicatos e o Partido dos Trabalhadores (PT).
*
A entrada da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Força Sindical para o governo constitui um fator de enorme importância. Há poucos países no mundo em que os capitalistas possam orientar diretamente os sindicatos através dos ministérios.
É certo que essa entrada comprometeu a aparência combativa da CUT, mas isto não fez com que o sindicalismo de oposição conseguisse desenvolver uma plataforma mais combativa. Um dos fatores que explica esse fato é que os sindicatos oposicionistas mantiveram a mesma estrutura hierarquizada, burocratizada e afastada das bases que caracteriza os sindicatos aliados ao governo. Sobretudo, mantiveram a gestão capitalista dos consideráveis fundos e patrimônios sindicais, o que os impede de se converterem em organismos de luta eficazes.
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Os sindicatos tornaram-se hoje — não só no Brasil como em todo o mundo — grandes investidores capitalistas. No Brasil os sindicatos mobilizam mais de 600 milhões de reais por ano somente em recursos do imposto sindical. Esta cifra deve ser multiplicada várias vezes se levarmos em conta os numerosos mecanismos de imposição de contribuições compulsórias que vêm sendo utilizados pelos sindicatos. A isto se devem somar os colossais montantes acumulados e investidos nos fundos de pensões. Estes números não transparecem para o público nem para os filiados dos sindicatos nem sequer para a maior parte dos membros das direções. O que os sindicatos podem perder por um lado em capacidade mobilizadora ganham por outro lado em capacidade econômica, e sob este ponto de vista não há nenhuma diferença entre a CUT e os sindicatos de oposição. Explica-se assim um episódio recente ocorrido no Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SP), entidade filiada à Central Sindical e Popular - Conlutas, que utilizou métodos tipicamente empresariais para conter a paralisação de parte de seus próprios funcionários [1]. Mas está longe de ser um caso único.
A transformação dos sindicatos em investidores — por vezes grandes investidores — capitalistas contribui para acirrar as rivalidades internas, o que ajuda a explicar o fiasco da tentativa de unificação da Conlutas com a Intersindical, em Junho de 2010.
E assim as componentes sindicais do governo prolongam-se através de centrais sindicais pretensamente oposicionistas.
*
O PT constitui outro mecanismo de dominação capaz de permear a classe trabalhadora e de a imobilizar ou mesmo atraí-la para o campo governamental. É certo que há anos o PT se converteu numa máquina quase exclusivamente eleitoral e desprovida de militância de base. Mas não foi por isso que os partidos oposicionistas de extrema-esquerda conseguiram obter qualquer presença significativa. Um dos resultados mais lastimáveis desta situação foi a soma dos votos obtidos pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), Partido Comunista Brasileiro (PCB) e Partido da Causa Operária (PCO) no primeiro turno das eleições presidenciais de Outubro de 2010. Estes quatro partidos, somados, alcançaram exatamente 1,0% dos votos expressos.
Esta situação explica-se porque o PT dispõe de numerosos e variados canais de penetração política na classe trabalhadora, sobretudo porque a sua estrutura organizacional permite a existência de facções. Deste modo, enquanto o governo continua a abrir caminho ao desenvolvimento do capitalismo e do neo-imperialismo brasileiro, vão-se formando tendências mais à esquerda no interior do PT, como sucedeu em Dezembro de 2011 com a fundação da Esquerda Popular Socialista. Este tipo de manobras, repetidas ao longo do tempo, é interessante. A evolução do governo constitui o motivo para a formação de novas tendências, mas essa evolução não impede que estas tendências se mantenham no interior do mesmo quadro político que abrange o governo. É como uma corrente que cada vez forma um número maior de elos à esquerda, mas que é sempre puxada pela ponta da direita. Deste modo, através do PT como um todo e, em particular, através das suas tendências de esquerda, os capitalistas mantêm e reforçam a sua penetração política no interior da classe trabalhadora.
spiderEsta penetração consolida-se mais ainda quando o PT aparece como instrumento de luta em cidades menores, sem tradição de militância social ou de esquerda, e onde está submetido à lógica e aos esquemas do PT das cidades maiores.
Se observarmos as coisas com certo detalhe, perceberemos que as organizações de extrema-esquerda existem nas grandes cidades e em suas franjas, mas sua presença em cidades menores ou afastadas das grandes metrópoles é praticamente nula e se dá graças à vinculação a movimentos de base e de massa como o MST. Em lugares onde nem o MST chega, entretanto, o que há de mais à esquerda ainda é o PT, e é a ele que se dirigem diversos movimentos de base. E assim os mecanismos de dominação capitalista não só penetram na classe trabalhadora, mas proliferam e consolidam-se, em vários níveis.
Foi nestas localidades, onde o modo de exploração e submissão dos trabalhadores é realizado através das formas mais atrasadas, incluindo aí formas já ilegais de uso do trabalho, e onde a repressão é feita à margem das formas estatais e com extremo grau de violência, que o PT se tornou um refúgio para boa parte daqueles que se colocaram contra as forças dominantes locais, principalmente onde a Igreja já não tinha feito isso antes e, quando já feito, fez ainda mais em aliança com ela.
Filiados agora a um partido de massas, cada militante desse, ainda afastado dos grandes centros, passa também a se ligar parcialmente aos processos nacionais de luta. A mediação feita pelo PT, que aconteceu através da “formação política” desses militantes no “modo PT” – que logo depois se transfiguraria “modo PT de governar” – incluía o conhecimento e a exigência de respeito às instituições modernas (desde as leis trabalhistas, os direitos civis e chegando ao sistema eleitoral) por todos os setores do que veio a se chamar sociedade civil, e o que ainda chamamos de classes sociais.
Essa formação passava também pelo conhecimento de vários tipos de lutas sociais. E onde não havia sindicalismo, ou pelo menos não o sindicalismo moderno pautado na negociação, passou-se a ter. Onde não existia uma real disputa eleitoral, idem. Onde a juventude ou as minorias não se organizavam e nem se compreendiam enquanto tal, surgia essa possibilidade, e por aí segue. Daí, difundir a formação de núcleos de movimentos sem-terra, principalmente do MST, nos locais onde a luta pela terra acontecia no seu estado bruto foi apenas uma consequência. Essa nova etapa das lutas, organizada através dos movimentos sociais, já nasce em muitos cantos imbricada com o PT.
Essa dinâmica de construção da classe trabalhadora do país dá a impressão de que em muitas localidades, principalmente nas mais afastadas dos grandes centros, o PT é o que há de mais à esquerda. É a partir da formação do PT que muitos trabalhadores formam o seu discurso e muitos outros se sentem mais protegidos ao enfrentarem as elites conservadoras locais. Por outro lado, é graças à formação do PT que o confronto direto entre classes antagônicas locais deixa de acontecer, e é a partir desse novo momento que a conciliação passa a ser a primeira alternativa. Tudo isso muito antes do Governo Lula, apesar do agravamento visto com a chegada do PT no Governo Federal.
flywebCom a chegada ao Governo Federal o que muda não é essa estratégia do PT, mas a capacidade que o partido passa a ter de impor a lógica eleitoral aos movimentos sociais, que antes ficava no âmbito dos sindicatos. Agora, com o controle da máquina do Estado e com legitimidade junto ao setor empresarial, o PT se torna mais capaz de garantir retornos àqueles que o apoiam. Assim, pouco mais de vinte anos foi o tempo que tiveram os trabalhadores submetidos às formas atrasadas de exploração de saltarem do estado de enfrentamento contra as elites locais para se tornarem instrumentos eleitorais, passando pela organização em movimentos sociais.
O pragmatismo necessário para disputar um processo eleitoral não muda somente a forma como os militantes se enxergam e enxergam as suas lutas: tira pessoas do trabalho de base e as coloca em máquinas de campanha. As lutas sociais passam a não só ter um problema de concepção, mas sofrem pela falta de militantes para dar continuidade aos projetos que antes julgavam centrais. Se somarmos isso ao desenvolvimento das forças produtivas do país, que atingiu também o setor agrário, imprimindo outras formas de gestão do trabalho, aplicando além do maquinário a mão-de-obra intensiva, reduzindo ainda mais o uso do trabalho humano no desenvolvimento das pequenas e médias cidades, que são as mais próximas dos espaços produtivos agrícolas e para onde está se direcionando a maior parte da migração de trabalhadores [2], temos o real quadro de esvaziamento das lutas no campo.
Ao ingressar no Partido e ao criar seus respectivos diretórios municipais, os militantes recém-chegados são quase obrigados a vincular-se ao grupo do deputado estadual X, do deputado federal Y, do senador Z, sob pena de ostracismo político. Essa vinculação exige do militante mais lealdade ao grupo do parlamentar do que à base social que o formou enquanto tal. Porém, é nos quadros estreitos destas afinidades compulsórias que passam a exercer qualquer atividade política concreta (agitação política, candidaturas, etc.). Ora, estas afinidades compulsórias são, em geral, muito mais rígidas do que as alianças locais e mais estáveis do que as realizadas com figuras de centro ou de direita no quadro político pré-petista. Em geral, a dança das cadeiras nos cargos do poder, quando coreografada pelo centro e pela direita, implicava em revoada de aliados, enquanto com estas afinidades compulsórias a pecha de esquerdista atrapalha, quando não impede, a revoada para outros campos políticos. É esse o motivo pelo qual todos os outros grupos políticos se desmancham e se reconstituem sob novas siglas nessas localidades, enquanto os militantes do PT, por mais que estejam afastados dos motivos que os levaram à sigla, e consequentemente mais próximos daqueles que antes faziam ferrenha oposição, continuam vinculados ao Partido, dando-lhe estabilidade e contínuo crescimento.
E assim os mecanismos de dominação capitalista não penetram só na classe trabalhadora, mas proliferam e consolidam-se em vários níveis, não faltando aí exemplos de veículos de informação e coletivos midiático-culturais que procuram ser a expressão ideológica deste projeto em curso.
3.
É neste quadro que devemos analisar a evolução recente dos movimentos sociais, nomeadamente do MST. A mobilização destes movimentos sociais pelo voto em Dilma no segundo turno das eleições de 2010 parece ter constituído um marco significativo, assinalando uma passagem clara para o âmbito governamental. No entanto, esta evolução correspondeu a tendências mais profundas, porque o MST estabeleceu alianças governistas não só no âmbito federal mas igualmente no âmbito estadual e, dadas as tradições de clientelismo do meio rural, o pronunciamento de lideranças nacionais do MST em prol da eleição de Dilma e de outros candidatos do PT indica as dificuldades de superação deste quadro.
golden-silk-spiderNum dado assentamento, que passava por dificuldades estruturais, na época das campanhas eleitorais de 2005 a maioria dos militantes ausentou-se do local para trabalhar na candidatura de políticos de partidos de esquerda, sobretudo do PT. Ora, como não existe vácuo na política, a falta de trabalho de base no assentamento fez com que crescesse a força de um grupo de assentados evangélicos, que não compartilhavam da ideologia do movimento, o que ocasionou uma forte divisão do assentamento. Quatro anos depois a fratura no assentamento ainda era presente e, num novo ciclo eleitoral, a situação se repetiu, agora com a agravante de dividir o pequeno grupo de militantes entre trabalhar para o PT ou o PSOL. Quando as lições não se tiram, isto significa que o mal vem da raiz.
E os efeitos desse mal de raiz medem-se pela situação na Bahia, estado em que o MST dispõe do maior número de acampados e onde a direção estadual está inteiramente atrelada ao governo do PT no estado. Além disto, graças a coordenações regionais como a do Sudoeste baiano (Vitória da Conquista e região), o MST adotou uma postura imobilista que o coloca a reboque de conjunturas eleitorais locais, ao invés de pautar a conjuntura política (maior que a eleitoral) com ações diretas contra o latifúndio.
O problema prolifera. No Paraná a direção do MST concluiu um acordo para a eleição do candidato do Partido Democrático Trabalhista (PDT), Osmar Dias — irmão de Álvaro Dias, do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB) — membro de uma das maiores famílias latifundiárias do estado. Ao mesmo tempo, foi proibida a entrada dos partidos de esquerda, tais como o PSTU e o PSOL, nos acampamentos e assentamentos.
Perante este avolumar de acontecimentos é impossível explicar cada caso como um caso particular. Trata-se de uma tendência de evolução geral.
*
Na análise que estamos apresentando deve ser dado um lugar de destaque ao papel desempenhado pelo ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho [3]. A Conjuntura da Semana. Balanço de um ano do governo Dilma Rousseff, elaborada pelo Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (CEPAT), afirma que, em certa medida, Gilberto Carvalho é o principal responsável pelas negociações e boas relações estabelecidas entre o governo Dilma e os diversos movimentos sociais durante o ano de 2011 [4]. O perfil de atuação e de administração dos conflitos de Gilberto Carvalho é marcadamente conciliador, fazendo com que seja respeitado e considerado interlocutor legítimo dos movimentos sociais em sua relação com o governo federal. Para evidenciar esta tarefa desempenhada por Gilberto Carvalho, o CEPAT destaca que o ministro-chefe «esteve presente nos debates da votação do salário mínimo, nos incidentes da rebelião de Jirau, serviu como parachoque no debate de Belo Monte, reuniu-se exaustivamente com os sindicalistas, recebeu comissões e movimentos de todos os tipos e serviu, por um lado, de “ponte” das demandas dos movimentos sociais junto ao executivo e, por outro, de porta-voz das posições do governo» [5].
O próprio Gilberto Carvalho, em entrevista para o Valor Econômico, esclarece melhor as intenções de Dilma quando o nomeou para o cargo: «Ela teve uma conversa muito simples comigo. Disse: “Gilbertinho, preciso de você porque eu quero que alguém me traga a realidade dos movimentos sociais, as demandas, as carências, as crises, alguém que me sensibilize para esse sofrimento do povo, alguém que diga a verdade. Não quero ser enganada nunca”» [6]. Gilberto Carvalho ainda aponta que «todo ministério tem diálogo com os movimentos sociais. Minha área não tem o monopólio desses contatos, mas é o lugar, digamos, onde se organiza esse diálogo. Começou com o salário mínimo, em que fiz reuniões com as centrais sindicais» [7]. Com efeito, não são só as centrais sindicais que estão na alçada das atividades do ministro-chefe. «Estão incluídos também os chamados movimentos populares, como o MST, os movimentos indígena, dos negros, de gays e lésbicas, enfim, todas as formas de organização da sociedade, além das ONGs e das igrejas» [8].
dsc05063Nessa mesma entrevista, Gilberto Carvalho ainda comenta a declaração de Dilma sobre o MST, em que a presidente afirma que, embora o MST seja um movimento aliado, ela não permitirá ou abrirá diálogo diante de invasões de prédios públicos e fazendas produtivas. «O que você não pode nunca imaginar é que vá haver criminalização do movimento neste governo. Não tem margem nenhuma para isso. Vamos tentar persuadir os companheiros de que é muito importante o diálogo. E, para dialogar com o governo, não podemos dialogar nos acumpliciando com a ilegalidade. Não vamos nunca ceder desse ponto de vista» [9]. Gilberto Carvalho reconhece que os conflitos não deixarão de existir, mas ao mesmo tempo esclarece qual será a postura do governo diante desses litígios: «As ações vão ocorrer, podem ocorrer, mas depois vai ter que ter recuo. Não somos aqui militantes, isso aqui não é um partido, isso aqui é um governo. Nem sempre você pode fazer o que gostaria. Tem que agir dentro dos parâmetros. A fala da presidente vai nessa linha»[10].
Quando nós, no início deste artigo, mencionamos os mecanismos de dominação que permeiam o interior a classe trabalhadora, era exatamente nisto que estávamos a pensar. O ministro Gilberto Carvalho é uma das engrenagens mais importantes destes mecanismos e a sua postura conciliatória tem reflexos evidentes nos movimentos sociais. Deve ser lembrado que no próprio site do MST foi Gilberto Carvalho quem anunciou as conquistas da jornada de luta de 27 de Agosto de 2011. Veja-se o vídeo do discurso do ministro Gilberto Carvalho no acampamento da Via Campesina (http://www.mst.org.br/video/Conquistas-da-Jornada-de-Lutas-da-Via-Campesina). «Sempre como um governo com todas as portas abertas, porque o governo pertence a vocês. E o país depende fundamentalmente do trabalho de vocês, para seguir sendo um país que produz alimentos. E que produz a generosidade nos corações, rumo a uma sociedade de fato fraterna e igualitária», disse o ministro aos trabalhadores rurais sem-terra.
O que se diria se um patrão fizesse um discurso num sindicato congratulando-se pelo êxito de uma greve dos trabalhadores da sua empresa?
Mas não se trata só do ministro Gilberto Carvalho. Embora mantendo-se nos bastidores durante os últimos anos, José Dirceu nunca perdeu a sua importância política e é significativo que ele tivesse participado em reuniões importantes com a direção estadual do MST de São Paulo, nos primeiros meses de 2011. Mais recentemente, foi ainda José Dirceu quem animou por detrás a formação da nova tendência de esquerda do PT, a Esquerda Popular Socialista, ligada aos movimentos sociais, a ponto da sua assembleia constitutiva se ter reunido na Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST. Será difícil governo, PT e MST estarem mais estreitamente ligados.
*
Por isso, na contramão das análises feitas por certos setores da esquerda, Luiz Dulci — que, enquanto secretário-geral da Presidência da República durante o governo Lula [11], foi o antecessor de Gilberto Carvalho — apresenta um interessante diagnóstico acerca do resultado das reivindicações populares e das demandas da sociedade civil brasileira. «Algumas das manifestações mais maciças dos últimos vinte anos ocorreram justamente durante o governo Lula, embora o noticiário quase sempre as omita ou desqualifique, talvez porque desmentem na prática o (suposto) refluxo dos movimentos sociais e o (inexistente) atrelamento da sociedade civil ao Estado» [12]. Longe de jogarem a toalha ou serem cooptados, os movimentos sociais foram, na opinião de Dulci, fundamentais para o fortalecimento da governabilidade e legitimidade dos mandatos de Lula. «Para comprová-lo, basta lembrar as três marchas da classe trabalhadora, promovidas pelas centrais sindicais, todas com 40 mil ou 50 mil participantes, os “Gritos da Terra”, realizados anualmente pela Contag [Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura]; os acampamentos nacionais do MST, as esplêndidas “Marchas das Margaridas”, que reuniram na Esplanada dos Ministérios 30 mil camponesas de todo o Brasil, para não falar das jornadas de luta da juventude, nas mobilizações feministas e do povo negro e nas imensas “Paradas Gay” que acontecem periodicamente em diversas capitais brasileiras» [13].
spider-webDefendendo «esse método democrático de gestão», Luiz Dulci entende que todas essas ações descritas acima «já constituem, na prática, um verdadeiro sistema nacional de democracia participativa» [14]. Para se ter uma ideia da abrangência de tais práticas, Dulci destaca: «Políticas de desenvolvimento, de geração de emprego e renda, de inclusão social, saúde, educação, meio ambiente, juventude, segurança pública, direito das mulheres, igualdade racial, democratização da cultura, entre tantas outras, foram discutidas em 63 conferências nacionais que mobilizaram diretamente, em suas várias etapas, mais de 4,5 milhões de pessoas em cerca de 5.000 municípios brasileiros — e são permanentemente fiscalizadas e avaliadas pelos conselhos de participação social hoje existentes em todos os ministérios» [15].
Isto que Luiz Dulci descreve, dando-lhe nomes e atribuindo-lhe números, é a teia de relações que emana do centro capitalista e se infiltra e difunde pela classe trabalhadora. As cacetadas da polícia são a expressão visível da política, assinalando para onde os trabalhadores estão proibidos de ir. Os caminhos abertos aos trabalhadores são os outros, assinalados pelos elos cada vez mais estreitos que unem os movimentos sociais e a área governamental. E não se trata apenas de elos políticos.
*
Os elos são igualmente econômicos.
«Um exemplo notável dessa nova forma de governar», ainda na opinião de Luiz Dulci, «é o Plano Safra de Agricultura Familiar, que elevou de R$ 2,5 bilhões para R$ 15 bilhões o financiamento do setor e está promovendo uma autêntica revolução na pequena agricultura brasileira, em benefício de três milhões de famílias (cerca de 12 milhões de pessoas), dando-lhes um peso econômico e uma força política que nunca tiveram. Basta dizer que, atualmente, 70% do total de alimentos consumidos no país vem da agricultura familiar. Esse salto de mais de 600% no financiamento é potencializado pela assistência técnica, pelo seguro agrícola, pela garantia de preço e pelo programa de aquisição de alimentos» [16]. Cabe destacar que o Plano Safra não foi uma iniciativa unilateral do governo federal. Segundo Dulci, reafirmando esse novo método participativo-institucional, o «Plano Safra foi construído pelo governo em conjunto com as principais entidades do setor — a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), a Federação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre outras – no Conselho Nacional de Segurança Alimentar» [17].
Mas os montantes e as fontes de financiamentos são mais vastos e mais numerosas do que Luiz Dulci indica.
De um lado, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) quadruplicou entre as safras de 2002/2003 e 2006/2007, subindo a dez bilhões [milhares de milhões] de reais. Os recursos destinados ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA) e suas parcerias com universidade e escolas técnicas públicas passaram de uma média anual de dez milhões de reais em 2003 a uma de 35,4 milhões nos quatro anos seguintes. No entanto, estes números devem ser cotejados com a valorização, no mesmo período, da agricultura empresarial em sete vezes mais do que a agricultura camponesa e familiar: 231,5 bilhões de reais para o agronegócio e 32,8 bilhões para a agricultura familiar nas safras de 2003/2004 a 2007/2008.
Ainda a este respeito, convém saber que, segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), «em 2009, o Banco estreitou seu contato com movimentos sociais nas áreas da produção agropecuária e ambiental. Nesse sentido, estabeleceu-se diálogo para o apoio aos cooperados e trabalhadores sem terra — o que tem sido feito em parceria com o Banco do Brasil por meio da sua estratégia negocial de Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS) e da Fundação Banco do Brasil (FBB)» [18].
Mas os elos econômicos não se estabelecem apenas com as instituições governamentais.
*
A aproximação do MST ao governo e aos seus instrumentos financeiros é acompanhada pela sua aproximação às empresas.
spider_webRecentemente, vários órgãos da tecnocracia econômica noticiaram que «a Fibria, formada pela fusão entre Votorantim e Aracruz, pretende anunciar em três meses o projeto de um assentamento destinado a 1,3 mil famílias. O parceiro nessa empreitada é o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), o mesmo que há três anos destruiu o centro de melhoramento genético da Aracruz em Guaíba (RS)». Mais curiosamente ainda, «a Fibria recebeu em agosto os líderes do MST em sua reunião anual estratégica» [19]. Note-se que esta notícia foi dada pela imprensa empresarial, que os trabalhadores não leem, mas não foi dada no site do MST, que a noticiou de forma, digamos, bem seletiva [20].
Este projeto da Fibria de constituir um assentamento de 10 mil hectares no interior baiano tem por parceria além do MST, o INCRA e o governo do estado da Bahia. Aliás, o governador do estado, Jaques Wagner foi um dos políticos financiados em sua campanha eleitoral pela mesma Fibria. Conforme indicou o presidente do conselho de administração da Fibria, José Luciano Penido, o assentamento terá por base a agricultura familiar e terá o foco na educação. «Queremos ensinar aos jovens do MST como usar ciência e educação para desarmar um antagonismo desnecessário», declarou ele [21]. Mas quem será que vai aprender mais com quem?
Não se trata de um caso único. Também na Bahia o MST está incentivando assentados a integrarem-se aos programas da Petrobras de produção — em regime de monocultura — de mamona para biodiesel.
*
A insatisfação revelada nos últimos tempos no interior dos movimentos sociais, e de que a carta de saída de 51 militantes de organizações como o MST foi não o único exemplo, mas o mais público, explica-se num contexto muito amplo. É este contexto que convém desvendar e analisar, para tentar revertê-lo, antes que, como habitualmente, seja tarde demais.
Notas
[1] http://oglobo.globo.com/economia/trabalhadores-de-sindicato-dos-metalurgicos-entram-em-greve-contra-propria-entidade-3080078.
[2] População e PIB das cidades médias crescem mais que no resto do Brasil, IPEA: http://desafios2.ipea.gov.br/005/00502001.jsp?ttCD_CHAVE=441.
[3] Gilberto Carvalho é um militante histórico do PT, ao qual pertence desde a fundação. Sua trajetória de atuação na esquerda esteve ligada aos movimentos de base da Igreja Católica, inspirados na Teologia da Libertação, iniciando sua militância na Pastoral Operária. Após pertencer à Coordenação Nacional desta mesma organização, Gilberto Carvalho teve uma importante trajetória sindical e partidária, exercendo o cargo de secretário-geral do PT durante vários anos. Digna de lembrança — pela influência posterior que esta empreitada viria a ter para o seu papel de interlocução com os movimentos populares — foi a atividade de coordenação exercida por Gilberto Carvalho no Instituto Cajamar de Formação, organização criada pela CUT e pelo PT.
[4] Conjuntura da Semana. Balanço de um ano do governo Dilma Rousseff, Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (CEPAT) e Instituto Humanistas Unisinos, 22 de dezembro de 2011. Ver aqui (http://www.ihu.unisinos.br/noticias/505269-conjuntura-da-semana-balanco-de-um-ano-do-governo-dilma-rousseff).
[5] Idem.
[6] “Dilma tem outro estilo, mas a mesma linha”, Valor Econômico, 22 de fevereiro de 2011. Ver aqui (http://www.ihu.unisinos.br/noticias/40858-dilma-tem-outro-estilo-mas-a-mesma-linha-entrevista-com-gilberto-carvalho).
[7] Idem.
[8] Idem.
[9] Idem.
[10] Idem.
[11] Luiz Soares Dulci é uma figura de proa no PT. Além de chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Dulci foi um dos principais coordenadores da campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Tendo militado na Convergência Socialista durante a ditadura militar, Luiz Dulci integrou a Articulação desde o início da CUT. Sempre esteve presente nos quadros diretivos nacionais do PT, teve importante trajetória sindical entre os professores e desempenhou um papel de relevo na Escola Sindical da CUT em Belo Horizonte (Minas Gerais), além de ter sido também deputado federal e participado de duas gestões do PT na cidade de Belo Horizonte. Sua principal atribuição durante os dois mandatos de Lula consistia em fortalecer a interlocução do governo federal com organizações e movimentos da sociedade.
[12] Luiz Soares Dulci, «Participação e mudança social no governo Lula», em Emir Sader e Marco Aurélio Garcia (orgs.), Brasil: Entre o Passado e o Futuro, São Paulo: Boitempo, 2010, pág.144.
[13] Luiz Soares Dulci, op.cit., pág. 144.
[14] Luiz Soares Dulci, op.cit. pág. 136.
[15] Luiz Soares Dulci, op.cit. pág. 136.
[16] Luiz Soares Dulci, op.cit. pág.136.
[17] Luiz Soares Dulci, op.cit. págs. 136-137.
[18] BNDES, Relatório Anual 2009, Rio de Janeiro: BNDES, 2010, pág. 20.
[19] http://isebvmf.com.br/index.php?r=noticias/view&id=226148.
[20] http://www.mst.org.br/node/12753.
[21] http://www.amcham.com.br/regionais/amcham-sao-paulo/noticias/2011/ideologia-engajamento-e-metricas-sao-os-ingredientes-de-sustentabilidade-da-natura-fibria-e-du-pont.

 Por Passa Palavra

Vinicius de Moraes - Documentário completo



Trinta anos depois de sua morte,
o poeta continua sendo o mestre
da modernidade (efêmera)
 

 Trinta anos é a idade da morte de Vinicius de Moraes, o poeta carioca que inundou de lirismo a literatura e a música popular brasileira e que faleceu no amanhecer de 9 de julho de 1980. Perguntado certa vez qual era sua grande musa, não fraquejou: “A morte’, respondeu.
A resposta pode até ser retórica poética, mas há visivelmente um sulco depressivo na poesia de Vinicius, por onde correm a tristeza e a ironia, sendo esta última, a grande marca da literatura contemporânea. Em sua obra madura, para quase todo verso de amor há uma correspondência à pulsão destrutiva da vida, como se amar fosse morrer.
Nos momentos mais intensos de gozo, amor e morte se abraçam, e numa viagem de entrega, a sensação de prazer que demora pouco parece durar para sempre: é o instante, o mergulho na eternidade, aquilo de que tanto fala o poeta. Só para lembrar uma correlação, no caso do sexo, os franceses chamam o orgasmo de “la petite mort” (a pequena morte).
Mas esta sensação do breve que pretende prolongar não está só na relação amorosa. Ela está presente na vida moderna de forma muito acentuada em tudo que se faz, a tal ponto que Paul Valery, tido como o mais lúcido e agudo pensador da poesia do século XX, chegou a dizer que “o homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado.”
É claro que, neste caso, a intenção é sempre abreviar a materialidade das coisas e tentar esticar na alma a sensação do vivido. Neste sentido, Vinicius de Moraes é moderníssimo. Dos poetas mortos, das gerações do século passado, é um dos mais significativos e não deixa nada a desejar a Carlos Drummond de Andrade, nem a João Cabral de Melo Neto, nem a Murilo Mendes, poetas que sem dúvida, cada um a seu modo, construíram a base da poesia brasileira contemporânea.
Vinicius canta magistralmente bem os destroços e a balbúrdia da vida moderna, como frutos do efêmero. Vide “Rosa de Hiroshima”, vide “O operário em construção”, os poemas das Cinco Elegias. E faz isso com personalidade de poeta, se joga no lodo da vida sem medo. Por isso mesmo a intimidade de seus versos se confunde com a própria existência do poeta. Por isso mesmo essa intimidade é única, e esta singularidade é também a razão por que tanta gente o repele.
Quem mais o nega são os acadêmicos, em particular, os professores da PUC de São Paulo, aqueles que estudaram ou leram o criador mor da grade curricular de literatura ensinada naquela instituição, ou seja, Haroldo de Campos, um intelectual incontestável, um estudioso da poesia que deixou contribuições inestimáveis ao acervo da literatura brasileira, mas que não é dono da verdade, como ninguém o é.
A linha teórica deixada como legado por Haroldo de Campos, como a ideia do Barroco em tudo quanto é prosa, de Guimarães Rosa a Milton Hatoum (neste caso, é a tese de seus seguidores), não contempla a poesia de Vinicius justamente porque esta segue outros parâmetros. Há uma complexidade em sua obra que vai da iniciação poética, dos versos que cantam o sublime, às últimas criações, cada vez mais em contato com o chão da vida, livrando-se das asas da águia para se rastejar com a serpente.

Balanço
Em Vinicius de Moraes, o Poeta da Paixão – uma biografia, José Castello entendeu bem a maneira como seu biografado pensava poeticamente e como procurava passar a verdade de seus versos. Vinicius “deve ser alinhado, obrigatoriamente, entre os mais importantes estilistas que a língua portuguesa produziu no século XX”, diz Castello.
Segundo o biógrafo, Vinicius “foi um poeta prolixo, que não sabia jogar nenhum rascunho fora, que escrevia compulsivamente – e que viveu compulsivamente, deixando sempre os versos atrelados à experiência. Isso criou, para alguns, a falsa impressão de um poeta descuidado e até desinteressado no fazer poético.”
Contra argumentos, segundo os quais, Castello é de pouca autoridade para falar de poesia, Antonio Candido, outro gigante da ensaística e da história literária brasileira, deixa na fortuna crítica de Vinicius uma contribuição valorosa, embora curta e grossa, em afirmações que valeriam um estudo:
“Os poetas que valem realmente fazem a poesia dizer mais coisas do que ela dizia antes deles. Por isso, precisamos deles para ver e para sentir melhor, e eles não dependem das modas nem de escolas, porque as modas passam e os poetas ficam. Se hoje dermos um balanço no que Vinicius de Moraes ensinou à poesia brasileira, é capaz de nem percebermos quanto contribuiu, porque, justamente por ter contribuído muito, o que fez de novo entrou para a circulação, tornou-se moeda corrente e linguagem de todos.”
O que há por traz da resistência em se aceitar Vinicius como um grande poeta, portanto, não passa de preconceito. Não se pode estudá-lo como se estuda a poesia de Drummond, claro. É outra veia, outra proposta. Mas nem por isso menos importante. Em Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos, mais uma vez Antonio Candido nos oferece uma chave para entender Vinicius ao traçar o perfil de Tomás Antonio Gonzaga, considerando este um dos raros poetas brasileiros “cuja vida amorosa tem algum interesse para a compreensão da obra.”
Gonzaga é o poeta mineiro do século XVIII, integrante do famoso grupo dos arcadistas, da qual também faziam parte Basílio da Gama e Claudio Manoel da Costa, cuja obra influenciou a própria criação poética de Gonzaga. Este, ao conhecer uma garota de 17 anos de idade chamada Doroteia de Seixas, no alto de seus 40 anos caiu de amores pela ninfa. É ela o personagem título do poema Marília de Dirceu.
Segundo Candido, “amor e poesia refinaram a personalidade de Gonzaga; sem Doroteia e sem Claudio não teríamos a sua obra. Entretanto, mais do que o cantor de Marília, ele é o cantor de si mesmo”, analisa. Algo semelhante acontece com Vinicius de Moraes. Ele também pode ser descrito como fruto do amor e da poesia. Ele também é o cantor de si mesmo.
Não foi por outra razão que Drummond confessou que queria ter sido Vinicius de Moraes, porque, em sua opinião, foi o único poeta que viveu como tal. E essa vida mergulhada na sensação do prazer, no hedonismo sem fim, é transposta para a poesia à medida que o poeta, ele mesmo, começa a deixar para trás a experiência místico-religiosa em que estava afundado e passa a viver as experiências abertas do mundo, como o amor e a boêmia.

Infinitude
Nascido em 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro, até os 23 anos, Vinicius era praticamente um carola. Nutria amores furtivos e um sentimento platônico de infância. A essa altura já era um poeta publicado. Seu primeiro livro, O Caminho para a Distância, fora lançado em 1933, quando ainda não tinha feito 20 anos, e já estava no fim do curso de Direito da Faculdade do Catete, onde havia entrado aos 16 anos.
Na Faculdade, ele fez amizades com os mais fervorosos pensadores católicos do país, entre eles Octavio de Faria, Mário Vieira de Mello e San Thiago Dantas, junto com os quais varava a noite lendo Blaise Pascal e Sören Kierkegaard, influência que é visível até mesmo nos poemas e sonetos posteriores à fase metafísica.
O Caminho para a Distância foi bem recebido pela crítica. Mas nele, o que se vê é um poeta distante da realidade vivida, preocupado com as elucubrações do sublime, enfurnado num desespero impraticável, teórico, letrado, kirkegaardiano. “Desesperados vamos pelos caminhos desertos/ Sem lágrimas nos olhos/ Desesperados buscamos constelações no céu enorme/ E em tudo, a escuridão./ Quem nos levará à claridade/ Quem nos arrancará da visão a treva imóvel/ E falará da aurora prometida?”, canta o poeta em “Os inconsoláveis”, poema do primeiro livro.
Pode-se sentir aí o ritmo alucinado, uma musicalidade em transe. Este ritmo permanecerá em muitos de seus poemas, mas não com um conteúdo tão carola. Em todo caso, em 1936, Vinicius conheceu Manual Bandeira, e sua vida não seria a mesma. Nos anos seguintes, Bandeira, que era pernambucano, ciceroneou o jovem poeta carioca pelos bares e noites do Rio de Janeiro, principalmente pelo ambiente de prostitutas e beberrões da velha Lapa.
Em meio à boêmia e à poesia de Bandeira, a aventura foi um descobrimento, um deslumbramento do qual nunca mais o poeta se curaria. A ironia maior, no entanto, aconteceu no ano seguinte, quando Vinicius conheceu Beatriz Azevedo, a Tati, sua primeira grande paixão, com quem viveria até 1950, para depois engatar em mais oito casamentos vida adentro.
Tati, que muito tempo depois viraria nome de perfume, era sobrinha de ninguém menos que Octavio de Faria, o intelectual católico que levou Vinicius a ser o poeta do sublime. Ela foi a musa que inspirou este mesmo poeta a compor nada menos que “Soneto de Fidelidade”, em 1939, quando, apaixonado, voltava de Oxford, Inglaterra, onde havia estudado literatura.
“De tudo, ao meu amor serei atento/ Antes, com tal zelo, e sempre, e tanto/ Que mesmo em face do maior encanto/ Dele se encante mais pensamento”, diz a primeira estrofe do poema mais conhecido e recitado de Vinicius. Já na primeira leitura, sente-se a ambiguidade dos versos, em que se pode atrelar o significado de ‘amor’ à própria mulher, no caso, Tati, ou ao sentimento, que no fim das contas era aquilo de que falava o poeta.
Percorrendo o corpo do poema, também vemos a presença da morte ao falar de amor, a morte como angústia da vida e a solidão como a ausência de afeto. O desfecho é, sem dúvida, arrebatador. Esse amor vai acabar, seja pela chegada da morte, seja pelo abandono do ser amado. O fato é que quando isso acontecer, já não importa mais, porque o que interessa não é a imortalidade, é a infinitude, é o desdobramento infinito do amor no ser que ama, mesmo que dure um piscar de olhos.
Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

Por:  Gilberto G. Pereira


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A introdução da monografia sobre a Comuna de Paris

Introdução

Esta pesquisa surgiu da necessidade teórica de aprofundar os estudos sobre a Comuna de Paris, quando do estudo da disciplina de História Moderna I, na qual tive contato, pela primeira vez, com o acontecimento. Naquele momento a experiência dos Comunardos despertou em mim um profundo interesse, e, a partir de então, resolvi levar a cabo uma pesquisa e estudo mais sistematizados. Certamente, a escolha estava imbricada de inquietações subjetivas, que minha experiência histórica impelia-me a investigar com mais profundidade. Se, naquele primeiro momento, o Assalto aos Céus acometera-me abruptamente, ao longo do ano que se seguiu, fui me acercando do tema de forma mais ordenada, e porque não, curiosa e paciente. As impressões mais marcantes da Comuna comunicavam-se diretamente com a experiência vivida com os movimentos sociais, com os quais tive contado desde guri, através da militância com meus pais ainda nas Comunidades Eclesiais de Base, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais, no Partido dos Trabalhadores, e nos últimos anos num afastamento desses, na militância mais efetiva com o Movimento dos Pequenos Agricultores, próximo e legatário do MST. Na minha perspectiva, a Comuna de Paris poderia oferecer muitos elementos de reflexão à profunda crise existencial pela qual passam essas experiências.
Com tal intuito inicial, pude perceber que o interesse acadêmico não diferia do interesse da experiência vivida, logo, a inter complementação dessas instâncias, eram substancialmente conciliáveis. Inconfundivelmente, eram as questões do presente que me levavam a escolher aquele determinado evento, efetuar os determinados recortes, a fazer tais questões e não outras. A priori o que estava em voga era a compreensão de como aquela insurreição se dava de forma tão radical sem que um partido, ou uma direção, conduzisse a “massa inconsciente” de pessoas em busca de uma sociedade melhor, se fizera efetivamente. Na atualidade, no momento em que os movimentos entraram em seu momento mais complicado de atuação histórica, foi que as direções centralizadas e autoritárias passaram a controlar quase por completo as ações da luta: emparelhando, por baixo, os planos estratégicos em “frases sem conteúdo”, se subordinando, no plano tático, a todo tipo de políticas compensatórias do Estado Capitalista Brasileiro. Tudo isso, justificado discursivamente em repetitivas e precárias análises conjunturais. No processo de efetivação histórica de grande parte dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda no Brasil, houve uma prolixa formação cartilhesca, baseada em manuais do estalinismo, reduzindo a ação revolucionária num culto cego às organizações, suas estruturas de poder e mitificação dos “heróis” revolucionários. O pragmatismo, o ativismo e o voluntarismo embebidos de um marxismo vulgar conferiram às instâncias diretivas um protagonismo mágico: os magos da conjuntura passaram a extraviar o conteúdo real da luta que se desencadeava. Aos poucos, as estruturas de comando – ou de direção e coordenação – criavam vida própria em relação ao movimento como um todo, estabelecendo um divórcio real entre o interesse de ambas (direção x movimento), onde o interesse da primeira passa a subordinar o da segunda. O ponto crucial dessa inversão tem como pressuposto o idealismo hegeliano; por toda parte, se faz da Idéia – direção, a nata pensante – os sujeitos, enquanto os sujeitos reais – os trabalhadores em movimento – são convertidos em predicados. A fraseologia é variada e conhecida: quem faz o movimento é a direção; a organização é como um corpo e a direção é a cabeça, um corpo sem cabeça não vive. A consciência está separada do sujeito histórico, ela e propriedade privada de uso exclusivo do dirigente.
Nos movimentos sociais do campo, o aprofundamento do aparato centralizador, e a petrificação das cúpulas dirigentes, coincidiam com o definhamento do próprio movimento, tendo ainda como contrapartida a expansão do agronegócio (expansão do capital no campo) amparado pela estrutura governamental apoiada por ele. A dupla confluência de fatores: o aparato centralizador subordinado ao governo e a expansão do agronegócio eram o contraponto real de que as pseudo-análises conjunturais procuravam disfarçar. O que transforma a crise desses movimentos numa condição substantiva: tanto interna, como externa.
É claro que nestes contextos o conteúdo da Comuna de Paris nas formações de militantes teve que ser camuflada, ou quando abordada, ser mais exemplificada por sua derrota e fragilidade do que por suas realizações. A verborréia mais impostora era de que faltava para a Comuna uma Direção, um Partido de Quadros, a centralização das decisões por especialistas revolucionários, como aquela idealizada por todos os vanguardistas. Esse era o argumento!
Mas a Comuna como fenômeno histórico tem muito mais a dizer para o presente, do que as melindrosas simplificações. Essa revolução que marca o amadurecimento da classe trabalhadora de Paris e da França1 ao longo do século XIX, e que foi afogada num banho de sangue pela união dos exércitos francês e prussiano, é um feito inédito da humanidade tomando a vida por suas próprias mãos. Ela é também um acontecimento ímpar na vida e obra de seu principal comentador: Karl Marx2. Em seu comentário sobre a Comuna de Paris, Marx vê a realização material de uma dupla experiência fracassada nos idos da Revolução de 1848-1851: a primeira delas é a tentativa dele e de Engels em antecipar a realidade com um projeto revolucionário apresentado na segunda parte do Manifesto do Partido Comunista, e sua consequente impossibilidade histórica revelada já naquele momento; a segunda é a conclusão tirada em O 18 Brumário desse mesmo evento:

A revolução do século XIX não pode tirar a sua poesia do passado, mas apenas do futuro. Não pode começar consigo mesma antes de se limpar de toda superstição perante o passado. As revoluções anteriores necessitavam de reminiscências da história universal para dissimularem o seu próprio conteúdo. A revolução do século XIX tem que deixar os mortos enterrarem seus mortos, para chegar ao seu próprio conteúdo. Ali, a frase ultrapassa o conteúdo; aqui o conteúdo ultrapassa a frase (MARX, 2008, p. 210-211).
Há para Marx, na experiência concreta da revolução proletária, um conteúdo que não pode ser antecipado pela frase. A necessidade histórica da revolução social só pode ser plenamente exequível pela experiência concreta dos próprios trabalhadores, no momento em que ela acontece, e quando “tomam o assunto nas suas próprias mãos com determinação” (MARX, 2008, p. 407), “lição após lição”, sem a mediação de um Estado transitório. Marx alerta que a “classe operária não pode apossar-se simplesmente da maquinaria do Estado já pronta e fazê-la funcionar para os seus próprios objetivos”3 (MARX, 2008, p. 399), ainda mais sob o comando de uma “vanguarda revolucionária” exterior a ela. Sem ignorar em nenhum momento a revolução política, Marx a nega4 veementemente, em defesa da revolução social. Logo, as revoluções proletárias como as do século XIX (e ele estava falando das revoluções de 1830 e 1848),
criticam-se constantemente a si próprias, interrompendo-se constantemente na sua própria marcha, voltam ao que parecia terminado para começa-lo de novo, troçam profunda e cruelmente das hesitações dos lados fracos e da mesquinhez das suas primeiras tentativas, parece que apenas derrubam o seu adversário para que este tire da terra novas forças e volte a levantar-se mais gigantesco frente a elas, retrocedem constantemente perante a indeterminada enormidade dos seus próprios fins, até que se cria uma situação que torna impossível qualquer retrocesso e as próprias circunstâncias gritam: Hic Rodhus, hic salta! Aqui está a rosa, dança aqui! (MARX, 2008, p. 212).
A situação mais próxima de tornar qualquer retrocesso impossível foi a Comuna de Paris. Ali a classe trabalhadora nega positivamente o Estado e o capital ao superar as relações de classe capitalistas, a divisão do trabalho e a produção de mais valor. Sua forma política se consolidou em comunidade: “Conceito que permite a Marx superar o antagonismo entre Estado e sociedade civil, a comunidade real organiza o político5 por meio dos princípios da autodeterminação e do autogoverno” (POGREBINSCHI, 2009, p. 115), e, é a classe trabalhadora de Paris que, a partir de 18 de março de 1871, encontra o verdadeiro segredo da revolução proletária na forma da Constituição Comunal: “ela era essencialmente um governo da classe operária, o produto da luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma política, finalmente descoberta, com a qual se realiza a emancipação econômica do trabalho” (MARX, 2008, p. 406). Para Marx, o segredo consistia justamente no formato empreendido - a Comuna - pelos trabalhadores livremente associados6. Se tratava da destruição da estrutura estatal burguesa, e a Comuna serviria para “extirpar os fundamentos econômicos sobre os quais assenta a existência de classes e, por conseguinte, a dominação de classe” e transformaria, assim, todos os meios de escravizar e explorar o trabalho, “em meros instrumentos de trabalho livre e associado” (MARX, 2008, p. 407). A Comuna, enquanto experiência positiva dos trabalhadores, era a efetivação histórica donde o conteúdo foi para além da frase. Sob essa perspectiva o vanguardismo emaranhado nas contendas da revolução política, não pode ser essencialmente revolucionário. No caso da esquerda brasileira que, em sua maior parte, é retardatária do aparato das políticas compensatórias do estado capitalista brasileiro, muito raramente no discurso, até conseguem ser reformistas, já que na realidade não reformam muita coisa. Falando num sentido progressivo.
Depois de minimamente organizados os elementos para uma contribuição (aventura) crítica mais fecunda, vem a necessidade de relatar como se deu o processo de estudo desde a projeção da pesquisa, inicialmente pensada em dois capítulos: o primeiro que desse conta de levantar aspectos fundamentais da conjuntura histórica em que acontece a Comuna de Paris; e o outro que trataria dos eventos em que se deu a existência da Comuna. Aqui, acontece uma situação curiosa: no momento em que começo a empreender a pesquisa de maneira mais sistemática e organizada, o projeto inicial foi perdendo utilidade, pois, os elementos teóricos que balizavam meus interesses pela Comuna e a análise das fontes que tinha em mãos foram me impelindo para a compreensão de um elemento fundamental para minhas inquietações iniciais, e que não eram premeditadas no momento da elaboração do projeto, mas que, ao mesmo tempo, é muito pouco tratada na historiografia disponível em português. A questão era a seguinte: como se fizeram os sujeitos históricos que empreenderam o Assalto aos Céus? “De onde brotaram os desconhecidos que fizeram os acontecimentos de 18 de março de 1871?” (LISSAGARAY, 1991, p. 10).
Repentinamente, a compreensão dessa lacuna da historiografia disponível mudou completamente o rumo da pesquisa sem prejuízos às intenções iniciais, mas pelo contrário, deixando o processo mais rico e instigante. Mas de onde tirar uma compreensão mais detalhada da classe trabalhadora de Paris no seu fazer-se, se na bibliografia disponível não havia nenhum exemplar que tratasse dessa questão mais detidamente? Para isso, procurei fazer um pente fino nas obras à disposição, para extrair delas o máximo de informações possíveis, e a partir disso, ir costurando no texto um mosaico de informações que mais ou menos dessem conta de minimamente responder as questões postas. O espaço dessa pesquisa é limitado, acredito ter extrapolado seus limites, sem dar conta de uma aproximação mais suficiente do conteúdo. Para tanto, fiz bastante uso de notas de rodapé, com o intuito de enriquecer o texto com temas que não teriam mais como ser trabalhados, e nem por isso seriam menos importantes.
Na medida do possível fui submetendo minhas anotações e fontes a alguns pressupostos teóricos retirados de Edward P. Thompson e Walter Benjamin, ao primeiro principalmente no que se refere ao conceito de classe trabalhadora. No prefácio da obra A Formação da Classe Operária Inglesa ele se acerca do problema da seguinte forma:
Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. Ressalto que é um fenômeno histórico. Não vejo a classe como uma “estrutura”, nem mesmo com uma “categoria”, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas (THOMPSON, 2004, p. 9).
Para Thompson, a noção de classe é algo fluído, que escapa a qualquer forma de engessamento ou ossificação. Ele está combatendo as idéias de que a classe é uma coisa, mais ou menos manipulável e matematicamente quantificável. Como relação histórica ela “precisa estar sempre encarnada em pessoas e contextos reais” (2004, p.10). Essa relação depreende-se de duas condições que se interpõem no processo histórico: a experiência de classe e a consciência de classe.
A experiência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, idéias e formas institucionais. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe. Podemos ver uma lógica nas reações de grupos profissionais semelhantes que vivem experiências parecidas, mas não podemos predicar nenhuma lei. A consciência de classe surge da mesma forma em tempos e lugares diferentes, mas nunca exatamente da mesma forma (THOMPSON, 2004, p. 10).
Para fazer essas afirmativas Thompson retorna a Marx, procurando dialogar com seus textos históricos, exortando a deturpação7 que é feita com os textos marxianos. O que ele encontra em Marx está intimamente ligado à discussão apontada acima, em que o simples fato dos trabalhadores estarem uniformemente distribuídos no processo de produção não lhes garante de imediato à consciência revolucionária para superá-la: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas por eles próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas pelo passado” (MARX, 2008, p. 207). Na minha impressão, o que liga Thompson diretamente a Marx não são, em nenhum momento os determinismos econômicos, lógicos e científicos – materializados em programas revolucionários e projetos de governo – mas, as condições reais de existência que compreendem a totalidade das relações humanas, e como elas são tratadas em termos culturais, tendo como fundamento as relações econômicas; como fundamento, jamais como determinação direta e totalitária. Assim, as relações humanas em seus termos culturais apresentam uma autonomia relativa em relação à estrutura econômica e, ao mesmo tempo, uma dependência ontológica. A experiência de classe aporta a essa totalidade dialética. Nesse sentido, tanto um como o outro se debruçam exaustivamente sobre a realidade, sobre as circunstâncias em que ela se desenrola, para encontrar os fundamentos objetivos e subjetivos da luta de classe. “Cada passo de movimento real vale mais do que uma dúzia de programas”8 (MARX, 1979, p. 207).
O segundo autor, cujo procedimento teórico e metodológico influenciou a pesquisa, e que se aproxima muito de Marx (principalmente às obras históricas e filosóficas) e de Thompson, é Walter Benjamin. Partindo da análise do presente com o materialismo histórico, ele impele para a busca no passado de sua redenção, desvela nesse passado um índice misterioso em que a história transformou em coisa sua. Procura arrancar do presente o que, em algum momento da história, foi silenciado: 
 
Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso (BENJAMIN, 1987, p 223).
O encontro secreto marcado entre as gerações precedentes e a nossa, conduz o materialista histórico a construir uma história vista dos de baixo, onde “nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história” (BENJAMIN, 1987, p 223). É nesse ponto crucial que deve ser repelida a prática do historicismo que se confraterniza no presente com o vencedor, e estabelece com ele uma relação de empatia. Pois, “ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos que venceram antes” (BENJAMIN, 1987, p 225). Segundo Benjamin essa é a grande lição para o materialista histórico, para o historiador. A classe trabalhadora que foi derrotada na Comuna continua sendo derrotada e silenciada até hoje, mesmo por muitas das organizações de trabalhadores que pretendem ser sua herdeira. Para o autor das Passagens em Sobre o Conceito da História a apropriação adequada do materialismo histórico é a chave do segredo:
Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialismo histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corveia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo (BENJAMIN, 1987, p 225).
Tanto Thompson quanto Benjamin partem, no meu entender, do mesmo pressuposto metodológico: o materialismo histórico. O segundo deixa isso claro nas citações acima, já o primeiro o faz no combate às ortodoxias9 predominantes do seu tempo, porque para ele “apenas os vitoriosos (no sentido daqueles cujas aspirações anteciparam a evolução posterior) são lembrados”, no entanto, “os becos sem saída, as causas perdidas e os próprios perdedores são esquecidos”. Em seguida, resume seu objeto de pesquisa: 
 
Estou tentando resgatar o pobre tecelão de malhas, o meeiro luddita, o tecelão do “obsoleto” tear manual, o artesão “utópico” e mesmo o iludido seguidor de Joana Southcott, dos imensos ares superiores de condescendência da posteridade. Seus ofícios e tradições podiam estar desaparecendo. Sua hostilidade frente ao novo industrialismo podia ser retrógrada. Seus ideais comunitários podiam ser fantasiosos. Suas conspirações insurrecionais podiam ser temerárias. Mas eles viveram nesses tempos de aguda perturbação social, e nós não. Suas aspirações eram válidas nos termos de sua própria experiência; se foram vítimas acidentais da história, continuam a ser, condenados em vida, vítimas acidentais (THOMPSON, 2004, p. 13).
Enfim, tendo cercado razoavelmente teórica e metodologicamente os caminhos da pesquisa, o estudo ficou organizado em dois capítulos que remetem às condições de vida da classe trabalhadora de Paris no século XIX. O primeiro capítulo compreende as questões mais gerais que vão da Revolução Francesa à Revolução de 1848. Estão compreendidas aí referências ao drama social vivido pela classe trabalhadora e suas paupérrimas condições econômicas, o processo de urbanização, o paradigma da multidão, os processos de organização, a revolta contra as máquinas, as manipulações da burguesia, as primeiras concepções socialistas, o desvendar-se da classe enquanto classe em si e para si, etc. O segundo capítulo a princípio, cronologicamente, se encontra alçado entre a Primavera dos Povos e a Comuna de Paris, onde aparece uma ênfase maior no segundo Império: de sua ascensão à queda e as consequências gerais para a classe trabalhadora. A busca das causas da Comuna sempre lampeja para o comportamento dos trabalhadores, é nesse momento que a lacuna historiográfica é maior, não há muitas obras que a abordem mais detidamente. Penso que, para os objetivos propostos, o que realmente se efetivou foi um esforço aproximativo que gostei muito de fazer.


1 A França é o país em que as lutas históricas de classes sempre foram levadas mais do que em qualquer outro lugar ao seu termo mais decisivo e onde, portanto, as formas políticas mutáveis dentro das quais se movem essas lutas de classes e nas quais se assumem seus resultados, adquirem o contorno mais acusados. Centro do feudalismo na Idade Média e país modelo da monarquia unitária de Estados (ou ordens sociais – ständische) desde o renascimento, a França demoliu o feudalismo na grande revolução e fundou a dominação pura da burguesia sob uma forma clássica como nenhum outro país da Europa. Também a luta do proletariado cada vez mais vigoroso contra a burguesia dominante reveste aqui uma forma aguda, desconhecida noutras partes (ENGELS, 2008, p. 204)

2 Foi precisamente Marx quem primeiro descobriu a grande lei do movimento da história, a lei segundo a qual todas as lutas históricas, quer se desenvolvam no terreno político, no religioso, no filosófico, ou noutro terreno ideológico qualquer, não são na realidade, mais do que a expressão mais ou menos clara de luta de classes sociais, e que a existência dessas classes, e portanto também as colisões entre elas, são condicionadas, por sua vez, pelo grau de desenvolvimento da sua situação econômica, pelo caráter e pelo modo da sua produção e da sua troca, condicionada por estes (ENGELS, 2008, p. 204)

3 “Essa frase é de imensa importância e vale a pena retomá-la. Ela foi transcrita por Marx e Engels no último prefácio que escreveram juntos (e definitivamente o último escrito por Marx), para a segunda edição alemã do Manifesto Comunista, em 1872 (POGREBINSCHI, 2009, p. 147).

4 Thamy Pogrebinschi usa ‘desvanecimento’ com o sentido de negação do Estado e da política referidos em Marx na acepção de Hegel em Ciência da Lógica. “Trata-se do sentido hegeliano, dialético, expresso no conceito de ‘Aufhebung’, que encontra sua melhor tradução para o inglês na forma do substantivo ‘sublation’ e em português é usualmente traduzido como ‘negação’ ou ‘transcendência’, e se localiza no centro do sistema dialético hegeliano” (POGREBINSCHI, 2009, p. 100).

5 O político em Pogrebinschi é a negação da política, do Estado.

6 Marx deseja justamente com seu conceito de associação permitir que a única mediação possível ao homem seja entre ele e ele mesmo [...] busca [...], fazer da associação fonte da impossibilidade da cisão de sujeitos e de todos os dualismos construídos na história do pensamento político e reforçados pela modernidade (POGREBINSCHI, 2009, p. 123).

7 Em minha opinião, essa deturpação procede em grande parte na esquerda brasileira atual, às vezes por limitação, outras por pelegagem mesmo. “Essas “defasagens” e distorções culturais constituem um incômodo, de modo que é mais fácil passar para alguma teoria substitutiva: o partido, a seita ou o teórico que desvenda a consciência de classe, não como ela é, mas como deveria ser” (THOMPSON, 2004, p. 10). Essas presepadas dão margem para que a noção de classe seja usada pejorativamente e criticada sem dificuldades, como algo imposto a realidade pelos “arautos” do comunismo. A classe termina sendo imobilizada, e na maioria das vezes negada em sua existência real.

8 Carta de Marx enviada de Londres a W. Bracke, em 5 de maio de 1875, em função de seu repúdio ao Programa do Partido Operário Alemão, conhecido como Programa de Gotha.

9 Há a ortodoxia fabiana, onde os trabalhadores em sua grande maioria são visto como vítimas passivas do laissez-faire, com a exceção de alguns organizadores com uma visão de longo alcance (especialmente Francis Place). Há a ortodoxia dos historiadores econômicos empíricos, onde os trabalhadores são vistos como força de trabalho, migrantes ou dados de séries estatísticas. Há a ortodoxia do ‘Progresso do Peregrino’, onde aquele período é esquadrinhado em busca de pioneiros precursores do Estado do Bem-Estar Social, progenitores de uma Comunidade Socialista ou (mais recentemente) precoces exemplares de relações industriais racionais. Cada uma dessas ortodoxias tem uma certa validade. Todas contribuíram para nosso conhecimento. Discordo das duas primeiras porque tendem a obscurecer a atuação dos trabalhadores, e o grau com que contribuíram com esforços conscientes, no fazer-se história. Discordo da terceira porque lê a história à luz de preocupações posteriores, e não como de fato ocorreu. Apenas os vitoriosos (no sentido daqueles cujas aspirações anteciparam a evolução posterior) são lembrados. Os becos sem saídas, as causas perdidas e os próprios perdedores são esquecidos.( (THOMPSON, 2004, p. 12-13).

Por: Luiz Fernando Ribeiro UFPB
Colaborador deste Blog


Por: Luiz Fernando Ribeiro

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A necessidade da militância e da luta sindical

 Sem dúvida alguma a participação das coordenações regionais em uma campanha salarial é tão, ou até mais importante que a coordenação que está na mesa negociando com a, “equipe de dizer não do governo.” O trabalho desses dirigentes sindicais de base é que garante tranquilidade para quem está a frente das negociações poder enfrentar os representantes do governo de igual para igual, já que tendo segurança que sua base está articulada e junto com o sindicato na luta, ele pode usar a mobilização para pressionar politicamente o estado.
Mas isso acima citado não faz diminuir a responsabilidade dos coordenadores liberados. Esses sim têm que estar se atualizando a cada momento para manter a coordenação regional informada sobre todos os fatos e andamentos da negociação para que essa última possa fazer um trabalho de base eficiente. Ferramentas como o celular e a internet através dos blogs, redes sociais, e-mails e sites de sindicatos e movimentos sociais são essenciais para termos uma comunicação eficaz.
Outro fator que é essencial para quem é representante da classe trabalhadora lograr êxito nas tratativas de um Acordo Coletivo de Trabalho é a formação. Se o coordenador de um sindicato não tiver conhecimento de teoria política e de alguns princípios da economia, não irá conseguir evoluir nas conquistas de direitos para sua base. Um dos principais motivos da crise do movimento sindical é devido á falta de formação por parte dos quadros sindicais. A retomada de investimentos em formação, uso repetidas vezes essa palavra para reiterar sua importância, é uma necessidade imediata do movimento sindical.
Lembrando que sindicato não é só para fazer campanha salarial, ele também tem o dever e compromisso de lutar por uma sociedade livre, justa, sem preconceitos e diferenciações de status. Vários desafios estão postos para a classe trabalhadora e consequentemente para o movimento sindical. Estamos em meio a uma crise estrutural da economia mundial que mais cedo ou mais tarde irá nos atingir com força igual ou até maior que como está na Europa hoje, onde os trabalhadores é que estão sendo as maiores vítimas. Estão, os trabalhadores, pagando por uma crise que não foram eles que criaram.
Quem sabe o maior dos desafios seja reestruturar o próprio movimento sindical que possui uma legislação totalmente ultrapassada que não o permite autonomia total, pois está atrelado ao Estado. Além disso, traz consequências graves como divisões na base, interesses eleitorais, corrupção, burocratização e institucionalização da luta de classes. Estimula preconceitos e valoriza o conservadorismo com não raras demonstrações de machismo, homofobia e preconceito com etnias e culturas diferentes.
 
Por: Marcelo Cadore coordenador  do Sindaspi
 
 
 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O LOUCO DE PALESTRA. Ele sempre começa com “Eu gostaria de fazer uma colocação”

Em dezembro passado, o escritor gaúcho André Czarnobai, o Cardoso, publicou um diário na piauí intitulado “Pasfundo calipígia”. Salvo engano, foi a primeira vez em que se utilizou em letra impressa o termo “louco de palestra”. Imediatamente, a expressão ganhou densidade acadêmica e popularizou-se nos redutos universitários nacionais, encorajando loucos latentes e chamando a atenção da saúde pública para o problema.
O louco de palestra é o sujeito que, durante uma conferência, levanta a mão para perguntar algo absolutamente aleatório. Ou para fazer uma observação longa e sem sentido sobre qualquer coisa que lhe venha à mente. É a alegria dos assistentes enfastiados e o pesadelo dos oradores, que passam o evento inteiro aguardando sua inevitável manifestação, como se dispostos a enfrentar a própria Morte.
Há inúmeras categorias de loucos de palestra, que olhos e ouvidos atentos podem identificar em qualquer manifestação de cunho argumentativo-reflexivo, com a palavra franqueada ao público.
Há o louco clássico: aquele que levanta, faz uma longa explanação sobre qualquer tema, que raramente tangencia o assunto em debate, e termina sem perguntar nada de específico. Seu único objetivo é impressionar intelectualmente a plebe, inclusive o palestrante oficial. Ele sempre pede licença para “fazer uma colocação”.
Há o louco militante, que invariavelmente aproveita para culpar a exploração da classe dominante, mesmo que o tópico do debate seja arraiolo & bordado.
Há o louco desorientado, que não entendeu nada da palestra – e não vem entendendo desde a 2asérie, quando a professora lhe comunicou que o Sol é maior que a Terra – e, depois de circunlóquios labirínticos, faz uma pergunta óbvia.
Há o que faz questão de encaixar no discurso a palavra “sub-repticiamente”: é o louco vernaculista.
Uma criteriosa tipificação do objeto de estudo não pode deixar de registrar o louco do complô, que, segundo integrantes do próprio complô, é “aquele que acredita que toda a imprensa se reúne de madrugada com o governo ou a oposição para pegar a mala de dinheiro”.
Ou o louco adulador, que gasta os trinta segundos que lhe foram franqueados para dizer em dez minutos como o palestrante é divino. O louco deleuziano, que não sabe o que fala, mas emprega muito a palavra “rizoma”. E o louco pobre coitado, que pede desculpas por não saber se expressar, o que não o impede de não se expressar durante minutos intermináveis.
Depois de falar “Gostaria de fazer uma colocação”, todos podem usar a expressão “na chave de…”. Como nessa típica colocação: “O jornalismo entendido na chave da sociologia é sem dúvida uma ocupação rizomática, em termos de vir-a-ser.” São poucos os que dizem que algo acontece por causa de outra coisa. É sempre “por conta” da qualquer coisa em questão.
No entender de Cardoso, é raro não haver um louco à espreita quando ele está palestrando (ou painelando, ou debatendo, ou mesmo plateiando). O mais recente de que ele tem lembrança manifestou-se num encontro de blogueiros com editores, em São Paulo. Na ocasião, um camarada que até então ouvia tudo com atenção – mas em silêncio – pediu a palavra. “Em primeiro lugar, queria dizer que não sou blogueiro, não leio blogs, não entendo nada dessas coisas, mas também tenho direito a uma opinião”, afirmou, à guisa de apresentação.
E prosseguiu, o celerado: “Sou médico comunitário, organizo saraus na periferia e quero dizer que discordo de tudo que todo mundo falou aqui. Está todo mundo puxando o saco da Companhia das Letras.”
E disse mais: “O blog da editora está muito feio. Não tem cara de blog. Tem mais cara de site, e além disso acho que ninguém quer ler sobre os bastidores de como são feitos os livros.”
Em poucos minutos, ele invalidou audaciosamente tudo o que havia sido postulado até então. É o louco de palestra majestático, que ouve a conferência com ar de superioridade e acha tudo uma grande e gorda estultice.
Um bom louco de palestra é sempre o último a falar, pois passa o tempo todo digerindo o que foi dito. Só então ele pode dar alguma declaração desvinculada do tema, equivocada, mal-intencionada ou apenas incompreensível. Para o jornalista Matinas Suzuki, o tipo contempla com desprezo o que se discute, aguarda pacientemente a sua vez e, então, discorda com virulência. “Me corrijam se eu estiver errado”, ele diz a certa altura, só para parecer democrático. “Concordo com tudo o que vocês disseram, mas ao contrário”, prossegue. Ou ainda: “A minha colocação engloba a do companheiro e vai além”, num típico comentário condescendente de loucos de assembleia.
Há que se distinguir o maluco de palestra do desvairado de assembleia estudantil ou sindical. Nesta última, não há palestrante; todos têm o direito de incluir o nome na lista de oradores e falar, sem a necessidade de se ater forçosamente a um tema.
Segundo uma enquete com personagens da época, um dos mais célebres representantes dessa categoria, na década de 70, era o Gilson, um estudante do curso noturno de economia na Universidade de São Paulo. Era um gordinho trotskista que tinha a voz fina e usava um bigode ralo. O outro era o Reinaldinho, da ciências sociais, que, qualquer que fosse o assunto, dava sempre um jeito de encaixar a frase: “O concreto é a síntese de múltiplas determinações.” É verdade. Até Marx sabia disso. Mas repetir o conceito em todas as assembleias da usp dos anos 70 nem Engels aguentaria.
Embora essas duas categorias de louco (palestra vs. assembleia) se diferenciem por motivos óbvios, existe a possibilidade de infiltração de loucos de palestra numa típica assembleia estudantil/sindical. O infiltrado, em regra, é aquele que toma o microfone à revelia de todos e anuncia: “Questão de ordem!”, ainda que a alegação não proceda. Daí em diante, a performance é livre.
São assim os loucos de palestra: audazes, imprevisíveis, implacáveis, destituídos de noção ou sentido. Cardoso também se lembra de um debate em Curitiba, quando “um senhor moreno, grisalho, com uma sacola ecológica atravessada no peito e toda a pinta de quem pratica ioga, anunciou que ‘a internet é como uma vaca mágica, de onde cada um extrai o leite que deseja’”.
Infelizmente, é só isso que ele se lembra daquela longa e bizarra colocação.
Há quem se depare com um louco contemplativo, que é dos mais difíceis de lidar. Sobretudo na primeira mediação de sua vida. Foi o que ocorreu com o escritor e editor Emilio Fraia, que, nervoso e pautado por dezenas de papéis amarelos, conduziu um debate entre o cineasta Hector Babenco e o escritor William Kennedy, no dia 11 de agosto, em São Paulo.
“Primeiro, a moça levantou a mão e disse: ‘Eu tenho uma pergunta’”, contou Emilio Fraia com a pungência de quem luta contra um quadro de estresse pós-traumático. “Então, ela disse não saber por que estava ali. Viu que haveria uma palestra e entrou.” A moça era de Minas, estava há quatro dias num quarto de hotel, sozinha. “Mas gostei muito do que o senhor Kennedy falou, de ter sido recusado por treze editoras antes de publicar. Sou artista plástica.”
Nesse instante, começaram os apupos da plateia: “Pergunta!” Intrépida, ela não fez caso: “Tenho um trabalho baseado em cores e…” Apupos, apupos.
Ao término do arrazoado, Fraia não conseguiu esboçar reação. Ficou vermelho. Paralisado. “Até que a palestra encerrou-se por si só. Foi o fim, nada mais poderia acontecer após aquela intervenção”, relata.
Outra recente ocorrência de louco contemplativo deu-se numa palestra da escritora Fred Vargas, no Rio de Janeiro, acerca do caso Cesare Battisti. Um sujeito pediu a palavra e falou vinte minutos sobre a sua militância no Nordeste, nos anos 50, sem pronunciar nem uma vez o nome do Battisti.
Com esse tipo de maluco em vista, o cartunista Laerte Coutinho confessou imaginar o que restaria daquela experiência para o sujeito, o louco propriamente dito. “Acho que tudo se reduz à sua própria intervenção”, filosofou Laerte. E emendou uma teoria: dos debates, o louco de palestra deve se lembrar tão somente da sua performance. “Lembra aquela vez, em Curitiba, quando eu levantei a mão e comparei a internet a uma vaca mágica?”, diria o sujeito, satisfeitíssimo, numa reunião de um hipotético Grupo Unificado de Apoio aos Loucos de Palestra, o gulp.
O que poucos sabem é que a origem do louco de palestra remonta à história do pensamento. “Acho que ele surgiu pela primeira vez na Ágora grega: a democracia está cheia de loucos de palestra”, postula o editor Milton Ohata.
Na peça As Nuvens (423 a.C.), o dramaturgo Aristófanes, por exemplo, faz chacota dos sofistas – os loucos de palestra mais insignes da Grécia Clássica. Naquele tempo, já existiam “profetas, quiropráticos, mocinhos cabeludos, poetas ditirâmbicos, astrólogos, charlatões, impostores e muitos outros mais”, diz o texto. Gente que se rendia ao arrebatamento do discurso e à volúpia da articulação, um bando de consumados tratantes, palavrosos e descarados. Tais como Cairefonte, discípulo de Sócrates, que levantou certa vez a mão e perguntou ao mestre qual das duas era a teoria certa: “O mosquito, ao zumbir, se utiliza da boca ou justamente do contrário?”
Na antiga Palestina, talvez durante o Sermão da Montanha, devia haver loucos de palestra prontos para agir. Uma das perguntas lançadas ao Filho de Deus, e omitida dos registros canônicos, teria sido: “E aí, o que está achando de Cafarnaum?”
Especulações à parte, uma coisa é certa: foi um louco de palestra fariseu que abordou o Messias com uma pergunta mal-intencionada, e que recebeu como resposta: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” Uma reação divina ao interlocutor maledicente.
O que nos leva ao difícil papel do mediador. É sabido que, diante de um louco de palestra, ele tem poucas opções. Uma é dirigir-se a uma rota de fuga predeterminada, levando os braços ao ar e abandonando o público à própria sorte. A segunda é a solução escolhida por Emilio Fraia: a completa e resignada paralisação, seguida de conclusão precoce do seminário e aceitação da ruína. Numa variante pouco mais elegante, o mediador pode emitir um constrangido “Fica aí a pergunta”, e encerrar a palestra com certo ar de mistério.
A terceira saída é se fingir de louco e ignorar a intervenção por completo. A tática é defendida por oradores calejados como o jornalista Humberto Werneck. Durante um papo sobre seu livro O Santo Sujo, em Belo Horizonte, um rapaz pediu a palavra e não fez pergunta alguma – divagou sobre coisas que ninguém entendeu. “Acho que era doidinho, e não fiz mal em esperar que esvaziasse a piscina verbal. Levou vários minutos. O cara terminou sem ponto de interrogação. Agradeci a participação e fui ao perguntador seguinte”, conta, sem constrangimento.
A quarta e última reação possível é a mais artística e profissional de todas. No domínio dessa técnica estão mediadores experientes como o crítico de arte Alberto Tassinari. Ele diz ter muita paciência quando um louco desses se pronuncia, “pois sempre bate em algum lugar respondível e o diálogo fica tremulando entre sua racionalidade intrínseca e sua irracionalidade que vem de fora, fora de hora e quase inutilizando tudo”.
O professor Samuel Titan Jr., da usp, é do mesmo time. “Meu louco favorito começa pedindo para fazer uma colocação e embarca imediatamente na autopromoção, que pode ser pseudoacadêmica, pseudoliterária ou de fundo ressentido (nas variantes de raça, sexo, classe, opção sexual ou todas as anteriores)”, revela, com a sabedoria advinda da experiência.
Nesses casos, ele recomenda que a única saída para se livrar da situação é “responder alguma coisa que não tenha nada a ver com o que ele disse e que tenha alguma coisa a ver com o que você tinha tentado dizer, tudo isso olhando no olho da criatura e usando cá e lá umas palavras difíceis, que é pra ver se o bicho se intimida – em geral, nem um pouco”.
É preciso encarar essas coisas filosoficamente, pondera Titan, que há poucos meses teve que enfrentar um belo exemplar da espécie.
O episódio ocorreu em 25 de março, na Casa do Saber, em São Paulo, num debate sobre ensaísmo. Estavam presentes o arquiteto Guilherme Wisnik, o artista plástico Nuno Ramos, Matinas Suzuki Jr. e, como mediador, Samuel Titan Jr.
A gravação em vídeo do colóquio é uma verdadeira obra-prima tragicômica. Por um feliz acaso, a câmera permanece focada nos quatro palestrantes durante a longa peroração de uma moça da plateia, que deve ter tomado fôlego antes de se levantar. Cada um dos intelectuais supracitados reage à sua maneira, coçando a cabeça, esfregando o nariz, olhando pra cima e tentando desesperadamente manter a compostura diante de ocorrência tão alarmante.
A intervenção se dá em dois tempos. No primeiro, que dura quase cinco minutos corridos, a moça expõe a sua verve: “A minha pergunta é sobre lugares e fronteiras”, inicia, num tom didático que pressupunha prévia reflexão sobre o tópico. “Eu vejo o ensaio como um espírito livre do pensamento expresso na forma escrita. Então acho que ele merecia um lugar de destaque, mas pelo que eu vejo da discussão, do debate entre vocês, há uma questão do lugar e das fronteiras, quando se fala num lugar chamado ‘entre nós’, ou quando se fala no Brasil, no mundo e, indo mais além ainda dessas fronteiras, na própria realidade.”
Dominado por um compreensível reflexo instintivo, Nuno Ramos passa a beber água compulsivamente. Samuel Titan alterna vigorosas coçadas de cabeça a uma distraída extração da pele ao redor das unhas. No coração de todos, a esperança de que a pergunta não tardará. A moça prossegue: “Eu vejo o ensaio como esse espírito livre do pensamento escrito porque ele vai além do pensamento escrito, chegando na realidade, com toda essa liberdade de conexões intertemas, e não só temas intelectuais ou conceituais ou acadêmicos, mas os próprios acontecimentos da realidade.”
Curiosamente, os quatro palestrantes decidem apoiar-se no cotovelo esquerdo, recostam-se nas cadeiras e cruzam os braços, como que tentando se defender da avalanche de conceitos que lhes são atirados impiedosamente.
E a moça vai em frente: “Então vejo uma maneira de resolver esses dilemas, essas questões que foram apresentadas, e me atendo ao que foi debatido entre vocês, que os ensaístas deveriam eles mesmos se colocar como espíritos livres.”
Sublinhe-se que ela faz referência à discussão e promete se ater ao que foi debatido, como se procurasse despistar a audiência. Dito isso, segue em frente: “Criar como que uma onda, o ensaio como uma pedra que cai na água e gera ondas não só daquilo a que ele se propõe, mas indo além. Indo além da própria subjetividade de quem escreve, ou do próprio arsenal de conhecimento acadêmico restrito, então o próprio ensaio brasileiro precisa adotar a postura de quebrar essa fronteira e se colocar como um ponto de convergência de forças que estão presentes no mundo hoje, tanto politicamente, como literariamente, cientificamente, artisticamente.”
Depois daquela peroração sem perguntas, Samuel Titan interrompe a moça e faz o que pode para encaminhar o debate. Os palestrantes comentam uma suposta “zona de conforto” no ensaísmo brasileiro, termo que a moça citou a esmo, dentro de um contexto só dela. O debate parece que vai engrenar. Que nada: num momento de deslize do mediador, a moça da plateia leva a melhor e consegue retomar o raciocínio: “Tenho visto coisas riquíssimas”, ela interrompe, e torna a abusar de advérbios: politicamente, literariamente, cientificamente.
É o segundo momento de sua dissertação, quando, em resumo, ela conclui que é preciso cultivar um ensaio “que também se dilui, também luta sub-repticiamente. Tem que haver uma coragem de sair da zona de conforto, quebrar essas fronteiras pra conseguir criar novas fronteiras, realmente fazer diferença na realidade”. Assim é encerrada a sua fala e, com ela, o debate.
De tanto ver Nuno Ramos bebendo água temeu-se que ele pudesse ter uma congestão.
A lenda é difusa, mas deve ter ocorrido nos anos 60, durante uma aula do professor Bento Prado Jr., na rua Maria Antônia. Terminada a explanação, em que o docente citou o filósofo Plotino várias vezes, um aluno respeitosamente levantou a mão e disparou: “Com licença, professor. Esse Plotino aí não seria o Platão, não?” Ao que o mestre respondeu: “Não, cretão.”
Como prova de que os tempos mudam, mas os loucos continuam, o escritor Antonio Prata relembra um doido recente da usp. Sua alcunha: Santo Agostinho. “Era um cabeludo, barbudo, meio sujão, sempre chegava com uns jornais que a gente não sabia se estava lendo ou se tinha dormido com eles”, descreve. O sujeito tinha lido uma única coisa na vida: Santo Agostinho. “E não importava qual fosse a aula, não importava quanto tempo ele tivesse que esperar, em alguma hora ele achava a ligação. Não fazia uma pergunta, ele vomitava: “Professor, professor, isso aí que você está falando de – Descartes – Platão – Adorno – neo-liberalismo – assentamento – greve – filtro solar – não tem a ver com aquele conceito do Santo Agostinho?”
É o louco monotemático, de tendência obsessivo-compulsiva.
Vale observar que nem as grandes personalidades estão imunes ao ataque verbal de um desatinado espectador. Conta-se que, durante uma reunião da esquerda latino-americana em Paris, na época das ditaduras militares, um louco de palestra investiu contra o escritor Mario Vargas Llosa. Da plateia, um barbudão levantou e vociferou: Mientras Obregón se moria en la selva por el pueblo peruano, tu, que hacias?
O público silenciou. Sem se abalar, Vargas Llosa respondeu que dava aulas de literatura espanhola numa universidade. E devolveu a pergunta: Y tu, que hacias?
Yo tenía la hepatitis, disse o barbudão.
Uma categoria popular é a do louco lírico. “É o cara que, a todo custo, quer ler um poema, um conto, o primeiro capítulo de um romance. Já aconteceu de pegarem o microfone da minha mão e saírem soltando o verbo”, disse o escritor Marcelino Freire. Para ele, os poetas são os piores: estão sempre pedindo a voz.
O cartunista Laerte aprecia em particular o louco superespecialista, que conhece o seu próprio trabalho melhor que você, e aponta incoerências e contradições no que acabou de ser dito. Esse tipo pode trazer proventos vantajosos e é até possível forjar um deles para atuar em sua própria palestra – o sujeito levanta a mão e diz que certamente naquele trecho você fez uma referência velada à noção de witzelsucht tal qual é discutida em Heidegger. Gênio, grande pensador, você emite um “arrã” de modéstia e segue para a próxima pergunta.
Para o crítico Rodrigo Naves, que ministra um curso livre de história da arte em São Paulo, os doidos mais comuns são os carentes, que se põem a falar de seus problemas afetivos, existenciais, mercadológicos. “Tem um oriental que já vi se pronunciar em três ocasiões diferentes”, conta, ele mesmo um ocasional louco de palestra, do tipo agressivo, se bem que em recuperação. Houve uma vez em que Naves se ergueu da cadeira e, indignado com a opinião do palestrante, disse: “Não, não, não, não. Não, não, não”, como só um bom profissional do ramo conseguiria exprimir.
Há um subgênero de louco latente que, no entender do jornalista Elio Gaspari, é aquele que vai para as conferências, ouve tudo com atenção, mas o negócio dele é a comida oferecida ao final do evento. “Conheci um elegantíssimo, nos Estados Unidos, que ia de terno jaquetão. A piada era que um dia ele faria uma pergunta recitando todas as palestras que ouvira”, conta.
O mais recente registro formal de um louco de palestra ocorreu no último dia 10 de agosto, após um bate-papo com os cartunistas Gilbert Shelton e Robert Crumb, em São Paulo.
A intervenção abilolada saiu nas páginas do Estado de S. Paulo, registrada por Jotabê Medeiros: “Um maluco gritou lá de cima do mezanino perguntando qual seria a personalidade morta que Crumb elegeria para tomar uma cerveja consigo.” Crumb retrucou: “Não tomo cerveja com gente morta. Na verdade, nem tomo cerveja.” Em outro momento da noite, o cartunista pediu que um fã dominasse seus ânimos. “‘Shutupfuckoff!’, rosnou, e o menino riu.”
Bem-aventurado é o louco anônimo, o louco voluntário, o que se levanta indômito no meio da palestra e parte rumo à consagração. Amaldiçoadas sejam as perguntas por escrito, as regras contra a manifestação do público, o apupo impaciente, a placa de aplausos obrigatórios, as pessoas que jogam tomates em quem está atrapalhando o andamento da coisa.
Amaldiçoado seja o antropólogo Claude Lévi-Strauss, que no livro Minhas Palavras agradece aos alunos por suas reações “mudas, mas perceptíveis” que lhe permitiram desenvolver o pensamento sem grandes atropelos.
Viva aquele que comparece a palestras apenas para matar o tempo, e que ainda assim não perde a chance de se expressar, pois que é interessado em dividir suas opiniões com os outros seres. Viva a falta de noção, de vergonha e de respeito às autoridades presentes.
Todos têm um louco de palestra dentro de si, esperando para aflorar. Somos apenas reprimidos pelos grilhões da compostura, da sanidade mental e da idade adulta, o que nos impossibilita de protagonizar, em conferências, grandes momentos da história da argumentação humana – como quando, na Flipinha de 2005, um ouvinte de 5 anos de idade levantou a mão e perguntou ao escritor Luis Fernando Veríssimo: “Você gosta de suco de uva?”

 por Vanessa Barbara
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(*) Originalmente publicado na Revista Piauí, n.49.

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