segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A paz mundial pende por um fio (Reflexões de Fidel Castro)

Fidel Castro
Ontem tive o prazer de conversar tranquilamente com Mahmoud Ahmadinejad. Não o via desde setembro de 2006, há mais de cinco anos, quando visitou nossa pátria para participar na 14ª Cúpula do Movimento de Países Não Alinhados que teve lugar em Havana, onde pela segunda vez Cuba foi eleita presidente dessa organização pelo tempo estabelecido de três anos.

Eu tinha ficado gravemente enfermo em 26 de julho de 2006, um mês e meio antes da mesma, e só podia sentar na cama. Vários dos mais distinguidos líderes que assistiam ao evento tiveram a amabilidade de visitar-me. Chávez e Evo o fizeram mais de uma vez. Um meio dia vieram quatro, dos quais sempre recordo: Kofi Annan, secretário-geral da ONU; um velho amigo, Abdelaziz Buteflika, presidente da Argélia; Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã; e um vice-ministro das Relações Exteriores do governo da China e atual chanceler desse país, Yang Jiechi, representando o líder do Partido Comunista e presidente da República Popular da China, Hu Jintao. Foi realmente um momento de importância para mim que com grande esforço reeducava a mão direita que havia sofrido um sério acidente na queda em Santa Clara.
Com os quatro comentei aspectos dos problemas que o mundo enfrentava naqueles instantes. Estes, certamente, tornavam-se cada vez mais complexos.
No encontro de ontem observei o presidente iraniano absolutamente sossegado e tranquilo, indiferente por completo às ameaças ianques, confiante na capacidade de seu povo para enfrentar qualquer agressão e na eficácia das armas, que em grande parte eles próprios produzem, para ocasionar aos agressores um preço impagável.
Na realidade quase não falou do tema bélico, sua mente se concentrava nas ideias expostas na conferência que fez no Salão Nobre da Universidade de Havana, centrada na luta pelo ser humano: "caminhar para chegar e alcançar a paz, a segurança, o respeito e a dignidade humana como um desejo de todos os seres humanos ao longo da história".
Estou seguro de que, por parte do Irã, não se deve esperar ações irrefletidas que contribuam para o desencadeamento de uma guerra. Se esta for inevitavelmente desatada, será fruto exclusivo do aventureirismo e da irresponsabilidade congênita do império ianque.
Da minha parte penso que a situação política criada em torno do Irã e os riscos de uma guerra nuclear que dela emanam e a todos envolve – possuam ou não tais armas –, são sumamente delicados porque ameaçam a própria existência de nossa espécie. O Oriente Médio se converteu na região mais conflitiva do mundo, e a área onde são gerados os recursos energéticos vitais para a economia do planeta.
O poder destrutivo e os sofrimentos massivos que originavam alguns dos meios utilizados na 2ª Guerra Mundial motivaram uma forte tendência a proibir algumas armas como os gases asfixiantes e outras empregadas naquela guerra. Contudo, as lutas de interesses e os enormes lucros dos produtores de armas os levaram à confecção dos armamentos mais cruéis e destrutivos, até que a tecnologia moderna aportou o material e os meios cujo emprego em uma guerra mundial conduziria ao extermínio.
Sustento o critério, sem dúvida compartilhado por todas as pessoas com um sentido elementar de responsabilidade, de que nenhum país grande ou pequeno tem o direito de possuir armas nucleares.
Nunca estas armas deveriam ser usadas para atacar duas cidades indefesas como Hiroshima e Nagasaki, assassinando e irradiando com horríveis e duradouros efeitos centenas de milhares de homens, mulheres e crianças, em um país que já estava militarmente vencido.
Se o fascismo obrigava as potências coligadas contra o nazismo a competir com esse inimigo da humanidade na fabricação de tal arma, finalizada a guerra e já criada a Organização das Nações Unidas, o primeiro dever dessa organização era proibir tal arma sem exceção alguma.
Mas os Estados Unidos, a potência mais poderosa e rica, impôs ao resto do mundo a linha a seguir. Hoje possui centenas de satélites que espionam e vigiam a partir do espaço todos os habitantes do planeta. Suas forças navais, aéreas e terrestres estão equipadas com milhares de armas nucleares, manejam a seu talante, através do Fundo Monetário Internacional, as finanças e os investimentos do mundo.
Se se analisa a história de cada uma das nações da América Latina, desde o México até a Patagônia, passando por São Domingo e Haiti, poderá observar-se que todas, sem uma só exceção, sofreram durante duzentos anos, desde o início do século 19 até hoje, e de uma ou outra forma estão sofrendo cada vez mais, os piores crimes que o poderio e a força podem cometer contra o direito dos povos. Escritores brilhantes surgem em número crescente: um deles, Eduardo Galeano, autor de As veias abertas da América Latina, que fala sobre estes temas, acaba de ser convidado a inaugurar o prestigioso Prêmio Casa das Américas, como um reconhecimento a sua relevante obra.
Os acontecimentos se sucedem con incrível rapidez; mas a tecnologia os transmite ao público de forma ainda mais rápida. Um dia qualquer, como o de hoje, notícias importantes se sucedem com extraordinário ritmo. Um despacho telegráfico datado de ontem (11), dá textualmente a seguinte notícia: "A presidência dinamarquesa da União Europeia afirmou na quarta-feira que uma nova série de sanções europeias mais severas contra o Irã se decidirá em 23 de janeiro em razão de seu programa nuclear, atingindo não só o setor petrolífero mas também o banco central.
'Iremos mais longe simultaneamente no que se refere às sanções petrolíferas e contra as estruturas financeiras', disse o chefe da diplomacia dinamarquesa Villy Soevndal, durante um encontro com a imprensa estrangeira". Pode apreciar-se com clareza que, a fim de impedir a proliferação nuclear, Israel pode acumular centenas de ogivas nucleares enquanto o Irã não pode produzir urânio enriquecido a 20%.
Outra notícia sobre o tema, de uma conhecida e qualificada agência informativa britânica, informa que: "A China não deu sinais na quarta-feira de ceder terreno às demandas dos Estados Unidos de que reduza suas compras de petróleo iraniano e considerou um excesso as sanções de Washington contra Teerã...".
Qualquer pessoa se assombraria com a tranquilidade com que os Estados Unidos e a civilizada Europa promovem esta campanha com uma espantosa e sistemática prática terrorista. Bastam estas linhas trasmitidas por outra importante agência europeia de notícias: "O assassinato, na quarta-feira, de um responsável pela usina nuclear de Natanz, no centro do Irã, conta três precedentes desde janeiro de 2010."
Em 12 de janeiro daquele ano, "um físico nuclear internacionalmente reconhecido, Masud Alí Mohamadi, professor na universidade de Teerã e que trabalhava para os Guardiães da Revolução, morreu na explosão de uma moto-bomba diante de seu domicílio."
29 de novembro de 2010: "Majid Shahriari, fundador da Sociedade Nuclear do Irã e 'encarregado de um dos grandes projetos da Organização iraniana de energia atômica' [...] foi morto em Teerã pela explosão de uma bomba magnética fixada em seu automóvel."
"No mesmo dia, outro físico nuclear, Fereydoun Abasi Davani, foi alvo de um atentado em condições idênticas quando estacionava seu carro diante da universidade Shahid Beheshti em Teerã, onde os dois homens eram professores." – Só ficou ferido.
23 de julho de 2011: "O cientista Dariush Rezainejad, que trabalhava em projetos do Ministério da Defesa, foi morto a tiros por desconhecidos que se deslocavam em uma moto em Teerã."
11 de janeiro de 2012: – no mesmo dia em que Ahmadinejad viajava da Nicarágua a Cuba, para dar sua conferência na Universidade de Havana – "O cientista Mustafa Ahmadi Roshan, que trabalhava na usina de Natanz, da qual era vice-diretor para assuntos comerciais, morreu na explosão de uma bomba magnética colocada sob seu automóvel, perto da universidade Allameh Tabatabai, a leste de Teerã". Como em anos anteriores, o "Irã acusou novamente os Estados Unidos e Israel".
Trata-se de uma carnificina seletiva de brilhantes cientistas iranianos sistematicamente assassinados. Li artigos de conhecidos simpatizantes de Israel que falam de crimes realizados por seus serviços de inteligência, em cooperação com os dos Estados Unidos e a Otan, como algo normal.
Ao mesmo tempo, desde Moscou as agências informam que "a Rússia advertiu hoje que na Síria está amadurecendo um cenário similar ao da Líbia, mas alertou que desta vez o ataque virá da vizinha Turquia.
O secretário do Conselho de Segurança russo, Nikolai Patrushev, sustentou que o Ocidente deseja 'castigar Damasco não tanto pela repressão à oposição mas por sua relutância em interromper sua aliança com Teerã'.
...em sua opinião, na Síria está amadurecendo um cenário como o da Líbia, mas nesta oportunidade, as forças de ataque não virão da França, Grã-Bretanha e Itália, mas da Turquia.
Inclusive, se atreveu a adiantar que 'é possível que Washington e Ancara já estejam definindo várias opções de zonas de exclusão de voos, onde exércitos armados de rebeldes sírios poderias ser treinados e concentrados'."
As notícias não só procedem do Irã e do Oriente Médio, mas também de outros pontos da Ásia Central próximos ao Oriente Médio. As mesmas nos permitem apreciar a complexidade dos problemas que podem derivar-se dessa perigosa região.
Os Estados Unidos foram levados por sua contraditória e absurda política imperial a problemas sérios em países como o Paquistão, cujas fronteiras com outro importante estado, o Afeganistão, foram traçadas pelos colonialistas sem tomar em conta cultura nem etnias.
Neste último país, que durante séculos defendeu sua independência frente ao colonialismo inglês, a produção de drogas se multiplicou desde a invasão ianque, e os soldados europeus, apoiados pelos aviões sem piloto e armamento sofisticado dos Estados Unidos, cometem embaraçosas matanças que incrementam o ódio da população e afastam as possibilidades de paz. Isso e outras imundícies também se refletem nos despachos das agências ocidentais de notícias.
"Washington, 12 de janeiro de 2012 - O secretário estadunidense da Defesa, Leon Panetta, qualificou nesta quinta-feira de 'absolutamente lamentável' o comportamento de quatro homens apresentados como marines norte-americanos urinando sobre cadáveres no Afeganistão em um vídeo difundido pela internet.
'Vi as imgens e encontro o comportamento (desses homens) absolutamente lamentável... Este comportamento é totalmente inapropriado da parte de membros do Exército estadunidense e não reflete em nenhum caso os critérios e os valores que nossas forças armadas juram respeitar'..."
Na realidade, nem o afirma nem o nega. Qualquer pessoa pode ficar com a dúvida e possivelmente o próprio secretário da Defesa.
Mas também é extremamente desumano, que homens, mulheres e crianças, ou um combatente afegão que luta contra a ocupação estrangeira, sejam assassinados pelas bombas dos aviões sem piloto. Algo também muito grave: dezenas de soldados e oficiais paquistaneses, que cuidavam das fronteiras do país, têm sido destroçados por essas bombas.
Em declarações do próprio Karzai, presidente do Afeganistão, este expressou que o ultraje aos cadáveres era "'simplemente desumano', e pediu ao governo estadunidense que 'aplique o castigo mais severo a quem quer que seja que acabe sendo condenado por este crime'."
Porta-vozes dos talibãs declararam que "nos dez últimos anos se deram centenas de atos similares que não foram revelados..."
Inclusive sente-se lástima por aqueles soldados, separados de familiares e amigos, a milhares de quilômetros de sua própria pátria, enviados para lutar em países que nem sequer talvez tenham ouvido falar quando estavam nas escolas, onde lhes atribuem a tarefa de matar ou morrer para enriquecer empresas transnacionais, fabricantes de armas e políticos inescrupulosos, que dilapidam a cada ano os fundos que são necessários para a alimentação e a educação dos incontáveis milhões de famintos e analfabetos no mundo.
Não poucos desses soldados, vítimas dos traumas sofridos, terminam privando-se de sua própria vida.
Por acaso exagero quando afirmo que a paz mundial pende por um fio?
Fidel Castro Ruz
12 de janeiro de 2012, 21 h 14
Fonte: Cubadebate

domingo, 15 de janeiro de 2012

A Comuna de Paris SOBRE " A COMUNA DE PARIS"

"Na alvorada de 18 de Março (1871), Paris foi despertada por este grito de trovão: VIVE LA COMMUNE! O que é pois a Comuna, essa esfinge que põe tão duramente à prova o entendimento burguês?

Mas a classe operária não se pode contentar com tomar o aparelho de Estado tal como ele é e de o pôr a funcionar por sua própria conta.
O poder centralizado do Estado, com os seus órgãos presentes por toda a parte: exército permanente, polícia, burocracia, clero e magistratura, órgãos moldados segundo um plano de divisão sistemática e hierárquica do trabalho, data da época da monarquia absoluta, em que servia à sociedade burguesa nascente de arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo."
"Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como o engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho. Na sua cruzada permanente contra as massas dos produtores, foi forçada não só a investir o executivo de poderes de repressão cada vez maiores, mas também a retirar pouco a pouco à sua própria fortaleza parlamentar, a Assembleia Nacional, todos os meios de defesa contra o executivo."
"O poder de Estado, que parecia planar bem acima da sociedade, era todavia, ele próprio, o maior escândalo desta sociedade e, ao mesmo tempo, o foco de todas as corrupções."
"O primeiro decreto da Comuna foi pois a supressão do exército permanente e a sua substituição pelo povo em armas.
A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. Eram responsáveis e revogáveis a todo o momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna devia ser, não um organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os outros ramos da administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser assegurada com salários de operários."
" Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o instrumento espiritual da opressão, o "poder dos padres"; decretou a dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus predecessores, os apóstolos. Todos os estabelecimentos de ensino foram abertos ao povo gratuitamente e, ao mesmo tempo, desembaraçados de toda a ingerência da Igreja e do Estado. Assim, não só a instrução se tornava acessível a todos, como a própria ciência era libertada das grilhetas com que os preconceitos de classe e o poder governamental a tinham acorrentado.
Os funcionários da justiça foram despojados dessa fingida independência que não servira senão para dissimular a sua vil submissão a todos os governos sucessivos, aos quais, um após outro, haviam prestado juramento de fidelidade, para em seguida os violar. Assim como o resto dos funcionários públicos, os magistrados e os juizes deviam ser eleitos, responsáveis e revogáveis."
"Após uma luta heróica de cinco dias, os operários foram esmagados. Fez-se então, entre os prisioneiros sem defesa, um massacre como se não tinha visto desde os dias das guerras civis que prepararam a queda da República romana. Pela primeira vez, a burguesia mostrava a que louca crueldade vingativa podia chegar quando o proletariado ousa afrontá-la, como classe à parte, com os seus próprios interesses e as suas próprias reivindicações. E, no entanto, 1848 não passou de um jogo de crianças, comparado com a raiva da burguesia em 1871."
"Proudhon, o socialista do pequeno campesinato e do artesanato, odiava positivamente a associação. Dizia dela que comportava mais inconvenientes do que vantagens, que era estéril por natureza e até mesmo prejudicial, pois entravava a liberdade do trabalhador; dogma puro e simples... E é também por isso que a Comuna foi o túmulo da escola proudhoniana do socialismo."
"As coisas não correram melhor aos blanquistas. Educados na escola da conspiração, ligados pela estrita disciplina que lhe é própria, partiam da ideia de que um número relativamente pequeno de homens resolutos e bem organizados era capaz, chegado o momento, não só de se apoderar do poder, mas também, desenvolvendo uma grande energia e audácia, de se manter nele durante um tempo suficientemente longo para conseguir arrastar a massa do povo para a Revolução e reuni-la à volta do pequeno grupo dirigente. Para isso era preciso, antes de mais nada, a mais estrita centralização ditatorial de todo o poder entre as mãos do novo governo revolucionário. E que fez a Comuna que, em maioria, se compunha precisamente de blanquistas? Em todas as suas proclamações aos franceses da província, convidava-os a uma livre federação de todas as comunas francesas com Paris, a uma organização nacional que, pela primeira vez, devia ser efectivamente criada pela própria nação. Quanto à força repressiva do governo outrora centralizado, o exército, a polícia política, a burocracia, criada por Napoleão em 1798, retomada depois com prontidão por cada novo governo e utilizada por ele contra os seus adversários, era justamente esta força que devia ser destruída por toda a parte, como o fora já em Paris."
"Para evitar esta transformação, inevitável em todos os regimes anteriores, do Estado e dos órgãos do Estado em senhores da sociedade, quando na origem eram seus servidores, a Comuna empregou dois meios infalíveis. Primeiro, submeteu todos os lugares, da administração, da justiça e do ensino, à escolha dos interessados através de eleição por sufrágio universal e, evidentemente, à revogação, em qualquer momento, por esses mesmos interessados. E segundo, retribuiu todos os serviços, dos mais baixos aos mais elevados, pelo mesmo salário que recebiam os outros operários. O vencimento mais alto que pagou foi de 6000 francos. Assim, punha-se termo à caça aos lugares e ao arrivismo, sem falar da decisão suplementar de impor mandatos imperativos aos delegados aos corpos representativos.
Esta destruição do poder de Estado, tal como fora até então, e a sua substituição por um poder novo, verdadeiramente democrático, estão detalhadamente descritas na terceira parte de A Guerra Civil.(Karl Marx) Mas era necessário voltar a referir aqui brevemente alguns dos seus traços, porque, precisamente na Alemanha, a superstição do Estado passou da filosofia para a consciência comum da burguesia e mesmo de muitos operários. Na concepção dos filósofos, o Estado é "a realização da Ideia" ou o reino de Deus na terra traduzido em linguagem filosófica, o domínio onde a verdade e a justiça eternas se realizam ou devem realizar-se. Daí esta veneração que se instala tanto mais facilmente quanto, logo desde o berço, fomos habituados a pensar que todos os assuntos e todos os interesses comuns da sociedade inteira não podem ser tratados senão como o foram até aqui, quer dizer, pelo Estado e pelas suas autoridades devidamente estabelecidas. E julga-se que já se deu um passo prodigiosamente ousado ao libertarmo-nos da fé na monarquia hereditária e ao jurarmos pela república democrática."
(FRIEDRICH ENGELS: Introdução á Guerra Civil em França )
"Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente, como engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho"
"A constituição comunal restituiria ao corpo social todas as forças até então absorvidas pelo Estado parasita que se alimenta da sociedade e lhe paralisa o livre movimento"
"A unidade da nação não deveria ser quebrada, mas, pelo contrário organizada pela Constituição comunal; ela deveria tornar-se uma realidade pela destruição do poder de Estado que pretendia ser a encarnação desta unidade mas que queria ser independentemente desta mesma nação e superior a ela, quando não era mais do que uma sua excrescência parasitária."
"Em vez de se decidir de três em três, ou de seis em seis anos, qual o membro da classe dirigente que deveria "representar" e calcar aos pés o povo no Parlamento, o sufrágio universal devia servir um povo constituído em comunas, tal como o sufrágio individual serve qualquer patrão à procura de operários, de capatazes ou de contabilistas para a sua empresa."
"A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna devia ser, não um organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os ramos da administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser assegurada com salários de operários. Os benefícios habituais e os emolumentos de representação dos altos dignatários do Estado desapareceram ao mesmo tempo que os altos dignatários. Os serviços públicos deixaram de ser propriedade privada das criaturas do governo central. Não só a administração municipal, mas toda a iniciativa até então exercida pelo Estado, foi posta nas mãos da Comuna."
"Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o instrumento espiritual da opressão, o "poder dos padres"; decretou a dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro da sua vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus predecessores, os apóstolos."
"A Comuna realizou a palavra de ordem de todas as revoluções burguesas, um governo barato, abolindo essas duas grandes fontes de despesas que são o exército permanente e o funcionalismo de Estado."
"A supremacia política do produtor não pode coexistir com a eternização da sua escravatura social. A Comuna devia pois servir de alavanca para derrubar as bases económicas em que se fundamenta a existência das classes e, por conseguinte, a dominação de classe. Uma vez emancipado o trabalho, todo o homem se torna um trabalhador e o trabalho produtivo deixa de ser o atributo de uma classe."
"A Comuna tinha perfeitamente razão ao dizer aos camponeses: "A nossa vitória é a vossa única esperança".
"O domínio de classe já não se pode esconder sob um uniforme nacional, pois os governos nacionais formam um todo unido contra o proletariado."
"A Paris operária, com a sua Comuna, será para sempre celebrada como a gloriosa percursora de uma sociedade nova. A recordação dos seus mártires conserva-se piedosamente no grande coração da classe operária. Quanto aos seus exterminadores, a História já os pregou a um pelourinho eterno, e todas as orações dos seus padres não conseguirão resgatá-los.

Karl Marx (Guerra Civil em França - 30 de Maio de 1871)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Junto da Burguesia, Só Haverá Lugar para os Jacarés

O capitalismo, como se apresenta hoje, está mesmo para terminar. Mas não pelas mãos das forças oprimidas para a libertação econômica da maioria, mas pelo comando das classes dominantes, que, inteligentes e "sensitivas” que são, também já viram que a mula já está deitando no chão, de tanto rosetarem com ela mancando

E outras formas de dominação estão na ordem do dia, pelos avanços tecnológicos, colocados a serviço do capital, e com a cooptação de grande parte da esquerda, conservadora que é, que não tem respostas a dar, por atrasadas que são e distantes das camadas populares, e que está inebriada pela sua autodenominada função de “vanguardas condutoras da massa oprimida”, muitos confundindo empregos de barnabés com "estar no topo do Poder".

A História vem de longe. Das comunidades dos clãs (mais horizontais) ao sistema feudal com seus vassalos, ocorreu a desapropriação pelos clãs mais fortes, constituindo uma classe social muito forte, a dos senhores de terras, ou senhores feudais, transformados em “nobres” e correspondentes diretos da “vontade divina”. É lógico que, mesmo parcamente, eram os únicos que tinham acessos culturais ou tinham ao seu dispor quem dominava a cultura, as artes e a ciência, absorvidas do mundo árabe.

Do sistema feudal ao mercantilismo, desenvolveu-se o movimento das novas forças de rapinagem econômica do Novo Mundo, que se apropriavam da produção manufatureira e proto-industrial que incipientemente surgiam na Europa (as etapas da História Econômica não foram bruscas ou datadas exatamente, como muitos parecem pensar).

Com a rapinagem das matérias primas e “especiarias” dos países conquistados nas Américas, Ásia e África, chegando ao Velho Continente, comercialmente tornaram-se mais lucrativas, junto com as produções primeiramente manufatureiras, e depois semi-industriais (navios, artefatos de navegação e roupas etc.) - portanto, naquele momento, mais importantes do que extensões de terras da aristocracia semi-falimentar e já sem Povo para explorar, pois a mão-de-obra urbana crescia na mesma proporção do sumiço da mesma do setor rural, com o advento da urbanização galopante.

Do mercantilismo para o capitalismo industrial foi um pulo, processo que apenas representou a consolidação de uma burguesia que se formou através da apropriação da mais-valia, do trabalho da maioria, acabando inclusive com os artesãos, sob a desculpa de que precisavam massificar industrialmente os produtos (a história dos vinagreiros franceses é um exemplo).

O capitalismo desenvolve-se em suas fases "nacionais", exploratória, intervencionista, imperialista e agora oligopolista por excelência, onde as corporações com altas tecnologias a seu dispor dominaram os Estados, os que se dizem representantes do Povo e parte da Alma de populações inteiras, onde o fator cultural para a dominação é a alienação, má informação e quase nenhuma educação, além da iniqüidade social sem acessos disponíveis à saúde, trabalho, renda, lazer, segurança, transporte, etc.

Mas o espaço está pequeno para as corporações transacionais.
Corromper o Estado está caro e, volta e meia, eles têm uma surpresa (Irã,Venezuela, Bolívia e outros). Ficar matando os Sadams, Kadafis, e ficar sendo acusados de promover doenças e acidentes em líderes que se opõem ou podem ameaçá-los,  suja muito a imagem.  Os Estados ainda têm muitas regras republicanas e dá muita despesa corrompê-las.

Assim, é já bem visível o que se pode chamar de “Governo Mundial”, que dá as cartas a partir do domínio econômico, hoje representado por não mais de 300 famílias no mundo todo, muito bem disfarçadas em oligopólios, “holdings”, conglomerados multi-setoriais, em uma nova “árvore genealógica” muito mais econômica do que genética. É na defesa do interesse destes poucos e do emprego de seus capatazes subalternos que se dará a Nova Ordem Mundial.

Além do que, os exércitos de reserva produtiva estão quase maiores do que os ativos operários, e a tecnologia está a dispensar a necessidade de mão-de-obra, colocando a seguinte questão: o que fazer com os pobres sem lugar no sistema produtivo?

Nada! Deixá-los morrer à míngua, com supressão de direitos, saúde, e tudo o que sabemos. A população mundial sofrerá (está sofrendo) ataques onde os mais frágeis irão sucumbir sob venenos, transgênicos, poluição, violência social, urbana e rural.

A transição do feudalismo ao mercantilismo e deste para o capitalismo foi à custa do extermínio pela fome e peste de populações inteiras, além de guerras de conquista, com seus buchas de canhão na frente de batalha. Assim será a superação desta etapa do capitalismo. As classes dominantes sabem que, "para mudar, tem que haver motivos visíveis, para tergirversar os ocultos".

Portanto, o que vemos agora, e é o que eu quero sustentar, não é uma crise terminal do capitalismo, A FAVOR dos trabalhadores e oprimidos em geral, como muitos estão a propalar, vendo “Revolução” onde só há lamúrias pelo que foi perdido e era custeado pelo terceiro mundo. Há sim uma Etapa de Acumulação Capitalista, como a de 1929, do pós-guerra, dos anos 80 e agora. Cada uma destas etapas correspondeu a uma fase do capitalismo (nacional-imperialista, globalizado geopoliticamente e, agora, economicamente unificado).

Assim, penso eu, estamos, talvez, vendo o(s) último(s) movimento(s) do capitalismo, tal e qual ele se apresentou até hoje, representando a etapa de exploração do trabalho, no período industrial mecânico de desenvolvimento da humanidade, que está sendo substituída pela era Cibernética e Nanotecnológica. E com as classes dominantes muito fortalecidas, podendo trocar a mão-de-obra cara, e senhora de consciência sobre seus direitos sociais, pelos quase indigentes, em termos de direitos sociais, como somos nosotros, abaixo da linha do equador.

Desta forma, ao contrário do que vem sendo propalado pela maioria da esquerda brasileira, a que chamo carinhosamente de Ex-Esquerda Corporation W.C., o que há acima do Equador em nada se assemelha a períodos revolucionários ou mesmo pré-revolucionários, constituindo-se, no máximo, em um período de revoltas pelo “bem estar” perdido e, pelo visto, com muito pouca consciência ideológica, haja vista o desprezo ou pouca relevância que estes movimentos relegam aos que construíram boa parte da riqueza da Europa e EUA, como são os de origem árabe, asiática (de menor porte no exterior) e latino-americana (afinal, “farinha pouca meu pirão primeiro”).

Como já escrevi antes, em um comentário ao artigo do Leo Lince, no Correio da Cidadania, penso que o máximo que dá para fazer por agora é aproveitar o momento para tentar unificar as esquerdas com um programa de não colaboração de classes (não só em belas palavras), recusa à participação do jogo institucional, abdicando de quaisquer participações em governos, parlamentos e partidos institucionalizados na ordem legal burguesa, que de democrática, na verdade, nada tem.

Mas, a ver o que acontece com aqueles que se dizem parte da esquerda revolucionária, isso parece longe, lá no primeiro mundo e aqui no terceiro, particularmente no Brasil, onde temos vários reduzindo seus patamares ideológicos, programáticos, ampliando à direita seus leques aliancistas.

Tem Partido que diz ter se formado integrado pela via Revolucionária, mas que mascou o mesmo cacoete eleitoral do “derrotar Serra nas urnas e DiLLma nas ruas”, igualzinho aqueles que se dizem de esquerda e permanecem no PT. Outro que se diz retornando ao terreiro Revolucionário esteve há pouco na Grécia em reunião de Partidos que se dizem Comunistas e Operários (como sabem, a prática é o que determina o que somos e não os slogans), em uma sopa de letrinhas entre leninistas, estalinistas e outros, onde é impossível enxergar uma possível unidade, além dos nomes de suas agremiações.  Ainda nos brindou, este mesmo partido brasileiro, com a divulgação, como algo positivo, de que, na Rússia, a principal oposição a Putin é o... Partido Comunista Russo, de vocação stalinista inconteste. Vendem velocípede sem rodinhas como bicicleta de velocidade, e justificando a façanha como um ato de “agitação e propaganda”... Só se for contra. Outros apóiam os rebeldes financiados pela OTAN, em ação preparatória para a rapinagem energética em curso. Estes são os “revolucionários brasileiros”, ao menos aqueles que o dizem ser e estão vendo saída na política institucional burguesa, reunidos que estão em partidos que, a meu ver, apenas justificam o falso aspecto de “democracia” que temos entre nós.

Mas, neste curso de Titanic que vivemos, caso algo não surja de novidade no cenário político (e terá de ser obra dos homens e mulheres, e não de algum Deus ou Santo Salvador), o que poderá suceder?

Ora! A literatura, as artes pictóricas e musicais e a filmografia mundiais estão fartas de nos alertarem sobre o futuro, embora muitos duvidem da capacidade de alguns artistas nos colocarem frente a frente com o futuro.

Obras como Guernica (Pablo Picasso), A Barcarola (Pablo Neruda), Tropicália (Caetano Veloso), Vidas Secas (Graciliano Ramos), 2001, Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick), Idaho Transfer (Peter Fonda), O Discreto Charme da Burguesia (Luiz Buñuel) são algumas que posso citar, assim de repente, para ilustrar o que digo.

Mas existem três filmes que não posso deixar de colocar centralmente nesta exposição. O primeiro é O Sétimo Sêlo, obra prima de Ingmar Bergmann, onde, há cerca de 40 anos, nos colocou de frente para a invasão obscurantista das religiões (que me desculpe aquela ínfima minoria que lê o Evangelho como pessoas normais e progressistas, e não como aproveitadores da Fé alheia). As hordas de viventes submissos e tementes à morte (leia-se qualquer subversão da ordem), que apenas acompanham a própria mediocridade, através da iniqüidade social a que se acostumaram, sem certo comodismo (pensar e agir com a própria cabeça dá muito trabalho, angústias e aflições).

O segundo filme ao qual me reporto como principal é O Ovo da Serpente (também de Ingmar Bergmann), uma aula para aqueles que insistem em dizer que tudo o que está se configurando é obra de “interesses mais ou menos estanques entre si”, para combater o que acham uma exagerada visão própria de adeptos do que chamam de “teoria da conspiração”. Como se eu pudesse acreditar que o intrincado e complexo processo capitalista mundial, com sua rede de multi-configurações, pudesse ser erigido a partir de uma “mão invisível”, como quis que acreditássemos o tal do Adam Smith - em quem nem os verdadeiros capitalistas acreditam, apenas o apresentam como ídolo, para enganar os trouxas e dar desculpas para facínoras manterem as suas mãos bobas em uso.

E o terceiro filme, este do diretor Jean Jacques Annaud, que filmou o livro de Umberto Eco, O Nome da Rosa, nos coloca de frente com uma situação que persiste entre nós desde os tempos imemoriais, a segregação social e econômica da grande maioria do povo.

E tem gente que diz que a humanidade avançou. Não, a maioria da humanidade não avançou, se formos comparar a evolução tecnológica, extração e acumulação de riquezas, acumulação de saberes com o contingente social segregado através dos tempos e, principalmente, na atualidade. Às vezes penso que muitos que se dizem progressistas acham que o mundo começa nos jardins paulistas, passa por Ipanema e acaba em Nova Iorque...

Podemos relacionar um quarto filme, se considerarmos a última cena da tragicomédia, O Jovem Frankenstein (Roman Polansky), quando a personagem da linda Sharon Tate, em fuga do castelo do Vampiro, acaba por morder o cangote de seu herói (o próprio personagem de Polansky), indicando-nos que o vampirismo, afinal, venceu e saiu dos domínios restritos da Transilvânia...

Pensando, então, em tudo o que já li, vi e ouvi, e que há tempos nos vem alertando sobre o que se sucederá com nosotros, avento que urge, portanto, que não acompanhemos a visão pragmático-industrial do capitalismo, mas sim entendamos a lógica de comunidades consideradas mais primitivas que as nossas (índios bolivianos, dos Chiapas etc.), com suas lógicas mais simples e econômicas e de menor complexidade, para sabermos resistir aos novos tempos. Estes, considerados por muitos “vanguardistas de molde europeu” como politicamente inferiores, pois refratários às formas de organizações impostas pelas sociedades que nos exploram há 500 anos, são os que estão a nos dar exemplos de resistência, e até enquadramento de governante - que até apóiam (no caso de Evo Morales), mas dos quais não são vassalos, como se comportam os que fazem parte de nossa colonizada Ex-Esquerda Coorporation W.C em relação aos seus eleitos.

Infelizmente, o sonho de consumo extremo democratizado “para todos”, a adoção de quinquilharias tecnológicas, tornadas ultrapassadas, como verdadeiros calhambeques, a cada seis meses, nada mais é do que o grande desvio pequeno burguês que se entranhou na alma dos que dizem terem vindo para revolucionar a política, mas que apenas se adaptaram ao que veio de fora, como “última novidade”.

O jeito foi se adaptar à institucionalidade burguesa, mas com discurso esquerdista, para salvar a própria honra, mesmo desonrando a memória daqueles que verdadeiramente lutaram e lutam por um mundo realmente diferente. Não passam de Calabares modernos, para não os chamarmos pelo nome daquele ex-cabo da Marinha de triste existência, ainda entre nós. Já a burguesia não são os traidores, são os próprios inimigos de classe, que temos de combater diuturnamente, sem concessões tão fartas.

Bem, o que dá o nome a este artigo (Junto da Burguesia, Só Haverá Lugar para os Jacarés) decorre de que, ao andar nas margens do Canal de Marapendi, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, “a cidade maravilhosa”, deparamo-nos com enormes Jacarés, com cerca de até 3,5 metros de comprimento e cerca de 250 Kg, muito bem adaptados em ilhas de lodo feito do esgoto que sai “in natura” das ligações clandestinas dos edifícios da burguesia, misturando-se com o esgoto também não tratado das comunidades (antes se chamavam Favelas), desaguando no mar, “embelezando” a paisagem e turbinando o banho de mar dos cariocas e turistas “do Leme ao Pontal”. Não há praia no Rio e em Niterói em que o esgoto não esteja presente (que me conteste quem for capaz).

A minha conclusão, na mesma hora em que vi tal cena, foi a de que só poderão participar da festa da burguesia, e assim mesmo em função subalterna (quem sabe como animal para visitação turística, como já o são os moradores das favelas “pacificadas”), aqueles que se transformarem em Jacarés e se submeterem a morar no esgoto da iniqüidade social, que cada dia atinge mais e mais habitantes. Malgradas as novas nomenclaturas e faixas econômicas maquiadas, como é a nossa Nova Classe Média, que ganha ATÉ R$1500,00 por mês, ou R$333,00 “per capta” em famílias de 4 pessoas, sem educação, transporte, segurança e saúde pública.

Bom Jacaré para todos, neste 2012!!!


Raymundo Araujo Filho é médico veterinário homeopata e não está gostando do cheiro deste 2012.

Tita Ferreira, pessoa cuja contribuição e observações foram essenciais para este artigo, recomenda o livro Não Verás País Nenhum (Ignácio de Loyola Brandão) e eu ainda sugiro o Admirável Mundo Novo, do excelente escritor estadunidense Aldos Huxley.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Trabalho e Humildade

Estava numa reunião  de pastoral, quando foi lido e refletido o Evangelho de Lucas 14,1.7-11; onde relata o almoço de Jesus na casa de um notável de seu tempo e conta uma admoestação de Jesus sobre o comportamento da pessoa.
   "Quando fores convidado ás bodas, não te sentes no primeiro lugar, pois pode ser que seja convidada outra pessoa de mais consideração do que tu, e, vindo o que te convidou, te diga:
 Cede o lugar a este.Terias então a confusão de dever ocupar o último lugar.Mas, quando fores convidado vai e tomar o último lugar, para que,quando vier o que te convidou, te diga:" Amigo, passa mais para cima.Então serás honrado na presença de todos os convivas.Porque todo aquele que se exaltar será humilhado,e todo aquele que se humilhar será exaltado".
  Na partilha da Palavra, havia uma eminente senhora de um movimento eclesial,que ficou escandalizada,assim como muitas pessoas,ficam escandalizadas,quando falo do meu trabalho.
  " Trabalho como reciclador", me respondem:" como pode tu com toda esta bagagem intelectual estas catando lixo, lá não é o teu lugar".
  Eis que ao trabalhar como reciclador ou catador, vi e percebi a solidariedade das pessoas humildes, irmãos e companheiro/as de trabalho para comigo.Os pobres na qual me dediquei de corpo e alma, em servi-los no trabalho pastoral ou militância social,pessoas que não professam a mesma crença do que eu.Na hora em que eu mais precisava, foram os primeiros á me estender a sua mão e solidariedade.
  Nestes dias no meu trabalho ao chegar numa residência fomos ofendidos pelo dono da casa que nos chamou de " vagabundos", como já vi pessoas humildes, falarem com desprezo e dizerem que não vão" trabalhar de lixeiro".
  Nos anos de 1970-1989, no ensino fundamental, na 1º série, havia uma cartilha imposta pela ditadura militar que dizia para as crianças:
  "Pedrinho estudou e virou doutor e Joãozinho não estudou e virou lixeiro".Onde a profissão de lixeiro é desprezada e colocada como sendo inferior e para pessoas inferiores.
  Ao trabalhar no meio dos catadores e recicladores, vivo na prática concreta a " Opção preferencial pelos pobres", sindo me cada vez mais franciscano.Mesmo não sendo franciscano, sou como escreve os teólogos José Arregi, José Maria Castillo e José Maria Diez-Alegria Gutierrez ( 1911-2010), " sou um franciscano ou jesuíta sem papeis( sem documento).
  Como fez São Francisco de Assis, na sua prática de vida, " no meio de gente comum e desprezada, de pobres e fracos, enfermos e leprosos e mendigos de beira de estrada"( São Francisco de Assis; Regra Não Bulada).
  Na humildade deste trabalho, quero educar os meus futuros filhos, a valorizar o trabalho, pois mesmo o trabalho mais humilde e desprezível, como o do gari, catador, faxineiro,como o do agricultor,pedreiro e pescador, tem o mesmo valor do que tem aquele que tem o curso superior como o médico, professor,arquiteto,advogado,engenheiro,jornalista ou do empresário, pois todo o trabalho está interligado.
  Diferente do que foi imposto na mentalidade de toda uma geração de brasileiros e brasileiras pelo regime militar e atualmente pela mídia.
  O humilde trabalho do gari, do reciclador, tem hoje, sem desprezar as outras categorias profissionais um valor muito importante, no cuidado de nossas cidades, bem como da preservação da vida no planeta.
   Pois como nos mostra o filme " Lixo Extraordinário", documentário da inglesa Lucy Walker e coodirigida pelos brasileiros Karen Haley e João Jardim, sobre a vida de trabalhadores do aterro sanitario de Duque de Caxias (RJ).
  O material transformado em lixo pela sociedade consumista se converte em fonte de vida de milhares de pessoas.Ser reciclador é ter orgulho de poder salvar a vida do planeta e o entregar as futuras gerações que são de fato os donos do planeta.
" Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado" .
__________________ 
Por:  Júlio Lázaro Torma*
Colaborador deste blog

  * Membro da Equipe da Pastoral Operária ( Arquidiocese de Pelotas/ RS)
Por:  Júlio Lázaro Torma*

A ordem criminosa do mundo



Em novembro de 2008, a TVE (Espanha) exibiu um documentário intitulado “A ordem criminosa do mundo”. Nele, Eduardo Galeano, Jean Ziegler e outras personalidades mundiais falam sobre a transformação da ordem capitalista mundial em um esquema mortífero e criminoso para milhões de pessoas em todo o mundo. Mais de três anos depois, o documentário permanece mais atual do que nunca, com alguns traços antecipatórios da crise que viria atingir em cheio também a Europa. Reproduzimos aqui o vídeo, legendado em português, e algumas das principais afirmações de Galeano e Ziegler:

“Os verdadeiros donos do mundo hoje são invisíveis”

“Os verdadeiros donos do mundo hoje são invisíveis. Não estão submetidos a nenhum controle social, sindical, parlamentar. São homens nas sombras que procuram o governo do mundo. Atrás dos Estados, atrás das organizações internacionais, há um governo oligárquico, de muito poucas pessoas, mas que exercem um controle social sobre a humanidade, como jamais Papa algum, Imperador ou Rei teve”. (Jean Ziegler)

“O atual sistema universal de poder converteu o mundo num manicômio e num matadouro” (Eduardo Galeano).


“A globalização é uma grande mentira”

“O capital financeiro percorre o planeta 24 horas por dia com um único objetivo: buscar o lucro máximo. A globalização é uma grande mentira. Os donos do grande capital que dirigem o mecanismo da globalização dizem: Vamos criar economias unificadas pelo mundo inteiro e assim todos poderão desfrutar de riqueza e de progresso. O que existe, na verdade, é de uma economia de arquipélagos que a globalização criou” (Jean Ziegler).

“Há três organizações muito poderosas que regulam os acontecimentos econômicos: Banco Mundial, FMI e OMC; são os bombeiros piromaníacos. Elas são, fundamentalmente, organizações mercenárias da oligarquia do capital financeiro invisível mundial” (Jean Ziegler).

“Eu não creio que se possa lutar contra a pobreza e criar uma estratégia de luta contra a pobreza sem lutar contra a riqueza, contra os ricos, pois os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres” (José Collado, Missionário em Níger).

“Todos os dias neste planeta, segundo a FAO, 100 mil pessoas morrem de fome ou por causa de suas consequências imediatas” (Jean Ziegler).


“O dicionário também foi assassinado”

“Hoje as torturas são chamadas de “procedimento legal”, a traição se chama “realismo”, o oportunismo se chama “pragmatismo”, o imperialismo se chama “globalização” e as vítimas do imperialismo, “países em vias de desenvolvimento. O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem, ou não sabemos o que dizem” (Eduardo Galeano).

“Se hoje eu digo que faz falta uma rebelião, uma revolução, um desmoronamento, uma mudança total desta ordem mortífera e absurda do mundo, simplesmente estou sendo fiel á tradição mais íntima, mais sagrada da nossa civilização ocidental. O nosso dever primordial hoje deve ser reconquistar a mentalidade simbólica e dizer que a ordem mundial, tal como está, é criminosa. Ela é frontalmente contrária aos direitos do homem e aos textos fundacionais das nossas civilizações ocidentais” (Jean Ziegler).


“Se houvesse uma só morte por fome em Paris haveria uma revolta”

“A primeira coisa que devemos fazer é olhar para a situação de frente e não considerar como normal e natural a destruição, por exemplo, de 36 milhões de pessoas por culpa da fome e da desnutrição. Se houvesse uma só morte por fome em Paris haveria uma revolta. De nenhum modo devemos permitir que as grandes organizações de comunicação nos intimidem, nem as fábricas das teorias neoliberais das grandes corporações, pois todas as corporações se ocupam, primeiro, de controlar as consciências, de controlar como podem a imprensa e o debate público” (Jean Ziegler).

Carta Maior

VIDEO PARA ACORDAR PARA VERDADE - WAKE UP CALL



Não assista a este filme se você se baseia num sistema de crenças rígido que lhe dá significado à vida e uma falsa sensação de segurança. A informação apresentada neste filme é capaz de revolucinar sua vida, mas deve ser recebida com a mente aberta. A não ser que você esteja disposto(a) a pôr temporariamente tudo o que pensa ser verdade de lado e se abrir para a possibilidade de que talvez tenha sido enganodo(a) toda a sua vida, este filme não é para você.
Por: fudoshim

O POVO

Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.
Estes homens, são o Povo.
Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o Povo, e são os que nos alimentam.
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a extensão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o Povo, e são os que nos vestem.
Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o Povo, e são os que nos enriquecem.
Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.
Estes homens são o Povo, e são os que nos defendem.
Estes homens formam equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.
Estes homens, são os que nos servem.
E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem?
Primeiro, despreza-os, não pensa neles, não vela por eles, trata-os como se tratam os bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhões dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades; forma-lhes em redor uma servidão que os prende a uma miséria que os esmaga; não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.
É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo Povo.
E ainda que não sejam escutados têm na amizade dele uma consolação suprema.
  
Eça de Queiroz

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Poema em Linha Reta

 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


 Fernando Pessoa

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Eles se Atreveram — A Revolução Russa de 1917



Eles se Atreveram — A Revolução Russa de 1917

O filme "Eles se atreveram" narra a história da maior revolução de todos os tempos, que despertou as esperanças dos oprimidos do mundo inteiro e abriu o caminho às revoluções do século XX. Produzido pelo IPS (Instituto do Pensamento Marxista), o filme assume o desafio de combater as falsificações stalinistas e burguesas sobre a grande Revolução Russa. Enfrenta, por um lado, a história oficial da antiga burocracia soviética que eliminou o protagonismo das massas, os Sovietes e os verdadeiros dirigentes de Outubro; e, por outro lado, a produção de todo tipo de documentários de TV que tentam identificar a Revolução, o Partido Bolchevique e Lênin com a barbárie stalinista posterior.

"Eles se atreveram" relata os feitos revolucionários tomando seu nome das célebres palavras de Rosa Luxemburgo em defesa da Revolução Russa: "Não se trata desta ou daquela questão secundária sobre táticas, mas da capacidade de ação do proletariado, sua força para atuar, da vontade de poder do socialismo como tal. Neste sentido, Lênin, Trotsky e seus companheiros foram os primeiros a dar o exemplo ao proletariado mundial. São ainda os únicos que até agora podem gritar: 'eu me atrevi!'."

Acirra-se a velha rapina na 'Nova' Líbia



A "nova" Líbia após a agressão da OTAN
A reestruturação da rapina imperialista na Líbia, a "Nova Líbia", segue a todo vapor, com os monopólios internacionais de vários setores da economia capitalista, sobretudo os das potências que intervieram na derrubada de Muammar Khadafi, enviando seus representantes a Trípoli e Benghazi para ratificar acordos prévios com o Conselho Nacional de Transição ou para requisitar novas vantagens na exploração do território e das riquezas do povo líbio.
O espaço aéreo líbio nunca esteve tão movimentado, com um sem fim de chegadas e partidas e partidas e chegadas de representantes do imperialismo, sejam os executivos das grandes corporações, sejam os enviados dos chefes políticos das potências imperialistas, como abutres sobrevoando e dando rasantes sobre a carniça.
A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, já esteve em Trípoli para inaugurar um escritório da UE na capital líbia. Na visita "para conhecer os novos dirigentes do país", Ashton anunciou que o bloco irá dar mais 10 milhões de euros (a juntar-se aos 155 milhões já rapassados àqueles que renderam a velha raposa do deserto na gestão do capitalismo burocrático local) a título de "ajuda aos esforços do povo líbio para construir uma nova Líbia, baseada no Estado de direito, na democracia e nos direitos humanos".
A despeito desta empulhação de sempre, à qual se junta ainda alegados esforços em prol da liberdade das mulheres líbias, na prática o dinheiro da UE se destina a engordar o pagamento aos ex-"rebeldes", agora gerentes dos interesses estrangeiros na Líbia, por privilégios na distribuição do butim no esteio do escorraçamento e assassinato de Khadafi.
O próprio noticiário do monopólio internacional da imprensa informa sobre a reestruturação da rapina na Líbia, ainda que as notícias sobre a corrida dos monopólios ao país sejam amenizadas por estratagemas noticiosos que fazem a roubalheira parecer normal e legal, com manchetes como "Ocidente aproveita oportunidades de negócios na Líbia".

Novo gerente foi 'consultor' de transnacionais

Pois a "Nova Líbia", dita democrática, tem um novo primeiro-ministro "eleito" por 51 integrantes do Conselho Nacional de Transição a fim de dispor do tempo que for necessário (por isso é chamado de "interino") para administrar a farra do fechamento dos novos contratos com os monopólios estrangeiros, ou seja, amarar juridicamente a entrega das riquezas do povo líbio às transnacionais das potências interventoras antes que o enraizamento desta nova fase de partilha da pátria líbia possa sofrer qualquer influência negativa do jogo eleitoreiro.
Não por acaso, o novo primeiro-ministro "interino" líbio, Abdel Rahim al-Kib, antes de se apresentar para azeitar os negócios dos monopólios na Líbia trabalhou como "consultor" em várias empresas transnacionais, como a ianque Alabama Power Company. Além disso ele também lecionou na faculdade Charjah, instituição que funciona nos Emirados Árabes Unidos mas que é financiada pelo USA.
Assim, pavimentado o terreno para que a invasão dos monopólios se suceda à invasão militar da Líbia, nada menos que 80 transnacionais francesas negociavam com o Conselho Nacional de Transição antes mesmo de Khadafi ser capturado e morto. O ministro da Defesa do Reino Unido, Philip Hammond, com conhecimento de causa, encorajou as transnacionais britânicas a "fazerem as malas" e seguirem para Trípoli.
O presidente e diretor executivo da Câmara Nacional de Comércio dos Estados Unidos-Árabes mal conteve o entusiasmo ao definir o ambiente de negócios para as transnacionais na Líbia: "Há uma espécie de corrida do ouro ocorrendo agora".
A bem da verdade, o CNT apenas azeita ainda mais o que já vinha sendo promovido por Khadafi. O total do investimento estrangeiro na Líbia cresceu de US$ 145 milhões em 2002 para US$ 3,8 bilhões em 2010, em números que atestam a servidão do coronel morto aos monopólios. É a "Nova Líbia" dando sequencia à velha rapina avalizada por Khadafi, que exigia alto demais para vender sua pátria ao imperialismo e por isso cedeu o lugar e a vida a polidos gerentes disfarçados de democratas.

Números da mobilização militar imperialista na Líbia

O jornal britânico The Guardian fez um levantamento sobre o número de soldados, aviões de combate e navios de guerra, mobilizados por cada país que participou da agressão à Líbia. Veja abaixo os números referentes às potências imperialistas que encabeçaram a agressão, uma agressão que elevou o número de mortos na Líbia dos 2 mil da repressão de Khadafi para mais de 50 mil depois que a Otan começou a bombardear Trípoli, Benghazi e outras cidades. Os números são referentes à mobilização até o assassinato de Khadafi.

USA
Número de soldados: 8.507
Aviões de combate: 153
Navios de guerra: 12

Grã-Bretanha
Número de soldados: 1.300
Aviões de combate: 280
Navios de guerra: 3

França
Número de soldados: 800
Aviões de combate: 29
Navios de guerra: 6

Por: Hugo R C Souza

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Brasil Foods é multada por descumprir decisão

 

 A BRF Brasil Foods S.A., de Capinzal, que responde por 9% das exportações mundiais de proteína animal, foi multada em quase R$ 5 milhões, por descumprir decisão da Justiça do Trabalho. A unidade abate cerca de 450 mil frangos por dia e emprega 4,5 mil pessoas – 20% delas estão com algum tipo de doença ocupacional.

No dia 08 de fevereiro de 2010, a juíza da Vara do Trabalho (VT) de Joaçaba, Lisiane Vieira, concedeu tutela antecipada em ação movida pelo Ministério Público do Trabalho obrigando a empresa a conceder pausas de recuperação de fadiga de 8 minutos a cada 52 minutos em atividades repetitivas, e notificar as doenças ocupacionais comprovadas ou objetos de suspeita. A mesma decisão proibiu a empresa de promover jornadas extras, para minimizar os efeitos nocivos aos funcionários.
Ao julgar mandado de segurança impetrado pela Brasil Foods, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT-SC) cassou a tutela antecipada. Mas em recurso interposto pelo MPT, o Tribunal Superior do Trabalho (TST), por unanimidade, restabeleceu a decisão da juíza Lisiane.
O descumprimento das pausas gerou a execução de duas multas. Uma, no valor de R$ 10 mil por dia, e outra de R$ 20 mil por dia, porque a empresa não emitiu Comunicações de Acidentes de Trabalho (CATs), ambas desde 28 de junho de 2011. As multas somam R$ 4,7 milhões. Ainda cabe recurso, mas a empresa deve depositar o valor para poder recorrer.
Para o procurador do trabalho Sandro Eduardo Sardá, Gerente Nacional do Projeto do MPT de Regularização das Condições de Trabalho em Frigoríficos, é lamentável que mesmo após a decisão da vara, mantida pelo TST, a empresa tenha continuado a violar os direitos fundamentais dos trabalhadores. “Trata-se de grave desrespeito ao Poder Judiciário Trabalhista, ao Ministério Público, aos trabalhadores e à toda a sociedade”, diz.
O procurador lembra que, recentemente, a BRF Brasil Foods, em Capinzal, investiu cerca de R$ 50 milhões na automação de seus processos industriais e, “mesmo assim, os empregados continuam submetidos a um rito de trabalho intenso e incompatível com a saúde física e mental, com a realização de 70 a 120 movimentos por minuto, quando estudos apontam que o limite de 30 a 35 movimentos por minuto não deve ser excedido”, enfatiza.
A empresa
A BRF Brasil Foods fechou 2010 como a terceira maior exportadora do país. É uma das maiores empresas de alimentos do mundo e foi criada a partir da associação entre a Perdigão e Sadia. Atua nos segmentos de carnes (aves, suínos e bovinos), alimentos industrializados (margarinas e massas) e lácteos, com marcas consagradas como Perdigão, Sadia, Batavo, Elegê, Qualy, entre outras.
Com faturamento líquido de R$ 23 bilhões registrado em 2010, a empresa exporta para 140 países, opera 61 fábricas no Brasil (distribuídas em 11 Estados) e três no exterior (Argentina, Reino Unido e Holanda). Mantém 24 escritórios comerciais no Exterior e emprega cerca de 115 mil trabalhadores.
Estudos realizados pela própria BRF Brasil Foods, na unidade de Videira, comprovam:
68,1% dos empregados do setor de aves e 65,31% do setor de suínos sentem dores causadas pelo trabalho;
61,79% dos empregados estabelecem relação entre a dor e o trabalho desenvolvido na área de aves e 60,34% na área de suínos;
70,89% dos postos precisam de intervenção ergonômicas no setor de aves e 95,5% dos postos no setor de suínos;
30,24% dos empregados manifestaram dormir mal no setor de aves e 33,18% no setor de suínos;
49,64% dos empregados manifestaram se sentir nervosos, tensos ou preocupados no setor de aves e 50,43% no setor de suínos;
12,26% dos empregados manifestaram que alguma vez pensou em acabar com a sua vida no setor de aves e 13,46% dos empregados do setor de suínos.

domingo, 11 de dezembro de 2011

István Mészaros: As contradições dos nossos tempos

 
081211_meszaros1  - Era uma manhã fria de junho quando o filósofo húngaro István Mészáros, 81 anos, apareceu à porta da casa no bairro de Sumarezinho, zona oeste de São Paulo, onde se hospeda quando vem ao Brasil. Desta vez, a viagem tinha como escala, além da capital paulista, as cidades de Salvador, Fortaleza e Rio de Janeiro. A ideia era participar de encontros e divulgar o livro István Mészáros e os Desafios do Tempo Histórico (Boitempo, 280 pág., R$ 43), uma coletânea de artigos sobre sua obra – inclusive com um artigo de sua autoria.

Alto, os olhos enormes e azuis, Mészáros não parece, à primeira vista, a metralhadora giratória que se apresenta logo no início da entrevista, quando faz um relato de quase 40 minutos sobre a situação políticas na Europa e nos EUA. “Berlusconi é um palhaço criminoso”; “Obama diz que vê a luz no fim do túnel, mas não vê que é a luz de um trem que vem em nossa direção”; “A Alemanha se engana quando pensa que vive um milagre econômico”; “O partido socialista agiu contra os trabalhadores na Espanha”; “Os políticos na Inglaterra parecem uma avestruz que insistem em esconder sua cabeça debaixo da terra”…
Em cada resposta, o professor emérito de Filosofia da Universidade de Sussex e um dos mais destacados marxistas da atualidade deixa sempre explícita a necessidade de se entender o processo histórico da formação da sociedade atual para que se possa compreender, de fato, qualquer questão dos nossos tempos. Crítico da social-democracia europeia, que ao longo do século assumiu um tom reformista dentro do sistema dominante, Mészáros, que foi discípulo de György Lukács (autor de História e Consciência de Classe e Ontologia do Ser Social), vê com desencanto as opções que hoje se apresentam à esquerda, e também as manifestações populares que estouraram pelo mundo desde o início do ano. O motivo é simples: o discurso funciona, mas a realidade é que o sistema capitalista é cada vez mais inviável, com líderes das nações buscando mais dívidas para cobrir rombos colossais e a necessidade de se produzir cada vez mais num momento de esgotamento de recursos. A chamada crise financeira internacional, portanto, não é cíclica, mas estrutural, conforme pontua.
Mesmo assim, em duas horas e meia de entrevista, Mészáros deixa escapar um certo tom de otimismo em relação ao futuro – “que, infelizmente, não será no meu tempo” – quando fala sobre tomadas de consciência e mudanças que observa na América Latina.
Entrevista concedida a Matheus Pichonelli e Ricardo Carvalho
As contradições do capitalismo
“E assim as questões imediatas serão priorizadas em detrimento dos reais problemas que assolam a sociedade americana, que nunca serão confrontados. Então por um lado temos a perspectiva de tempo de 50 anos e, por outro, uma trágica realidade de pressões em termos de três, quatro, cinco anos”
As contradições terão de ser enfrentadas por esses movimentos que emergiram no mundo árabe e na Europa. Terá de ser um movimento das massas, sem pequenos grupos de intelectuais se reunindo e tomando as decisões. E sim as massas, que devem estar dispostas a assumir o fardo e as consequencias de realmente fazer alguma coisa. E, ao mesmo tempo, elas devem aceitar as responsabilidades das escolhas que forem feitas. Isso é importante porque, no nosso círculo de decisões políticas existente hoje, ninguém nunca é responsável. Eu lembro que nos Estados Unidos houve uma investigação sobre o “Iran–Contra Affair”, a cumplicidade de algumas figuras políticas do alto escalão norte-americano com o regime iraniano. Isso foi durante o governo de Ronald Reagan.
O Congresso chegou a produzir uma resolução em que afirmava que Reagan havia subvertido a Constituição dos Estados Unidos. Ele subverteu a Constituição do seu país e deveria assumir total responsabilidade por isso! Mas o que aconteceu? A resolução tornou-se um punhado de palavras vazias e Reagan quase foi beatificado como um dos grandes estadistas dos Estados Unidos. Isso representa a total subversão dos nossos valores. Porque até mesmo valores sérios do pensamento liberal, como os defendidos por John Stuart Mill no século XIX, que confrontou de maneira inadequada, mas confrontou, a contradição do crescimento ininterrupto da nossa economia, está fora de questão. Ninguém nunca é responsável.
O que acontece nas eleições? Um novo partido continuará a culpar seu antecessor exaustivamente. Isso acontece hoje na Grã Bretanha, onde existe uma coalizão entre o partido conservador e o partido liberal. E eles não fazem mais do que afirmar que tudo o que produzem de negativo é consequência da administração anterior, do Partido Trabalhista. Isso é característico de um avestruz que insiste em esconder sua cabeça debaixo da terra.
Existe uma outra característica que precisamos observar, a dimensão de tempo. É completamente absurdo o discurso dos políticos quando afirmam que em 2050 os níveis de carbono estarão reduzidos e nossos problemas ambientais resolvidos. Nós estamos caminhando exatamente na direção contrária. Então por um lado temos uma projeção de tempo que engloba os próximos 30, 40 e 50 anos enquanto nossa cultura defende que encontremos soluções para os próximos quatro ou cinco anos, porque um ciclo político não vai muito além desse tempo. Nos Estados Unidos teremos eleições em breve, quando Obama provavelmente será reeleito. E assim as questões imediatas serão priorizadas em detrimento dos reais problemas que assolam a sociedade americana, que nunca serão confrontados. Então por um lado temos a perspectiva de tempo de 50 anos e, por outro, uma trágica realidade de pressões em termos de três, quatro, cinco anos.
O sistema capitalista não só foi válido por um tempo considerável como foi, de longe, mais poderoso e dinâmico do que qualquer outro sistema. Mas existe um limite para isso e esse sistema está se tornando cada vez mais destrutivo. E esse é o grande problema que os movimentos políticos e sociais terão de enfrentar, a separação da política das dimensões sociais e econômicas. Isso é parte do capitalismo, agrupar essas três dimensões. Se, no passado, o agrupamento dessas dimensões funcionou e possibilitou transformações econômicas violentas, além de transformações políticas, hoje já não surte efeito. E é por isso que quando as demandas desses movimentos sociais chegam aos parlamentos nada ocorre, no círculo de decisões políticas já existe uma inércia e as limitações herdadas do passado.
Pense nisso, o sistema capitalista, no auge da sua produtividade, é incapaz de satisfazer plenamente as necessidades da população mundial por comida. É calculado que em 20 anos ou menos o preço dos alimentos será absurdamente mais caro do que é hoje. Atualmente ainda existem revoltas promovidas por populações famintas. Nada poderia atestar mais graficamente a falência desse sistema. No Norte da África, essas pessoas que se rebelaram recentemente gastam em média 80% da sua renda apenas para assegurar comida. Com o aumento do preço dos alimentos, como eles vão ficar? E, com esse aumento, algumas pessoas, que se dizem especialistas, já começaram a culpar os chineses e indianos pela alta dos preços. Com o fortalecimento das suas economias, eles começaram a comer. Que ultraje! Populações inteiras que sempre trabalharam como escravos, em jornadas de até 14 horas ao dia, começaram a comer como gostariam? Isso não é um absurdo? E é com desculpas como essa que nossa sociedade se acomodou para afrontar seus problemas. Eu insisto, fechando os olhos e varrendo tudo para baixo do carpete.
O grande dinamismo por trás do sistema capitalista ocorreu no momento em que o valor de troca substituiu o valor de uso. O uso primário de um produto capitalista é a venda, uma vez que você tenha vendido o seu produto, ele cumpriu com o seu objetivo. Não importa para onde ele vá, não importa se ele será utilizado uma, duas ou dez vezes. Isso é totalmente irrelevante.
O sistema capitalista, que possui essa dinâmica, atingiu o limite de suas contradições. O principal ponto do capitalismo é ignorar a necessidade real das pessoas. Prova disso é que ainda hoje as pessoas sofrem enormemente. Elementos da necessidade humana não podem ser considerados porque a natureza do nosso sistema é um crescimento sem limites e sem fim. E nesse sentido o céu é o limite. Não é bem assim. Dizer isso é enganar-se a si mesmo. Existe um limite para os seres humanos e a maneira como nos relacionamos com a natureza. Nossa existência depende da manutenção de uma relação aceitável com a natureza.
A crise econômica mundial
“Engana-se quem acha que esse excedente chinês salvará o sistema, porque são três trilhões de dólares em comparação a 30 trilhões do restante do mundo. Não significa nada.”
A crise não caiu do céu, ela foi gerada. Quais são as razões dessa crise? A dívida dos Estados Unidos é hoje algo em torno de 14 trilhões de dólares. E essa é uma das dimensões que foi varrida para debaixo do carpete, 14 trilhões da dívida norte-americana varridos para debaixo do tapete. E ela cresce cada vez mais. Agora eu pergunto, por quanto tempo isso pode seguir adiante? Nos EUA, no último mês, o desemprego aumentou depois que trilhões de dólares foram injetados na economia.
O presidente Obama disse certa vez que já podia ver a luz no final do túnel da crise. Eu concordo com ele, também vejo uma luz. Mas é a luz de um trem vindo em nossa direção. Na ocasião, ele disse que o déficit dos EUA seria reduzido pela metade, e eu afirmei que era mais provável que o déficit dobrasse, exatamente o que aconteceu. Agora o Congresso norte-americano é incapaz de estender o próprio limite do endividamento do país. E essa conjuntura é global, está conectada com todos os outros países. Não é um problema da Espanha, ou dos Estados Unidos, ou de Portugal. Pegue a Itália como exemplo, onde um palhaço criminoso governa o país, Silvio Berlusconi.
Eu prefiro chamá-lo de Berlusconi, que é especialista em inventar soluções artificiais e provisórias para os problemas da economia italiana. Ele sofreu importantes perdas eleitorais nos pleitos municipais, mas eu ainda insisto, o que mudará com essas eleições? Muito pouco. Na Grécia, por exemplo, um governo de centro-direita foi substituído pelo Partido Social-Democrata. A única coisa que mudou foi a revelação de uma dívida catastrófica que causou um pedido de resgate de 100 bilhões de dólares para uma economia relativamente pequena. E, para piorar, eles precisam de um novo resgate. Por quanto tempo isso continuará a sufocar o sistema?
Os países encontraram um termo muito bonito para se referir a esse constante endividamento, “endividamento soberano”. Soberano é uma palavra que parece boa, mas estamos falando de algo em torno de 30 trilhões de dólares, que está aumentando inexoravelmente. Os economistas dizem que o único país que não enfrenta isso é a China, que está sentada em um excedente de três trilhões de dólares. Mesmo assim, engana-se quem acha que esse excedente chinês salvará o sistema, porque são três trilhões de dólares em comparação a 30 trilhões do restante do mundo. Não significa nada.
Agora, nenhuma das soluções para a crise virá do liberalismo. Os próprios limites do capitalismo precisam ser considerados, essa necessidade intempestiva por crescimento ilimitado. Isso significa exaurir nossos recursos estratégico-naturais. A própria questão da água, há muitas regiões no globo que a água não é mais apropriada para a produção e para o próprio consumo. Mesmo diante da exaustão gradual dos nossos recursos naturais, um imenso perigo, nós continuamos caminhando para a mesma direção do crescimento incontrolável. A própria solução para a crise financeira é crescer e crescer até superá-la.
As possíveis soluções para essa contradição assumem um caráter caricato. Karl Marx usou uma expressão interessante: “primeiro temos a tragédia, que depois transformamos numa farsa”. Isso se aplica ao capitalismo hoje, porque os especialistas dizem que nós vamos resolver os problemas da nossa relação com a natureza simplesmente reduzindo os níveis de emissão de carbono. Então é assim que vamos resolver o problema catastrófico do meio ambiente? Existe um limite para absolutamente tudo. É uma farsa porque todos os países, embora admitam que existe um grave problema a ser resolvido, continua a consumir energia irresponsavelmente. A população dos Estados Unidos representa 4% do total mundial e consome 20% dos recursos, um absurdo. Essa “solução fácil” é uma farsa, porque a não ser que a humanidade enfrente esse problema de maneira contundente – e aceite as consequências dessa escolha – nós nos encontraremos em um cenário devastador.
Programas de distribuição de renda e classe média ressentida
“Talvez os críticos não sejam conscientes o suficiente sobre como a estrutura social é dolorosa para os mais pobres. O sofrimento é geralmente parte de um sistema imposto. A conscientização leva as pessoas a se perguntarem como resolver problemas como a fome. É com repressão?”
Todos esses programas estão ajudando as pessoas que vivem na miséria a saírem dessa situação. Isso é positivo e necessário, mas, sozinhos, não vão resolver os problemas. O Brasil não está imune aos problemas estruturais dos quais falamos. Sempre que programas como esses são criados, a classe média e alta tende a ficar enciumada e ressentida porque acham que estão apenas gastando dinheiro com a população mais pobre. Eu ouvia isso de um jeito muito intenso sobre as reformas promovidas pelo presidente Hugo Chávez, da Venezuela. “Vejam só como estamos gastando com isso”, diziam. Mas vejamos por outro lado: houve uma enchente colossal na Venezuela no ano passado e Chávez mandou os governadores com salas vazias nos prédios oficiais a abrigar pessoas que tinham sido afetadas pelos desastres. Isso é temporário, não resolve os problemas.
Então fizeram um programa para construir 200 mil casas para as pessoas atingidas. E as pessoas diziam: “É uma injustiça ter que ajudar essas pessoas”. Mas o oposto também é verdadeiro, porque muitos dos que reclamavam tinham recebido todo tipo de ajuda e facilidades durante a crise econômica. Agora, quando pensamos nos trilhões de dólares usados para salvar os bancos, quem recebeu esse dinheiro? Não foram essas pessoas que recebem benefícios do governo para sobreviver. Eles talvez tenham alguns milhares de dólares se acumularem por anos. Mas os bancos, as corporações, as grandes empresas receberam trilhões.
Quem salvou a General Motors? O governo dos Estados Unidos. Isso com Bush e com Obama. Colocaram trilhões de dólares em corporações corruptas e irresponsáveis.
Na Inglaterra, logo depois da Segunda Guerra, o governo trabalhista promoveu uma grande nacionalização e muitas pessoas viram aquilo como medidas socialistas. Mas o que eles nacionalizaram?
Todas as áreas falidas da economia. Eletricidade, minas de carvão, empresas de aço, e tudo mais. Todos os setores da economia capitalista que, sem essas medidas, não seriam salvas nem funcionariam. E ninguém fez rejeições. Diziam que eram ações para a garantia da economia.
E agora, recentemente, lemos nas manchetes de jornais as frases “salvando o sistema”, quando se referiam as medidas anti-crise adotadas. As pessoas realmente acreditam que não estão dando dinheiro para essas empresas, mas salvando o sistema. É aí que está o problema. Como você salva um sistema cavando mais buracos? Para fechar um buraco, você constrói outro maior e maior.
Tempos atrás, a Venezuela viveu uma rebelião que ficou conhecida como “Caracazo” (1989). Esse movimento aconteceu quando uma multidão de pessoas foi até a cidade de Caracas protestar contra as políticas econômicas do governo anterior. E o governo mandou suas tropas às ruas e assassinou pelo menos três mil pessoas. Chávez é o resultado das ações contra esse tipo de governo. O mesmo aconteceu durante a Comuna de Paris.
Então, sempre que alguém faz algo em benefício da população, como construir 200 mil casas para desabrigados, é acusado de gastar dinheiro.
Não acho que no Brasil alguém deva levar a sério as críticas aos programas sociais. Talvez os críticos não estão sendo conscientes o suficiente sobre como a estrutura social é dolorosa para os mais pobres. O sofrimento é geralmente parte de um sistema imposto.
A conscientização leva as pessoas a se perguntarem como resolver problemas como a fome. É com repressão? No “Caracazo” houve uma resposta militar. Isso hoje mudou. Não estou dizendo que não haja mais violência no mundo, mas isso hoje é algo inaceitável. No Egito, muitas pessoas foram reprimidas. Mas chegou uma hora que Mubarak, mandante da repressão, viu todos se voltarem contra ele, porque para fazer aquelas pessoas voltarem para casa seria necessário mandar matar todo mundo.
Ao mesmo tempo, ainda existem forças militares que defendem as políticas de ocupação de partes do mundo. E existem até teóricos militares nos Estados Unidos que dizem que não é mais possível para as tropas americanas saírem do Iraque nem do Afeganistão, onde a guerra dura quase dez anos.
A solução seria fazer com que os 40 mil combatentes fiquem por lá. Outros recomendam o uso de armas nucleares no Irã. Olha o grau da irracionalidade! Enquanto isso, os Estados Unidos têm uma dívida colossal. E estão cobrindo esses déficits tomando mais dinheiro emprestado. Outra dimensão do problema é que todo cidadão americano está endividado. Uma hora ou outra vai acontecer com os Estados Unidos o que acontece na Espanha, na Irlanda, em Portugal, na Grécia.
A Espanha está virtualmente falida, a Itália também. A Inglaterra também. E o que eles estão tentando fazer é justificar os altos a custos que estão submetendo as pessoas, cortando serviços de saúde e educação. Por trás de tudo isso estão as pressões históricas de um sistema anacrônico.
As pessoas ainda criticam os gastos com as pessoas que mais precisam. Depois da Segunda Guerra, surgiu a ideia do Estado de Bem Estar Social, que agora está sendo destruída. A ideia era que os ricos pagassem mais tributos, e a renda fosse distribuída. Agora, o que está acontecendo é o contrário. Nas regiões ricas, o que vemos é a isenção de taxas.
No Brasil a elevação do salário mínimo, por exemplo, foi uma iniciativa importante. Mas é um pequeno passo. Isso não vai mudar as estruturas econômicas que o Brasil terá que enfrentar, como qualquer país do mundo.
A onda conservadora europeia
“O que são esses partidos da social-democracia hoje na Europa? São herdeiros de anos de reformas que os trouxeram cada vez mais para a direita. O que aconteceu com as legendas mais radicais, como o Partido Comunista Italiano, de Gramsci? Suas propostas fundamentais foram completamente diluídas”
Essa é a questão central. Todas as nossas instituições políticas atuais são frutos de um processo histórico. E o horizonte das soluções que podemos adotar por meio dessas instituições está condicionada a esse processo histórico. Os parlamentos dos países que tentam enfrentar essas questões também têm atuação limitada. As pessoas pensam que podem virar as costas para a história. Isso não é possível. Para qualquer compreensão da realidade, é preciso ter uma perspectiva histórica. O que são esses partidos da social-democracia hoje na Europa? São herdeiros de anos de reformas que os trouxeram cada vez mais para a direita.
O que aconteceu com as legendas mais radicais, como o Partido Comunista Italiano, de Gramsci? Suas propostas fundamentais foram completamente diluídas e o PCI se fragmentou. Os verdadeiros partidos de esquerda hoje na Europa são muito pequenos, sem representação. Outro exemplo: na Alemanha, antes da Primeira Guerra Mundial, a esquerda defendia que chegaríamos ao socialismo por meio de pequenos avanços sociais, sem realizar grandes mudanças estruturais. Mas, durante a Guerra, os social-democratas aliaram-se entusiasticamente ao governo imperial.
O que veio depois não foi um lindo governo a promover pequenos avanços rumo ao socialismo, mas sim o surgimento de Hitler e um cenário muito mais catastrófico. As propostas dessas legendas de esquerda foram diluídas historicamente. O próprio partido dito socialista espanhol foi o responsável por adotar, diante da crise de 2008, medidas que puniram os trabalhadores.
As revoltas do mundo árabe
“Autoridades inglesas declararam que a saída do ditador do Iêmen seria muito perigosa porque poderia significar o controle do país pela Al Qaeda e, portanto, um risco à segurança na Inglaterra. Dá para imaginar isso?”
Esses movimentos estão surgindo lentamente. As pessoas estão começando a ficar extremamente desencantadas com a realidade da situação. No mundo Árabe, as revoltas aconteceram porque a situação simplesmente explodiu.
Em alguns casos, os ditadores foram depostos, mas quem atuava por trás deles? Nós falamos de democracia na imprensa ocidental, mas aqueles ditadores eram fantoches que atuavam na lógica norte-americana de governar o mundo. Por isso que eu digo que essa realidade é uma contradição imensa. No Iêmen, também há um ditador assassinando o seu povo, mas os Estados Unidos não quiseram dizer algumas palavras sobre democracia, eles não disseram que esse ditador deveria deixar o país e seu povo em paz. Simultaneamente, autoridades inglesas declararam que a saída do ditador do Iêmen seria muito perigosa porque poderia significar o controle do país pela Al Qaeda e, portanto, um risco à segurança na Inglaterra. Dá para imaginar isso? A Al Qaeda no Iêmen sendo um perigo para a segurança inglesa? É um absurdo e os políticos se atrevem a dizê-lo em público, mesmo que não acreditem sinceramente numa palavra.
Na Arábia Saudita, existe um regime brutal, praticamente feudal. Mas tudo bem, porque ela é uma aliada fiel das nossas democracias e liberdades. Esse tipo de contradição não pode seguir adiante.
E essas contradições causam a emergência de iniciativas diretas lideradas por pessoas sem ligações com partidos políticos. E isso é um dos sinais mais esperançosos. Há pouco tempo as reuniões políticas estavam repletas de pessoas mais velhas, e agora esses encontros estão repletos de pessoas mais novas.
As manifestações pela Europa
“Nós criamos o hábito de varrer nossos problemas para debaixo do carpete. Só que o nosso carpete histórico se parece cada vez mais a uma montanha, está cada vez mais difícil de caminhar sobre ele. Não há solução imediata”
Em uma economia capitalista mais estruturada, como a Inglaterra, onde por anos a juventude foi extremamente alienada, houve uma verdadeira rebelião contra o apoio do Partido Liberal ao aumento das taxas para a educação superior. Os liberais opunham-se a esse aumento durante a campanha e a juventude inglesa realizou protestos massivos nas ruas e certamente os punirá nas futuras votações. E então vemos tanto o lado positivo quanto o negativo das nossas estruturas institucionais. O lado bom é que as pessoas revoltadas com a traição de um partido se manifestam e pressionam os partidos. Porém, o que mais podem fazer? Esperar anos pelo próximo pleito e colocar um pequeno pedaço de papel numa urna de votação. E o que um partido diferente pode trazer de novo? Muito pouco, quase nada. Uma vez eu citei a frase do escritor norte-americano Gore Vidal, sobre a situação política nos EUA. Ele afirmou que no seu país havia apenas um partido político com duas alas direitistas. Bem, na Inglaterra, na Itália e na Alemanha ocorre a mesma coisa. Não importa para onde você olhe as opções são limitadas porque a margem para a ação política é muito estreita.081211_meszaros
Eu não esperaria grandes mudanças imediatas nas manifestações na Europa. Os problemas do nosso sistema capitalista são tão grandes que levará um grande tempo para que qualquer movimento surta efeito. Mas eu acredito que veremos ainda algumas mudanças fundamentais. Não significa que acontecerá nos próximos dois ou três anos, porque nós criamos o hábito de varrer nossos problemas para debaixo do carpete.
Só que o nosso carpete histórico se parece cada vez mais a uma montanha, está cada vez mais difícil de caminhar sobre ele. Isso ocorreu porque, diante de um problema, temos essa necessidade de encontrar uma solução a curto prazo, para um período de dois ou três anos. Basta se lembrar de quantos milagres econômicos ouvimos falar. Eu me lembro o milagre alemão, o milagre japonês e até o milagre brasileiro. Todos evaporaram, porque milagres não resolvem os problemas da nossa sociedade.
Nossa sociedade deverá se confrontar com problemas estruturais e fundamentais, será uma grande mudança de uma ordem social para a outra. Tente projetar isso para o passado. Do sistema feudal para o sistema capitalista essa transformação levou séculos. Séculos de grandes crises. Imaginar que mudar de uma ordem social que foi dominante por três ou quatro séculos para outro pode levar apenas algumas décadas é ingenuidade.
América Latina, terra de esperança
“Eu também tenho ressalvas à expressão “capitalismo avançado”. Os países capitalistas avançados são os mais destrutivos. Você chamaria isso de avançado? Não é avançado e em muitos aspectos nos traz de volta à condição da barbárie”
Quando você pensa na totalidade da América Latina, é impossível negar que houve tremendos avanços políticos. Houve mudanças significativas também em outros aspectos. A primeira vez que eu vim ao Brasil foi em 1983. Após uma conferência em João Pessoa, eu dava uma entrevista numa rádio local quando vi pela janela uma grande aglomeração de pessoas. Durante a pausa para os comerciais, fiquei sabendo que a razão daquela movimentação toda era que em algum lugar perto de João Pessoa havia protestos de pessoas famintas, que não tinham o que comer.
O programa de Lula de combate à fome foi uma resposta a situações como a que eu vi. Hoje, pelo o que sei, não existem mais protestos por comida no Brasil. O aumento do salário mínimo também foi uma contribuição importante. E mudanças também ocorreram na Venezuela, Bolívia, Paraguai e Argentina. A Argentina, por exemplo, deveria ser um daqueles milagres econômicos. Mas o milagre argentino terminou na total falência do País. Eles chegaram até a dolarizar sua economia, abandonaram sua moeda e foram sufocados por isso. Os protestos populares levaram à mudanças significativas na Argentina. Então, a América Latina é um continente onde várias experiências interessantes ocorreram e ainda estão em curso.
Agora, eu não afirmo com isso que a América Latina, assim como o restante do mundo, poderá se isentar de enfrentar esses problemas estruturais que eu já mencionei. E esse é o grande desafio para o futuro. A dimensão muito positiva é que na América Latina existem movimentos extremamente importantes como o campesinos e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). São movimentos sociais que não tem a perspectiva de implorar por favores políticos, mas que tomam a iniciativa e tentam controlar as coisas por si mesmo. Uma das características mais importantes desses movimentos é que eles tentem controlar a situação.
Na América Latina, as soluções também precisam levar em conta um esforço para remediar nossa relação com a natureza. Em um futuro próximo, por exemplo, nós teremos de considerar como colocar energia nos nossos carros. Se você produz carros, eles precisam de energia de alguma maneira. Ao mesmo tempo, nós multiplicamos cada vez mais o número de carros porque a produção não pode parar. Mas, o que precisamos fazer é perceber que a real necessidade das pessoas é o transporte, não os carros. Nós precisamos pensar em meios de transportes adequados, não carros individuais que agridem a natureza.
Eu a considero a América Latina, de longe, o continente mais esperançoso do mundo. Aqui, coisas interessantes vêm acontecendo desde os anos 70. A primeira reação aos movimentos que eclodiam, naquela época, foram as ditaduras. Ao menor sinal de problema, os norte-americanos encontravam um ditador. Eles enviavam os fuzileiros ou achavam algum general que pudesse fazer o trabalho por eles. Hoje os Estados Unidos não podem mais fazer isso, essa fase histórica passou, mas ainda carrega consequências e repercussões.
Eu acredito que as reais transformações estruturais, que levaram séculos para acontecer do feudalismo para o capitalismo, não demorarão tanto para ocorrer. Por quê? Porque nós não temos séculos. Nosso tempo está se esgotando. E essas mudanças não podem ser pensadas como algo isolado ao “mundo subdesenvolvido”. Nós vivemos em um único mundo. Existem alguns conceitos mistificadores como “terceiro mundo”. Eu sempre rejeitei essa expressão. O que é o terceiro mundo? Eu apenas conheço um. Não é o “terceiro mundo”, mas uma parte integrada do mundo na qual os países são explorados. E a América Latina é o continente mais esperançoso onde as mudanças serão iniciadas, mas não poderão ser concluídas.
Globalização é um conceito utilizado apologeticamente. A realidade da globalização é que existe, na verdade, uma tendência para a integração econômica. Mas, politicamente, nada é resolvido. E hoje ainda prevalece a lógica de confrontar problemas políticos por meio da guerra, violência e destruição. É o que fazem os Estados Unidos. Isso é um grande absurdo porque nada na história da humanidade foi resolvido pela guerra.
Eu também tenho ressalvas à expressão “capitalismo avançado”. Os países capitalistas avançados são os mais destrutivos. Você chamaria isso de avançado? Não é avançado e em muitos aspectos nos traz de volta à condição da barbárie. Rosa Luxemburgo uma vez disse “socialismo ou barbárie”. Eu acrescentaria algo à frase de Rosa Luxemburgo: “barbárie, se tivermos sorte”. Porque a destruição total da humanidade é o que está em nosso horizonte. A tendência é sempre resolver os problemas com guerras e destruições. Na Primeira Guerra, os aliados saíram vitoriosos. Mas o que eles resolveram? Eles criaram Hitler. Por isso eu digo que as decisões estão sendo tomadas às costas das pessoas. Elas nunca antecipam as coisas. Elas nunca imaginam que depois da vitória vem a destruição.
Em 1871, na Comuna de Paris, o que aconteceu foi uma brutal destruição. Bismarck, o chanceler alemão, que venceu as tropas francesas anos antes, quando viu as comunas tomando o poder em Paris, ordenou a libertação dos prisioneiros de guerra franceses para destruir a organização. O que aconteceu depois? Três impérios fizeram um pacto para lutar juntos contra esses tipos de distúrbios feitos pela população, caso acontecesse de novo. Isso não é mais possível. Um dos maiores estrategistas de guerra de todos os tempos, general Carl Von Clausewitz, disse uma vez: “a guerra é a continuação da política, só que por outros meios”. Hoje isso é inconcebível. Uma nova guerra mundial acabaria com a humanidade. Essa é a diferença histórica fundamental.
A América Latina é hoje uma das regiões onde se tem mais esperanças, porque as pessoas estão tomando o controle das decisões, assumindo responsabilidades, depois de terem eliminado ditadores.
E como vamos fazer essa transformação? Transformando as pessoas. A exploração da esmagadora maioria das pessoas por poucos não é mais aceito como era antes. No socialismo você não pode fazer isso. Você não aceita uma minoria que controla a política e a economia tomando todas as decisões. Seria um absurdo. Por isso temos que criar uma sociedade da igualdade substancial. A produção de mercadorias e o mercado devem ser as bases dessa equalização. Precisamos ir em direção a um sistema de igualdade substancial, com reorientação, com participação nos processos de decisão, com nossas decisões sobre o que queremos fazer para tornar nossas realizações mais justas, mais igualitárias. Ninguém precisa decidir isso por você.
Em The Critique of The Gotha Program, Marx fez a definição do que seriam os estágios inicial e final do socialismo. No primeiro, a distribuição seria feita a cada um de acordo com a sua contribuição para o total do produto social. Na fase avançada, seria de acordo com a sua capacidade ou necessidade. Agora, quem determina o que a gente precisa? Apenas uma pessoa, você mesmo. Hoje, 1% ou 2% da população controla de 40% a 60% dos recursos e riquezas da sociedade. Para mudar isso, será preciso uma cooperação das pessoas pelo mundo. Para produzir e distribuir conforme as necessidades, será preciso criar empresas cooperativas. Isso vai ser a base da sociedade do futuro. E não podemos ter certeza de que essas transformações vão ser feitas apenas dentro da lei. Não estamos enfrentando apenas leis humanas, mas as leis da natureza. A natureza está nos impondo seus limites. Por isso precisamos nos adaptar ao melhor uso dos recursos. Isso vai acontecer em pouco tempo – mas não no meu tempo, infelizmente. As pessoas estão começando a confrontar essa realidade, sobretudo na América Latina.

Por: Carta Capital

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Documentário "TERRA SANTA"



 Chamar a Palestina e principalmente Jerusalém de "Terra Santa" é até um sacrilégio. Aquela é uma terra maldita onde os poderosos oprimem seus legítimos donos (os palestinos) sob proteção das grandes potências. A maior das injustiças que se comete contra um povo, um genocídio sem igual... Infelizmente a grande mídia que está nas mãos dos poderosos nunca vai mostrar a realidade, fazendo a opinião popular ficar com a versão mentirosa e oportunista.


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