sexta-feira, 26 de maio de 2017
segunda-feira, 8 de maio de 2017
A crise brasileira e a luta de classes: Virginia Fontes
Conferência de Virgínia Fontes, na Aula magna do IELA, em 24 de abril de 2017.
Fonte: IELA
quarta-feira, 12 de abril de 2017
A esquerda no nevoeiro
A esquerda no nevoeiro

Por João Miranda
A esquerda vive momento complicado na atualidade. Não está claro o que lhe acontecerá, nem para onde irá; está num nevoeiro. As brumas e a cerração são densas e obstruem a visão. A recente manifestação de apoio por parte dela à burguesia da indústria da carne é mais uma fração dessa crise. Esse apoio surgiu após ser exposto na mídia a Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, a qual desmontou um esquema de corrupção envolvendo funcionários do Ministério da Agricultura e frigoríficos. Diante da notícia de que esse setor rouba os cofres públicos e oferece à população carne podre, uma legião de pessoas que no espectro ideológico se localizam na esquerda denunciaram supostos interesses econômicos internacionais e políticos nacionais por trás da operação. Alertam que a investigação diminuirá o valor de mercado das empresas e, assim, serão enfraquecidos. E tais consequências cairão nas costas dos trabalhadores do setor por meio de demissões e etc.
Soa estranho ver a esquerda que, a princípio, é contra o status quo, manifestar apoio a quem promove a ampliação dos antagonismos sociais. Essa incoerência deixa claro que navegar no nevoeiro não é tarefa fácil, mas, como navegar é preciso, uma possível saída é, como disse Domingues, no seu “A esquerda no nevoeiro”, texto do qual sou tributário muito insights e o título deste artigo, rever a trajetória da esquerda de uma perspectiva de longo prazo, de modo a conseguir fazer um diagnóstico mais aprofundado da conjuntura presente e, dessa maneira, compreender as linhas de força possíveis para o futuro[i].
Inúmeros fatores contribuíram para a atual crise da esquerda. Um deles é o processo sócio-histórico que vem ocorrendo nas últimas décadas, através do qual parte da esquerda tem paulatinamente deixado de ser anti-sistema e se tornado pró-capital. Denominado pelo historiador Eurelino Coelho como crise do marxismo, esse fenômeno é de amplitude mundial, em que paulatinamente parte considerável da esquerda abandona (conscientemente ou não) os referenciais marxistas e, em seu lugar, passa a figurar elementos pós-modernos e liberais[ii].
Uma das principais causas desse transformismo foram as revisões teóricas do marxismo promovidas pelos partidos de esquerda e centro-esquerda europeus. Inúmeros “ajustes” das ideias de Marx foram realizados para adapta-las as novas formas assumidas pelo capitalismo. De revisão em revisão, esses partidos foram abrindo mão de ideias básicas do marxismo, como a revolução socialista, e se transformaram radicalmente, levando na esteira parte considerável da esquerda.
Segundo o cientista político José Fiori, o pensamento da esquerda moderna começa o século XX “com uma tese e uma proposta muito claras, ainda que a equação pudesse ser utópica: ‘liberdade política = igualdade econômica = fim ou diminuição do peso da propriedade privada”. Entretanto, no revisionismo promovido na década de 1950, ocorreu um giro de 180 graus nas ideias de esquerda e, consequentemente, na equação. Nessa revisão, “uma parte significativa da esquerda europeia abandonou definitivamente as propostas clássicas […] da revolução socialista e da eliminação da propriedade privada e do estado”. Assumiram que não acreditavam mais numa possível crise final do sistema capitalista e que, diante da impossibilidade da derrocada desse sistema, deveriam lutar pelo sucesso do mesmo para alcançar a igualdade social. Com essa mudança, a nova equação “pode ser resumida de forma muito simples: ‘liberdade política = igualdade social = crescimento econômico = sucesso capitalista’”[iii].
Essa transformação teórica e doutrinária foi uma das mais radicais em toda a história da esquerda. Pouco tempo depois, entre 1964 e 1983, governos majoritariamente trabalhistas e social-democratas europeus implementaram o projeto do estado de bem estar social, que pode-se considerar como uma das primeiras experiências à esquerda pós o revisionismo de 1950. Partiam do pressuposto de que a médio prazo “as políticas ‘pró-capital’ teriam consequências ‘pró-trabalho’ e ‘pró-igualdade’”. Então implementaram políticas econômicas keynesianas, as quais defendem o ativismo estatal na economia como um meio para alcançar o pleno emprego, através de uma política fiscal de incentivo à industrialização e construção de redes estatais de infra-estrutura e proteção social universal. As estatizações de grandes empresas, nesse contexto, só seriam implementadas em casos indispensáveis, não sendo mais uma política de criação de um núcleo estratégico estatal[iv].
Tal mudança radical na esquerda se deve em grande medida ao avanço do capitalismo na década de 1940. Nessa época, os Estados Unidos cresceram muito economicamente. Após um longo período de estagnação pós-crash da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, aproveitaram a Segunda Guerra Mundial para alavancar a sua economia através, principalmente, da indústria bélica. O que permitiu ao capitalismo realizar grandes elevações nas taxas de investimento e gerar altos índices de crescimento entre 1945 e 1975, principalmente para a economia norte-americana. Em meio a esse período do capitalismo que ficou conhecido como “trinta anos gloriosos” (Hobsbawm fala em “Era de Ouro”), grande parte da esquerda passa a desacreditar na crise final desse sistema e começam a apostar no sucesso do mesmo. Com isso, o avanço da esquerda, paradoxalmente, passa a depender das glórias do capitalismo. Ela esperava conseguir conciliar os seus posicionamentos econômicos, com aqueles que eram tradicionalmente associados à direita, abraçando uma política econômica ortodoxa e políticas sociais progressistas. Como diria o Criolo, o anzol da direita fez a esquerda virar peixe.
O Estado, nesse contexto, assume um papel primordial de administração da economia. Além da sua tradicional função repressiva, inerente à sua condição de dominação, o aparelho estatal assume a responsabilidade de promover todas as ações necessárias para impulsionar o desenvolvimento do sistema capitalista. Tais promoções se dão não só no que tange à economia, como também na formação de uma cultura histórica que leve as pessoas à apoiarem e à defenderem esse sistema. Assim, quaisquer rebeliões, greves, manifestações, são imediatamente absorvidas pelo Estado através de projetos de reformas que, supostamente, atenderiam às pautas reivindicadas.
Acrescente-se a isso toda força-tarefa formada pelos meios de comunicações que promoveu uma intensa campanha, através de materiais em revistas, jornais e telejornais, filmes, rádios, etc. Assim, nas telas de todos os tamanhos, nos rádios de todos os lugares e frequências, nos jornais e revistas de todos os cantos, formou-se uma vasta maquinaria de manipulação ideológica para convencer o trabalhador sobre as benesses capitalistas, transforma-lo em um consumidor e, progressivamente, integra-lo à sociedade capitalista.
Paralelamente, parcelas consideráveis de valor são distribuídas por políticas sociais nos Estados Unidos e Europa. Essas políticas criam uma ilusão de um “Estado social”. E tal ilusão ancorou a crença da esquerda de que a renda seria progressivamente transferida do capital para o trabalho. Para Mandel, as expectativas ilusórias sobre a possível “socialização através da redistribuição” no fim das contas seriam apenas os primeiros passos de um “reformismo cujo fim lógico é um programa completo para a estabilização efetiva da economia capitalista e de seus níveis de lucro”[v]. O desenvolvimento do capitalismo através do Estado se dá através da reconstituição e manutenção da força de trabalho via políticas sociais, além das desonerações fiscais para empresas, investimentos estatais em infra-estrutura e novas tecnologias, etc.
O grande papel assumido pelo aparelho estatal criou entre os capitalistas a necessidade de eles exercerem influência sobre as decisões do Estado. Passam, então, a promover grupos de pressão (lobbies) para atuarem diretamente sobre os altos escalões dos governos, de modo a assegurarem que, para os governantes, os interesses do capital estariam sempre em primeiro lugar. Progressivamente, afirma Mandel, isso processa a “reprivatização não oficial, por assim dizer, da articulação dos interesses de classe da burguesia”[vi].
Esse cenário realinha-se na primeira metade da década de 70, quando, pela primeira vez desde os anos 40, uma grave recessão econômica atingiu simultaneamente todos os países imperialistas. O evento possui grande relevância em si mesmo, promovendo transformações no sistema capitalista, no papel do Estado e induziu a esquerda a promover um novo revisionismo para se adaptar as novas mudanças. Uma série de estudos e uma intensa campanha – especialmente a partir dos anos 80 – apresentavam um novo espectro de políticas e reformas econômicas, advogando em favor de políticas de liberalização econômica extensas, como as privatizações, austeridade fiscal, desregulamentação, livre-comércio, corte de despesas governamentais a fim de reforçar o papel do setor privado. Fica conhecido como neoliberalismo esse arcabouçou programático e teórico político-econômico que se formou a partir do ressurgimento e ressignificação das ideias derivadas do capitalismo laissez-faire, expressão símbolo do liberalismo, segundo o qual o mercado deve funcionar livremente sob a égide da mão-invisível.
Nesse contexto, ocorre na década de 80 uma nova rodada revisionista no pensamento da esquerda, na qual, aponta Fiori, “os socialistas e social-democratas europeus abandonam o keynesianismo e a própria defesa do estado de bem estar social, e adotam as novas teses, reformas e políticas neoliberais”. Após as mudanças ocorridas nos anos 50 no programa e doutrinas de esquerda, bastava seguir os “caminhos do capital”[vii]. Vão, então, no sentido do movimento mundial neoliberalista.
A crise do capitalismo ocorrida na década de 70 abre as portas, afirma Coelho, para “um período em que as crises cíclicas se tornaram mais intensas e longas e as retomadas, mais débeis e curtas. A acumulação capitalista não se interrompeu, evidentemente, mas não retornou aos patamares históricos anteriores”[viii]. Vimos novas ondas da crise desse sistema nos anos 80, no início dos anos 2000 e, principalmente, em 2008. Diante disso, os governos socialdemocratas, trabalhistas, de esquerda, ou de direita, etc, promovem privatizações, buscam manter equilíbrios fiscais e somam esforços para reduzirem os investimentos em programas de bem-estar social.
No final do século XX, entretanto, foi ficando cada vez mais evidente que as novas políticas e reformas neoliberais e as constantes crises diminuíram drasticamente a participação dos salários na renda nacional, restringiram os investimentos sociais, promoveram a concentração de capital e renda entre poucos grupos e reduziram a qualidade de vida e segurança do trabalhador. Não é de se espantar, diante disso, que a esquerda europeia venha sofrendo derrotas eleitorais sucessivas, principalmente depois de 2001. E uma onda ultraconservadora e conservadora em reação a esse grande decréscimo do poder de consumo e da qualidade de vida das classes médias, aliadas as sucessivas crises econômicas, estejam varrendo a Europa e os Estados Unidos.
Na América Latina essa onda demorou um pouco mais para chegar. Enquanto nos países ricos a esquerda perdia espaço para a direita e ultradireita, no continente latino-americano a esquerda vivia anos dourados no início dos anos 2000. Como Fiori aponta, na virada para o novo milênio ocorreu uma inflexão sincrônica na América Latina, promovendo nos governos de vários países do continente uma virada democrática e à esquerda. Essa conquista político-eleitoral, sem precedentes na história latino-americana, colocou a esquerda frente ao desafio de governar democraticamente[ix].
Se non è vero, è bene trovato que a ascensão da esquerda no início do século XXI é, entre outras razões, efeito da derrocada das reformas neoliberais impostas à América Latina pelos Estados Unidos no final da década de 1990. No fim dos anos 80, considerada a “década perdida” para o desenvolvimento, a situação dos países latino-americanos afigurava-se como muito difícil e sombria. Como parte da renegociação da dívida externa desses países, foram orientados a implementarem uma série de políticas e reformas neoliberais – receituário que ficou conhecido como “Consenso de Washington” –, que promoveu a abertura, desregulação e privatização de suas economias nacionais, o que ampliou o decréscimo dos resultados sociais e econômicos e apresentou-se no fim dos anos 90 como incapaz de superar os problemas estruturais desses países, apesar de em alguns o processo inflacionário ter sido controlado.
Na Europa essas reformas foram promovidas por governos à esquerda, enquanto que América Latina aconteceu o contrário: era a direita que nela estava no comando dos governos e foi a responsável pela promoção do neoliberalismo. Como aconteceu no restante do planeta, as reformas intensificaram a instabilidade econômica e detonaram as lutas sociais no continente latino-americano. Isso acarretou em turbulências nos governos neoliberais no fim dos anos 90 e no início dos anos 2000. Em meio à essa deterioração da vida, cria-se uma consciência muito nítida de que é preciso mudar o governo para transcender a crise. Isso culminou num terreno propício para a guinada à esquerda na América Latina.
Apesar das especificidades de cada país desse continente, pode-se verificar pontos em comum: os países foram forçados a seguirem o consenso de Washington, as reformas ampliaram os problemas sociais e, diante disso, as populações exigiam mudança. A chegada da esquerda no comando do Brasil, El Salvador, Guatemala, Paraguay, Perú, Uruguay, Argentina, Bolívia, Equador, Nicarágua, Venezuela, no início do novo milénio, é conquista do povo que ansiou e lutou por essa mudança.
Essa chegada ao poder de partidos, movimentos e lideranças de esquerda e progressistas nos países latino-americanos ficou conhecida como “onda rosa”[x] e “maré rosa”[xi]. Segundo Pereira da Silva, o termo ‘onda rosa’ é inspirado na ascensão de partidos de centro-esquerda europeus ao poder na segunda metade dos anos 1990 e vale em ser adotado por seu caráter provocativo, dado que as políticas promovidas pelos governos de esquerda na América Latina não tiveram a radicalidade dos discursos antes proferidos pelos seus atores. Sendo assim, aponta o autor, “falar em ‘onda rosa’ é mais apropriado do que em ‘maré vermelha’, ou algo do tipo”[xii].
As características desses governos apresentam matizes variados de acordo com o tema avaliado e com o governo. Após o período de injeção neoliberal e os inúmeros revisionismos pelos quais passou o marxismo, os governantes latino-americanos promoveram políticas econômicas nesse caminho, percorrendo passos contraditórios de aumento do ativismo estatal, aliado às reformas neoliberais que, em sua premissa básica, defende a não intervenção do Estado na economia. Assim, redefiniram o papel da atuação estatal em termos de intervenção na vida dos países, regulando e complementando o mercado. Nesse processo, introduziram reformas em diversas áreas, mas não na direção da superação do sistema econômico-social capitalista. Não promovem uma ruptura radical, e sim graduais processos de reforma, caracterizando, assim, seus governos como ‘reformistas’. Exemplo disso são as políticas de transferência de renda. Os governos neoliberais dos anos 90 implementaram essas políticas, mas foram focalizadas e temporárias. No início do novo milênio os progressistas mantiveram essas medidas e as ampliaram, mas sem promover a superação definitiva dos antagonismos sociais[xiii].
Para Soares de Lima, “políticas de inclusão social amplas e generosas constituem um elemento comum e definidor desses governos”[xiv]. Tais políticas sociais, contudo, não apontam para a universalização, pois não constituíram a institucionalização mais definitiva de novos direitos e não configuram como estado de bem estar social. Ainda que tenha sido políticas mais abrangentes do que as implementadas nos anos 90, foram focalizadas, temporárias e de governo. Quanto aos resultados, os indicadores sociais apresentam consideráveis avanços[xv]. Entretanto, não passam de um reformismo fraco, o qual, no fim das contas, serviu de esteio para o desenvolvimento capitalista. Aplicaram tais medidas devido em grande medida as referências teóricas e programáticas do marxismo que se construiu ao longo do século XX após os inúmeros revisionismos, dentre os quais os principais movimentos de revisão foram mencionados anteriormente. Isso aconteceu porque, historicamente, esquerda latina sempre se inspirou na europeia para formular os seus governos.
Os governos Lula e Dilma possuem claramente características permeadas por isso, nas quais ancoraram o projeto neodesenvolvimentista seguindo a lógica de que igualdade social e política se ergueria nos ombros do crescimento econômico – o que, por sua vez, necessitaria do intenso incentivo estatal ao desenvolvimento do capitalismo brasileiro.
Assim, a ascensão dos governos progressistas no início do século XXI na América Latina fazia circular pelas veias abertas desse continente a esperança de que chegariam ao fim a desigualdade e a polarização da riqueza e da propriedade privada; e um mundo melhor se constituiria. Uma década e meia depois, entretanto, estamos assistindo, boquiabertos, esses governos serem derrubados um a um. Ensaiaram uma nova era, mas não a alcançaram. E agora estão em crise assim como a europeia. O mais perturbador é que a esquerda está sendo derrotada por partidos conservadores de diferentes matizes, mas que defendem as mesmas políticas neoliberais, não raro de forma mais radical, que ela defendia quando estava no poder.
Diante de tudo isso, fica claro que a esquerda, concordando com Fiori, não está vivendo uma crise conjuntural e circunstancial, “ela está vivendo o limite lógico de um projeto que foi nascendo de sucessivas decisões estratégicas e que esgotou completamente sua capacidade ‘projetual’”. De revisão em revisão, foram se distanciando de suas propostas originais até o ponto de se transformarem em pró-capital, ainda que não queiram admitir[xvi].
*João Miranda é acadêmico de História na Universidade Estadual de Ponta Grossa, tem diversos artigos publicados em jornais e revistas, foi colunista do Jornal da Manhã e atualmente escreve para o Cultura Plural.
Notas
[i] DOMINGUES, José M. A esquerda no nevoeiro: trajetórias, desafios e possibilidades. Novos Estudos. CEBRAP, v. 35, n. 3, São Paulo, 2016, pp. 85-101.
[ii] COELHO, E. Uma esquerda para o capital – Crise do marxismo e mudanças nos projetos políticos dos grupos dirigentes do PT (1979-1998). 2005. 549 f. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2005, p. 12.
[iii] FIORI, José Luis da C. Olhando para a esquerda latino-americana. In: Eli Diniz. (Org.). Globalização, Estado e Desenvolvimento. 1ed. Rio de Janeiro: Editora Da Fundação Getúlio Vargas, 2007, p. 5.
[iv] Idem, p. 5.
[v] MANDEL, Ernest. O Capitalismo Tardio. 2ª ed., São Paulo, Nova Cultural, 1985, p. 339.
[vi] Idem, p. 344.
[vii] FIORI, José Luis da C. Olhando para a esquerda latino-americana…, op. cit., p. 5.
[viii] COELHO, E. Uma esquerda para o capital…, op. cit, p. 407.
[ix] FIORI, José Luis da C. Olhando para a esquerda latino-americana…, op. cit., p. 2.
[x] SILVA, Fabricio Pereira. Da onda rosa à era progressista: a hora do balanço. Revista Sures,https://ojs.unila.edu.br/ojs/index.php/sures, 2015, feb, n. 5, pág. 67-94.
[xi] PANIZZA, Francisco. La marea rosa. Análise de Conjuntura OPSA, n. 8.
[xii] SILVA, Fabricio Pereira. Da onda rosa à era progressista…, op. cit., p. 68.
[xiii] Idem, p. 73-75.
[xiv] SOARES DE LIMA, Maria Regina (org.). Desempenho de governos progressistas no Cone Sul: agendas alternativas ao neoliberalismo. Rio de Janeiro: Edições IUPERJ, 2008, p. 13.
[xv] SILVA, Fabricio Pereira. Da onda rosa à era progressista…, op. cit., p. 75.
[xvi] FIORI, José Luis da C. Olhando para a esquerda latino-americana…, op. cit., p. 6.
Por: lavarapalavra
domingo, 19 de março de 2017
Por Dentro da Direita Brasileira
Introdução
Muitas vezes é difícil entender o cenário político. Existem vários fatores que influenciam as posições e interesses das forças em atuação, e transcendem as explicações simplistas que tentam reduzir tudo a economia ou outros elementos deterministas. Há, concordemos ou não, ideologia.
É claro, um setor pode adotar a concepção ideológica que lhe é mais conveniente, no entanto compreender as visões de mundo das diversas organizações – incluindo nossas adversárias e inimigas – é fundamental para uma boa análise. E é isso que pretendo fazer nesse texto, jogar luz sobre a direita brasileira, suas correntes, divisões e, principalmente, suas compreensões de mundo.
Vou excluir a chamada “direita fisiológica”, ou seja, os políticos voltados a negociatas, tais como Paulo Maluf, José Sarney ou Fernando Collor. Apesar deles serem desse lado do espectro político, suas atuações se embasam mais em oportunismo pessoal do que numa doutrina mais ou menos clara. Também não pretendo abordar agora a “Direita Cristã”, em suas manifestações evangélicas ou católicas, pois o fator “Religião” pode estar presente para justificar quaisquer uma das tendências explanadas aqui.
Dito isso, irei explanar algumas correntes políticas que ganharam, em maior ou menor grau, holofotes nos últimos anos. Começarei da maior e mais forte até as linhas minoritárias e com menor relevância.
1 – Conservadorismo-liberal e variantes
Não é fácil datar as origens dessa posição de pensamento, pois se inspira em diversos autores diferentes, tendo influência de conservadores (Edmund Burke, Russel Kirk) bem como de liberais ( John Locke, Stuart Mill).
A origem dessa ideologia se encontraria, falando de forma ampla, em um ponto de encontro entre a Burguesia ascendente e a Aristocracia decadente dos Séculos XVIII, XIX e XX. É hoje, também, um dos principais pilares ideológicos do Capitalismo atual. Essa visão política se baseia em um conservadorismo moral flexível, em uma visão elitizada de defesa do empresariado e do empreendedorismo individual. Um mundo globalizado, mas com a “ordem” mantida pela tolerância zero.
Se tornou predominante após o Consenso de Washington e é a doutrina política central do Neoliberalismo, trazendo como ídolos os nomes de Friedman, Hayek e Mises, e vendo o keynesianismo e o Estado de Bem Estar social como novos inimigos a serem demolidos.

Dois grandes partidos conservadores-liberais são o Republican Party norte-americano e o Conservative Party britânico, mas podemos ver elementos dessa ideologia – ainda que com variações -, na maioria dos partidos ditos liberais e conservadores, como Os Republicanos dos franceses Fillon e Sarkozy ou a União Democrata Cristã de Angela Merkel.
A maioria desses partidos estão organizados nas “Internacionais Conservadoras”, como a Internacional Democrata Centrista e a União Internacional Democrata (UID), incluindo o DEM aqui no Brasil. Há outras articulações, como a Internacional Liberal e a IALP.
Nos Estados Unidos, o Conservadorismo-liberal era a ideologia predominante no Republican Party, pelo menos até a recente ascensão da “Alt-Right” (que não abordaremos aqui por ser inexistente no nosso país). Outro partido que, no entanto, possui elementos ideológicos semelhantes é o Libertarian Party, sendo ambos ligados a Atlas Network.
E é por esse caminho que chegamos no Brasil.
Há vasto material explanando as redes e conexões do conservadorismo-liberal por aqui, remontando suas origens aos interesses dos irmãos Koch, grandes patrocinadores das causas do livre mercado e da negação do aquecimento global.
O Conservadorismo-liberal, assim como todas as outras correntes políticas, possui elementos de discordância interna: quão mínimo deve ser o papel do Estado na economia, a preservação ou não de um moralismo social nos costumes, a radicalização na luta contra a esquerda.
A organização mais famosa dessa concepção política sem dúvidas hoje é o Movimento Brasil Livre. O MBL começa a ganhar destaque após as eleições de 2014, onde ganha musculatura ao fazer oposição ao Governo do PT, recrutando quadros principalmente no eleitorado tucano. Tendo entre seus principais nomes Fernando Holliday (DEM), Kim Kataguiri e Renan Santos, esse grupo foi um dos articuladores do Impeachment da Dilma e também dos ataques às ocupações de escolas por secundaristas. Em 2016, conseguiu eleger vereadores, incluindo pelo PSDB e PMDB. É assumidamente de direita e defende um radicalismo de livre mercado, além do combate incessante às esquerdas.
Em uma linha mais “light”, e se opondo ao excessivo conservadorismo do MBL, está o LIVRES, tendência do Partido Social Liberal.

O PSL, originalmente apenas um partido de aluguel envolvido com negociatas, decidiu dar uma guinada ideológica e iniciar um processo de “desfisiologização”, adotando as pautas de livre mercado. Apesar de ainda não ser hegemonico no partido, o Livres busca promover o neoliberalismo com um discurso mais amigável, até mesmo tentando disputar as juventudes progressistas normalmente alinhadas aos grupos de esquerda. O Livres, longe do discurso direitista do MBL, tenta se apresentar como moderado, defensor das liberdades individuais e minorias, que só podem ser alcançadas através do empreendedorismo e do mercado. Apesar disso, a proximidade teórico-ideológica é inegável, conforme demonstrada numa entrevista de Fábio Ostermann [http://zip.net/bntF3T], um dos fundadores de ambos os grupos.
No campo dos think tanks (ideólogos), há vários institutos de apologistas do livre mercado, como o Instituto Mises ou o Instituto Liberal, mas sem dúvida o mais poderoso é o Instituto Millenium.
Segundo a linha editorial, o Instituto presa pela “meritocracia” e tem como um dos seus temas prioritários a “economia de mercado”. O que surpreende, no entanto, são os seus membros, pois são personalidades chaves em nossa sociedade.
Na sua lista de “especialistas”, temos: Bernardo Santoro (diretor do Instituto Liberal do RJ e direitista ligado à Bolsonaro); Gustavo Franco (ex-presidente do Banco Central); Helio Beltrão (“anarcocapitalista”, presidente do Instituto Mises e membro do conselho do Grupo Ultra); Ives Gandra(Professor da Mackenzie e membro da Opus Dei); Judith Brito (diretora-superintendente do Grupo Folha); Leandro Narloch (autor dos “Guias Politicamente Incorretos”); Marcel van Hattem (Deputado estadual gaucho pelo PP e promotor do projeto “Escola Sem Partido”); Rodrigo Constantino (presidente do Instituto Liberal); e a blogueira cubana Yoani Sánchez.

Na sessão de colunistas “convidados” temos mais alguns nomes: Ali Kamel (Editor-chefe da Globo); Andre Franco Montoro Filho (ex-presidente do BNDES); Carlos Alberto Di Franco (consultor do Estadão e membro influente da Opus Dei); Demétrio Magnoli (colunista da Folha e d’O Globo); Fábio Ostermann (do PSL); Ilan Goldfajn (consultor do FMI, Banco Mundial e presidente do Banco Central de Temer); Jorge Gerdau(presidente da Gerdau); José Padilha (diretor de ambos Tropa de Elite e de Narcos) e Wagner Lenhart (associado do Instituto de Estudos Empresariais-IEE, diretor de conteúdo do Instituto Liberdade).
Entre os mantenedores do Instituto Millenium, se destacam João Roberto Marinho (vice-presidente do Grupo Globo) e Nelson Sirotsky(membro do Conselho de Administração do Grupo RBS). É por essa razão que o Instituto Millenium, dentre todas as forças conservadoras-liberais, é o mais poderoso: sua rede de apoiadores engloba quase toda a mídia brasileira, de jornais e revistas à radios e o maior canal de televisão.
2 – Reacionarismo difuso
Um fenômeno que ganhou força com a crise do PT foi um visceral “anti-esquerdismo”. Sem muita coerência, essa posição com elementos macartistas passou a desejar o fim e a destruição de tudo que fosse associado a socialismo e esquerda, e em cima disso algumas personalidades conseguiram se destacar.
Ao contrário dos conservadores-liberais, que possuem uma certa coerência ideológica, o reacionarismo brasileiro não. Enquanto os primeiros possuem propostas políticas claras de mercado (ainda que criticáveis), aqui não há quaisquer coerência ou consistência além da oposição pela oposição.

Há uma conspiração comunista em andamento que teria assumido o controle do Governo e da Mídia, e é necessário destruí-la. Essa é a única coisa que todos os reacionários brasileiros concordam. Fora disso, é uma complexidade de posições.
O mais próximo de alguma teoria vem das ideias de Olavo de Carvalho.
Elas consistem em um apanhado de discursos dos Republicanos norte-americanos, mas voltados mais para o campo dos costumes do que de economia. Apesar de se aproximar de algumas organizações conservadoras-liberais (exemplo:o MBL) em pautas específicas, tais como o fim do Estatuto do Desarmamento, em diversos pontos se afastam. A maioria dos conservadores-liberais não se preocupam que as pessoas LGBT+ apareçam se beijando na televisão, enquanto para Olavo isso é uma prova da vitória do “gayzismo” e do “marxismo cultural”.
Segundo Olavo de Carvalho, forças globalistas tentam destruir a cultura judaico-cristã ocidental, e por isso é preciso protegê-la de muçulmanos, comunistas e gays. E é por isso que Olavo apoia Donald Trump, que assustou tanto os conservadores-liberais norte americanos.
Segundo Olavo de Carvalho, forças globalistas tentam destruir a cultura judaico-cristã ocidental, e por isso é preciso protegê-la de muçulmanos, comunistas e gays. E é por isso que Olavo apoia Donald Trump, que assustou tanto os conservadores-liberais norte americanos.

A situação fica mais instável quando colocamos Jair Bolsonaro sob os holofotes. Ele, um populista nato, altera o seu discurso conforme a conveniência. Enquanto afirma que quer um “Estado Cristão” e que as minorias “devem se curvar”, diz que não é preconceituoso. Jair diz que vai favorecer o livre mercado e o liberalismo, mas é contra a reforma da previdência e considera a dívida pública abusiva. Quer integrar o Brasil com o “Primeiro Mundo”, mas reservas indígenas são um plano do capital internacional para roubar nossas riquezas. Briga internamente com o PSC por coligação com o PcdoB no Maranhão, mas se for presidente quer cooperar com a China. Diz que devia fechar o Congresso Nacional e que a ditadura matou pouco, mas agora afirma que nem existiu ditadura.
Jair Bolsonaro não é um liberal de direita. Sua preocupação é o Conservadorismo social e a militarização da sociedade. A adoção de alguns elementos liberais na Economia em seus recentes discursos são feitos de modo a seduzir setores da direita liberal para seu lado, tal como Benito Mussolini, em seus primeiros anos de governo, colocando um liberal como Ministro da Economia para agradar os industriais italianos. Ou mesmo como Lula fez com Meirelles e Dilma com Levy.

Outras vozes se somam ao reacionarismo difuso bolsonarista: os Pastores Marco Feliciano e Silas Malafaia, o Padre Paulo Ricardo, a jornalista Rachel Sheherazade, o ex-CQC Danilo Gentili. Há liberais simpáticos a Escola Austríaca entre seus fãs, mas também nacionalistas defensores da intervenção estatal na economia. Há quem o apoie apenas pela propaganda moralista de salvar o país da corrupção, e quem gosta do seu perfil “macho alfa” (em especial entre adolescentes classe média). Bernardo Santo (liberal) ajudou na construção do programa econômico de Flávio Bolsonaro para a prefeitura do RJ, enquanto Levy Fidelix (PRTB), crítico ferrenho do livre mercado, já disse interessado em chapa conjunta com Jair.
Apesar da maioria dos Conservadores-liberais preferirem uma candidatura de centro-direita, como PSDB ou PMDB, alguns poucos sinalizam um possível apoio à Bolsonaro em 2018, nem que fosse em segundo turno. Rodrigo Constantino já disse considerar necessário para barrar a esquerda, mas por outro lado Reinaldo Azevedo (da Veja e da JovemPan) disse que em hipótese alguma apoiaria um “fascista de direita”.
Uma das organizações que representam esse “macartismo político” é o Revoltados Online, criado pelos organizadores da Marcha da Família de 2014 , que reuniu mil pessoas em SP pedindo um golpe militar. Vários grupos vão aderir a campanha com o tempo, tal como o “SOS Forças Armadas”, que vai ser mal visto por outras forças de direita, como os conservadores-liberais.
É inegável que Jair Bolsonaro conseguiu construir uma rede de apoio forte no mundo virtual. Dezenas de grupos direitistas conseguem se mobilizar em poucos minutos para floodar comentários de páginas rivais ou mesmo derrubá-las. Em vários casos, apelam para hackers.
Também mantém centros de difusão de boatos contra a esquerda, uma técnica usada habilmente por Donald Trump.
Aliás, há comparações com o caso aqui e lá. Donald Trump foi eleito por um partido majoritariamente conservador-liberal, mas com apoio de outras forças ideológicas, como a Alt-Right. Recebeu apoio de nazifascistas, conservadores evangélicos e judeus de direita.
No Brasil, em 2011 houve um ato de neonazistas e integralistas em apoio à Bolsonaro. E é aqui que entramos na próxima força política brasileira.
3 – Terceira Posição Política, ou Fascismo Escancarado

Em 1922, Benito Mussolini chega ao poder na Itália e implanta o chamado Fascismo no país. Sua ideologia se baseia no militarismo, no ultraconservadorismo, no corporativismo e na promessa da reconstrução do Império romano, rejeitando os valores iluministas. Nas palavras do próprio:
“Do fundo das ruínas das doutrinas liberais, socialistas e democráticas, o Fascismo extrai aqueles elementos que ainda são vitais. […] ele rejeita a idéia de uma doutrina cabível a todos os tempos e a todos os povos. […] Sabendo que o Século XIX foi o século do socialismo, liberalismo e democracia, isso não quer dizer que o Século XX também tenha que ser o século do socialismo, liberalismo e democracia. Doutrinas políticas passam, nações se mantêm. Nós estamos livres para acreditar que este é o século da autoridade, um século que tende para a ‘direita’, um século Fascista.”
E finaliza,
“O Fascismo adquiriu agora pelo mundo, o que universalmente pertence a todas as doutrinas, que conquistando expressão-própria, representam um momento na história do pensamento humano.”

Rapidamente, as ideias totalitárias de Mussolini se espalham pelo mundo. Rejeitando tanto o Liberalismo quanto o Socialismo, ele busca ser um terceiro caminho. Na Espanha, se manifesta com a Falange; na Alemanha, é o Nacional-Socialismo (Nazismo); e no Brasil, teremos o Integralismo. Os principais nomes integralistas incluiam Plínio Salgado, Miguel Reale e Gustavo Barroso (tradutor do livro antissemita Os Protocolos dos Sábios de Sião).
Apesar da derrota do Fascismo internacional na Segunda Guerra Mundial, ainda hoje há remanescentes dessas ideias.
A Frente Integralista Brasileira (FIB) é uma das organizações que busca preservar o legado do totalitarismo tupiniquim. Muitos integralistas e neonazistas também se organizam em gangues – muitas vezes de skinheads, mas nem sempre -, e se dedicam a espancar

militantes de esquerda e minorias, dentre as quais podemos citar os Carecas do Brasil, Carecas do Subúrbio, Carecas do ABC, White Powers, Resistência Nacionalista, Kombat RAC e Impacto Hooligan.
As iniciativas mais ousadas da Terceira Posição foram a criação da Frente Nacionalista e da Frente Social-Nacionalista, ligadas ao PRTB (de Lexy Fidelix) e ao Partido Militar (do Deputado Federal Capitão Augusto e o Ex-Comandante Geral da PM-SP, Coronel Meira).
Entre os aliados das forças fascistas estão monarquistas, defensores da intervenção militar e os Eurasianos.
4 – Quarta Teoria Política, Eurasianismo ou Fascismo Disfarçado
Aleksandr Dugin fundou com Eduard Limonov, em 1994 na Rússia, o Partido Nacional Bolchevique, uma fusão de valores do Nazismo com o Stalinismo. Quando Vladimir Putin assumiu o poder, Dugin percebeu que poderia obter vantagens ao se associar a ele, rompendo com seu antigo amigo Limonov e subindo na escada de poder russo.
Readaptou sua ideologia sob o nome de Eurasianismo, ou Quarta Teoria Política (as anteriores seriam o Liberalismo, o Socialismo e o Fascismo), que no fundo nada mais é do que uma Terceira Posição que admira Stalin, e que age em benefício dos interesses geopolíticos russos.

Dugin quer a reconstrução do Império russo, e defende uma frente ampla de todas as ideologias contra o Liberalismo, onde ele recheia com misticismo esotérico (com elementos nazistas) e sua rede de aliados e simpatizantes inclui David Duke (ex-chefe da Ku Klux Klan), Steve Bannon (ligado a Trump) e Richard Spencer (fundador da Alt-Right), além de já ter participado de inúmeros encontros com a extrema direita europeia. Em essência, Dugin é um fascista.
E então vem a grande curiosidade: Dugin tem um interesse especial pelo Brasil.
Já veio a nosso país, enfrentou Olavo de Carvalho em um debate entre conservadorismos e, claro, fala português.
Nos últimos anos começaram a surgir organizações claramente apoiadoras do Eurasianismo. São pequenas e dispersas, mas devido a força e influência de seu mentor, considerei importante incluí-las nesse artigo, pois são uma ameaça em crescimento. Suas ações passam desapercebidas pela conivência de organizações de esquerda admiradoras de Vladimir Putin, que nutrem uma certa simpatia por esses grupos, e pelo fato dessa direita “russa” disputar (por enquanto) espaço com as direitas pró-EUA, pois até pouco tempo ambas eram rivais. Com a vitória de Donald Trump e sua aproximação com Vladimir Putin, não se sabe por quanto tempo a direita olavista-bolsonarista continuará vendo as forças eurasianas como inimigas, uma vez que Jair Bolsonaro já declarou simpatizar com Putin em entrevista à JovemPan.

Os Eurasianos possuem algumas páginas no Facebook (“Nova Direita Cultural”), e a maioria delas é direcionada para o público de esquerda, se passando por “comunistas conservadores” (Rede Social de Esquerda, Frente de Solidariedade à Ucrânia, Frente de Solidariedade à Síria, etc).
No entanto, já existem organizações físicas: o Avante (curiosamente, nome do jornal de Mussolini), a Nova Resistência (que possui fotos fazendo treinamento paramilitar com organizações da TCP) e a Legião Nacional Trabalhista (admiradora de Getúlio Vargas). Todas negam ser fascistas, mas basta uma verificada em suas páginas, em seus apoiadores e no seu site supremo, o Legio Victrix, para perceber que são variantes da doutrina de Mussolini à serviço de Moscou.
5 – Conclusão
Todos esses grupos defendem o Capitalismo, a divergência pode ocorrer é entre aspectos técnicos, no qual esse sistema deve funcionar de forma corporativista-intervencionista ou nas regras do livre mercado. Podem divergir sobre o grau de conservadorismo ou prioridades momentâneas, mas todos são adeptos do valor fundamental da Direita: a Hierarquia. Uns merecem governar e outros a obedecer, pois esta seria a “ordem natural e justa do mundo”.
Norberto Bobbio já dizia:
“A Direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A Esquerda encara-a como uma aberração a ser erradicada.”

Não vivemos uma ascensão da direita, pelo menos não da forma que é vendida. As pessoas não começaram a, repentinamente, se tornarem reacionárias e conservadoras. Durante os 13 anos de Governos do PT, a direita esteve próxima ao poder. Mas quando a crise chega, o amor acaba e muitas pessoas com essas posições, as vezes sem ter uma consciência doutrinária delas, começaram a se organizar. A responsabilidade isso se dá, em partes, a falta das reformas estruturais e o abandono do trabalho de base da esquerda em prol da acomodação.
Diante dessa nova rearticulação, da centro-direita à extrema-direita, a esquerda não possui condições necessárias para reagir. Às vezes, como vimos, ela se deixa até mesmo fazer acordos e alianças com alguns grupos, cedendo sempre à reação.
A saída é a resistência, por todas as formas possíveis. Devemos unir a luta cultural – progressista e inclusiva – com as pautas de classe e anticapitalistas, e partir para a ofensiva. Precisamos conversar com a população, esclarecê-la, nos organizarmos. As forças da tirania atacam no Brasil e no mundo. Hoje, mais do que nunca, é socialismo ou barbárie.
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