quinta-feira, 1 de maio de 2014

Não vivamos mais como escravos!




Não vivamos mais como escravos!
Um filme de Yannis Youlountas
Agosto 2013 / Duração: 89 minutos

 Emergindo das catacumbas gregas da Europa, um murmúrio pelo continente devastado, “Não vivamos mais como escravos” (pronuncia-se “Na min zisoume san douli” em grego).
Nas paredes das cidades e nas rochas do campo, nos outdoors vazios ou destruídos, em jornais alternativos e rádios rebeldes, em ocupações, squats e centros auto-organizados que se multiplicam… este é o slogan que a resistência grega esta difundindo, dia após dia, e estão nos convidando para nos juntar a eles em uníssono às melodias do filme.
Um sopro de ar fresco, emoções e utopias em ação que emergem do mar Egeu.
Para ativar a legenda em PORTUGUÊS clique no ícone “Legendas ocultas” (no canto inferior direito do vídeo) e selecione a opção PORTUGUÊS.
O filme é publicado sob licença Creative Commons.
Site oficial do filme:
http://nevivonspluscommedesesclaves.net/

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Reforma do sistema político: para onde vamos?

Não é de hoje que muitas organizações e movimentos discutem a questão da reforma do sistema político. Esta é uma agenda que permeia muitas organizações e discussões. Mas, assim como para os partidos, Executivo e Congresso, não era uma agenda prioritária até agora. Era a segunda prioridade. Algo mudou no último período. Esta mudança de postura foi construída ao longo dos tempos e passou por várias etapas.

Primeiramente era necessário desconstruir a ideia rasa que reforma política é o mesmo que reforma eleitoral e que dizia respeito à “vida dos parlamentares”. Portanto, os sujeitos políticos reconhecidos para este debate eram os parlamentares e no máximo os partidos e o único “lugar” para o debate era o Congresso Nacional. Esta concepção de reforma política foi aos poucos sendo substituída pelo conceito de reforma do sistema político. Sistema político envolve todos os processos decisórios, portanto é uma discussão sobre o poder, sobre mecanismos disponíveis para o exercício do poder e instrumentos existentes para controlar o poder e quais os sujeitos políticos reconhecidos para o exercício do poder.

Neste sentido abordar a temática da reforma do sistema político significa tratar de todas as formas de poder, tanto na esfera privada como na pública. Com isso incorporamos no debate questões que estruturam os processos de desigualdades no Brasil, as dimensões de classe, sexo, cor da pele, etnia e desejos sexuais.

Foi necessário também ter um olhar mais apurado para o nosso sistema político e identificar quais são as grandes questões que queremos enfrentar. Nesta leitura chegamos a conclusão, segundo as palavras do Prof. Fabio Comparato, que temos uma democracia sem povo. Isso é, os nossos processos democráticos não são alicerçados na soberania popular. Então, onde estão alicerçados? No poder econômico e na reprodução das desigualdades. É a velha forma, poder gera mais poder, que gera mais desigualdades. É uma ciranda que se auto-alimenta. Não é por acaso que temos um sistema onde as elites sempre estão no poder ou o poder está a serviço delas. Precisamos romper com esta “roda viva” que na verdade é a morte da soberania popular, portanto do poder popular. Um retrato disso é a subrepresentação nos espaços de poder de vários segmentos, como por exemplo, mulheres, população negra, indígena e homoafetiva, a juventude das periferias, a população camponesa, entre outros.

Temos um poder masculino, branco e proprietário.

Esta leitura do nosso sistema político nos leva a interrogações. Qual a institucionalidade que sustenta um sistema tão perverso e desigual? Que razões históricas, econômicas, sociais e culturais nos levaram a isso? Temos um arcabouço institucional que é incapaz de processar as grandes transformações desejadas pela sociedade. Isso ficou evidente não só com as manifestações de junho do ano passado. A institucionalidade que temos nos levou até aqui, teve condições de processar algumas demandas, principalmente as que vivemos no período pós-Constituição de 1988, mas é incapaz de processar grandes transformações.

Estamos num impasse: para  avançar precisamos criar outras institucionalidades democráticas. Por quê? Porque nunca tivemos na nossa historia política força suficiente para provocar rupturas. Sempre saímos de um “período histórico” para outro através da conciliação e não de rupturas. E esta conciliação sempre foi feita tendo como sujeito político hegemônico as forças conservadoras e as elites. Foi assim com a “independência do Brasil”, com a “abolição” da escravidão, com a proclamação da Republica, chegando a saída da ditadura militar, onde a hegemonia do processo foi das próprias forças que apoiaram o ditadura. Portanto criar novas institucionalidades significa romper com este passado conciliatório e provocar rupturas no sistema político.

Com esta avaliação do nosso sistema político, como funciona e as questões que queremos enfrentar, formulamos duas grandes estratégias políticas que se complementam, mas que apresentam horizontes políticos diversos. Uma é a Iniciativa Popular pela Reforma Política Democrática e Eleições Limpas e a outra é o Plebiscito Popular pela Convocação de uma Assembleia Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político.

A iniciativa popular é organizada pela Coalizão pela Reforma Política, que promoveu um processo de dialogo e unificou a proposta da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político e a do Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral (MCCE). A iniciativa popular é um instrumento da democracia direta previsto na Constituição e tem uma serie de exigências, como por exemplo: obter perto de 1.500.000 assinaturas; não pode apresentar propostas de mudança constitucional; tem que ter o numero do titulo eleitoral, etc. Mas ela consegue, mesmo com estes limites, enfrentar questões importantes e estruturais do nosso sistema político, como o peso do poder econômico nas eleições, a sub-representação de vários segmentos no parlamento, fortalecer os instrumentos da democracia direta e criar mecanismos democráticos de controle e fiscalização do processo eleitoral.

A iniciativa popular é uma estratégia que se propõe atuar em um tempo político mais curto, isso é, mobilizar a sociedade para forçar que este Congresso aprove uma reforma política que responda aos anseios de amplos segmentos da sociedade. Como a Iniciativa popular faz isso? Na questão do financiamento propõe mecanismos democráticos proibindo o aporte de recursos por parte das empresas. As eleições passariam a ser financiadas com recursos do orçamento público, de contribuições de pessoas físicas. Tudo isso com limites e como estratégia de democratizar o processo, combater a corrupção, limitar e baratear os custos das campanhas. Propõe um sistema de escolha dos/as representantes em dois turnos. Os partidos elaboram de forma democrática listas partidárias com alternância de sexo e critérios de inclusão dos demais segmentos sub-representados. O primeiro turno visa definir quantas cadeiras no parlamento o partido vai ter. No segundo turno participa o dobro de candidatos e o/a eleitor/a vota no nome de seu representante. Para fortalecer a democracia direta propõe que determinados temas só possam ser decididos por plebiscitos e referendos, como por exemplo: grandes projetos com grandes impactos socioambientais, privatizações, concessões de bens públicos, megaeventos com recursos públicos, entre outros. Para conhecer na integra a proposta da  Iniciativa Popular acessar: WWW.reformapoliticademocratica.com.br

Já o plebiscito popular abarca três estratégias: trabalho de base, formação política e discussão ampla com a sociedade. Busca-se debater a institucionalidade que temos e a que queremos (sistema político) e o lócus político para se fazer esse debate é a convocação de uma Assembleia Constituinte Exclusiva e Soberana. Neste sentido o horizonte político do plebiscito popular é mais longo prazo, é de acumular forças na sociedade para poder provocar as rupturas que precisamos. Neste sentido é importante o processo de conquista de uma Assembleia Constituinte Exclusiva e Soberana. Esta mesma demanda por uma Constituinte Exclusiva e Soberana esteve presente em 1985. Mas, não tivemos força política suficiente para torná-la realidade na ocasião e tivemos uma Constituinte Congressual (o Congresso que fez), sem soberania (pois estava subordinada a vontade do executivo, dos militares e do poder judiciário). Em outras palavras, para provocar as rupturas que precisamos, urge criar novas institucionalidades onde o alicerce do poder é a soberania popular, onde o poder constituinte seja a próprio poder popular. Para ter acesso ao debate do  
http://www.plebiscitoconstituinte.org.br/
Como percebemos não tem contradição entre as duas estratégias e ambas procuram criar novas institucionalidades capazes de provocar as transformações estruturais que tanto precisamos.


*José Antônio Moroni, membro do INESC e da Plataforma dos Movimentos Sociais da Reforma do Sistema Político
Fonte: Brasil de Fato

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Democracia Direta e o Fim da Representação Parlamentar

O esgotamento do ciclo neoliberal certamente tem seu aspecto econômico. Milhões de empregos e o próprio estado de bem-estar social são imediatamente sacrificados para salvar os lucros do sistema financeiro e de outras empresas privadas. Esta dimensão econômica, entretanto, vem acompanhada do concomitante esgotamento do sistema político de representação parlamentar. A representação indireta via partidos políticos e a eleição de congressistas não dá mais conta dos desafios do nosso tempo. Com o atual sistema político a população não tem como forçar as reformas e regulações que deseja. Temos o melhor congresso que o dinheiro das grandes corporações privadas pode comprar. Ainda assim, a forma parlamentar, já esgotada, continuará a existir durantes as próximas décadas. A batalha agora torna-se aquela pela implementação de formas de democracia direta, através das quais a população tenha  a força política necessária para implementar as reformas que deseja. Inicia-se com a presente crise econômica e política o desafio de construirmos as bases para a superação do parlamento, dos congressistas e da ingovernabilidade dos partidos políticos.

Acompanhe aqui a entrevista de Vladimir Safatle no programa Provocações da TV Cultura, que foi ao ar em abril de 2013. Abaixo está o terceiro bloco do programa, no qual ele elabora sua tese sobre o esgotamento da democracia indireta parlamentarista. A gravação do bloco 1 está aqui e a do bloco 2 aqui.
Safatle pontua que estamos no começo de um novo ciclo político no qual o desafio maior é a criação e implementação de formas de democracia direta. O esgotamento da política tradicional advém do desencanto generalizado com a democracia parlamentar. Esse desencanto coletivo deriva dos efeitos de um sistema que não consegue mais prover o que propagandeia. Do encanto fez-se o desencanto, e do desencanto fez-se o esgotamento.



Em outra recente e interessantíssima entrevista na TV ALESP, comandada por Carlos Gianazzi e que foi ao ar em abril de 2013, Vladimir Safatle tocou em vários temas de suma importância para a esquerda no Brasil e no mundo afora, incluindo no debate temas como o esgotamento do neoliberalismo e da representação parlamentar. Uma entrevista imperdível. Acompanhe a gravação abaixo:



Em junho de 2012, Safatle também deu uma palestra dentro do senado federal sobre democracia e estado de direito. Seu ponto principal foi mostrar como o estado democrático excede em muito o estado de direito. São os excessos de democracia em relação ao direito que garantem a legitimidade do próprio direito. O pensamento conservador, ao contrário, transmite a absurda ideia de que maior participação popular seria danosa à própria democracia. Acompanhe a gravação abaixo.





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Leda Paulani: Sobre-Acumulação de Capital, Crise e a Expansão Financeira

Acompanhe aqui a vídeo-aula em duas partes com a professora Leda Paulani sobre as crises do capitalismo. Leda usa a teoria econômica marxista para salientar a ideia de que as crises são parte integrante da acumulação de capital: “A crise é a irmã siamesa da acumulação, pois serve para queimar capital em excesso, queima o capital em excesso da sobre-acumulação. A crise é, portanto, a expressão e a solução do problema”. As crises de acumulação, enfatiza Leda, não são crises de falta de dinheiro, senão justamente o contrário: as crises são a consequência do excesso de acumulação de capital. E a sobre-acumulação de capital se faz presente como sobre-acumulação de mercadorias tanto quanto como sobre-acumulação de ativos financeiros.

 


A Batalha de Argel e o Colonialismo Francês

A Batalha de Argel é a grande obra do diretor italiano Gillo Pontecorvo que documenta a luta dos rebeldes muçulmanos pela libertação da Argélia da colonização francesa. A trama se passa na capital Argel durante a guerra de independência que durou de 1954 a 1962, quando finalmente as tropas da França deixaram a região no norte da África. Pontecorvo foca nos anos entre 1954 e 1957, período no qual o movimento independentista ganhou força no bairro Casbah através das táticas de guerrilha urbana da Frente de Libertação Nacional (FLN), então reprimida fortemente pelos paramilitares franceses. Ainda que tenha sido derrotado, o movimento urbano desencadearia uma onda de conscientização e radicalização popular que levaria aos grandes confrontos de 1961 e posterior derrota do colonialismo francês em 1962. Um dos filmes mais influente de todos os tempos, A Batalha de Argel é um clássico do cinema crítico que imortalizou a subversão urbana contra o colonialismo europeu.

sábado, 12 de abril de 2014

Ajuda internacional ao Haiti é ‘grande mentira’, defende tese

  Haitiano, autor do estudo afirma que país está sendo recolonizado pelo capital transnacional

    “Não tem ninguém ajudando o Haiti. É o Haiti que está ajudando todo mundo”, disse ao Jornal da Unicamp o haitiano Franck Seguy, que acaba de defender sua tese de doutorado “A catástrofe de janeiro de 2010, a ‘Internacional Comunitária’ e a recolonização do Haiti”, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, sob orientação do professor Ricardo Antunes.
    “A ajuda internacional ao Haiti é a grande mentira que a mídia conta”, disse o pesquisador. Em sua tese, ele sustenta que o catastrófico terremoto de janeiro de 2010, que deixou cerca de 300 mil mortos e 2,3 milhões de desabrigados, deu ao que ele chama de “Internacional Comunitária” – o conjunto de países hegemônicos e organizações a eles vinculadas, comumente chamados de comunidade internacional – a oportunidade de impor a recolonização do país. “Literalmente, o Haiti está se tornando uma colônia”, disse ele. “Não uma colônia como antigamente, a colônia de uma metrópole, mas é uma colônia do capital transnacional”.
    O projeto de recolonização, afirma Seguy, já ficava claro no texto do “Plano de Ação para a Recuperação e o Desenvolvimento o Haiti” (PARDN), apresentado pelo governo haitiano dois meses depois do terremoto. “O governo haitiano escreveu um plano de reconstrução que ele apresenta aos seus parceiros da mal chamada comunidade internacional – não à sociedade civil haitiana. Só que quando analisei o plano para minha tese, descobri que é na verdade apenas uma atualização de um estudo realizado por um economista da Universidade de Oxford que se chama Paul Collier, que foi enviado ao Haiti pelo Secretário Geral da ONU, e que publicou o relatório dele em janeiro de 2009”, explicou o pesquisador. “Quer dizer: o que está sendo implementado hoje no Haiti, como ‘reconstrução’, na verdade é um plano de antes do terremoto”.
    “O terremoto atingiu o Haiti na região onde fica a capital. O Haiti é dividido em departamentos. O departamento onde fica a capital, Porto Príncipe, se chama o Departamento Oeste. E esta região foi a que foi atingida, o Departamento Oeste e um pouco do Sudeste. Porém, tudo o que está acontecendo em torno da reconstrução do Haiti está acontecendo no Nordeste”, relatou o pesquisador. “Do outro lado da ilha. O plano não está atendendo às necessidades criadas pelo terremoto. O plano está implementando as conclusões do estudo anterior ao terremoto, que é o Relatório Collier”. Levantamento da agência de notícias Reuters dá conta de que, no início deste ano, ainda havia mais de 150 mil pessoas morando em tendas e abrigos improvisados em Porto Príncipe, e que não têm nem água limpa e nem sequer pias para lavar as mãos.
    Uma das propostas de Collier é de que o Haiti se aproveite de uma série de leis dos Estados Unidos, que permitem que produtos manufaturados haitianos entrem no país sem pagar tarifas, para estabelecer uma série de zonas francas para a produção têxtil. Diz texto de Collier, citado na tese:
    “No setor de vestuário, o custo principal é o da mão de obra. O Haiti sendo relativamente pouco regulamentado, o custo da mão de obra aguenta perfeitamente a concorrência com a China, que constitui a referência padrão. A mão de obra haitiana não somente é barata, também é de qualidade. Com efeito, dado que a indústria do vestuário já foi anteriormente muito mais desenvolvida do que o é atualmente ali, o Haiti dispõe neste setor de uma importante reserva de mão de obra experiente”.
    O foco do investimento supostamente enviado para a reconstrução do país, explica Seguy, vem sendo a zona franca de Caracol, no nordeste haitiano, onde está sendo implantado um parque industrial têxtil exportador. A tese afirma que o parque ocupa “250 hectares de terras cultivadas por famílias campesinas, que o governo expropriou”. “No dia 11 de janeiro de 2011, ou seja, um dia antes do primeiro aniversário do terremoto, o governo haitiano havia assinado um acordo com a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, junto a representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a companhia de têxtil coreana, Sae-A Trading, em virtude do qual os 366 lares de agricultores que trabalhavam 250 hectares de terras das mais férteis do município precisavam ser expropriados para deixarem o lugar à construção de uma zona dita industrial”, diz a tese. As famílias que tiveram suas terras desapropriadas ainda aguardam indenização.
    Franck não acredita que a instalação de zonas industriais exportadoras como a Caracol possa levar ao desenvolvimento econômico do país. “O Haiti é visto como espaço para produzir, não como espaço para consumir. O trabalhador haitiano na zona franca, que produz as camisas, jeans ou tênis nunca vai consumir esses produtos. Por quê? Porque o salário dele, o salário do haitiano hoje, é de 200 gurdes (cerca de US$ 5) ao dia. Quer dizer, está se utilizando do Haiti para produzir, mas não se enxerga o Haiti, o trabalhador haitiano, como um consumidor”.
    Além disso, lembra ele, a industrialização está se dando por meio de produção têxtil, sem transferência de tecnologia e sem investimento firme do empresário, que em geral é estrangeiro. “A construção do espaço não é investimento do capitalista. O investimento para construir a fábrica é o dinheiro que vai para o Haiti em nome da ajuda ao povo haitiano. Se em alguma região do mundo a mão de obra for mais barata que a haitiana, a empresa não tem dificuldade em se mudar. O capitalista que está explorando a mão de obra haitiana não tem compromisso nenhum com o Haiti. Porque ele não tem nada a preservar ali”.
    O pesquisador não é otimista quanto à possibilidade de uma melhor inserção do Haiti na economia global: “A divisão internacional do trabalho já decidiu qual o papel do Haiti: fornecer mão de obra barata”. Mais de 80% dos haitianos com curso superior deixam o país, disse ele. “Há dois fluxos migratórios: o que é chamado de cérebros, principalmente para o Canadá, e o outro, de trabalhadores manuais, para as ilhas da circunvizinhança do Haiti, e agora cada vez mais para o Brasil”. Franck afirma que parte do fluxo de trabalhadores haitianos pouco qualificados em direção ao Brasil parece clandestino, mas que na verdade as rotas são bem organizadas, e conhecidas das autoridades. “Se não estivesse atendendo a interesses no Brasil, elas poderiam ser facilmente fechadas”, declarou.


    Tropas brasileiras
    O Exército brasileiro chegou ao Haiti após o levante de 2004, que culminou com o exílio do então presidente Jean-Bertrand Aristide. O Brasil assumiu o comando militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) em junho daquele ano. Franck é cético quanto à necessidade da presença de forças internacionais em seu país.
    “Tiveram que vender a ideia de que o país estava em guerra e precisava ser pacificado. E desde que cheguei ao Brasil essa é a pergunta que me fazem: sobre a guerra do Haiti ou missão de paz no Haiti. Não, o Haiti nunca precisou de missão de paz, nunca teve guerra”, disse. Além disso, o pesquisador lembra que o próprio nome da missão é de “Estabilização”, não de paz. Ele compara a situação de desordem que levou à intervenção internacional no Haiti aos conflitos dentro das favelas do Rio de Janeiro. “Esses conflitos existem, e justificam muitas coisas, mas não dá para dizer que o Brasil esteja em guerra e precise ser pacificado”, comparou.
    Assim como o capital internacional se serve das zonas francas, o Brasil se serve do Haiti para ganhar projeção no cenário internacional, tentar comprovar sua capacidade a ocupar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU e para treinar suas tropas, disse o pesquisador. “O Haiti serve para isso. É um campo de treinamento. Praticamente todos os soldados brasileiros que já foram para o Haiti estão, agora, sendo utilizados para controlar o Rio de Janeiro, porque a situação é muito parecida”. O papel do Brasil no Haiti, disse ele, é de repressor dos movimentos sociais de contestação. “Em 2008 houve movimentos contra o encarecimento da cesta básica e, em 2009, muitos movimentos operários pelo reajuste do salário mínimo. Qual o papel do Exército brasileiro em tais ocasiões? Repressão. O papel do Brasil é o papel policial, de reprimir qualquer movimento contra esta ordem que se está caracterizando no Haiti”.


    Futuro
    O Haiti é hoje um país sem soberania, afirma Franck, onde o governo nacional tem menos poder que um governador de Estado. “Se o Haiti fosse anexado aos EUA, seu governador teria mais autonomia que os dirigentes haitianos têm agora”, disse ele. O pesquisador não vê uma saída para o país que passe pela “internacional comunitária”, pelo governo nacional e as classes dominantes que colaboram com ela.
    “A saída seria pelo outro lado, pelo lado dos movimentos sociais, das lutas sociais, só que este lado também está comprometido: porque hoje, o que existe de movimentos sociais no Haiti vive de financiamento estrangeiro, por meio das ONGs que se dizem ONGs de esquerda”.
    Franck desconfia das ONGs, mesmo das que se declaram de esquerda. O texto de sua tese traz uma crítica à “solidariedade de espetáculo” das organizações internacionais. Referindo-se ao apoio prestado pelas ONGs aos camponeses haitianos, ele escreve: “tanto as ONGs da sociedade civil quanto os movimentos sociais, até as organizações de bairros urbanos e o próprio movimento camponês contemporâneo, quando se organizam, o fazem com o intuito de se metamorfosear em instituições de gestão de projeto de desenvolvimento, em vez de colocar a questão agrária – questão fundamental – na agenda político-ideológica”.
     “A ONG pode até se dizer de esquerda, mas a ONG, de esquerda ou de direita, funciona à base de financiamento. E tem de prestar contas, periodicamente, ao financiador. O funcionário da ONG pode acreditar que é um militante, mas não pode ser um militante contra o capital. Porque ele é um funcionário que tem de prestar contas”.


    Publicação
    Tese: “A catástrofe de janeiro de 2010, a ‘Internacional Comunitária’ e a recolonização do Haiti”
    Autor: Franck SeguyOrientador: Ricardo AntunesUnidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)

    quinta-feira, 3 de abril de 2014

    A revolução burguesa no Brasil

      A revolução burguesa no Brasil

    Em 1974, em meio à ditadura e dez anos após o golpe militar, Florestan Fernandes publicou A revolução burguesa no Brasil. Recebido à época como uma tentativa de explicação das origens e fundamentos do Estado autoritário, o livro tornou-se, com o decorrer do tempo, um dos clássicos da sociologia histórica brasileira, uma linhagem que possui seus momentos altos em Casa-grande & senzala (1933), de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda e Os donos do poder (1958), de Raymundo Faoro.

    Ricardo Musse

    14.03.28_Ricardo Musse_A revolução burguesa no Brasil

    Florestan emprega o conceito de “revolução burguesa” como “tipo ideal”, isto é, como princípio heurístico e fio investigativo da origem, natureza e desdobramentos do capitalismo no Brasil. Não se trata de um estudo empírico ou mesmo de comparar as vicissitudes do processo brasileiro com os modelos de revolução francês, inglês ou norte-americano.
    A ausência de uma sucessão de acontecimentos de impacto, de uma revolução propriamente dita, não impediu o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, mas ditou-lhe um ritmo próprio e uma condição particular. A idéia de revolução burguesa presta-se assim como uma luva para determinar as etapas do processo e, sobretudo, para compreender a modalidade de capitalismo predominante no país.
    O livro foi redigido em momentos distintos: as duas partes iniciais (“As Origens da Revolução Burguesa” e “A Formação da Ordem Social Competitiva”) em 1966, e, a terceira parte (“Revolução Burguesa e Capitalismo Dependente”), em 1974. Esse último ensaio complementa os demais blocos, avançando o acompanhamento histórico anterior – que se detinha na época da abolição da escravatura – até o presente. Mas traz também alterações relevantes no que tange à atribuição de sentido ao processo histórico.
    Os ensaios de 1966 seguem a periodização tradicional. A Independência abre caminho para a emergência da sociabilidade burguesa – seja como tipo de personalidade ou como formação social –, bloqueada até então pela conjugação de estatuto colonial, escravismo e grande lavoura exportadora. O simples rompimento com a condição colonial, a autonomia política engendra uma “situação nacional” que desenvolve o comércio e a vida urbana, alicerça o Estado e prepara a modernização.
    A manutenção do sistema escravista, no entanto, polariza o país entre uma estrutura heteronômica (cujo protótipo é a grande lavoura de exportação) e uma dinâmica autonomizante (centrada no mercado interno). Socialmente, os agentes burgueses, em simbiose com o quadro vigente, organizam-se antes como estamento do que como classe, uma situação que só será rompida com o surgimento do imigrante e do fazendeiro do café na fronteira agrícola.
    A introdução do trabalho assalariado e a consolidação da “ordem econômica competitiva”, no final do século XIX, não liberaram completamente as potencialidades da racionalidade burguesa. Antes promoveram a acomodação de formas econômicas opostas, gerando uma sociedade híbrida e uma formação social, o “capitalismo dependente”, marcada pela coexistência e interconexão do arcaico e do moderno.
    No último ensaio, redigido em 1974, o conceito de “capitalismo dependente” passa a ser determinado pela associação da burguesia com o capital internacional. Com isso, altera-se o peso da dinâmica do sistema capitalista mundial e a própria periodização, marcada pela emergência e expansão de três tipos de capitalismo: o moderno (1808-1860), o competitivo (1860-1950) e o monopolista (1950-…).
    A revolução burguesa teria conduzido o Brasil, portanto, à transformação capitalista, mas não à esperada revolução nacional e democrática. Na ausência de uma ruptura enfática com o passado, este cobra seu preço a cada momento do processo, em geral na chave de uma conciliação que se apresenta como negação ou neutralização da reforma. A monopolização do Estado pela burguesia – tanto econômica, como social e política – estaria na raiz do modelo autocrático, da “democracia restrita” que marca o século XX brasileiro.
    Seria um erro grave, no entanto, atribuir a esse diagnóstico alguma forma de determinismo. O duplo caráter dos conceitos, as contradições que Florestan detecta a cada passo, em suma, a dialética como método deixa o campo livre para a ação histórica dos agentes e das classes sociais.
    O livro A revolução burguesa no Brasil encerra o ciclo de interpretações gerais do país. Mas, forneceu, ao mesmo tempo, as balizas para uma série de estudos pontuais posteriores que abordaram tópicos decisivos como a resistência dos “de baixo” antes e durante a emergência das classes, as alterações do estatuto das nações no sistema-mundo ou as rupturas no padrão de acumulação no capitalismo.
    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
    FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2005.
    Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial.

    segunda-feira, 31 de março de 2014

    Lições e perspectivas da revolta

    A revolta juvenil-popular de junho de 2013, sem dúvida deixará o seu lugar na história do nosso pais como uma das mais importantes jornadas do povo brasileiro na busca da sua emancipação e como nossa contribuição ao resto do mundo na construção de um novo ideário, de uma nova sociedade que substitua a atual sociedade da mercadoria , à exemplo dos movimentos recentes na Espanha, Grécia, e demais países europeus e, por que não, os movimentos da chamada Primavera Árabe .
    Como se trata de um evento recente urge uma reflexão sobre suas características e os sinais de modernidade que ela possui.
    Desta forma, o o artigo do professor Hamilton Garcia merece a nossa atenção pela objetividade analítica e se insere no curso das demais opiniões sobre este importante evento.
    Deixamos com vocês a análise das opiniões do nosso articulista.
    Boa leitura .

    Lições e perspectivas da revolta
     
    É cedo para tirar todas as lições da revolta juvenil-popular de junho de 2013, mas salta aos olhos seu caráter democrático, pluralista e horizontalista: o rechaço ao vandalismo como forma de manifestação, o repúdio à violência contra os partidários e a recusa às tentativas de monopolização dos protestos por grupos autoritários de variadas inspirações ideológicas são alguns dos novos elementos que ela trouxe à vida política nacional. Trata-se de uma perspectiva bastante diversa daquela vigente até o movimento dos caras pintadas (1991). Até os anos 90, as mobilizações populares encabeçadas pela vanguarda estudantil — que nos anos 60 e 70 chegaram a contagiar o operariado fabril — eram guiadas pelas verticalizadas organizações comunistas, as únicas capazes, diga-se de passagem, de furar a couraça autoritária da ditadura que impedia a organização/mobilização popular — infelizmente, tais organizações, quase sempre possuídas por certezas dogmáticas, não souberam conduzi-las pelos caminhos que levariam à redemocratização.
    No impedimento de Collor, estávamos comemorando sete anos de governo civil no país, os regimes comunistas desabavam e o PT encarnava a crítica a todas as formas de autoritarismo; por isso, foi capaz de liderar a juventude nas ruas contra a captura oligárquica do Estado pelo voto popular. A mobilização vitoriosa, porém, à semelhança de 1968, encontraria a direção equívoca de uma vanguarda divorciada dos anseios populares. Diante da necessidade de sustentação do Governo interino do Vice-Presidente Itamar, os petistas tomaram o atalho da oposição a qualquer custo, não só inviabilizando suas chances eleitorais presidenciais por uma década, como esterilizando as energias jovens no sentido da defesa e do desenvolvimento da democracia por meio de campanhas golpistas contra o presidente duas vezes eleito no período seguinte. Daí por diante, crescentemente, o canal de manifestação política da juventude democrática nunca mais encontraria um partido político com o qual interagir.
    Hoje, o quadro que vemos é o de radicalização deste divórcio. Com o PT envelhecido e corroído pelos seguidos escândalos de corrupção, as novas gerações se afastaram ainda mais da militância partidária, e os partidos dissidentes, surgidos antes e depois da degeneração petista, apesar da longa semeadura da revolta popular em que se empenharam, apenas em parte conseguiram atrair a força da juventude desgarrada do petismo e do pecedobismo. Dos partidos moderados de esquerda, apenas a Rede parece vocacionada para angariar simpatias naquele segmento.
    Os novos movimentos sociais emergentes e sua linguagem franca contra a decrepitude do Estado e seu sistema clientelista de representação, que perverte e corrói a democracia brasileira, parecem ser o anticorpo contra a cooptação dos organismos sociais responsáveis pela pax lulista da última década. A nova geração política, ainda tateando o campo em busca de um partido para chamar de seu, inicia seu protagonismo com agências próprias ainda de caráter antipartidário. Isto, ao contrário do que pensam muitos analistas e jovens, está longe de significar a despolitização desta geração, sendo antes uma nova forma de começo em meio a um ambiente político salinizado, saturado de ideias anacrônicas e mentalidade oportunista.
    As novas formas horizontais de organização — baseadas em redes virtuais — terão diante de si agora, no refluxo natural do movimento, o desafio de encarar as tarefas que os partidos não são mais capazes de executar e outras que tais organizações só poderão desempenhar em associação íntima com algum partido político coetâneo. Ao mesmo tempo que encaram o desafio do amadurecimento de suas organizações, elas lançam o desafio a todas as velhas organizações para se renovarem por meio das redes — redes essas que, no caso dos partidos oposicionistas, chegaram a se formar espontaneamente nas eleições de 2006, sem que eles tenham entendido seu potencial renovador, para além do mero instrumentalismo. Nesse processo, o novo deve se apropriar da experiência do velho, depurando-o de seus anacronismos, e o velho que ainda não envileceu deve abrir-se ao diálogo com a nova mentalidade.
    Tudo indica que o exercício, como sempre, será mais difícil para aqueles já viciados ou conformados com as práticas políticas correntes, incapazes de ver nos novos atores mais do que a imagem retrospectiva das próprias ilusões juvenis de sua época. Eis aqui a razão principal para o divórcio entre o povo e os partidos que as novas gerações revelaram de maneira radical, independentemente do programa e da história: a incapacidade generalizada de aprender com a história e se renovar com a vida.
    É certo que a ausência de uma perspectiva partidária, em geral, por parte dos novos movimentos facilitou a agregação autônoma dos variados grupos descontentes nas ruas, ao mesmo tempo que inibiu o ataque dos grupos dominantes que costumam reduzir toda forma de oposição à mera jogada eleitoral ou golpe das elites. Isto, aliás, denota um espírito democrático forte dessa geração, se comparada à dos anos 1960-70, quando predominava o sectarismo e a vontade de domínio de um grupo sobre o outro. Os novos movimentos sociais, nesse ponto, parecem muito mais preparados para enfrentar os velhos cacoetes da esquerda do que as velhas organizações, quase todas capturadas por facções e partidos de viés autoritário.
    O protoanarquismo ensaiado por algumas lideranças, amalgamado ao romantismo antipolítico conservador mais abaixo, tende, todavia, a perder seu papel positivo se, no segundo momento, abrir seu campo de visão para o terreno amplo e intrincado da política, não apenas como conchavo parlamentar, mas também como diversidade e contradição social — este último aspecto mal revelado nas ruas. Sem reunir e organizar os recursos políticos disponíveis e necessários para as mudanças mais profundas, inclusive em termos programáticos e intelectuais, a fragmentação e a espontaneidade vão sucumbir ao jogo pesado dos políticos e das classes sociais organizadas. O fim prematuro da política, tal como historicamente preconizado pelos anarquistas, observou Yuli Martov [1], não só embotou a ação política deste segmento, como teve consequências perversas até para seus críticos, que não observaram apropriadamente o papel da democracia e da participação popular na transformação do Estado e da sociedade, propiciando, inadvertidamente, as condições necessárias para a emergência do totalitarismo no século passado [2].
    Sem adentrar o campo político, portanto do Estado, com todos os apetrechos capazes de amplificar as vozes das ruas no interior da arquitetura democrática de 1988, a mudança almejada pela nova geração pode ter o mesmo fim melancólico das gerações 1970-80, que tentaram fazer política acreditando cegamente em seus partidos dogmáticos e não foram capazes de fazer seus velhos dirigentes abrirem os olhos para a nova realidade democrática do Brasil. Perseguir este objetivo exige ler criticamente a trajetória das gerações passadas, compreendendo seus limites, entendendo suas derrotas e apreendendo as dificuldades inerentes da disputa da direção de um Estado que, ao longo do século passado, ampliou fantasticamente sua capacidade de intervenção na economia e na sociedade de um modo geral.
    Os perigos e as oportunidades que se prenunciam
    Às vésperas do esgotamento da estratégia de compromisso da “Carta aos brasileiros” (2002), que abriu as portas para o Real II e seu enfrentamento da exclusão social com base no incremento das rendas financeiras dos pobres (devedores) em proveito dos ricos (credores) [3], é inquietante para os grupos no poder o surgimento de um movimento que, forjado no vácuo do petismo, alcança grandes proporções entre as camadas mais intelectualizadas antes mesmo que a crise econômica se estabeleça. A preocupação dos principais setores sociais beneficiários do sistema deriva do que pode vir a acontecer com seu domínio se ao descontentamento atual se juntar, num futuro próximo, a fúria dos afetados por uma crise econômica que, indiferente às esconjuras governamentais e suas alquimias, ameaça incapacitar o Estado a continuar promovendo sua legitimação à base da paz social ou, em outras palavras, de benefícios como o bolsa família (cerca de R$ 25 bilhões do orçamento público federal) e o bolsa Miami (cerca de R$ 47 bilhões de evasão de divisas), ameaçado pela depreciação cambial do Real, para não falar da potencial insustentabilidade do bolsa juros (cerca de R$ 200 bilhões do orçamento público federal), que devora recursos vitais para a qualidade de vida de milhões de famílias. Somando a este montante concretamente dispendido o pagamento do principal da dívida pública, sob a forma de nova dívida a ser paga, chegamos ao patamar de 42% do orçamento federal ou cerca de R$ 900 bilhões.
    Mesmo sendo o assunto tema de poucos cartazes nas ruas, seus beneficiários diretos e indiretos não cansam de ameaçar com retrocesso econômico aqueles que apresentam propostas em prol do fim da vandalização do erário público e da desordem das políticas públicas causados pela ditadura do superávit primário, tachando de “estapafúrdia” e “próxima do ridículo” a ideia de um freio neste sangramento sem fim, que une no mesmo barco credores e governos, sejam eles de qual partido for: PMDB, PSDB ou PT.
    O espectro da instabilidade política não assusta somente os grupos no poder e seus dependentes mais diretos, mas até mesmo os setores oposicionistas não beneficiários, temerosos de outro retrocesso, aquele ligado ao fim das liberdades conquistadas na dura batalha pela redemocratização — que lhes custou a vida de inúmeros companheiros — e que para eles é uma ameaça proveniente mais da esquerda do que dos rentistas, embora a esta altura seja difícil subestimar a ameaça que vem da economia.
    O medo do retrocesso entre os petistas, por sua vez, é buscado em outro lugar, na tradição republicana elitista e sua capacidade de instrumentalizar as Forças Armadas em prol dos conservadores — pelo menos desde 1954. O medo do “golpe das elites” impregnou setores das novas lideranças assustadas pelas potências contraditórias liberadas nas manifestações de rua, embora este sentimento não pareça capaz de paralisá-las de todo, servindo, todavia, como um exemplo do modo como o petismo ainda consegue alguma ascendência sobre seus dissidentes.
    O retrocesso que, todavia, salta aos olhos depois de junho — embora os elementos já estivessem todos bem claros antes para quem quisesse encará-los com o mínimo de honestidade intelectual — é o da silenciosa corrosão das instituições democráticas, acicatada pela derrama fiscal da conta financeira do Estado, que não só enfraquece a política pública, como ainda a entorpece pela enorme capacidade de financiamento de campanha. O fracasso oposicionista de forças diversas, como o PPS e o PSOL, em dar resposta ao vazio deixado pela agenda petista de democratização da república — vazio este mascarado pela intensa propaganda oficial, as pesquisas de opinião e vãs esperanças em torno de instrumentos de participação direta, como o Consocial —, deixou para as ruas a tarefa de enfrentá-lo, alimentando os medos atávicos que vemos florescer de todos os lados e com um vigor preocupante em seu potencial paralisante; se não das ruas, pelo menos das velhas lideranças que poderiam vir ao socorro das novas e ainda desorientadas e relativamente incapazes de direcionar sua luta no sentido da agenda construtiva (governo).
    Não só os partidos oposicionistas de esquerda falharam em seus diagnósticos e terapias; também a intelectualidade jovem faltou ao encontro com as ruas. Essencialmente acadêmica e beneficiária da expansão dos gastos públicos na fase da bonança lulista, tal setor, guiado por teorias pretensamente neutras e meramente instrumentalistas ou filosofias integracionistas, enxergou na relativa resignação popular e no desligamento do mundo parlamentar, emoldurado pelo voto, uma poliarquia em franca fase de consolidação e, por isso, deixou de pensar o mundo concreto das coisas em suas contradições para dedicar-se a reforçar a mensagem ideológica progressista do petismo e de sua paz social, seguindo de perto seus mestres encastelados nas agências fomentadoras de carreiras.
    Vemos agora, em meio a todas essas dificuldades e insuficiências, abrirem-se diante de nós as várias portas políticas cujas chaves pareciam sob o controle do bloco no poder. Assim, renasce o esforço teórico-analítico de desvendar a realidade em busca da solução dos problemas reais e não daqueles imaginários, derivados de ideologias hegemônicas e tendentes ao mero esforço individual pelo qualis acadêmico — que vem esgotando as potências intelectuais de seguidas gerações.
    A primeira dessas portas a investigar seria a democrático-representativa, que, apesar de claramente refletida na postura exibida pela maioria dos manifestantes — não obstante os embaraços ideológicos do anarquismo e do romantismo —, tende a ser aberta de maneira tímida em função tanto dos embaraços implícitos à arquitetura dos novos movimentos, como pela fragmentação e desorientação das forças políticas e intelectuais, oposicionistas e situacionistas, capazes de dar-lhes uma boa direção.
    Em particular, deve-se destacar o paradoxo de ser a porta mais coadunada com a Constituição de 1988 a de mais difícil abertura, dificuldade esta plasmada na visão dos herdeiros do comunismo democrático — que se afirmou em 1967, no interior do PCB, como antídoto à esquerda autoritária militarizada —, mais preocupados, à semelhança inversa dos petistas, com o “golpismo de esquerda” do que em interpelar as ruas na perspectiva de sua bandeira histórica do aprofundamento democrático com as ruas.
    Adeptas, em tese, desta saída, as alas mais conservadoras do oposicionismo, doutrinariamente avessas à representação ativa dos cidadãos, embora não ao empreendorismo econômico, preferem pegar o desvio à direita do liberal-representativo, onde podem desfrutar do conforto de uma democracia sazonal e limitada, fingindo não entender que ela está no centro da atual crise e que tende a agravá-la, deixando de ser, portanto, uma alternativa real. A insistência desses setores em reduzir a crise ao desgoverno — certamente não de seus partidários — apenas explicita sua visão eleitoreira da política que, nas circunstâncias atuais, quando as ruas desfazem o fetiche da circulação das elites, encolhe as chances dos pescadores eleitorais de águas turvas e tende a pôr por terra as estratégias políticas em termos estritamente liberais.
    Isto tudo acaba beneficiando a porta historicamente mais conhecida entre nós: a nacional-populista, que não apenas é forte em termos culturais, como tem potenciais lideranças mobilizáveis em variados espectros ideológicos. Embora historicamente de caráter socialmente democratizante e politicamente conciliador — ou seja, não necessariamente democrática em sentido político, mas certamente antípoda à tradição elitista republicana —, tal porta costuma se abrir sob o comando de lideranças carismáticas mais capazes de tirar proveito das vantagens eleitorais da desigualdade social do que propriamente de resolvê-las, inclusive usando as dificuldades das soluções para avançar sobre as instituições democráticas por vários vieses, como outrora o fizeram Quadros, Goulart e Brizola nos anos 1960.
    As hesitações e insuficiências das forças postadas à frente da primeira porta criam boas perspectivas para as forças abrigadas na segunda, sendo já possível divisar, na relativa preservação da popularidade de Lula em meio à crise, um possível fio condutor para a (pseudo)solução eleitoral do impasse, ironicamente em detrimento das forças oposicionistas que reduzem tudo às urnas, com as mesmas regras que não lhes parece urgente mudar.
    A última grande porta que se apresenta à mão das forças político-sociais ora em movimento era, até há pouco, tida como definitivamente fechada pelos oráculos do regime. Ocorre que de nenhuma perspectiva histórica digna do nome se pode deixar de considerá-la: a porta liberal-autoritária, com seu foco tradicional na manutenção da “ordem” e na expressão eleitoral estritamente controlada da vontade popular por meio de um sistema partidário restritivo e “responsável”. No limite, esta porta costuma se abrir quando todas as outras se fecham para os interesses fundamentais do capitalismo brasileiro. Os setores mais conservadores, da oposição e da situação, que temem o risco do retrocesso, muitas vezes, na verdade, o que fazem é anunciar, de maneira diplomática, seu engajamento no partido da ordem ao menor sinal de “descontrole popular” ou de “desordem econômica”. De certa maneira, a rebelião da base aliada do governo, depois de junho, prenuncia que o velho camaleonismo partidário começa a ganhar contornos programáticos conservadores tendentes a uma coalizão mais coerente. Mas, para que esta aposta se concretize, é necessário que Aécio ou Campos se credenciem eleitoralmente a liderá-la, visto que Serra e Marina são candidaturas mais controversas em relação ao sentido pretendido.
    A viabilidade política de cada uma dessas portas, naturalmente, dependerá de forças que vão muito além daquelas envolvidas na revolta em si, e das respostas que sejam capazes de produzir em face dos desafios colocados e de novos que se insinuam – embora, como já foi assinalado, a ampliação da capacidade política dos revoltosos possa reservar a eles um protagonismo importante nesse processo. De qualquer modo, é de se esperar que, mesmo que a movimentação de rua arrefeça, diluída em reivindicações centrífugas de seus variados grupos — como seria normal esperar neste caso —, o certo é que ele deverá migrar para um estado de latência não menos ameaçador. Diante disso, é preciso explorar algumas variáveis que podem se colocar diante das portas em tela, beneficiando a abertura de umas em detrimento de outras.
    Em especial, é preciso levar em conta a possibilidade da luta pelas reformas (política, judicial, legislativa, econômica, etc.) nas ruas se confrontar com os exércitos eleitorais das forças oligárquicas acantonadas por detrás dos partidos fisiológicos, a partir de um sistema eleitoral que reluta em se reformar de imediato, por motivos aqui em parte já descritos. Neste caso, o sistema eleitoral prosseguirá intacto em sua capacidade cooptadora, alimentando o real perigo de sérios enfrentamentos de rua entre as forças da mudança e o infeliz exército dos dependentes das oligarquias, que, no controle de vastos setores do Estado, não teriam por que não usar desses recursos para manter seu caminho livre ao poder. Tal enfrentamento, porém, só seria possível se a crise não afetasse a confiança dos dependentes na estabilidade do pacto oligárquico que os sustenta em diferentes níveis da escala social — caso contrário, eles poderiam se juntar aos revoltosos, não sem prejuízos éticos ao movimento de junho.
    O potencial confronto entre os dois setores sugere uma luta de classes às avessas, com as classes médias autônomas, de peso amplificado pelas políticas de inclusão desde o Governo Itamar, representando a massa popular do Brasil moderno, enquanto os dependentes surgem como expressão do ciclo modernizante abortado pelo colapso do “milagre brasileiro” (1967-73), com seu lumpesinato acantonado nas franjas do sistema legal — e mesmo em seu interior — na forma de um exército de reserva de baderneiros prontos a desempenhar o papel de ponta de lança das oligarquias, e outros setores dependentes, na resistência de rua às mudanças.
    Mesmo na hipótese de que a crise econômica, inibindo as engrenagens cooptativas do Estado, desarme a armadilha montada com os marginais, é de se esperar que seu engajamento no outro lado se faça sob a égide do mais desabrido vandalismo, em oposição aos sentimentos democráticos das ruas. A antevisão das classes dirigentes em relação a este perigoso contexto, para além do mero instinto de sobrevivência, está por trás do destravamento das instituições republicanas que estamos assistindo em todo os poderes do Estado e até em setores do setor privado — como se vê no congelamento dos altos juros privados mesmo em face da recomposição da taxa Selic; o que não significa que elas tenham qualquer escrúpulo em utilizar a possível desordem em proveito da alternativa autoritária já referida.
    Ansiosos por manterem-se preservados da fúria popular, tanto os políticos como os rentistas atuam com doses maciças de demagogia e publicidade, num esforço de desassociação como grandes beneficiários das políticas públicas de regulamentação frouxa, quer da vida pública, quer do sistema financeiro e sua cobrança extorsiva de taxas de empréstimos automáticos aos setores populares, assim como da imensa dívida pública, cujo custo orçamentário é quase o dobro do investimento público federal (R$ 108,7 bilhões), com significativo impacto sobre a qualidade dos serviços públicos.
    A agenda concreta
    O desafio que está posto para todas as forças políticas a partir das manifestações de junho foi, na verdade, imposto por décadas de desvirtuamento institucional sob o beneplácito de coalizões dirigidas por elites organizadas no PMDB, PFL-DEM, PSDB e PT. Querendo ou não, é chegada a hora de encarar de frente a fatura de uma “consolidação democrática” que obstruiu os canais parlamentares e políticos (partidos) por onde deveriam fluir a representação e deixou burocratizar os novos instrumentos de participação direta, como os conselhos de direitos, relegando ainda à marginalidade as consultas populares constitucionalmente previstas sobre variados assuntos temáticos que o Parlamento não quer ou não se mostra capaz de equacionar. A agenda da re-redemocratização, inferida das ruas, pode ser, assim, resumida como a restauração da representatividade das instituições políticas e a desburocratização das novas agências participativas, ao par do desengavetamento das consultas populares e da inovação institucional em direção a uma democracia mais participativa e coetânea.
    A situação de hoje, em função das largas e profundas distorções produzidas ao longo de mais de duas décadas, exige um esforço reformador quase constituinte, e, deste ponto de vista, é inequívoco o acerto das forças políticas que propuseram a Constituinte específica já. Embora se possa obstar uma série de argumentos políticos e jurídicos, isoladamente válidos, contra a proposta, jamais se pode defini-la como “mera manobra diversionista” diante da gravidade da crise. Seja por quais canais será enfrentada a questão — a constituinte teve o mérito de dar a dimensão correta, embora, talvez, sob a forma errada, ao problema que as ruas desnudaram —, o fato é que a resposta tem que ser urgente; não há tempo a perder para aqueles que querem o aperfeiçoamento e o desenvolvimento das instituições democráticas de 1988. A excessiva cautela e o medo da participação, expostos pelos partidos moderados da situação e da oposição, em conúbio, só podem ser entendidas pelos setores mais avançados da sociedade brasileira como um pacto suprapartidário contra a mudança ou por mudanças controladas desde cima. A velha fórmula da mudança lenta, gradual e segura, que está na base do modelo de dominação capitalista brasileiro com a preponderância do conservadorismo sobre o liberalismo, como nos mostraram Caio Prado Jr., Sérgio B. Holanda, Raimundo Faoro e Florestan Fernandes, entre outros, é parte do problema a superar, não da solução [4].
    Os riscos que o PT, em particular, corre sustentando sua proposta de urgência em sintonia geral com as ruas — que, naturalmente, pode esconder pretensões políticas antidemocráticas oriundas de seus setores populistas e extremistas —, é o de empurrar sua base aliada conservadora em direção à oposição liberal-conservadora às vésperas de importantes definições de alianças eleitorais, risco este que embute outro de igual potência para os oposicionistas: o de serem identificados com a mesma base parlamentar responsável pela crise — o que encontra confirmação histórica no fato de que a oligarquia política da era petista não ser de natureza diversa daquela do período tucano. No momento, parece claro que a oposição liberal-conservadora aposta suas fichas na aproximação com a base governista em decomposição, sem se importar muito com os oderes que esta exala, e já proclama o fim da era Lula sem se dar conta de que é forte candidata a dividir o ônus da crise com o mesmo governo que pretende derrotar nas urnas.
    A reforma política, designação genérica a um conjunto de reformas que abarca desde o sistema eleitoral até a reforma judiciária concernente à contenção dos crimes cometidos no âmbito dos Três Poderes, passando pelo sistema partidário e legislativo, deve ser encarada como um verdadeiro desafio programático que envolve todas as forças sociais, dentro e fora do Estado. Concebê-la de outra forma é não entender o transbordamento democrático das ruas e sinalizar para elas, à moda de Schumpeter [5], condescendência com o político profissional e seus protopartidos, o que patenteia escassa compreensão da natureza da crise e do verdadeiro significado da herança de 1988.
    A reforma política inadiável pode ser levada a cabo combinando-se múltiplos instrumentos: comissões parlamentares abertas à participação social, projetos de lei de iniciativa popular, plebiscitos e referendos podem ser utilizados numa hierarquia de temas por critérios temporais, meritocráticos e consensuais, visando respostas de curtíssimo e curto prazo. Se a sociedade, em termos gerais, tem dificuldade em entender a reforma política em toda a sua extensão técnica, o mesmo não se pode dizer de seu sentido político geral, claramente intuído pelos manifestantes ao bradarem não contra a democracia, mas contra o funcionamento do sistema democrático, não contra o Estado, mas contra seus aparatos burocráticos, não contra seus técnicos, mas suas soluções, etc. O problema parece residir na outra ponta, onde grande parte dos dirigentes, lideranças e especialistas demonstram genuína dificuldade em compreender o sentido geral destas postulações, num preocupante sintoma, no caso dos últimos, de como o sistema universitário vem especializando seus técnicos de maneira acrítica e unilateral em nome de um mérito que reduz o conhecimento à progressão num ranking quantitativo de iniciativas formais, não raro estranhas à realidade e à natureza mesma das coisas.
    Não é tarefa fácil reverter esse quadro diante da magnitude das distorções acumuladas em largos setores da vida social, do setor público ao educacional, passando pelo político, num despreparo e desvirtuamento cultural que, à luz de Sócrates (469-399 AC), não pode ser subestimado como um dos elementos básicos do amesquinhamento da nação como um todo. Também nesse ponto, é preciso se espelhar na postura majoritariamente madura e compreensiva das ruas para afastar os medos e restaurar a capacidade de fazer política em sentido real e não meramente instrumental, com a sociedade e não a despeito dela.
    Assim como a luta pela redemocratização só pôde evoluir na mesma medida do engajamento social na arena política, a re-redemocratização necessita da mesma energia vital. Este é o desafio que devemos encarar por nosso compromisso democrático, que não pode ser confundido, à guisa de projetos eleitorais, nem com a aposta populista da manipulação dos pobres por meio de bolsas nem com a redução liberal da democracia às instituições esclerosadas titulares da representação – que as oligarquias consideram suas.
    É justo que as oposições, moderadas ou radicais, queiram assumir os governos por meio do voto na esteira da crise política; afinal, cabe ao situacionismo, em seus 11 anos de poder na esfera nacional, parte da responsabilidade pela incompetência denunciada nas ruas. Mas não conseguirão fazê-lo ao arrepio das expectativas populares mobilizadas, sob pena de acabarem identificadas com a opressão que se quer eliminar — identificação esta que, diga-se de passagem, o PT vem fazendo com sucesso desde 2002 contra seus principais adversários, apesar de se basear nela para governar desde então —, ou, se conseguirem, correm o risco de cair vitimadas pelas mesmas alianças que fez o PT, incapaz de resolver os graves problemas nacionais, e, de quebra, agravar a dominação oligárquica à sombra de uma Constituição que eles sempre subestimaram.
    A massa jovem que irrompeu nas ruas é órfã da democracia em dois sentidos: um novíssimo, representado pela corrosão ético-programática do PT nos ambientes dos podres poderes; outro, tão antigo quanto a própria República, representado pela histórica subordinação do voto das parcelas mais pobres da população à vontade das oligarquias geolocalizadas, detentoras da maquinaria estatal e do poder econômico. Às gerações mais velhas e experimentadas da luta política, estejam onde estiverem, cabe o despreendimento e o descortínio para ajudar as novas gerações a virar esta página nova e velha de nossa história, numa perspectiva democrática, ou seja, longe dos velhos cacoetes de caráter autoritário (blanquista) ou oportunista (social-democrata).
    ———



    Por Hamilton Garcia de Lima
    Publicado em Gramsci e o Brasil

    Hamilton Garcia de Lima é cientista político e professor da Uenf-Darcy Ribeiro.

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    Notas
    [1] In P. Luquet et alii, A Comuna de Paris, Rio de Janeiro, Laemmert, 1968.
    [2] A respeito da diversidade e complexidade desse processo na Rússia e na Alemanha, ver B. Moore, Injustiça – as bases sociais da obediência e da revolta, São Paulo, Brasiliense, 1987.
    [3] Ricos detentores da dívida pública ingurgitada de juros e da dívida privada (cheque especial e cartão de crédito) com taxas de agiotagem chanceladas pelo BC.
    [4] Respectivamente, Evolução política do Brasil (1933), Raízes do Brasil (1936), Os donos do poder (1958) e A revolução burguesa no Brasil (1975).
    [5] Capitalismo, socialismo e democracia (1942)

    segunda-feira, 24 de março de 2014

    "Mi Amigo Hugo" (documentário) - Oliver Stone - 2014 - LegendadoPTB

     Quem foi Hugo Chávez? Por que foi tão odiado pela grande mídia? Era mesmo um "ditador" autoritário e repressor? Como era e o que pensava sua equipe? O novo documentário de Oliver Stone, "Mi Amigo Hugo" (lançado em março de 2014), oferece algumas pistas para refletirmos sobre essas e outras perguntas. Desta vez, o diretor de "Platoon", "Nascido em 4 de julho", "The Doors" e "JFK", lança uma bomba no silêncio da mídia sobre a verdadeira personalidade de um homem tão amado e odiado quanto proibido.

    Produção: TeleSur (2014)
    Direção: Oliver Stone

    Este vídeo foi traduzido e legendado voluntariamente pelo canal OCUPA TV (um esforço que exigiu vários dias de trabalho). Pedimos que não o republiquem em outros canais, em respeito ao esforço deste canal em trazer ao público brasileiro vídeos legendados exclusivos sobre a América Latina. Por uma internet ética e justa, valorize e compartilhe somente o original.



    sábado, 8 de março de 2014

    NOTÍCIA 'PADRÃO LIXO'


    NOTÍCIA 'PADRÃO LIXO'

    O Jornal Nacional, vitrine principal do dito 'jornalismo profissional' das Organizações Globo decidiu fazer hoje um novo desafio à realidade dos fatos para 'contar ao Brasil' a versão 'oferecida pelos patrocinadores' sobre a greve dos garis do Rio.

    Diferentemente daquilo que a população testemunhou nas ruas, com a 'onda laranja abolicionista' dos garis tomando o centro da cidade e sendo ovacionada pelos cariocas a 'notícia padrão lixo' da Família Marinho e seu principal telejornal optou pela narrativa da volta ao trabalho dos garis limpando a cidade, coagidos pelos PM, depois de 7 dias de greve e fez isso ainda na contramão da quase totalidade dos veículos de jornalismo digital.

    A Rede Globo tenta com isso dar por sepultado o movimento grevista dos garis do Rio que conquistou amplo apoio popular e vem tocando o coração dos brasileiros. O 'jornalismo profissional' praticado por eles faz isto no mesmo dia em que a cidade do Rio de Janeiro viveu sua mais bela manifestação popular depois de junho.

    Faz isto quando milhares de brasileiros pobres e negros ousam desafiar o sindicato pelego da categoria, o prefeito autoritário da cidade, a máquina policialesca do Estado e seguir em sua luta justa por direitos e melhores condições de vida, à revelia inclusive da própria Globo. Só um jornalismo cúmplice da elite escravocrata do Brasil, profundamente atrelado aos interesses dos poderes estabelecidos é capaz de se prestar a tamanho desserviço social e negar a própria função social da notícia no capitalismo da informação.

    Todos sabemos da imensa parcela de responsabilidade que a 'TV da Ditadura' tem sobre as enormes mazelas sociais ainda latentes em nossa sociedade. Depois da massificação das redes sociais e com a realidade política que emergiu no Brasil pós-junho, insistir na manipulação vergonhosa da narrativa não sepultará a luta popular mas sim qualquer resquício de utilidade pública que possa ostentar o maior conglomerado de comunicação do país e ainda acabar convencendo o Brasil inteiro que os jornalistas e editores que se prestam a este papel não merecem sequer o salário vergonhoso dos garis.

    O povo não é bobo, os garis moram no coração da cidade e só a Globo finge não saber disso. Não há governo, PM, TV nem FIFA capaz de interromper a luta do povo do Brasil por DIREITOS.

    quarta-feira, 5 de março de 2014

    O carnaval como máscara e fantasia

    Três coisas bem associadas: carnaval, máscara e fantasia. Na atual configuração sociocultural as três coisas me parece ainda mais inseparáveis. Mais que casadinho e queijo com goiabada.



     

    A palavra máscara, tem duas origens. Vem do Latim “mascus” que significa fantasma; e do árabe “maskharah” que significa palhaço ou homem disfarçado. Já a palavra carnaval possivelmente vem do latim clássico “Carnen Leváre”, substantivo que significa "abstenção de carne". Seria uma alusão ao fato de que no carnaval seria os últimos dias para comer carne antes da quaresma, ou talvez significando a “despedida do corpo”, sendo os dias separados para satisfazer as necessidades carnais antes do período religioso. Fantasia tem sua origem do verbo Grego “Phaínein”, que significa “fazer aparecer”. É por meio da fantasia que faz-se notado. 
    A máscara está associada a representação de um personagem criado para entretenimento. É justamente nesta festa que as máscaras são muito usadas. Um dos mais renomados antropólogos brasileiros, Roberto DaMatta, afirmou que é no carnaval que surge a possibilidade de grupos e classes sociais distintas se encontrarem, constituindo-se uma festa para todos; “(..) um cenário e uma atmosfera social onde tudo pode ser trocado de lugar (...)”. É nesse período que um gari pode usar máscaras. Representar aquilo que ele de fato gostaria de ser, são sabendo que é um mascarado, ou, em árabe, um palhaço que faz uns poucos rirem; rirem de sua ilusão. Época de mascarar seu fracasso, na maioria das vezes imposto sobre ele por nosso país do carnaval. É também nesse período, como em muitas outras oportunidades, que o poder público marcara a realidade sob as máscaras tradicionais do pão e circo.
    No carnaval todos podem usar suas fantasias. O mais excluído e fraco indivíduo pode se fantasiar de rei, de empresário, de jogador de futebol bem sucedido e o que mais desejar em seus sonhos adquiridos em noites de insônia. Dizia DaMatta, que “[...] por tudo isso, o carnaval é a possibilidade utópica de mudar de lugar, de trocar de posição na estrutura social”. É de fato o momento da fantasia. De tirá-la do armário e do baú do pensamento e trazer para a rua, como se tudo fosse possível. Fantasias e mais fantasias... pena que só fantasias. Fantasias confeccionada pela ideologia do carnaval; a festa da carne que se consome antes do dia santo chegar... antes do indivíduo partir para os braços do seu Criador. Até lá, a carne vai sendo consumida nas brasas do descaso público, no que chamam de inferno presente... amanhã, quem sabe não é dia santo?
    Em meio ao entretenimento carnavalesco, os foliões vão usando suas máscaras e fantasias, dando formato a maior festa brasileira de representação da realidade fantasiosa... Ali, carnaval, máscara e fantasia são mais inseparáveis que casadinho e queijo com goiabada.
    Por Cristiano Bodart
    • Texto originalmente escrito para o Jornal Hora Aghá. 10 de Fev. de 2013.

    terça-feira, 4 de março de 2014

    Caio Prado Junior - formação social brasileira e relações de classe

    Para quem busca ler os textos de Caio Prado Junior ou até aos que já
    tenha realizado a leitura deles o vídeo abaixo é uma boa aula para
    esclarecer alguns pontos sobre o pensamento desse grande pensador
    brasileiro.



    segunda-feira, 3 de março de 2014

    The Square (A praça) - Legendado pt-br

    Uma revolução não tem um roteiro prefixado ! Ela acontece em um ritmo desordenado, de avanços, recuos, movimentos acelerados e mesmo períodos de total imobilidade . E por isto, é no próprio processo revolucionário que seus integrantes vão amadurecendo e dominando a sua própria complexidade.
    Em momentos em que o povo brasileiro , ainda que timidamente se põem em movimento, nada como olhar a experiência do movimento revolucionário de outros povos . E nesse sentido olhar para o processo revolucionário em curso no Egito nos faz pensar sobre os nossos próprios caminhos .
    O filme The Square ( A Praça ) é resultado da atuação política da diretora Jehane Noujaim que foi criada nas cercanias da praça que inspirou o título do documentário, a Tahrir, no centro do Cairo. Embora fazendo carreira no exterior , quando tiveram início as manifestações contra Hosni Mubarak, ela voltou para o Cairo e começou a rodar o documentário .Nas ocupações da Tahrir, que persistiram 18 dias, até o ditador ser afastado, Noujaim conheceu a equipe com a qual iria trabalhar e também os personagens do filme que inclusive está concorrendo ao Oscar de 2014.
                                                                  

    Um mundo em crise

    Fim do Jogo
    Um artigo de Claus Peter Ortlieb*

    Após ler o texto assista ao premiado documentário : Trabalho Interno , que disseca a última crise global do capitalismo.

    Por que é que a desvalorização geral do dinheiro é apenas uma questão de tempo

    “É precisamente a recorrência das crises a intervalos regulares, apesar de todas as advertências do passado, que exclui a ideia de que as suas causas profundas se poderiam encontrar na desonestidade de alguns indivíduos. Se, ao fim de um determinado período de comércio, a especulação parece ser o precursor imediato do colapso, não deve ser esquecido que esta mesma especulação nasceu nas fases anteriores deste período, do qual representa um resultado, uma manifestação, não a causa principal ou a essência. Os economistas que pretendem explicar pela especulação as convulsões periódicas da indústria e do comércio fazem lembrar a escola, entretanto desaparecida, dos filósofos da natureza que consideravam a febre como a verdadeira causa de todas as doenças.”

    Karl Marx, A Crise do Comércio na Inglaterra, 1857, MEW 12, p. 336
    130 anos depois de Marx, parece que a grande maioria dos economistas ainda considera “a febre como a verdadeira causa de todas as doenças.” Segundo eles a crise em que hoje continuamos imersos teria começado em 2008 com o crash financeiro que se seguiu à falência do Lehman Brothers. A causa seria, portanto, uma crise do sistema bancário, cujos títulos em grande parte perderam o valor praticamente do dia para a noite. A fim de evitar o colapso total do sistema financeiro, os Estados tiveram de vir resgatar os bancos com dinheiro dos contribuintes. O estouro das bolhas especulativas também deu origem a uma grave recessão na economia real. Para fazer face a ela foram postas em prática em todo o mundo pacotes públicos de estímulo à conjuntura económica, num total de cerca de três biliões de dólares só em 2009, o que permitiu evitar uma depressão comparável à dos anos de 1930 – excepto, infelizmente, nos países do sul da Europa.
    Desde então, estamos confrontados com uma “crise da dívida pública” no contexto dum abrandamento continuado da economia e agrava-se a disputa entre “neoliberais” e “keynesianos” sobre o que fazer nesta situação. Enquanto a doutrina dominante radicalmente orientada para o mercado, ignorando a história da crise mesmo a posterior a 2008, considera que “temos vivido acima das nossas possibilidades” e que agora temos de combater a dívida pública inspirados no modelo microeconómico da “dona de casa da Suábia” – os macroeconomistas keynesianos, por sua vez, referem-se ao prémio Nobel Paul Krugman apontando para as suas obras: “É na fase de expansão e não na fase de desaceleração que deve ser aplicada a austeridade. Hoje, o Estado deve gastar mais, e não menos, até que o sector privado seja capaz suportar a retoma da economia.”
    Pontos comuns entre adversários
    Neste caso os adversários talvez tenham mais em comum do que gostariam. É que eles, tanto num campo como no outro – ao contrário de Marx – não têm qualquer conceito de crise sistémica e consideram sempre os inegáveis fenómenos de crise devidos unicamente à má conduta de alguns agentes económicos, pelo que a saída da crise seria apenas uma questão de tempo e de escolha dos meios adequados.
    Nos manuais de economia política típicos da economia neoclássica a palavra “crise” geralmente não se encontra. A crise não pode acontecer, pois de acordo com esta doutrina, à parte distúrbios transitórios, os mercados estão sempre e em toda parte em equilíbrio, ou seja, oferta e procura combinam perfeitamente, e se por acaso os factos empíricos não o confirmam isso só poderá vir de influências externas ao mercado, as quais, portanto, precisam de ser eliminadas, o que justifica a política de austeridade para restaurar a “competitividade”.
    O keynesianismo, por sua vez, conhece a situação de crise e define-a, como Keynes constatou para os anos de 1930, em termos de “estado de actividade cronicamente inferior ao normal, que se estende por um período de tempo considerável sem uma tendência marcada para a retoma ou para o completo colapso”. Pois “graças às análises de cientistas da economia desse tempo, como Keynes, e a uma ampla gama de pesquisas e estudos posteriores, sabemos hoje exactamente o que teria de ser feito então pelos decisores políticos. Essas análises dizem-nos exactamente o que devemos fazer para combater o mal que estamos sofrendo”. Como se vê, também para Paul Krugman só existe um estado de crise permanente quando os políticos não fazem o que deveriam fazer, ou não fazem mesmo nada, e isso é precisamente o principal das críticas de seu livro Um basta à depressão econômica! [original: End This Depression Now!, 2012] dirigidas aos políticos, particularmente aos políticos alemães. Note-se também que a justificação das medidas keynesianas quase se pode dispensar de qualquer determinação prévia das causas da crise. As crises aparecem como meros acidentes que podem atacar de vez em quando a actividade económica, mas que nós sabemos como enfrentar.
    Se falta a todos estes economistas o conceito de crise sistémica, isso decorre da sua má compreensão do significado e propósito das economias capitalistas, equívoco encontrado no preâmbulo de quase todos os manuais de economia política. Neles, aliás, não se fala de capitalismo, mas argumenta-se que desde a Idade da Pedra até ao presente a economia sempre visou o abastecimento e consumo de bens que, infelizmente, se tornam agora cada vez mais escassos, razão pela qual nem todos podem ter tudo o que queriam. Ora hoje qualquer criança sabe que não são os bens que faltam, mas sim o dinheiro para os comprar, e que o objetivo de qualquer economia capitalista é apenas fazer do dinheiro mais dinheiro, enquanto a satisfação das necessidades é, no máximo, um efeito secundário, certamente bem-vindo, mas nem sempre viável. Apenas os economistas não sabem isto. Neste sentido, podemos considerar o ensino da economia política como um esforço para erradicar sistematicamente das cabeças dos alunos este conhecimento que já fez suspirar tantos empresários, os quais fariam melhor em ler Marx que pelo menos percebeu como o capitalismo funciona.
    O conceito de crise sistémica em Marx
    É, sem dúvida, apanágio da crítica da economia política de Marx ter destacado o facto de que o capitalismo é um modo de produção com duas formas de riqueza: além da riqueza material concreta, que tinha sido conhecida por todas as formações sociais, o capitalismo tem uma segunda forma de riqueza, que Marx chamou “valor”, uma forma abstracta e dominante de riqueza expressa em dinheiro e medida pelo tempo de trabalho. A valorização do capital visa aumentar essa riqueza abstracta, sendo indiferente se produz bombas ou sapatos para crianças. Não pode, no entanto, prescindir completamente da produção de riqueza material, embora esta seja um efeito secundário e não o objectivo da operação, que é apenas a produção de mais-valia. A economia política antes e depois de Marx identificou simplesmente estas duas formas de riqueza como “riqueza em si”, falhando assim a especificidade histórica do modo de produção capitalista. Particularmente as crises associadas a este modo de produção tiveram de permanecer um enigma para ela.
    O conceito de crise sistémica desenvolvido por Marx em síntese baseia-se na ideia de que as duas formas de riqueza capitalista podem entrar em conflito uma com a outra, e que esta contradição não apenas se repete, mas também aumenta cada vez mais. Como a multiplicação de riqueza abstracta exige a produção e venda de riqueza material, valorizar e acumular capital com sucesso exige a constante expansão da produção material e dos mercados. Uma vez que para a oferta de mercadorias crescente e em princípio ilimitada só pode haver uma procura solvente limitada, o processo de valorização entra em crise. Isso resulta em excesso de produção, ou seja, mercadorias não vendáveis, e excesso de acumulação, ou seja, capacidade de produção não plenamente utilizável, despedimentos em massa, fecho de empresas e, finalmente, a fuga para a especulação do capital já insusceptível de valorização real.
    A recorrência de tais crises na história do capitalismo não constitui um eterno retorno do mesmo, pelo contrário, as duas formas de riqueza continuam a divergir cada vez mais uma da outra com o aumento de produtividade, um fenómeno que Marx chamou “contradição em processo”: “o próprio capital é a contradição em processo, na medida em que se esforça por reduzir o tempo de trabalho ao mínimo, enquanto, por outro lado, coloca o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza.” (Grundrisse, MEW 42, p. 601) O capital baseia-se na exploração do trabalho, mas ao mesmo tempo expulsa gradualmente o trabalho do processo de produção, destruindo assim a sua própria base. Como o tempo de trabalho é a medida de valor, o aumento da produtividade significa que a obtenção da mesma riqueza abstracta requer a produção e venda de quantidades cada vez maiores de output material. É por isso que as crises se agravam e se prolongam cada vez mais no tempo e no espaço: “A produção capitalista tende a ultrapassar constantemente os limites que lhe são imanentes, mas só o consegue com meios que voltam a impor-lhe esses limites numa escala nova e maior. O verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital.” (Karl Marx: Das Kapital, liv. 3, MEW 25, p. 260)
    As causas de longo prazo da crise
    A última vez que o capital foi capaz de cumprir com a obrigação de expansão em grande escala que resulta da desmedida da riqueza abstracta foi após a Segunda Guerra Mundial, durante o boom fordista, a “idade de ouro do capitalismo” (Eric J. Hobsbawm) e também do keynesianismo. O fordismo baseava-se no trabalho industrial em massa em linha de montagem e no consumo em massa, e pressupunha o correspondente aumento dos salários reais e a construção de sistemas de segurança social, bem como o investimento do Estado em infra-estruturas e no sistema de ensino. Nesta fase de expansão, as flutuações cíclicas podiam efectivamente ser compensadas por programas públicos de estímulo à conjuntura económica (“controle macroeconómico” e “acção concertada”, no caso da Alemanha) e é deste período que as receitas defendidas pelos manuais keynesianos derivam a sua justificação.
    Esse tempo acabou. Já na década de 1970, o boom fordista – também devido ao aumento da produtividade – atingiu os seus limites, contra os quais a política económica keynesiana se mostrou impotente. Seguiu-se uma fase de “estagflação”: os programas públicos de estímulo à conjuntura económica já não eram capazes de estimular a acumulação de capital auto-sustentável e tiveram por resultado taxas de inflação por vezes de dois dígitos. Aqueles que, como Krugman, defendem a retomada de tais programas para sair da crise seria melhor que meditassem em primeiro lugar sobre o fracasso do keynesianismo dessa época. Pois é aí que está a origem da actual crise e não em 2008.
    O neoliberalismo foi a resposta a esse fracasso, uma reação à crise da economia real para permitir a continuação da obtenção de lucros, embora a base capitalista séria para fazê-lo começasse a contrair-se. Um dos seus componentes foi a desregulação do sector financeiro, ampliando assim as possibilidades de criação de dinheiro através do crédito. É próprio dos planos de saída da crise que, na ausência de oportunidades de investimento reais, os lucros já realizados fluam para os mercados financeiros, alimentando assim a especulação. Mas o neoliberalismo elevou a programa este movimento de esquiva e adiamento temporário da crise e criou a ilusão de que “o capitalismo dirigido pelas finanças” seria o novo modo de regulação. A autonomização do capital financeiro foi sempre um sintoma de crises capitalistas, mas certamente que não a sua causa. A particularidade da actual crise, que já dura há quase 40 anos, é a extensão espacial e temporal do processo. A desindustrialização de países inteiros em benefício da nova “indústria” financeira, por exemplo, a Grã-Bretanha sob Margaret Thatcher, não tem precedentes na história.
    Deste ponto de vista, e contra a sua própria doutrina monetarista, o neoliberalismo não era outra coisa senão a continuação do keynesianismo por outros meios, nomeadamente no sector privado. No lugar dos Estados entraram os credores privados, financiando com empréstimos também a economia real e permitindo-lhe continuar a operar. Simultaneamente a transferência de enormes quantidades de dinheiro do consumo de massas para o sector financeiro fez desaparecer a inflação, ou, mais precisamente, ela deslocou-se dos mercados de bens de consumo para os mercados de acções e de imóveis (asset inflation), um efeito que veio mesmo a calhar, pois os proprietários dos respectivos títulos de propriedade puderam assim considerar-se ricos.
    É claro que “o mais gigantesco programa de estímulo à conjuntura económica financiado a crédito jamais visto” (Meinhard Miegel) assim posto em movimento, que consiste em última análise em saldar dívidas com novas dívidas, é tão difícil de sustentar a prazo como é difícil os esquemas de vendas em pirâmide criarem riqueza. Em resultado disso, ao longo das últimas três décadas vimos o montante global da riqueza em dinheiro e em títulos magicamente multiplicado por vinte, mas sem que lhe corresponda nenhum valor real. Bastou o estouro de uma pequena parte destas bolhas em 2008 para empurrar o sistema bancário para a beira do colapso, do qual só foi salvo pela intervenção dos Estados, que desde então têm de enfrentar a crise da dívida pública e uma recessão mais ou menos grave.
    Andar às aranhas com os efeitos da crise
    Por causa das quantidades de dinheiro que se acumularam numa dimensão inimaginável e que continuam a crescer com a política de taxa de juro zero dos bancos centrais, a desvalorização geral do dinheiro é apenas uma questão de tempo. O argumento usual dos keynesianos, apontando que é óbvio que uma grande quantidade de dinheiro não conduz necessariamente à inflação, não deixará de se revelar enganador. O risco de inflação, de facto, só está afastado enquanto o dinheiro circula de modo auto-suficiente no céu financeiro. Mas logo que ele se volta para as coisas deste mundo a inflação é alimentada. É o que se pode verificar já nos últimos tempos nos mercados de matérias-primas e bens alimentares, bem como mercados imobiliários e de habitação em vários países, com o que as rendas nas principais cidades alemãs se tornaram inacessíveis para muitos.
    As medidas propostas para fazer face a esta situação, supondo que elas realmente foram projectadas para nos fazer sair da crise, parecem estranhamente irreais. Neoliberais ou keynesianos, todos se recusam a ver que desde há quase quarenta anos a economia real só tem sido mantida a funcionar através do endividamento. Uma política de austeridade que pretenda pôr fim a isto leva inevitavelmente à depressão. Por outro lado, os programas keynesianos de estímulo à conjuntura económica limitam-se a prosseguir ad infinitum esta política de endividamento, porque o sector privado nunca mais estará em posição de servir de suporte à retoma.
    Durante os últimos quarenta anos de crise, a produtividade na Alemanha (valor acrescentado bruto por hora de trabalho, de acordo com os dados do Serviço de Estatística alemão) viu-se multiplicada por três na indústria e por seis na agricultura. O trabalho torna-se cada vez mais desnecessário para produzir riqueza material, mas assim a produção de mais-valia real, baseada na exploração do trabalho, torna-se cada vez mais impossível. A incapacidade de o modo de produção capitalista considerar a possibilidade aqui surgida de uma vida sem trabalho revela-se, entre outras coisas, no facto de que, por amor de uma “competitividade” ilusória, se pretende agora abolir a siesta nos países do sul da Europa, devendo assim ser finalmente introduzida a ética protestante do trabalho.
    A saída da crise já só é possível na via da abolição da forma abstracta de riqueza e com ela do modo de produção capitalista, que terá de ser substituído por uma orientação social unicamente em função da riqueza material, seja essa orientação como for. Enquanto tal perspectiva permanecer irrealista, enquanto parecer que temos de escolher realmente entre a austeridade e os planos de estímulo keynesianos, estes são obviamente preferíveis. A política de austeridade neoliberal leva a sacrificar à conservação de um sistema insustentável um número cada vez maior de seres humanos que não contam para o sistema por se terem tornado supérfluos para a valorização do capital. É certo que os programas keynesianos também têm o objectivo ilusório da salvação do sistema, mas fazem isso de modo mais tolerável, na medida em que não perdem completamente de vista o aspecto da produção de riqueza material.
    Estes programas deviam ser desde já um pouco mais inteligentes do que até aqui: como os últimos 40 anos foram passados a gastar as infra-estruturas públicas, poderia ser útil gastar na sua recuperação o dinheiro que resta, bem como reactivar os sistemas de segurança social suspensos. Em qualquer caso, por favor, não mais “subsídios para abate de automóveis”, porque também ainda há a crise ecológica. Mas isso fica para outra ocasião.
    *Original ENDE DES SPIELS. Warum eine allgemeine Geldentwertung nur eine Frage der Zeit ist in http://www.exit-online.org. Publicado em KONKRET, 8/2013
    http://obeco.planetaclix.pt/
    http://www.exit-online.org/

    Sinopse
    O documentário está dividido em cinco partes. Ele começa examinando como a Islândia estava altamente desregulada em 2000 e a privatização de seus bancos. Quando o Lehman Brothers foi à bancarrota e o AIG entrou em colapso, a Islândia e o resto do mundo entraram em uma recessão global.
    Parte I: Como chegamos aqui
    A indústria financeira americana estava regulada de 1940 a 1980, seguida de um longo período de desregulação. No fim da década de 1980, a crise de empréstimo e da economia custou aos contribuintes cerca de 124 bilhões de dólares. Nos final da década de 1990, o setor financeiro se consolidou em algumas firmas gigantes. Em 2001, a bolha pontocom explodiu porque os bancos de investimento promoveram companhias de Internet e elas faliriam, resultando em 5000 bilhões de dólares em perdas de investidores. Nos anos 90, os derivativos se tornaram populares na indústria e aumentaram a instabilidade. Esforços em regular derivativos foram contrariados pelo Commodity Futures Modernization Act of 2000, apoiado por vários funcionários-chave. Nos anos 2000, a indústria foi dominada por cinco bancos de investimento: (o Goldman Sachs, o Morgan Stanley, o Lehman Brothers, o Merrill Lynch e o Bear Stearns), dois conglomerados financeiros (o Citigroup, o JPMorgan Chase), três companhias de seguro securitizadas (AIG, MBIA, AMBAC) e as as três agências de classificação de risco de crédito: (Moody’s, Standard & Poors e Fitch).
    Os bancos de investimento empacotaram hipotecas com outros empréstimos e débitos em obrigações de dívida colateralizada (CDOs), que eles venderam aos investidores. As agências de classificação deram a muitos CDOs classificações AAA. Os empréstimos subprime levaram ao empréstimo predatório. A muitos proprietários de residência foram dados empréstimos que eles nunca poderiam saldar.
    Parte II: A Bolha (2001-2007)
    Durante o boom da habitação, a proporção de dinheiro pedida emprestada por um banco de investimento versus os próprios ativos do banco alcançaram níveis sem precedentes. A permuta padrão de créditos (CDS), era aparentada à uma política securitária. Os especuladores poderiam comprar CDSs para apostar contra CDOs que não possuíam. Numerosos CDOs foram apoiados por hipotecas subprime. O Goldman-Sachs vende mais do que valem os 3000 milhões de dólares de CDOs na primeira metade de 2006. O Goldman também apostou contra os CDOs de baixo valor, dizendo aos investidores que eram de alta qualidade. As três maiores agências de classificação contribuíram para o problema. Os instrumentos de classificação subiram direto de um mero punhado em 2000 para mais que 4.000 em 2006.
    Parte III: A Crise
    O mercado para CDOs colapsou e bancos de investimento foram deixados com centenas de milhares de milhões de dólares em empréstimos, os CDOs e o estado real que eles não poderiam se desfazer. A Grande Recessão começou em novembro de 2007 e em março de 2008 o Bear Stearns ficou sem dinheiro em espécie. Em setembro, o governo federal assumiu o Fannie Mae e o Freddie Mac, que tinham estado à beira do colapso. Dois dias mais tarde, o Lehman Brothers colapsou. Todas estas entidades tinham classificações AA ou AAA dias antes de serem socorridas. Merrill Lynch, na extremidade do colapso, foi adquirido pelo Bank of America. Henry Paulson e Timothy Geithner decidiram que o Lehman deveria entrar em falência, o que resultou em um colapso do mercado de notas promissórias. Em 17 de setembro, o insolvente AIG foi assumido pelo governo. No dia seguinte, Paulson e o presidente do Fed, Ben Bernanke, pediram ao Congresso US$ 700 bilhões para socorrer os bancos. O sistema financeiro global se tornou paralisado. Em 3 de outubro de 2008, o presidente Bush assinou o Troubled Asset Relief Program, mas os mercados de ações globais continuaram a despencar. Demissões e embargos continuaram com o desemprego crescendo a 10% nos EUA e na União Europeia. Por volta de dezembro de 2008, a GM e a Chrysler também enfrentaram a falência. Os embargos nos EUA atingiram níveis sem precedentes.
    Parte IV: Responsabilidade
    Os altos executivos das companhias insolventes se afastaram com suas fortunas pessoais intactas. Os executivos tinham escolhido a dedo seu quadro de diretores, que entregava bilhões em bônus após o socorro do governo. Os maiores bancos cresceram em força e duplicaram os esforços anti-reforma. Os economistas acadêmicos tinham defendido por décadas a desregulação e ajudaram a moldar a política dos EUA. Eles ainda se opuseram à reforma depois da crise de 2008. Algumas das firmas de consultoria envolvidas foram a Analysis Group, a Charles River Associates, a Compass Lexecon, e o Grupo Consultivo de Economia e Direito (LECG). Muitos destes economistas tinham conflitos de interesse, coletando dinheiro como consultores de companhias e de outros grupos envolvidos na crise financeira.
    Parte V: Onde estamos agora
    Dezenas de milhares de trabalhadores de fábrica dos EUA estão demitidos. As novas reformas financeiras da administração Obama foram fracas e não havia nenhuma regulação importante sobre as práticas de agências de classificação, lobistas e compensação executiva. Geithner se tornou Secretário do Tesouro. Feldstein, Tyson e Summers também foram altos conselheiros econômicos de Obama. Bernanke foi reconduzido à presidência do Fed. As nações europeias impuseram regras limitantes na compensação bancária, mas os EUA resistiram a estas.


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               

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