quinta-feira, 30 de outubro de 2014

‘Há muito pouco que se esperar do próximo governo’

Enquanto o país vai se recompondo da febre eleitoral que transformou a disputa entre Dilma e Aécio numa rinha na qual os grandes e urgentes temas nacionais brilharam pela ausência, começa-se a tecer análises do que vem pela frente. Enquanto os movimentos progressistas alimentam a esperança de um mandato mais à esquerda de Dilma, o mercado e seus porta-vozes também já marcam suas posições e exigências.

“O resultado deste domingo foi muito marcante, a ponto de fazer necessário mobilizar todas as forças de esquerda para impedir a vitória de uma direita que dessa vez se apresentou de maneira muito mais explícita, com uma roupagem conservadora não apenas socialmente, mas também economicamente”, disse a historiadora e professora da Universidade Federal Fluminense Virginia Fontes, em entrevista ao Correio.

Para ela, o clima não ajuda em nada a clarear o que está em jogo e quais as tendências da chamada “realpolitik”. Em sua visão, o fanatismo de ocasião, de lado a lado, “gerou uma mobilização de variadas forças de esquerda, o que obscurece o fato de que o governo anterior da Dilma não realizou políticas de esquerda e a expectativa, agora, é de que tampouco realize, de modo a atribuir maior protagonismo às forças populares”.

Apesar do pessimismo, que também se ancora na configuração de um congresso repleto de ranços conservadores, até extremados, Virginia pensa que o próximo período reserva campo aberto para diversas lutas, independentemente de uma maior unidade das forças e pautas à esquerda do debate público.

“Não vejo ambiente propício para as lutas. Acredito que os movimentos terão de retomar sua agenda de forma muito firme, exatamente por conta desse cenário bastante adverso. Se não o fizerem de maneira firme, correm risco de serem atropelados pelos movimentos de massa, que devem vir, apesar de não ser possível prever precisamente”, analisou.

A entrevista completa com Virginia Fontes pode ser lida a seguir.


Correio da Cidadania: Primeiramente, como você analisa a vitória de Dilma neste domingo, com a margem de votos mais estreita dos últimos tempos?

Virginia Fontes: O resultado deste domingo foi muito marcante, a ponto de fazer necessário mobilizar todas as forças de esquerda para impedir a vitória de uma direita que dessa vez se apresentou de maneira muito mais explícita, com uma roupagem conservadora não apenas socialmente, mas também economicamente. Tivemos o perfil de uma direita organizada de forma muito dura, homofóbica, com toda a característica de um anticomunismo primário, que grassou no Brasil há muito tempo, de forma peculiar.

Isso gerou uma mobilização de variadas forças de esquerda para barrá-la, o que obscurece o fato de que o governo anterior da Dilma não realizou políticas de esquerda. E a expectativa, agora, é de que tampouco as realize, de modo a atribuir maior protagonismo às forças populares.

Portanto, a conjuntura das eleições é muito incômoda, porque de alguma maneira obscurece para as grandes massas as condições reais nas quais se dão nossas lutas, além de esconder as possibilidades e exigências reais de organização que temos pela frente.

Faço uma constatação muito amarga do processo eleitoral, Inclusive, aqui no Rio, fiquei muito impressionada, pois até a última semana era como se nada acontecesse. Já na última semana, alguns bairros tiveram mobilização, mas ainda era como se nada acontecesse, apenas mais um fenômeno burocrático de ir votar.

É um resultado incômodo.

Correio da Cidadania: O que podemos esperar ainda do quarto mandato petista no Planalto, ao olhar para a nova configuração do Congresso e para a atual conjuntura econômica nacional e internacional?

Virginia Fontes: É uma análise para ser feita com calma. Em primeiro lugar, durante a campanha, praticamente todos os candidatos do que considero alas direita e esquerda do capital – uma coisa é ser socialista e se propor transformador, revolucionário, outra é orbitar em torno do capital, como o PT – admitiram que fariam ajustes, mais ou menos rápidos, mais ou menos intensos. Mas todos os candidatos sempre falaram em fazer o ajuste.

Foi uma discussão de cunho técnico e bastante despolitizada, uma vez que não se explicou como se fariam tais ajustes e o que significam. Mas quer dizer que pressões de grandes capitais – de origens diversas – exigem maiores ganhos, o que significa reter ou diminuir conquistas dos setores populares e dos trabalhadores. Esse compromisso estava claro em todos os quadrantes dos partidos que orbitam em torno do capital.

O Congresso ainda mais reacionário significa que a mobilização popular, que num governo supostamente de esquerda deveria ocorrer, não aconteceu. O terreno das eleições proporcionais, importantes por serem mais próximas da vida do eleitor, continua entregue aos grandes grupos controladores de grandes máquinas, aliados de proprietários de sistemas de comunicação de grande escala, e que demarcaram as posições de ingresso no Congresso.

Sobrou, apenas, algum espaço de manifestação nas eleições majoritárias, com alguma dose de inquietação social. Isso é muito grave. É sintoma do que houve nos últimos anos, isto é, um desengajamento das causas populares e da militância efetivamente socialista, comprometida com processos de transformação substantiva, resultando em um parlamento muito marcado pela direita. Ficou um espaço socialmente mais conservador, para além de economicamente – pois neste caso os dois grupos são conservadores. Porém, a diferença de agora é uma base mais homofóbica, visceralmente anticomunista, sem nenhuma tolerância e grosseiramente reacionária.

Desse ponto de vista, o que esperar do próximo governo, sendo que o anterior já se viu completamente aprisionado pelo jogo politiqueiro? Muito pouco. Para uma esquerda revolucionária, socialmente comprometida com transformações (em suma, anticapitalista), cada dia mais terão de se reorganizar forças populares e fechar uma pauta clara em comum, capaz de enfrentar o legislativo e o executivo.

Correio da Cidadania: Faz algum sentido os setores e partidos que se colocam à esquerda do PT, muitos dos quais apoiaram o voto crítico em Dilma no segundo turno, esperarem uma guinada à esquerda do partido e alguma possibilidade de parcerias políticas?

Virginia Fontes: Pessoalmente, não vejo muita possibilidade. É difícil explicar, mas o que acontece? Os processos eleitorais supõem o PT de esquerda, os outros de direita, e falsificam o jogo anterior, porque na verdade são esquerda e direita em torno do capital. Essa discussão não é explicitada. É como se apagassem o nervo pra discutir o epidérmico. Nesse processo, é como se reafirmássemos que a característica atual do PT é a sua característica ideal. Praticamente se reafirma que ser a esquerda do capital é o melhor papel do PT.

Dentro de tal ponto de vista, tenho muito pouca expectativa de que uma guinada ocorra. Seria muito bom, mas a expectativa, para mim, não existe. Os partidos que se mantêm na linha anticapitalista precisam definir um programa em comum. A ideia não é se unificarem, mas precisam de uma pauta de luta comum e clara. É o trabalho a ser feito e não é instantâneo.

Correio da Cidadania: Diante disso, como ficarão as pautas associadas aos movimentos populares e progressistas nesse próximo período?

Virginia Fontes: Tenho bastante expectativa nesse terreno, porque tais pautas não foram cumpridas pelos governos precedentes: reforma agrária; reforma educacional de fato, de base popular, com educação pública, gratuita, laica e socialmente referenciada; reforma universitária ampla, capaz de desprivatizar e desmercantilizar a vida; reforma e mobilidade urbanas...

Essas ideias estão muito vivas na população e nos movimentos sociais. Acredito que as lutas em torno de tais pautas serão retomadas, até porque são pautas absolutamente irrealizáveis no âmbito do capitalismo no mundo contemporâneo.

Eventualmente, essas lutas já foram superadas em alguns países, anos atrás, mas na atualidade vêm sendo crescentemente impossíveis de serem satisfeitas pela ordem dominante. Portanto, o que imagino, e espero, é que os movimentos retomem suas pautas de luta, contra a homofobia, o racismo, pelo transporte, educação, saúde, mobilidade, mesmo que enfrentem limitações provavelmente ainda maiores.

Já vínhamos assistindo o processo de privatização da saúde, da educação, uma sequência de processos de gestão privada de recursos públicos, que precisam dar lucro e, assim, prejudicam diretamente os setores populares. Suponho que os movimentos retomem suas pautas de luta e, de alguma maneira, como já faziam antes, atravessem o ritmo de setores da esquerda do capital que acham que tudo vai bem.

Correio da Cidadania: Acredita que se desenha um tempo propício para novas rebeliões populares, a exemplo das que vimos mais recentemente? Como isso se daria num ambiente institucional mais conservador?

Virginia Fontes: Não acho que está aberto um tempo mais propício para as lutas populares. Acho que serão tempos mais duros. Virão ajustes em favor do capital, que significam mais contrarreformas, redução de direitos sociais e públicos. O segundo ponto é que uma direita conservadora, econômica e socialmente, se reconstituiu nessas eleições, ao menos aparentemente, o que é um problema sério a ser enfrentado. É uma direita socialmente agressiva e com perfil de não dar nenhum espaço para nenhuma conquista sociopolítica.

Não vejo ambiente propício para as lutas. Acredito que os movimentos terão de retomar sua agenda de forma muito firme, exatamente por conta desse cenário bastante adverso. Se não o fizerem de maneira firme, correm risco de serem atropelados pelos movimentos de massa, que devem vir, apesar de não ser possível prever precisamente.

No entanto, como sabemos que as manifestações de 2013 se deram a partir de exigências mais evidentes e concretas da vida dos trabalhadores – transporte, habitação, saúde, educação, que são os temas mais candentes, incluindo a reação à violência estatal –, podemos imaginar que tais pautas estarão recolocadas de forma muito aguda. Mas não porque o ambiente esteja favorável.


Por: Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista. 


domingo, 19 de outubro de 2014

Antipetismo e ódio de classe

A partir das figuras do escravo e do dependente, formou-se entre nós uma massa a quem se nega o estatuto de “gente”


Bastou o resultado do primeiro turno das eleições ser divulgado e, mais uma vez, os insultos aos “nordestinos miseráveis analfabetos” eleitores de Dilma Rousseff pipocaram nas redes sociais. Enquanto isso, na grande imprensa, FHC reproduzia o preconceito em sua versão mais douta e sutil, associando o voto ao PT aos “menos informados” que, por “coincidência”, são os mais pobres.
Na raiz do problema, uma velha tradição brasileira: a ausência de um arcabouço moral universalizado capaz de impor como dever o respeito a todos os seres humanos, em sua dignidade fundamental. Os “nordestinos miseráveis analfabetos” são a versão mais recente do que Jessé Souza chamou de “ralé brasileira”. Ele mostra como, a partir das figuras do escravo e do dependente, formou-se entre nós uma massa a quem se nega o estatuto de “gente”.
No caso em questão, a dignidade desses tipos sociais é duplamente negada. Primeiro, contesta-se o seu direito à manifestação mais superficial de cidadania que é o voto. Eleitores tão desinformados não deveriam votar, está implícito. Mas esta primeira recusa está fundamentada em outra, muito mais profunda, que é a do direito ao reconhecimento social já mencionado.
Ao fim e ao cabo, o que está em jogo é a grita contra a quebra do monopólio de recursos vitais para a reprodução das elites e para a manutenção do tipo obsceno de desigualdade que existe entre nós. Afinal, os governos petistas empreenderam uma política de valorização do salário mínimo e de distribuição de renda, o que fez cair a desigualdade econômica de modo contínuo, embora em ritmo mais lento nos últimos anos. A PEC das domésticas veio colocar mais lenha na fogueira porque, ao regular este tipo de trabalho, atacou o mais claro resquício da escravidão no país, uma relação que não tinha sequer uma jornada estabelecida.
Mas foi sobretudo a democratização do acesso à universidade que feriu os brios das elites nacionais, porque afetou diretamente um dos mecanismos mais importantes para a sua reprodução: o acesso exclusivo ao ensino superior. As novas universidades, a política de cotas, a expansão das vagas convergiram para fazer muitas famílias verem um de seus membros chegar pela primeira vez a este nível de escolaridade.
Para piorar a situação dos preconceituosos, já partir de 2006 as políticas inclusivas do Governo provocaram uma mudança da base eleitoral do PT, das classes médias mais escolarizadas para as classes populares, como mostrou André Singer. Eles acertam quando identificam a composição social do voto petista. Mas seu preconceito não os deixa ver que os pobres tem boas razões para isso, mesmo que o Governo tenha deixado intocados tantos outros monopólios, como o da própria mídia que agora o ataca, e que tenha se paralisado no último mandato em áreas tão importantes como a política cultural.
A corrupção é a cortina de fumaça para muitos – mas não para todos – dos que repudiam o PT neste momento. A trajetória do partido faz os escândalos que o envolvem soarem mais fétidos do que os demais, porque ele começou a conquista do poder pelo legislativo, chamando para si a função de fiscal do executivo, desde a redemocratização. Agora, a pecha de “paladino da ética” é usada contra ele. Mas, todos sabemos (mesmo que a grande mídia e os eleitores do PSDB façam questão de esquecer) que a relação viciada entre o legislativo e o executivo é constitutiva da política brasileira.
Tendo campanhas absurdamente caras, o Brasil vê chegar ao poder partidos comprometidos com grandes empresas e congressistas que votam por interesse, e não por convicção. Entretanto, por que os tantos indignados com a corrupção não defendem a reforma política que podia mudar esse estado de coisas? Porque a moralização do debate é uma forma de evitar sua politização. Politização que, aliás, avançou muito pouco durante o governo petista, o que agora pode lhe custar o Planalto. Os jovens pobres parecem ver suas conquistas como meramente pessoais, cedendo diante da ideia de meritocracia e esquecendo os fatores estruturais e a ausência de políticas públicas que explicam porque as gerações anteriores não tiveram as mesmas oportunidades. Por isso, a onda conservadora pode crescer ainda mais.

Maria Eduarda Mota Rocha é pesquisadora e professora da Universidade Federal de Pernambuco
  

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Sitracarnes inaugura biblioteca sindical

Sitracarnes
inaugura biblioteca sindical
O espaço é destinado ao conhecimento sobre saúde
no ambiente laboral e direitos dos trabalhadores
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Foto: Mariane Kerbes
Na manhã deste sábado, 20 de setembro, o Sitracarnes (Sindicato dos Trabalhadores em Indústrias de Carnes e Derivados de Chapecó) inaugurou a Biblioteca do Trabalhador “Clair Rogério Testa”.
O espaço é destinado ao conhecimento sobre saúde no ambiente de trabalho, e também sobre os direitos dos trabalhadores. O ato de inauguração contou com a presença de representantes de outros sindicatos e entidades sindicais, entre eles o secretário Regional da UITA, Gerardo Iglesias.
 
Nesta inauguração, também houve o lançamento do livro “Trabalhar e adoecer na agroindústria”, com organização do consultor e pesquisador em saúde do trabalho, médico do trabalho Roberto Ruiz. O livro foi vendido a preço de custo e também está disponível na biblioteca do Sitracarnes.
 
A biblioteca, em homenagem ao trabalhador Clair Rogério Testa, leva o seu nome. Clair sofreu um acidente na fábrica de ração da BRF de Chapecó, e encontra-se em coma desde então.

Sua esposa, Daiana, compareceu à inauguração e agradeceu a homenagem.
 
Foi um acidente na fábrica de ração da BRF de Chapecó. O Clair caiu do elevador do silo de ração, numa altura de 18 metros. Isso aconteceu em 08 de dezembro de 2010, há quase quatro anos.
 
De acordo com o diretor de saúde do Sitracarnes, Gilson Karlink, a biblioteca é um importante espaço de conhecimento para os trabalhadores. Gilson ressalta que o local foi montado com a colaboração da comunidade e de outras entidades, que doaram os livros.

O Sindicato continua aceitando doações de livros sobre saúde do trabalho e direitos do trabalhador, para ampliar o acervo.
Rel-UITA
 
Por:  Mariane Kerbes
 
24 de  setembro  de 2014

domingo, 7 de setembro de 2014

IV Curso Livre Marx-Engels

Pessoal,  está disponibilizado o IV Curso Livre Marx-Engels lançado pela Boitempo Editorial.
São oito aulas , com os principais pensadores marxistas brasileiros, abordando a obra de Marx e Engels mediante temas variados.
Imperdível.



01- Alysson Mascaro | Marx, Engels e a crítica do Estado e do direito
https://www.youtube.com/watch?v=7bM4y9hsJS4&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ
02- Antonio Rago | A crítica do idealismo em Marx e Engels
https://www.youtube.com/watch?v=juhXSI3Jb7k&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ&index=15
03- José Paulo Netto | A atualidade do Manifesto Comunista
https://www.youtube.com/watch?v=fmbMHOOBzwQ&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ&index=14
04- Osvaldo Coggiola | Análises concretas da luta de classes
https://www.youtube.com/watch?v=t5OKnqMM_-Q&index=13&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ
05- Ricardo Antunes | A constituição da classe trabalhadora
https://www.youtube.com/watch?v=sPgLhJA_R98&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ&index=12
06- Mario Duayer | A crítica ontológica do capital
https://www.youtube.com/watch?v=By0zGWl2jMM&index=10&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ
07- Jorge Grespan | A crítica da economia política em Marx
https://www.youtube.com/watch?v=5Xp3UFM3nPc&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ&index=5
08- Ruy Braga | Democracia, trabalho e socialismo em Marx e Engels
https://www.youtube.com/watch?v=Yofxeg-iSjk&index=4&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ


Fonte: BOITEMPO

domingo, 24 de agosto de 2014

O Grande Ausente - Prof Ivo Tonet



 

Maria Bethânia Pedrinha de Aruanda



A intimidade de Maria Bethânia a partir da comemoração de seu aniversário de 60 anos, celebrado durante uma apresentação em Salvador e numa missa em Santo Amaro, sua cidade natal, em 2006.
Lançamento 14 de setembro de 2007 (1h 1min)
Dirigido por Andrucha Waddington

sábado, 9 de agosto de 2014

A História do Racismo e do Escravismo (BBC).



A "História do Racismo" é um documentário produzido e realizado pela British Broadcasting Corporation (BBC) - que aborda o legado deixado pelo racismo e pelo escravismo ao longo dos séculos -,
como parte da comemoração do bicentenário da Lei de Abolição ao Tráfico de Escravos (1807), a BBC 4, dentro da chamada "Abolition Season", exibiu uma série composta por três episódios, independentes entre si, abordando a história e os aspectos do racismo pelo mundo. São eles: "A Cor do Dinheiro", "Impactos Fatais" e "Um Legado Selvagem".

Racismo e Escravismo - Uma mulher custava o preço de dois homens.

A "História do Racismo" é um documentário produzido e realizado pela British Broadcasting Corporation (BBC), que aborda o legado deixado pelo racismo e pelo escravismo ao longo dos séculos

Muitas vezes o racismo e a xenofobia, embora fenômenos distintos possam ser considerados paralelos e de mesma raiz, isto é, ocorrem quando um determinado grupo social começa a hostilizar outro por motivos torpes. Esta antipatia gera um movimento em que o grupo mais poderoso e homogêneo hostiliza o grupo mais fraco, ou diferente, pois o segundo não aceita seguir as mesmas regras e princípios ditados pelo primeiro. Muitas vezes, com a justificativa da diferença física, que acaba se tornando a base do comportamento racista.

Escravismo: Primeiramente, o escravismo começou na África, quando este país fortaleceu e desenvolveu seus laços comerciais com a Europa principalmente Portugal , cujo foi o país com maior índice de exportação escravista.

Quando o comércio africano expandiu seus produtos com a Europa, surgiu a proposta de exportar negros para trabalhos neste país, visando grandes negócios, os reis africanos da época aceitaram a proposta, e foi quando a escravidão começou. Depois de alguns anos de escravismo, apesar da África ter conseguido gerar muito capital com estas exportações - e graças a isto o escravo se tornou o principal "item" de exportações e a principal fonte de renda-, o país perdeu muitos habitantes (que haviam virado escravos), ou seja, teve sua densidade demográfica diminuída, além de ter várias famílias e sociedades separadas.

O trabalho escravo era a base de torturas e um trabalho árduo, onde estes trabalhadores possuíam qualidade de vida precária. Muitos escravos morriam.

Racismo: O racismo é a tendência do pensamento, ou o modo de pensar, em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras, normalmente relacionando características físicas hereditárias a determinados traços de caráter e inteligência ou manifestações culturais. O racismo não é uma teoria científica, mas um conjunto de opiniões pré concebidas que valorizam as diferenças biológicas entre os seres humanos, atribuindo superioridade a alguns de acordo com a matriz racial.

Como uma ideologia, o racismo existiu durante o século XIX como "racismo científico" (Racialismo), que tentava dar uma classificação racial para a humanidade. Embora tais ideologias racistas tenham sido amplamente desacreditadas após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, o racismo e a discriminação racial permaneceram difundidos em todo o mundo.

A crença da existência de raças superiores e inferiores foram utilizadas muitas vezes para justificar a escravidão, o domínio de determinados povos por outros, e os genocídios que ocorreram durante toda a história da humanidade e ao complexo de inferioridade, se sentindo, muitos povos, como inferiores aos europeus.

Na África antiga, o racismo era muito presente em relação a convivência do povo africano com outros países, que consideravam a raça negra (africana) inferior a raça branca, o que gerava um preconceito contra os afrodescendentes, que ainda são notados hoje. Assim este preconceito favoreceu o começo do escravismo na África, já que os povos brancos que mantinham contato com o povo africano, acreditavam que a raça inferior (negra) tinha de obedecer a raça superior (branca), e como estes povos brancos estavam necessitando de mão de obra em suas terras, pensaram que era uma boa "jogada" exportar negros para trabalho escravo.

O racismo é um preconceito contra um “grupo racial”, geralmente diferente daquele a que pertence o sujeito, e, como tal, é uma atitude subjetiva gerada por uma sequência de mecanismos sociais.

Um grupo social dominante, seja em aspectos econômicos ou numéricos, sente a necessidade de se distanciar de outro grupo que, por razões históricas, possui tradições ou comportamentos diferentes. A partir daí, esse grupo dominante constrói um mito sobre o outro grupo, que pode ser relacionado à crença de superioridade ou de iniquidade.

Nesse contexto, a falta de análise crítica, a aceitação cega do mito gerado dentro do próprio grupo e a necessidade de continuar ligado ao seu próprio grupo leva à propagação do mito ao longo das gerações. O mito torna-se, a partir de então, parte do “status quo”, fator responsável pela difusão de valores morais como o "certo" e o "errado", o "aceito" e o "não aceito", o "bom" e o "ruim", entre outros. Esses valores são aceitos sem uma análise onto-axiológica do seu fundamento, propagando-se por influência da coerção social e se sustentando pelo pensamento conformista de que "sempre foi assim".

Finalmente, o mecanismo subliminar da aceitação permite mascarar o prejuízo em que se baseia a discriminação, fornecendo bases axiológicas para a sustentação de um algo maior, de posturas mais radicais, como as atitudes violentas e mesmo criminosas contra membros do outro grupo.

Convém ressaltar que o racismo nem sempre ocorre de forma explícita. Além disso, existem casos em que a prática do racismo é sustentada pelo aval dos objetos de preconceito na medida em que também se satiriza racialmente e/ou consente a prática racista, de uma forma geral. Muitas vezes o racismo é consequência de uma educação familiar racista e discriminatória.

O mundo continua um lugar perigoso, desigual e sem um rumo razoavelmente definido. Mas entre os avanços conquistados, diversos estão consolidados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Os quatro primeiros artigos da Declaração dizem o seguinte:

1° - Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

2° - Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.

3° - Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

4° - Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.

Um item que ainda está longe de conseguir legitimidade e uma legislação adequada é o combate ao homofobismo e a todas as manifestações de homofobia. Mas em outras áreas houve grandes avanços, embora a civilização humana ainda esteja longe de tratar todos os seus membros de forma justa e igualitária. Porém, existem instrumentos para se combater as discriminações advindas do classismo, escravismo, sexismo, xenofobismo e homofobismo.


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A Hora dos Fornos 1-2-3

 

Este film está dividido en tres partes: "Neocolonialismo y violencia"; "Acto para la liberación", dividido a su vez en dos grandes momentos "Crónica del peronismo (1945-1955)" y "Crónica de la resistencia (1955-1966)"; "Violencia y liberación".

Esta película recién pudo ser estrenada formalmente en la Argentina en 1973 debido al contexto político de aquella época (pero para entonces ya había ganado varios premios en Europa. En 1989 fue reestrenada y en 2008 reeditada en una versión extendida

 

 Neocolonialismo e Violência - A Hora dos Fornos 1



    
Ações de Libertação - A Hora dos Fornos 2 





 Violência e Emancipação - A Hora dos Fornos 3 



domingo, 3 de agosto de 2014

Dançando com o Diabo

o documentário mostra a complexidade das favelas cariocas na visão de três personagens ligados diretamente ao tráfico: um pastor, um policial e um criminoso.De acordo com o pastor Dione dos Santos, 90% dos jovens que participaram do documentário estão mortos. O filme fala da complexidade e das contradições do crime organizado e da ajuda da religião.Dançando com o Diabo custou 500 mil dólares. A ideia partiu do jornalista inglês Tom Phillips, correspondente do jornal ( The Guardian ). Ele ficou um ano e meio visitando favelas do Rio depois de fazer uma reportagem com Dione. Assim teve acesso a Juarez Mendes da Silva, o Aranha, chefe do tráfico de quinze morros cariocas e que morreu logo depois de participar do filme

Justiça



Justiça, documentário de Maria Augusta Ramos(de 2004), pousa a câmera onde muitos brasileiros jamais puseram os pés - um Tribunal de Justiça no Rio de Janeiro, acompanhando o cotidiano de alguns personagens.

Retrata-se de forma particular, a rotina do Judiciário e do sistema prisional brasileiro, que, através de imagens imperativas, revelam ao telespectador o retrato frio e cruel da realidade carcerária e processual do nosso sistema penal.

Neste universo, são focados aqueles que de algum modo, direta e indiretamente, compõe o arcabouço da Jurisdição do Brasil, mais precisamente, a jurisdição do Rio de Janeiro. Deste modo, os personagens trazidos pelo filme são as pessoas que trabalham diariamente com o poder judiciário, como promotores, defensores públicos, juízes, e aqueles que estão apenas de passagem, como os réus e seus familiares.

A câmera é utilizada como um instrumento que enxerga o teatro social, as estruturas de poder - ou seja, aquilo que, em geral, nos é invisível. O desenho da sala, os corredores do fórum, a disposição das pessoas, o discurso, os códigos, as posturas - todos os detalhes visuais e sonoros ganham relevância. O espaço, as pessoas e sua organização são registrados de maneira sóbria.

A câmera está sempre posicionada em relação à cena mas não se move dramaticamente, não busca a falsa comoção. Sinal de respeito, de não-exploração. No filme, não há entrevistas ou depoimentos, a câmera registra o que se passa diante dela. Maria Augusta Ramos observa um universo institucional extremamente fechado e que raras vezes é tratado pelo cinema ficcional brasileiro.

Seu filme é tão mais importante em função de nossas limitações em termos de representação dos sistemas judiciais. Em geral, nosso olhar é formado pela visão do cinema americano, os "filmes de tribunal". Justiça, sob esse aspecto, é um choque de realidade.

A cineasta vai acompanhar um pouco mais de perto uma defensora pública, um juiz/professor de direito e um réu. Primeiro, a câmera os flagra no "teatro" da justiça; depois, fora dele, na carceragem da Polinter e na intimidade de suas famílias.

Com suas opções claras, que não são escondidas por sua opção pela sobriedade e pela simplicidade, Maria Augusta Ramos deixa evidente que, como os documentários, a justiça está muito longe de ser isenta. Como e para quem a justiça funciona no Brasil é a questão que se apresenta em seu filme, sem respostas definitivas ou julgamentos preconcebidos.

 

domingo, 27 de julho de 2014

A Ascensão do Dinheiro - Episódio 01 - Sonhos de Avareza (2008)



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"A Ascensão do Dinheiro" é baseado no décimo livro do professor de Harvard, Niall Ferguson, publicado em 2008, onde ele procura explicar a história financeira do mundo, explorando a forma como o nosso complexo sistema financeiro global evoluiu ao longo dos séculos, como o dinheiro moldou o curso das relações humanas e como a mecânica deste sistema econômico funciona para criar uma aparente riqueza sem limites.
Para milhões de pessoas, a recessão gerou uma sede de conhecimento sobre a forma como o sistema económico global realmente funciona, em especial quando tantos especialistas financeiros parecem ter sido igualmente apanhados de surpresa. Em "A Ascensão do Dinheiro", o economista, escritor e historiador Niall Ferguson oferece-nos um vislumbre para estas questões levando os espectadores numa viagem passo a passo pelos marcos da história financeira que criaram este sistema, visitando locais onde ocorreram os principais acontecimentos. Ferguson mantém que a história do dinheiro encontra-se de facto no centro da história humana, com a força econômica a determinar o controlo político, guerras com o intuito de criar riqueza e barões financeiros que influenciam o destino de milhões.

Episódio 02 - http://www.youtube.com/watch?v=ibx-Du...
Episódio 03 - http://www.youtube.com/watch?v=zJDa5n...
Episódio 04 - http://www.youtube.com/watch?v=vUJbCUutJ
Episódio 05 - http://www.youtube.com/watch?v=43aDXI...
Episódio 06 - http://www.youtube.com/watch?v=zaDJ6O...

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Os BRICS e a esquerda da mais-valia relativa

É a esquerda da mais-valia relativa quem mais tem contribuído para a expansão do capitalismo nos BRICS. 

Os eixos fundamentais da esquerda da mais-valia relativa nos BRICS
Nos últimos anos muito se tem escrito sobre a esquerda nacionalista portuguesa e sobre os impasses que ela coloca. Ora, o maior perigo do nacionalismo no seio da esquerda não é apenas a difusão de variadas formas de irracionalismo. É também o perigo de, a pouco e pouco, levar os próprios contestatários a raciocinar nos moldes preconizados pelos nacionalistas: a discussão centrada nos assuntos do país de origem.
Para fugir a esta “armadilha” escrevi este breve artigo sobre o facto de, neste século, ser uma parte da esquerda (a esquerda da mais-valia relativa) quem mais tem contribuído para a expansão do capitalismo em alguns dos países emergentes. Combinando a mais-valia relativa com a mais-valia absoluta, sob a hegemonia da primeira, e articulando o Estado central às prerrogativas de expansão das empresas, é nos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) que uma modalidade da esquerda dos gestores tem conseguido fornecer oxigénio à modernização capitalista. Esta é a esquerda dos gestores da mais-valia relativa, uma modalidade quase ausente em Portugal.
Seria demasiada coincidência se a ascensão dos BRICS não tivesse nada a ver com a presença de uma esquerda da mais-valia relativa na governação destes países. Desde o caso do PT no Brasil à reconversão do PC chinês, passando pela coligação de esquerda que governa a África do Sul, sem esquecer os ex-KGBs que estão no centro de poder da Rússia ou o governo do Partido do Congresso Indiano que governo o país até Maio passado, parece-me que a constituição de uma esquerda capaz de articular eficazmente o Estado e as empresas é parte relevante no processo de evolução do capitalismo no século XXI. Será da articulação entre Estados repressivos e ditatoriais (como o caso chinês e russo) e da criação de condições para o desenvolvimento pleno dos negócios das empresas (das ONGs às grandes transnacionais) que o capitalismo encontrará fôlego para um novo ciclo económico de expansão. A juntar a isto parece estar a ocorrer uma integração internacional cada vez mais interpenetrada e sólida tanto entre os BRICS, como entre cada uma destas economias e outros países emergentes.
BRICS
Temos assim uma esquerda dos gestores, uma esquerda que, sem esquecer a mais-valia absoluta, se tem centrado na expansão da mais-valia relativa, precisamente porque se mostrou capaz de, por um lado, absorver os protestos sociais e, por outro, fortalecer o aparelho de Estado no sentido deste proporcionar melhores condições infra-estruturais e de financiamento para as empresas. Parece aqui contrariar-se a tese dicotómica e mecânica que contrapunha Estado e mercado. Pelo contrário, o sucesso económico dos BRICS contraria esse dualismo estéril, convocando a reflectir sobre as implicações e as reais relações entre o aparelho de Estado e as empresas. Esquerda, Estado e empresas são, nos BRICS, partes constitutivas e necessariamente interdependentes de um mesmo sistema de poder. A esquerda tem sido nos BRICS a vanguarda do Estado que, por sua vez, actua no sentido de fornecer condições materiais e políticas para o avanço do poder e dos investimentos das empresas.
Ao mesmo tempo, esta esquerda dos gestores tem sido inovadora política e socialmente.
Num primeiro âmbito repare-se que esta esquerda não é uma mera cópia da tecnocracia europeia ou norte-americana, apesar das suas cordiais relações de classe. Esta esquerda dos gestores surgiu fundamentalmente em países que tiveram algum tipo de movimentação operária de base nas décadas anteriores (lutas operárias no final dos anos 80 no ABC paulista; lutas de base aquando da Revolução Cultural tanto contra “elementos burgueses” como contra o Estado maoísta; lutas contra o apartheid na África do Sul; lutas no Leste europeu contra a burocracia soviética; lutas seculares camponesas na península indiana) e soube utilizar o recuo das lutas sociais para introduzir elementos da lean production toyotista em variados sectores.
Num segundo âmbito percebe-se que esta esquerda utiliza o Estado como trave central da sua actuação estratégica. Mas seria um erro reduzir a actuação desta esquerda a um estatismo clássico de nacionalizações e de recurso à violência para reprimir manifestações de rua. Pelo contrário, esta esquerda tem sido capaz de, num mesmo passo, financiar ONGs e movimentos sociais e introduzir elementos dirigentes destas estruturas na cadeia central de poder. Associado a isto, esta esquerda da mais-valia relativa diverge da esquerda estatista europeia na medida em que o Estado não se expande por via da retracção da iniciativa privada, mas procurando o crescimento de ambas. Esta articulação institucional expressa-se, no plano internacional, na facilidade com que a tecnocracia dos BRICS participa em investimentos transnacionais junto da tecnocracia norte-americana e europeia. É, portanto, no pulsar dos processos de transnacionalização global com os blocos europeu e norte-americano e dos processos de transnacionalização intra-BRICS e com os restantes países emergentes que esta esquerda dos gestores tem desempenhado um papel incontornável para a expansão do capitalismo. Uma expansão de um ponto de vista mais vasto (peso tendencialmente crescente dos BRICS na taxa de crescimento do PIB mundial), mas também ao nível da implementação de sistemas de organização eficientes no interior das suas maiores empresas. Neste momento, os BRICS parecem estar mais avançados na consolidação de alianças económicas entre si do que, por exemplo, o acordo de comércio livre entre a União Europeia e os Estados Unidos. Ao nível económico, a União Europeia, constituída por Estados com muito maior proximidade geográfica, cultural e política, não tem conseguido finalizar o seu projecto de integração económica e política a um ritmo desejável, que lhe permita acompanhar os seus competidores. Portanto, a evolução das economias deve quase tudo a dinâmicas de índole socioeconómica. A discussão no plano cultural ou geoestratégico só serve para obscurecer as dimensões político-estruturais e económicas em causa.
Com efeito, na próxima secção vou abordar muito sucintamente dois episódios concretos mas que, vistos numa perspectiva estrutural, apresentam alguns dos contornos fundamentais do papel da esquerda da mais-valia relativa na basculação do toyotismo para novos pólos de acumulação capitalista.
Dois exemplos de como a conjuntura se articula com a estrutura
Há pouco mais de um mês ocorreram importantes greves na China :
greves china«Simplesmente, ainda não houve uma greve desta dimensão e magnitude na China moderna. Enquanto as greves na China normalmente terminam assim que há resposta às reivindicações sobre um determinado assunto, esta greve é indefinida e em escalada: uma espécie de negociação coletiva através do motim. Aqui as reivindicações são mais estruturais; os trabalhadores rejeitaram as migalhas caídas da mesa dos patrões e o protesto alastra às províncias vizinhas. As mudanças na produção chinesa podem repercutir-se na produção global. Como assinalou Jacques Rancière: “A dominação do capitalismo a nível global depende da existência de um Partido Comunista Chinês que fornece às empresas capitalistas deslocalizadas trabalho barato e preços baixos, privando os trabalhadores do direito à auto-organização”. Devido às greves, o salário médio na China subiu 17% por ano desde 2009, e é hoje cinco vezes maior do que era em 2000».
Não vou aqui discutir o seu potencial de elevação das lutas para os próximos tempos, mas como este tipo de mobilizações sociais se insere na estrutura mais vasta que tenho vindo a comentar.
Para começar, reafirmo que é nos países de crescimento da mais-valia relativa que ocorrem as maiores lutas sociais. Os trabalhadores lutam mais quando há crescimento económico e vêem que, como diz o texto, «as migalhas caídas da mesa dos patrões» não chegam para satisfazer o direito a uma vida digna. Pelo contrário, em períodos de crise económica os trabalhadores, justificadamente, têm medo de perder o emprego, de perder salários, querem agarrar-se ao que ainda os pode “safar”. As crises económicas geram movimentos de força da classe dominante e ampliam a fragmentação dos trabalhadores. Por isso é que a resposta dos trabalhadores nas crises é genericamente pontuada pelo erguer das bandeirolas nacionais e dos patrioteirismos. Neste caso na China, pelo contrário, o que anima a luta daqueles trabalhadores é a reivindicação concreta laboral e não as tretas da soberania ameaçada e da ingerência externa. São a vida e as suas condições concretas que mobilizam as lutas que ou rompem com o capitalismo ou o modernizam, obrigando as empresas a fazer concessões mas a aumentar a produtividade do trabalho.
Por isso é que as lutas sociais autónomas são sempre positivas. Na melhor das hipóteses podem desaguar numa nova sociedade. Na pior das hipóteses, obrigam os gestores a reformular os mecanismos de extracção do excedente económico.
De referir que o sucesso do capitalismo chinês se deve à inovadora articulação entre os mecanismos mais modernos da mais-valia relativa (investimento massivo, lean production, empresariado moderno, internacionalização da economia) e os mecanismos mais terríveis da mais-valia absoluta (sectores com baixos salários, repressão laboral, Estado totalitário, ausência de liberdades democráticas). Ao mesmo tempo, como as lutas sociais não conseguiram romper esta articulação, fornecem uma base sólida para obrigar as empresas a responder às reivindicações laborais com um aumento da produtividade, conferindo um ainda maior dinamismo ao sistema. Mas ainda há quem à esquerda ache que o capitalismo está “ligado à máquina”…
Um segundo exemplo vem do Brasil, onde a Câmara dos Deputados aprovou um Plano Nacional de Educação em que é estabelecida a meta de, em 2024, o Estado brasileiro atingir um investimento de 10% do PIB em educação. Propaganda para ver se contraria os protestos nas ruas antes e durante o Mundial de Futebol, ou uma real intenção de prosseguir nos trilhos da mais-valia relativa? Provavelmente as duas coisas, já que, em contextos de crescimento económico, a consagração parcial de reivindicações é sempre parte estruturante de uma nova alavancagem do desenvolvimento económico.
DILMA-A-EDUCAÇÃO-É-A-BASESe esta proposta de Dilma Rousseff se concretizar, é mais um caso notável de um partido e de uma governação de esquerda que souberam, num mesmo movimento, revigorar a classe dos gestores, modernizar a economia e qualificar a força de trabalho, aproveitando a contestação da rua como motor relevante de todo este processo. A meu ver é impossível desligar a força transformadora do PT no capitalismo brasileiro (e mundial) sem se fazer referência, por um lado, ao papel dos movimentos sociais de 1985 a 2002 e, por outro, à capacidade que esse partido teve posteriormente para ir contendo e absorvendo a contestação social que ocorreu fora dos movimentos controlados pelos seus dirigentes. Pelo meio ainda conseguiu burocratizar e governamentalizar uma série de movimentos, bem como não tem tido grandes problemas em usar a força policial. Mas o essencial do processo iniciado em 2002 com a eleição de Lula da Silva passou pelo que escrevi na antepenúltima frase e que volto a mencionar: é um caso notável de um partido e de uma governação de esquerda que souberam, num mesmo movimento, revigorar a classe dos gestores, modernizar a economia e qualificar a força de trabalho, aproveitando a contestação da rua como motor relevante de todo este processo. PT, a esquerda dos gestores da mais-valia relativa no Brasil.
Para terminar
Num outro artigo escrevi que «dada a inseparabilidade do Estado e da economia capitalista, a esquerda dos gestores, seja qual for a sua forma histórica específica, situa-se dentro dos processos de reconversão institucional do capitalismo a partir do aparelho de Estado». Não me irei alongar sobre o assunto mas lembrar que, apesar de esta esquerda se concentrar em postos-chave do Estado, isso não significa que seja este o centro da acumulação de capital. Ao contrário das experiências capitalistas de Estado do passado, há uma integração e uma ampliação de interesses entre os gestores localizados no Estado central, nos sindicatos, nos movimentos e nas empresas. É isso que permite que a esquerda dos gestores esteja a ser bem-sucedida na internacionalização das empresas. Uma lista das 100 empresas mais desafiantes compilada pelo Boston Consulting Group incluía 58 provenientes do continente asiático, onde a China e a Índia despontavam. Em consonância, 83 das 500 empresas listadas pelo índice Fortune 500 localizam-se nas economias emergentes asiáticas da China, Índia, Malásia e Tailândia. Isto demonstra duas coisas. Primeiro, o capitalismo continua a expandir-se e os países governados pela esquerda dos gestores estão na vanguarda desse processo. Segundo, a integração mundial das economias emergentes, especificamente as que são lideradas pela esquerda dos gestores, não tem ocorrido com significativas fricções. Pelo contrário, a integração económica tem sido acompanhada por uma integração dos gestores. É a diversidade política, territorial e de origem que tem fortalecido a classe capitalista dos gestores no plano global e não o contrário. É a plasticidade social e institucional que proporciona aos gestores actuar em cada vez mais tabuleiros territoriais e sociais e, a partir daí, podem expandir as relações sociais capitalistas.
São Francisco que me perdoe, mas é de uma pobreza franciscana que ainda haja à esquerda quem ache que na China apenas imperem «condições que abriram portas a que hoje um chinês monte um computador a troco de uma tigela de arroz». O mais poderoso dos BRICS tem crescido exponencial e ininterruptamente durante três décadas e ainda há quem ache que isso apenas se deveria a aspectos unicamente derivados da mais-valia absoluta. Hoje existem transnacionais colossais de todos os BRICS precisamente porque articulam a mais-valia absoluta com a mais-valia relativa, mas tendo esta como ponta-de-lança. Seria impossível as transnacionais competirem internacionalmente e numa tal vastidão de mercados e de investimentos se apenas se alicerçassem nos mecanismos da mais-valia absoluta. Não é por acaso que, em conjunto, a «China e a Índia esperam atingir, em 2020, cerca de 1 bilião de consumidores de classe média», o que representará um mercado de 10 triliões de dólares. São muitas tigelas de arroz…
Por outro lado, se o modelo chinês (como o dos BRICS no seu conjunto) fosse apenas esse das tigelas de arroz, então Tiananmen não teria sido um ponto de viragem no capitalismo chinês mas o primeiro episódio para uma renovada stalinização da sua economia. No seio dos mecanismos da mais-valia relativa os momentos de repressão dos trabalhadores são isso mesmo, momentos para derrotar lutas sociais pela violência para subsequentemente absorverem aspectos dessas lutas para ampliar o sistema de extracção da mais-valia. Por exemplo, e continuando na China, Tiananmen não apenas não se repetiu como doravante explodiriam centenas de greves reivindicativas que permitiram ao Estado e às empresas responder com o aumento da produtividade do trabalho. Num contexto histórico em que os salários cresceram, só uma produtividade mais elevada poderia compensar esse aumento de custos (momentâneos) para os capitalistas. Ora, este é o mecanismo da mais-valia relativa, o da modernização capitalista, o eixo prevalecente no desenvolvimento económico dos BRICS.
camaradas
Na Europa a esquerda dos gestores da mais-valia absoluta continuará a apostar na divisão nacional dos trabalhadores. Nos BRICS a esquerda dos gestores da mais-valia relativa continuará a expandir as relações capitalistas. Numa parte do globo, os gestores e candidatos a gestores fomentam a fragmentação dos trabalhadores. Noutra parte do globo, a outra esquerda dos gestores tem aproveitado as lutas sociais e o seu património passado para incrementar a mais-valia relativa. É possível uma esquerda sem gestores?

 Por: João Valente Aguiar
De: Passa Palavra

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A historia sionista (The Zionist Story) completo



O autor combina com êxito imagens de arquivo com comentários próprios e de outros, como Ilan Pappe, Jeff Halper, Terry Boullata e Alan Hart.

"Recentemente concluí um documentário independente, A história Sionista, no qual quero apresentar não apenas a história do conflito Israel/Palestina, mas também as razões centrais do mesmo: a ideologia sionista, seus objetivos (passados e atuais) e seu firme controle não somente da sociedade israelense mas também, e de modo crescente, da percepção que os ocidentais têm do Oriente Médio.

Estes conceitos já foram demonstrados no excelente documentário Ocupação 101, de Abdallah Omeish e Sufyan Omeish, mas em meu documentário eu abordo a questão da perspectiva de um israelense, ex-soldado da reserva e alguém que passou sua vida toda na sombra do sionismo.

Espero que achem um momento para assistir a A História Sionista e, caso queiram, sintam-se à vontade para compartilhar-lo com outras pessoas.

Fiz este documentário inteiramente sozinho, sem nenhum orçamento, embora tenha me esforçado para atingir elevados padros profissionais. Espero que esta produção doméstica seja do interesse dos espectadores." -- Renen Berelovich.

sábado, 5 de julho de 2014

‘Nosso objetivo é começar a tirar blindagem do grande capital’



O líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) demonstra grande preocupação com a escalada da repressão que as manifestações e movimentos têm sofrido, especialmente as mobilizações durante a abertura da Copa e a greve dos metroviários em São Paulo. “Nós queremos pegar a repressão aos metroviários, a repressão policial nas manifestações, unificar a pauta, e fazer um grande ato nacional”.

Diante do quadro político, as vias institucionais lhe parecem incapazes de realizar as transformações. “O MTST tem buscado construir uma relação cada vez mais firme com outras mobilizações populares de luta por moradia e movimentos sociais. Precisamos nos alinhar com sindicatos combativos, com movimentos por transporte”, aponta, ao enfatizar que o MTST não tem a pretensão de participar do processo eleitoral, e sim fazer pressão por fora.

A entrevista com Guilherme Boulos foi gravada pelo Coletivo Copa, iniciativa da Revista Vaidapé, que reúne meios de comunicação diversos para produção de conteúdo jornalístico durante o Mundial de futebol.

Fonte: Correio da Cidadania

domingo, 29 de junho de 2014

O Problema dos Especialistas



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► Sinopse em Português: Eles nos dizem o que comer, como votar, criar os nossos filhos, arranjar as nossas casas, comprar os nossos vinhos, interpretar os acontecimentos políticos e, até recentemente, escolher as ações certas.
Eles estão em todos os média dizendo-nos o que pensar, porque há informação a mais para que nós possamos decidir por nós mesmos. Então, muitas vezes, entregamos as nossas próprias opiniões a eles porque, bem ... eles são especialistas, têm obrigação de saber melhor do que nós. Ou não é?

Na recente crise bolsista, descobrimos que alguns dos nossos mais importantes especialistas - os nossos gurus financeiros - não sabiam muita coisa.
Então e os outros especialistas existentes? Ser especialista significa tomar melhores decisões do que as pessoas normais? Ou são apenas parte de um novo culto de especialização, uma industria em crescimento que se tornou recente na nossa nova religião?

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