quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Repensar sempre


O poder capitalista conseguiu sobreviver à explosão esquerdista do final do séc. XIX e princípios do séc. XX mediante, sobretudo, um “contra ataque” ideológico sustentado no poder do controle de massas (aprendido e desenvolvido com as experiências fascistas), coadjuvado com a caída do modelo socialista nos países de leste.

Os meios de comunicação de massas converteram-se na principal ferramenta do sistema, na medida em que lhes permite controlar a forma de pensar das pessoas. Nunca, em toda a história do sistema, este possuiu tantos meios para controlar o pensamento global. Assim se impôs o pensamento único. O sistema capitalista conseguiu enganar massivamente o povo, (fazendo-o acreditar que tem o poder) através de democracias “controladas”, onde não tem medo de lhe perguntar o que pensa porque, previamente, se encarregou de fazer com que o povo pense o que ele quer.

O capitalismo conseguiu criar na maioria dos cidadãos a falsa ideia de que vive em democracia e liberdade, que a esquerda forma parte do sistema, de que existe pluralidade, quando na realidade a democracia é verdadeiramente escassa, onde a liberdade continua sendo uma utopia e a esquerda transformadora (cujo objectivo básico é transformar as sociedades para melhoria das condições de vida da maioria das pessoas), a verdadeira esquerda, tende a desaparecer do mapa político.

Por suposto, para além do controlo dos meios de comunicação, que se converteram em autênticos “fazedores” de opinião, e que usam para fomentar o bipartidarismo, o sistema tem os seus próprios “mecanismos legais de defesa” para que as chamadas democracias representativas não permitam o acesso ao poder de forças políticas “perigosas”. A famosa lei eleitoral que pretendem implementar é disso exemplo. Elaborada para fomentar o bipartidarismo e relegar à marginalidade as forças políticas “non-gratas”, um sistema de financiamento que faça depender os partidos, por um lado do poder económico e por outro do Estado, de tal maneira que se um partido não chegar a ter representação nas instituições, não é financiado pelo Estado e que só podem chegar a essas instituições os partidos que tenham promoção suficiente, ou seja aqueles que recebam o financiamento suficiente por parte do poder económico (pescadinha de rabo na boca) proibindo na prática (ainda que nunca em teoria) o acesso às instituições a partidos não controlados pelo poder económico.

Ainda assim, nalguns países, quando tais “mecanismos” não impedem a chegada ao poder político de uma força que vá contra o poder económico, o “capitalismo internacional” encarregar-se-á de colocar a lenha na fogueira, para acossar e desprestigiar o governo desses países, através de campanhas mediáticas internacionais (a guerra mediática ou terrorismo mediático), inclusivamente através de operações de destabilização interna.

O capitalismo aprendeu a lição com a história recente e sabe que não pode permitir-se o luxo de deixar que a esquerda triunfe onde quer que seja, num mundo cada vez mais globalizado como o nosso.

Nesta lavagem cerebral que o capitalismo tem feito nas últimas décadas, procurou-se fomentar aquelas características do ser humano que interessam ao sistema (egoísmo, individualidade, passividade, submissão, conformismo, pensamento de grupo ou “mansidão intelectual”, estupidez, cobardia, comodismo…) e reduzir ou eliminar o mais possível, aquelas características do ser humano que não interessam (altruísmo, solidariedade, activismo, rebeldia, pensamento crítico e livre, inteligência, curiosidade, independência, inquietude, optimismo, valentia…). Em certa medida conseguiram impor a hegemonia cultural do capitalismo. O sistema conseguiu colocar a maioria da população endividada (portanto subjugada), dificultando-lhe (ainda que não impedindo por completo) o acesso a certas necessidades básicas como a habitação e criando-lhe necessidades artificias mediante o consumismo ilimitado.

:::::::::::: OS DESAFIOS DA ESQUERDA :::::::::::::

Cada vez mais temos de tomar consciência da importância da esquerda no mundo atual em que vivemos. É imprescindível que a sociedade se consciencialize desse facto, de forma a conseguir desviar a rota do planeta por um outro caminho mais justo, mais igual e mais livre para todos. A nossa civilização corre perigo não só pelas alterações climáticas, mas também devido aos grandes desequilíbrios socio-económicos. Um mundo com tantas desigualdades crescentes é cada vez mais instável e a instabilidade implica perigo de existência. Se é certo que a sociedade actual ocidental (o terceiro mundo merece uma menção à parte) já não padece das graves desigualdades do princípio do séc. XX, também é certo que a maior parte das causas que deram origem às revoluções nessa época, continuam vigentes.

Continuam a existir grandes desigualdades sociais, mas o mais preocupante é que, de uma época com tendência à diminuição dessas desigualdades (por iniciativa da esquerda), passámos a uma época em que, pelo contrário, as desigualdades tendem a aumentar (por iniciativa da direita). A este facto temos de acrescentar o retrocesso nos direitos laborais (fundamentalmente), o esvaziamento da saúde no plano social e o crescente desemprego. A esquerda é imprescindível para, em primeiro lugar, manter as conquistas sociais que tanto custaram a conquistar, e em segundo lugar, para conseguir todos aqueles objectivos justos e legítimos que não se puderam alcançar. A esquerda defende uns ideais que beneficiam a maioria da humanidade em detrimento de uma minoria que, em qualquer caso perderiam os seus privilégios mas, uns privilégios injustos.

Pelo atrás exposto, é fácil deduzir que a esquerda tem pela frente uma árdua tarefa a nível nacional e internacional. São muitos os desafios que tem de enfrentar.

Prioritariamente, deve centrar-se na conquista das liberdades de imprensa e de expressão. Deve lutar para que os meios de comunicação não estejam monopolizados pelo poder económico e sejam livres de qualquer manipulação. Enquanto estas não existirem verdadeiramente, os princípios ideológicos da esquerda nunca poderão chegar à maioria da população. A esquerda deve tentar, por todos os meios possíveis e com inteligência, imaginação, originalidade e insistência, fazer-se ouvir. Deve remar contra a maré mais do que nunca, ser mais activa do que nunca em todas as frentes, aproveitando as possibilidades das novas tecnologias da informação como a Internet (participando em todos os fóruns possíveis, inclusivamente nos dos meios de comunicação oficial) sem nunca descuidar as “velhas formas de activismo”.

Porque o Mundo é de todos e não só de alguns!

Por Magnolia - Portugal

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Os 10 objetivos de ação para o Fórum Social Mundial 2009


Entre 10 e 12 julho, integrantes da Comissão de Metodologia do Conselho Internacional e do Grupo Facilitador local estiveram reunidos em Belém para avaliar as respostas à consulta realizada entre maio e junho e definir o conjunto final dos objetivos de ação dos participantes do FSM 2009. A consulta proposta pelo Conselho Internacional do FSM buscava ampliar ou adequar os objetivos de ação para o evento de 2009.

Em torno destes objetivos serão organizadas as diversas atividades (conferências, painéis, seminários, oficinas entre outras) no evento de Belém. Confira a lista de objetivos em torno dos quais serão organizadas as atividades no território do Forum de Belém. Destacadas em negrito estão as adições feitas aos objetivos definidos originalmente para o FSM 2007, realizado em Nairóbi (Quênia).

1. Pela construção de um mundo de paz, justiça, ética e respeito pelas espiritualidades diversas, livre de armas, especialmente as nucleares;

2. Pela libertação do mundo do domínio do capital, das multinacionais, da dominação imperialista patriarcal, colonial e neo-colonial e de sistemas desiguais de comércio, com cancelamento da dívida dos países empobrecidos;

3. Pelo acesso universal e sustentável aos bens comuns da humanidade e da natureza, pela preservação de nosso planeta e seus recursos, especialmente da água, das florestas e fontes renováveis de energia;

4. Pela democratização e descolonização do conhecimento, da cultura e da comunicação, pela criação de um sistema compartilhado de conhecimento e saberes, com o desmantelamento dos Direitos de Propriedade Intelectual;

5. Pela dignidade, diversidade, garantia da igualdade de gênero, raça, etnia, geração, orientação sexual e eliminação de todas as formas de discriminação e castas (discriminação baseada na descendência);

6. Pela garantia (ao longo da vida de todas as pessoas) dos direitos econômicos, sociais, humanos, culturais e ambientais, especialmente os direitos à saúde, educação, habitação, emprego, trabalho digno, comunicação e alimentação (com garantia de segurança e soberania alimentar);

7. Pela construção de uma ordem mundial baseada na soberania, na autodeterminação e nos direitos dos povos, inclusive das minorias e dos migrantes;

8. Pela construção de uma economia centrada em todos os povos, democratizada, emancipatória, sustentável e solidária, com comércio ético e justo;

9. Pela ampliação e construção de estruturas e instituições políticas e econômicas – locais, nacionais e globais – realmente democráticas, com a participação da população nas decisões e controle dos assuntos e recursos públicos;

10. Pela defesa da natureza (amazonica e outros ecossitemas) como fonte de vida para o Planeta Terra e aos povos originários do mundo (indígenas, afrodescendentes, tribais, ribeirinhos) que exigem seus territórios, linguas, culturas, identidades, justiça ambiental, espiritualidade e bom viver.

Para o FSM 2009, será possível também inscrever atividades auto gestionadas de balanços dos movimentos altermundistas e do processo FSM e sobre as perspectivas de ambos, que não se vinculem necessariamente a um destes dez objetivos específicos.

Como participar do FSM 2009
As inscrições para o FSM 2009 começam na segunda quinzena de agosto e serão feitas exclusivamente através do site FSM2009amazonia. O primeiro momento será dedicado ao cadastramento das atividades autogestionadas. De acordo com a Carta de Princípios do Fórum Social Mundial, somente organizações podem inscrever atividades. Em um segundo momento, acontecem as inscrições de participantes individuais e veículos de mídia.


* As informações são da Comissão Organizadora do Fórum Social Mundial

domingo, 10 de agosto de 2008

As mãos de meu pai


Todo ano, quando chega o dia dos pais, eu me lembro de uma poesia de Mário Quintana que refelte exatamente as mãos de meu pai, hoje com 67 anos. Aproveito para homenagear a todos os pais que frequentam este espaço, com o desejo de que tenham um feliz dia.

AS MÃOS DE MEU PAI

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
Sobre um fundo de manchas já da cor da terra -
Como são belas as tuas mãos
Pelo quanto lidaram, acariciaram
Ou fremiram da nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
Essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer,
Quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta,
Uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
Vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
Como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah! Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!

E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
Essa chama de vida - que transcende a própria vida...
E que os Anjos, um dia, chamarão de alma.


Obs:A criança que esta com ele é o gabriel filho de um amigo ou melhor dizendo, um irmão de coração.

"Os muros rebeldes"


As paredes têm ouvidos. Vossos ouvidos têm paredes
mudas.

- A liberdade é o direito ao silêncio.

- Querem fazer-nos crer que ser é ter.

- Exagerar é começar a inventar.

- Todos somos judeus alemães. (Solidariedade com a prisão de Cohn-Bendit, deportado da França para a Alemanha.)

- Nossa esperança só pode vir dos sem-esperança.

- Todo reformismo se caracteriza pelo utopismo de sua estratégia e pelo oportunismo de sua tática.

- Burgueses: vocês não entenderam nada.

- Abramos as portas dos asilos, das prisões e das outras faculdades.

- Decreto o estado de felicidade permanente.

- A barricada fecha a rua, mas abre o caminho.

- Um homem não é estúpido ou inteligente. É livre ou não não é.

- Debaixo dos paralelepípedos, a praia.

- A beleza está na rua.

- Por uma instituição democrática na sociedade sem classes. Por uma instituição sem classes na sociedade democrática.

- Anistia: ato pelo qual os soberanos costumam perdoar as injustiças que cometeram.

- Não me libertes, eu me encarrego disso.

- A ação não deve ser uma reação, mas uma criação.

- Gozem aqui e agora.

- Corra, camarada, o velho mundo está atrás de você.

- Não mudemos de empregadores, mudemos o emprego da vida.

- O ato institui a consciência.

- Podemos tranqüilizar-nos: 2 + 2 já não são 4.

- Se você tem o coração à esquerda, não tenha a carteira à direita.

- As liberdades não se dão, se tomam.

- A emancipação do homem será total ou não será.

- Amai-vos uns sobre os outros.

- A imaginação não é um dom, mas um objeto de conquista. (André Breton)

- O álcool mata, tome LSD.

- Não é o homem, mas o mundo que se tornou anormal. (A. Artaud)

- Sejam realistas, peçam o impossível.

- É proibido proibir.

- Não façam a guerra, façam o amor.

- Desabotoem vossos cérebros tanto quanto desabotoam vossas braguilhas.

- Sós não podemos fazer nada.

- O Estado somos nós.

- Não à revolução com gravata.

- Toda visão das coisas que não seja estranha, é falsa. (Paul Valéry)

- Quando o Parlamento nacional se transforma num teatro burguês, todos os teatros burgueses devem se transformar em Parlamentos nacionais.

- Levamos a revolução a séria, mas não nos levemos a sério.

- O sagrado – eis o inimigo.

- As armas da crítica passam pela crítica das armas.

- Abaixo os jornalistas e os que os tratam com deferência.

- Façamos nós mesmos as nossas coisas.

- Deus é um escândalo, um escândalo produtivo. (Baudelaire)

- A liberdade do outro estende a minha até o infinito. (Bakunin)

- Aprender, aprender, aprender, para atuar e compreender. (Lenin)

- Nem um ápice de liberdade para os inimigos da liberdade.

- O dever de todo revolucionário é fazer a revolução. (Che)

- A morte é forçosamente uma contra-revolução.

- Proibido não colocar cartazes.

- A imaginação ao poder.

- Revolução, eu te amo.

- A insolência é a nova arma revolucionária.

- O homem não é o bom selvagem de Rousseau, nem o perverso da Igreja. É violento quando é oprimido e doce quando é livre.

- Só pode haver revolucionário onde há consciência.

- Nem dono, nem deus, deus sou eu.

- A obediência começa pela consciência e a consciência pela desobediência.

- Desejar a realidade, está bem. Realizar teus desejos é melhor.

- Os que falam de revolução e de luta de classes sem se referir à realidade cotidiana, falam de um cadáver na boca.

- Só a verdade é revolucionária.

- Os que seus desejos por realidades, acreditam na realidade dos seus desejos.

- A vergonha é contra-revolucionária.

- Jamais a perspectiva de gozar amanhã me livrará do tédio de hoje.

- A poesia está na rua.

- Quanto mais faço o amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer o amor.

- As pessoas que trabalham se chateiam. As pessoas que não trabalham, não se chateiam nunca.

- A liberdade é a consciência da necessidade. (Marx)

Só um monte de gente falando


A televisão fala para ninguém e ninguém escuta!

Artur de Carvalho

Volta e meia, quando chego em casa e encontro a família na frente da televisão, eu arrumo um lugarzinho por ali e, após alguns minutos tentando me inteirar do que eles estão assistindo, eu pergunto se não está passando nada melhor. Um filminho ou coisa do gênero. A resposta, quase sempre, é a mesma:

- Não, só tem um monte de gente falando.

Assumindo o controle remoto e dando uma zapeada pelos canais, eu confirmo o veredicto. Tirando um ou outro canal que tenta nos vender uma pulseira de jade ou a churrasqueira do George Foreman, nos outros, invariavelmente, tem um homem ou uma mulher discorrendo sobre algum assunto de extrema importância lá para eles. Uns estão numa discussão acalorada sobre o esquema de jogo utilizado pelo Corinthians no último clássico, outros comentando sobre a fragilidade do modelo energético brasileiro diante da crise do gás boliviano, e ainda outros discorrendo horas a fio a respeito da aplicabilidade no Brasil da bem sucedida experiência realizada nas penitenciárias da Suécia, nas quais os sistemas de som reproduzem, durante todo o dia, uma seqüência de músicas clássicas, de preferência Mozart ou Strauss.

Não que os assuntos não sejam interessantes. Muito pelo contrário. Todos os temas, se a gente prestar bastante atenção, têm lá seus atrativos. O grande problema é que ninguém ouve os caras. Todos eles ali, empinadinhos em suas poltronas, os homens quase sempre de terno e gravata, as mulheres abusando um pouco da maquiagem, imaginando que, com aquela entrevista, mudarão a maneira de pensar do restante da humanidade e que, a partir daquele dia, o caminho para progresso e a paz mundial será novamente retomado, tendo, é claro, ele mesmo como líder.

Uma bobagem. Ninguém muda o mundo. Nem a Madre Tereza de Calcutá, apesar de seus esforços, mudou o mundo. Ou você acha que a miséria e o sofrimento acabaram depois de tudo o que ela fez? Pois não acabaram. Continuou tudo na mesma. Assim como continuou tudo na mesma depois dos Beatles que, se imaginassem que a sua revolução terminaria no punk rock, provavelmente nem a teriam começado. Ou até mesmo Jesus Cristo. Será que ele se deixaria crucificar se soubesse que a Igreja Católica ia desandar de tal maneira que iria dar na Inquisição? Ou no escândalo dos padres pedófilos?

A verdade é que nós temos sorte de não dar ouvidos para esse monte de gente que teima em ficar falando na televisão, tentando mudar o mundo. O mundo é - como direi? - uma grande excrescência e, como tal, melhor não mexer muito com ele. Porque, na maioria das vezes, a única coisa que vamos conseguir é piorar o cheiro.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Coisas da Política - Distribuir para crescer



O que faz as revoluções não é o desespero, mas, sim, a esperança. Quando os povos se revoltam, revoltam-se na busca de uma vida melhor, em que haja mais pão e mais liberdade, que, juntos, significam dignidade. Mas as revoluções nem sempre se realizam com sangue e chumbo. Maria Auxiliadora Sampaio, de 28 anos, moradora de Fortaleza, foi assunto, na semana passada, do New York Times. Matéria assinada por Alexei Barrionuevo recolhe seu testemunho de vida, idêntico ao de milhões de outras pessoas, principalmente mulheres, que constituem a nova humanidade que emerge do chão do Brasil.

"Eu me sinto fazendo parte do povo que está subindo no mundo. Quando você não tem nada, não tem uma profissão, não tem de que viver, você não é ninguém, você é um mosquito. Eu não era nada. Hoje, estou no céu". Maria Auxiliadora recebia ajuda do Bolsa Família. Animada, há dois anos conseguiu um empréstimo de 190 reais e comprou um estojo de manicure. Trabalhando de casa em casa, formou sua clientela e hoje ganha quatro salários mínimos ao mês. Seu próximo passo será a compra de um equipamento de esterilização de seus instrumentos de trabalho – o que, provavelmente, melhorará os seus rendimentos.

Maria Benedita de Sousa, também de Fortaleza, que, há cinco anos arranjou um empréstimo do Banco do Nordeste, comprou duas máquinas de costura e iniciou pequena confecção de roupa íntima feminina. Hoje tem 25 empregados, produz 55 mil peças por mês, já comprou casa própria e vai comprar seu segundo carro. Antes disso, trabalhava em uma fábrica de jeans e recebia o salário mínimo.

Há menos de cinco anos, o Brasil estava longe de qualquer revolução, porque os pobres estavam desprovidos de esperança. Os programas sociais do governo, ao permitir modestíssima expansão do consumo, fizeram crescer o mercado interno – a única garantia de prosperidade nacional segura – e deram empuxo ao processo geral de desenvolvimento.

O governo, agindo pela pressão das circunstâncias, diante do quadro de miséria que ameaçava a boa ordem burguesa, atuou de forma a aliviar a situação. O mérito é das próprias pessoas beneficiadas pelos programas, as mais pobres do país, que, em sua maioria, decidiram usar a modesta bengala da ajuda a fim de saltar o círculo de giz e sair do desânimo para a esperança. A ajuda aos pobres não foi esmola, como muitos acreditavam que fosse, mas investimento econômico de resultados concretos. Há quem considere absurdo o fato de que alguns dos beneficiados pelo programa de Bolsa Família tenham comprado geladeiras e fogões a gás. É provável que tais críticos só admitam o benefício do conforto a alguns privilegiados e não a todas as pessoas. Durante o governo do senhor Itamar Franco – em reunião que discutia a idéia da privatização das estatais – o senhor Pérsio Arida disse que só deviam ter acesso aos benefícios da civilização os que pudessem pagar por eles. Esse raciocínio não é apenas condenável do ponto de vista humano; é um acinte à lógica do ponto de vista econômico. Henry Ford partiu da idéia de que seus trabalhadores deveriam ser compradores dos carros que produziam – e foi essa idéia que dinamizou o capitalismo americano.

Quem viaja pelo interior do Brasil sente hoje como a paisagem humana começa a ser outra. Diminui o número de mendigos nas ruas, as pessoas estão mais bem vestidas e, mesmo entre os mais pobres, a estatura das crianças começa a impressionar. As pessoas estão comendo melhor e, ao comer melhor, resistem melhor às enfermidades. O grande médico Samuel Pessoa, pai do saneamento básico no Brasil, costumava dizer que não há melhor remédio do que a comida.

O autor da reportagem cita alguns números, como o aumento do número de cartões de crédito que chegou, em junho, a cem milhões e a menor dependência do Brasil com relação ao mercado norte-americano. Nossas exportações para os Estados Unidos representam hoje 2.5% do PIB. As do México são de 25% do PIB, o que o torna muito mais vulnerável às crises centrais – e cíclicas – do capitalismo.

Os pobres, com sua resposta ao mínimo de incentivo do Estado, dizem aos ricos que a força do Brasil está na coragem e na inteligência de seu próprio povo. Para muitos desses pobres, como Maria Auxiliadora, bastam 200 reais a fim de abrir o caminho à dignidade de ser alguém – e não "um mosquito".


Mauro Santayana

sábado, 2 de agosto de 2008

O traidor


“Uma nação pode sobreviver aos idiotas e até aos gananciosos,

mas não pode sobreviver à traição gerada dentro de si mesma.

Um inimigo exterior não é tão perigoso, porque é conhecido e carrega suas bandeiras abertamente.

Mas o traidor se move livremente dentro do governo, seus melífluos sussurros são ouvidos entre todos e ecoam no próprio vestíbulo do Estado.

E esse traidor não parece ser um traidor; ele fala com familiaridade a suas vítimas, usa sua face e suas roupas e apela aos sentimentos que se alojam no coração de todas as pessoas. Ele arruína as raízes da sociedade; ele trabalha em segredo e oculto na noite para demolir as fundações da nação; ele infecta o corpo político a tal ponto que este sucumbe”.

(Discurso de Cícero, tribuno romano, 42 a.C.)

Este discurso estaria tão bem atualizado na política municipal, que serve como uma luva para o eleitor chapecoense pensar duas vezes antes de votar.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

DEBATE


Acontece hoje a noite o primeiro Debate ou Embate televisivo com os candidatos a chapa májoritaria a prefeitura de Chapecó, resta esperar para ver a forma do debate, e como será comandada pelo então competente Vânio Boslle, com suas tiradas únicas,e irreverentes, quanto aos candidatos estamos na expectativa que se restabeleça a verdade ,mesmo porque em terra de condá o PIG está a favor de um projeto só, que é o da reeleição do então "DEMOTUCANO". Não percam a oportunidade uníca de vermos a verdade reestabelecida em um debate por uma outra região e por um canal de televisão tendo um apresentador imparcial e não dominado pelo "PIG" e os pelos "DEMOTUCANOS"

"Prefeito de verdade"


"Uma mentira repetida por diversas vezes ,torna-se uma verdade." Tanto que aqui em Chapecó não foge a regra tivemos um slogan em uma campanha passada que dizia "Vote em um prefeito de verdade." Não adianta negar: tem eleitor que adora uma mentira mesmo que possa parecer verdade, tem aquele que adora votar em candidato corrupto. Vamos ser sinceros: tem eleitor que não pode ver corrupto sem lhe oferecer seu voto. Vamos ser francos: tem eleitor que vota em corrupto até de graça. Só pela simpatia de dizer eu votei em um prefeito de verdade, mesmo sabendo que é mentira, mesmo com a proibição de uso de camisetas de candidatos, se hoje fosse permitida estariam estampadas nelas os seguintes slogans. "Eu amo meu mentiroso" ou "Mentiroso,corrupto e Prefeito de verdade."

segunda-feira, 28 de julho de 2008

São Cristovão que nos perdoe


São Cristóvão que nos perdoe, mas a festa do bairro são Cristóvão que de três em três anos se transforma no reduto de políticos, cuja sua maioria nem devoto do padroeiro é, ou muito menos conhece a realidade do povo de nossa região, mas que em época de eleição se apresentam como o Deus omnipotente, o verdadeiro fiel e devoto do santo, prontos para levar nas costas e cruzar o rio,todo e qualquer cidadão, desde que este tenha titulo é claro.Mas que me chamou a atenção foi a demonstração de poder e abuso dos DEMO-TUCANOS,uma verdadeira festa de arromba com demonstração de um misto de "PODER" e "LUXURIA" tudo que tem de pior em um político foi mostrado ali, vale cerveja, vale churrasco, vale rifa e até vale frango e bolo.Uma verdadeira festa de arromba que no final pode arrombar é os cofres públicos com esta puliticalha barata e demagoga, já ultrapassada mas que ainda é pratica comum pelos mesmos que ai estão, agora resta saber se aqueles que se empapussaram das goluseimas da festa se recordarão do numero ,nome e partido dos candidatos, porque hoje devem estar com uma tremenda dor de cabeça. Por favor aqui pede um eleitor que não tem nada a haver com isso que vcs beberam ou comeram , mas me façam um favor não vote neles, porque parte de um princípio ético, que este que te pagou uma cerveja não tem compromisso nem um com vc, diga não vote contra tudo isto que ai se apresenta.

sábado, 26 de julho de 2008

Justiça brasileira se esquece dos pobres

Negro, pobre e favelado, Sandro Wellington de Jesus, de 24 anos, atravessava a rua para pegar um ônibus, na madrugada do dia 23 de outubro de 2004, quando foi atingido por um tiro disparado por policiais militares que alvejavam outro jovem. Morador do Jardim Elba, uma das 32 favelas da região de Sapopemba, Zona Leste de São Paulo, o jovem de 24 anos pretendia participar de excursão para a cidade de Aparecida do Norte. Ferido, Sandro fugiu para sua casa, onde agüentou a dor até o amanhecer, quando teve certeza que os policiais já haviam saído da favela. Ao ser atendido no hospital, foi preso pelos mesmos policiais que o atingiram, sob a acusação tráfico e homicídio.




Depois de ficar preso por um mês, foi beneficiado pela liberdade provisória, pois não havia provas que sustentassem sua prisão. Um dia, foi tirar um documento e não pôde mais voltar para casa. Foi preso sob a acusação de não ter comparecido a uma audiência da qual ele nunca recebeu intimação. Segundo o oficial de justiça, o seu endereço não fora localizado.




Ele e sua família procuraram a defensoria pública, mas, no período de um ano, Sandro teve cinco defensores diferentes. Faltando dois dias para o júri, o caso ainda não havia sido estudado. No dia do seu julgamento, 16 de janeiro de 2008, Sandro foi condenado por quatro a contra três a sentença de 24 anos de reclusão.




Ricos e pobres

O caso do jovem é um exemplo de como no Brasil a justiça funciona de maneira diferente para ricos e pobres. Sandro faz para das estatísticas de estudos do Ministério da Justiça e da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas (Direito GV), que apontam que 80 mil presos provisórios e 54 mil condenados poderiam estar em liberdade, privilégio que em sua grande maioria só é oferecido quando o acusado faz parte da camada mais rica da sociedade. Somados, são 134 mil presos, que representam mais de 30% dos 422.373 presos do país.




O curioso é que, enquanto há 134 mil pessoas que poderiam estar em liberdade, o déficit nas penitenciárias é de 180 mil. Caso os detentos fossem liberados, haveria 75% das vagas para o sistema prisional, o que representa uma economia de R$ 4,7 bilhões aos cofres públicos, ao se levar em conta que o custo médio de R$ 35 mil por nova vaga, segundo dado do Ministério da Justiça.




Na avaliação de Gunther Zgubic, coordenador nacional da Pastoral Carcerária, os gastos dos Estados na manutenção dos presos provisórios poderiam ser investidos no atendimento do Judiciário. Além disso, ele acredita que a maioria dos Estados não têm defensorias equipadas e aptas para defender essas pessoas. “Esse dinheiro dos provisórios poderia ser utilizado para termos mais defensores, promotores e juízes. Assim, os julgamentos seriam mais rápidos”, aponta.




Acesso à justiça

De acordo com Anaí Rodrigues, representante da Associação Paulista dos Defensores Públicos, certamente há uma relação entre os números da população carcerária e a dificuldade de acesso à justiça por parte da população de baixa renda. “Às vezes encontramos pessoas num estabelecimento prisional que não estariam lá se tivessem dinheiro para pagar um advogado ou tivessem um defensor público que pudesse atuar com a qualidade que um advogado particular atua”, analisa.




Na avaliação de Anaí, os defensores não conseguem dar atenção devida aos casos, porque são muito poucos. “É um serviço de qualidade, mas pouco presencial”, pondera. Para ela, caso a defensoria fosse estruturada, “conseguiria ser mais presente, e assim ajudar na redução do número de pessoas encarceradas indevidamente”.




Hoje, a Defensoria do Estado de São Paulo conta com 400 defensores públicos, que atendem por ano cerca de 850 mil pessoas. De acordo com estudos da instituição, caso houvesse 1.600 defensores públicos, ela poderia ter postos de atendimento em todas as comarcas (hoje atende apenas 22 das 360) e não precisaria realizar convênios, como o que tinha com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

domingo, 20 de julho de 2008

ATAQUE-SURPRESA


Geralmente esse tipo de ataque revela falha dos Serviços de Inteligência e seu efeito é devastador. O soldado invasor é atingido seriamente na consciência e fica semanas abatido por ter sido derrotado pelo inimigo que usava uma arma de poder de fogo infinitamente menor, mas manuseada com bastante eficiência.

ASSINE JÁ, EM DEFESA DA LIBERDADE E DO PROGRESSO DO CONHECIMENTO NA INTERNET BRASILEIRA

ESTA PETIÇÂO AGORA É DIRECIONADA A CAMARA DOS DEPUTADOS - Na noite de 09/07 o Senado aprovou o projeto de forma velada, pegando a todos nós de surpresa. Desta forma temos de dar uma resposta á altura coletando o máximo de assinaturas possível dentre outras ações que estão sendo desenvolvidas. Não podemos desistir de exercer nosso direito á democracia.

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To: Senado Brasileiro
EM DEFESA DA LIBERDADE E DO PROGRESSO DO CONHECIMENTO NA INTERNET BRASILEIRA

A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX. Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais. A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.

A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet. O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural. A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana.

E nós brasileiros sabemos muito bem disso. A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatikng): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês. E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, "Educação e Carreira", ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil. Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência.

Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral. O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos. Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância.

Se, como diz o projeto de lei, é crime "obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida", não podemos mais fazer nada na rede. O simples ato de acessar um site já seria um crime por "cópia sem pedir autorização" na memória "viva" (RAM) temporária do computador. Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando. Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime. O projeto, se aprovado, colocaria a prática do "blogging" na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém!

Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao "transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado", "sem pedir a autorização dos autores" (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los). Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos.

O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos... Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum "dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular"?

Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras. Defendemos a necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante. E a Internet é um importante instrumento nesse sentido. Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime. Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI.

Por estas razões nós, abaixo assinados, pesquisadores e professores universitários apelamos aos congressistas brasileiros que rejeitem o projeto Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo ao projeto de Lei da Câmara 89/2003, e Projetos de Lei do Senado n. 137/2000, e n. 76/2000, pois atenta contra a liberdade, a criatividade, a privacidade e a disseminação de conhecimento na Internet brasileira.


André Lemos, Prof. Associado da Faculdade de Comunicação da UFBA, Pesquisador 1 do CNPq.

Sérgio Amadeu da Silveira, Prof. do Mestrado da Faculdade Cásper Líbero, ativista do software livre.

João Carlos Rebello Caribé, Publicitário e Consultor de Negócios em Midias Sociais

Sincerely,

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The Undersigned

Daniel Dantas e a mediocridade da burguesia nacional


As espertezas protagonizadas pelo banqueiro Daniel Dantas e sua turma simbolizam com nitidez e definição de formas como de fato se desenvolve e prospera o capitalismo no Brasil. Como os ideais do velho liberalismo estão mortos e enterrados na cova rasa da ignorância da burguesia, subexiste para eles apenas o negócio, o business, e este geralmente colocado sob o signo da vigarice, como bem apontou uma vez Ernest Bloch.

No Brasil, nós não tivemos uma revolução burguesa do tipo clássico, embora o país tivesse se inserido, desde cedo, no modo de produção capitalista, sempre de forma subordinada. Assim, a burguesia sempre foi dependente, ora do Estado, ora das economias centrais. Por ser subordinada e sócio menor, nunca foi revolucionária, no sentido de protagonizar, com originalidade, a renovação de velhos padrões pré-capitalistas. Permanentemente, conviveu com o arcaico e o tradicional, em detrimento daquilo que era vanguarda na matriz do próprio sistema do qual era periferia.

Getulio Vargas é o nome da revolução burguesa no Brasil. Sentindo ele, Getulio Vargas, a mediocridade burguesa, tratou de dotar o Estado de instituições que fizessem o papel e a fala da modernidade burguesa. Mas Getulio era um só e portanto, acabou faltando aquilo que nos países que fizeram revolução burguesa tinham de sobra ou tinham, pelo menos até o advento do neoliberalismo. Primeiro, uma sólida cultura de classe dominante, que hegemonize a cena pública e privada nas diversas esferas da vida social. Dois, um eco social próprio da classe, mas capaz de informar e formar traços psicológicos e morais também nas classes dominadas. Três: uma ética burguesa que fale por si mesma como classe, mas sobretudo para a sociedade como um todo, sob prescrições comportamentais, normas civilizatórias, valores iluministas e exortações republicanas.

Portanto, a tragédia ética do Brasil é muito motivada por essa completa ausência de espírito revolucionário, no sentido burguês mesmo, e das nossas medíocres elites econômicas. Neste país, todo burguês é um usurpador. Chegou onde se encontra, no topo da pirâmide, sem nunca ter feito qualquer esforço social, intelectual ou econômico para justificar a sua condição de classe dominante. Chegaram ali, ou por força de vantagens adquiridas junto ao aparelho de Estado, ou por serem sócios menores de interesses geopolíticos das economias centrais.

Daniel Dantas, portanto, é apenas e somente o herdeiro mais fiel e bem sucedido de uma longa tradição de nossa burguesia brasuca.

Pensem nisso, enquanto eu me despeço.

Até mais!
Cristóvão Feil é sociólogo

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