sexta-feira, 17 de julho de 2015

A fórmula mágica da paz social se esgotou – Paulo Arantes

 

Crise econômica, ameaça de grande regressão nos direitos sociais e crise política. Crise de governo, da democracia, fim de ciclo?
  
Vivemos o fim de um ciclo. Mas não um ciclo qualquer, tampouco uma crise cíclica, como é da natureza de um sistema descrito por Marx como a contradição em processo. Estamos simplesmente vivendo o fim de toda uma era. Há quem veja nesse desfecho, que se arrasta aos trancos e barrancos desde junho de 2013, talvez a mais grave crise de nossa história. Por isso mesmo não é de fácil identificação. Não é uma crise saneadora a mais, ao fim da qual o bom negócio chamado Brasil entraria nos eixos. O drama agora é outro. E olhe que a recessão econômica mal está começando, o desemprego ainda não bateu forte, a polarização está muito longe dos padrões venezuelanos ou mesmo argentinos, para ficarmos nos ingredientes clássicos, dentre os quais nem precisei mencionar um ainda muito remoto surto inflacionário. 
No entanto, semana sim, semana não, a remoção institucional da presidente entra na agenda, na dependência de um arranjo entre os caciques de sempre, enquanto a esquerda legal se limita a soltar manifestos. Creio que dá para sentir o drama e sua novidade nessa trivialização da conversa sobre as modalidades de cassação de um mandato popular, em meio à gesticulação de uma esquerda que na melhor das hipóteses já é apenas memória e comentário.
 Esse é o meu ponto. Nunca se falou tanto de uma crise, no próprio momento em que ela transcorre, como se já fosse passado passando, por assim dizer. Não sei se é mera impressão, mas, para ser sincero, acho que ninguém aguenta mais falar justamente da “mais grave crise de nossa história”! Menos ainda ouvir ou ler a respeito. Estamos todos à bout de soufle. Não por acaso se falou muito do fôlego curto dos manifestantes de junho. Desconfio que não sou o único a ter chegado a esse ponto de saturação. Mesmo assim, sabendo de antemão que mal serei lido, pois todo mundo já disse de tudo ao longo desses seis meses de ata-não-desata, vou procurar responder à pergunta. E precisamente puxando por esse fio a meu ver revelador da sua natureza profunda, só aparentemente frívola: estamos cansando de tanto falar da crise, no fundo estamos sendo vencidos pelo cansaço.
 Ouvi certa vez um especialista dizer que a Revolução dos Cravos batera no teto e refluíra até se extinguir, para além dos obstáculos mais ou menos previsíveis, como o veto da OTAN, a desmoralização soviética ou o dinheiro da União Europeia, porque o povo português simplesmente cansara da batalha diária nas ruas durante meses a fio. O fôlego simplesmente acabara. Exatos quarenta anos depois, não é menos verdade que neste último dia 5 de julho não se sabe bem onde 60% dos eleitores gregos foram buscar a energia que faltava para derrotar, por enquanto nas urnas, o regime de austeridade imposto pelo atual sistema europeu de poder sobre a moeda comum. Numa palavra, venceram o cansaço provocado por cinco anos de um arrocho que parecia sem fim e ainda não se sabe que destino terá. Nos dois contextos de crise, uma revolucionária, outra de restauração da ordem, o cansaço pode muito bem se apresentar como uma chave política capaz de fechar ou abrir uma conjuntura que está longe de ser apenas mental.
 Quanto a nós, está claro que não chegamos ao fim de nenhum capítulo da mítica Revolução Brasileira da minha geração. Era só o que faltava, embora não seja menos impressionante a sensação incongruente de estarmos nos defrontando com uma contrarrevolução (que não veio para liquidar ou prevenir revolução alguma, ou mesmo as tais “conquistas sociais” que não ameaçavam ninguém, antes contribuíam para o desarmamento moral da nação, muito embora o pau continuasse comendo solto nos porões da Democracia), mas a um fim certamente chegamos e, além do mais, exaustos.
 Pois, assim, é esse um dos sintomas desconcertantes dessa anomalia com cara de crise à moda antiga. A inexpressiva vitória eleitoral do ano passado, à base de voto no “mal menor” e correria esquerdista de última hora, revelou uma sociedade cansada e soterrada por uma avalanche conservadora que de geração espontânea não tinha nada, crescera nos anos das tais “conquistas”.

Paralelos com 1964

Durante a Ditadura, o que mais se debatia nos círculos oposicionistas era a natureza do “modelo”, como se passou a falar desde então. Discutia-se qual a natureza do modelo econômico ou do modelo político do regime, quais os seus limites, em função dos quais, cedo ou tarde, se esgotariam caso não se renovassem. Foi esse, então, o momento da crise e, portanto, o momento ótimo para a virada que ela representava, segundo a acepção clássica do termo. E ela finalmente veio com as crises conjugadas da dívida, da inflação, do petróleo etc. Todas interpretadas como choques, a um tempo externos e internos. Como também passaram a ser de choque as terapias adotadas para reverter a fase aguda da crise. Como um teórico observou recentemente, cada época tem as suas doenças paradigmáticas. Assim, tanto a Guerra Fria como o Terror Branco das ditaduras do Cone Sul seguiram o esquema imunológico, na verdade um autêntico dispositivo militar de ataque e defesa orientado pelo princípio de eliminação de tudo o que fosse estranho, mesmo que desprovido de qualquer intenção adversa; bastava a estranheza enquanto tal.
 Todo o repertório punitivo de hoje em torno de choque disso ou aquilo, ordem, gestão ou mesmo capitalismo, como disse um sábio no fim dos anos Sarney, é resíduo arcaico daquele período idem. O Choque está nas ruas desde junho, mas os assim chamados golpistas (outra reminiscência) estão tratando a corrupção endêmica como uma falha imunológica generalizada, como nos tempos em que subversão e corrupção eram intercambiáveis. Não há mais campanha de vacinação contra o vírus comunista, por mais que alguns homens das cavernas espumem. O estresse agora é outro, ou melhor, só agora o paradigma do estresse tornou-se lugar comum, estendendo-se da saúde estourada no trabalho ao colapso dos ecossistemas.
 Mas voltemos ao tempo em que os modelos entravam em crise e se esgotavam, a fim de reparar que talvez (ou melhor, com certeza) não seja mais assim, sendo a crise um nome antigo para uma coisa nova. Seja como for, por inércia, ou clarividência que ainda não encontrou a palavra da vez, de esgotamento é o que mais se fala, seja das virtudes terapêuticas do lulismo, seja de políticas específicas, a começar pela exótica nova matriz econômica. A novidade é o esgotamento simultâneo, ambos fatores reforçando-se mutuamente, desde vários mecanismos de governo até as coisas e as populações, para prolongar a velha distinção de Saint Simon da qual a tradição de esquerda não soube se desvencilhar.
 A esta altura, desnecessário enumerar as múltiplas falências, do manejo macroeconômico ao distributivismo indolor. Tudo bateu no limite, pelo que se lê nas centenas de comentários. Tampouco vale qualquer comentário o circo de horrores político. Salvo pela paródia grotesca da antiga equação keynesiana, do bom governo que induzia cada classe a assumir o papel da outra, de tal modo que o capitalismo no centro de tudo parecia um jogo de soma positiva. Por aqui o que vemos são centrais sindicais fechando com os megaprojetos tocados pelas empreiteiras chocadas pela Ditadura enquanto as pavorosas bancadas da bala, da bíblia e do boi jogam cascas de banana nas políticas de direita de um Executivo de esquerda. Mas chega de varejo e conjuntura, o que não falta é colunista em cima dessa rapadura.
 Para voltar, assim, ao nosso “esgotamento”, de tudo e ao mesmo tempo, é bom não perder de vista o timing nada trivial do encadeamento dos diversos estresses (para variar) hídricos das grandes regiões metropolitanas, aos quais se soma a iminência de outros tantos apagões. Na mesma linha, um governo em queda livre, um dia depois de sua posse, não deixa de ser no seu gênero um evento extremo. Se estivéssemos à procura de uma metáfora que resumisse todo esse clima de consumação de uma época, nada melhor do que o olho clínico de um personagem carismático no seu ocaso. É no “volume morto” que nos encontramos mesmo, em todos os sentidos abaixo da linha de captação do que quer que seja. Esgotamos por predação extrativista um imenso reservatório de energia política e social armazenada ao longo de todo o processo de saída da Ditadura.
 A entropia avassaladora de agora não afeta apenas os últimos doze anos e meio de hegemonia lulista como se costuma resumir o polo prevalecente nesse período de FlaxFlu eleitoral ininterrupto, mas o longo prazo iniciado por uma Transição que está morrendo agora na praia. Os pretensos herdeiros desse espólio simplesmente não sabem o que os espera ao apressarem seu fim institucional. Estarão abreviando sua própria sobrevida, pois a fuga para frente que ainda insistimos em chamar de crise é antes de tudo um processo ao qual nenhum lance dramático porá fim, nem suicídio, quanto mais intrigas regimentais de políticos e negocistas de quinta. Vencidos pelo cansaço, então, também é isso: trinta e cinco anos ralando, e de permeio um descomunal desperdício, o próprio emblema da tragédia segundo os Antigos.
 A crise é assim, essa convergência desastrosa de uma inédita exaustão de todo tipo de recursos, dos mais elementares aos mais elevados, da polinização à imaginação política. Até a potência de Junho parece que se esgotou. Pois é tal a entropia do capitalismo, desorganizado desde o Big Bang de meados dos anos 1970 em seu núcleo orgânico, que desorganiza até mesmo as forças antissistêmicas. Só para efeito de comparação, veja-se o caso do outrora maior partido de esquerda do Ocidente. O PT não está agonizando por força de rejeição imunológica, por maior que seja o efeito do choque externo das ondas sucessivas de anticorpos enraivecidos até o ódio mortal, mas por motivo de uma combustão interna que o consumiu, por assim dizer, do berço ao túmulo. Nenhum ato de violência de classe o desviou de sua vocação original, pura e simplesmente dissipou-se a energia que o mantinha em funcionamento. Bem como a das grandes centrais sindicais e movimentos sociais históricos que gravitavam em sua órbita. Foram todos vencidos pelo cansaço, como sabe todo batalhador de movimento social, quase sempre à beira de um burnout.
 Dito assim, parece, quando muito, a expansão duvidosa de uma metáfora, mas apenas porque esquecemos que o PT nasceu antes de tudo de um colapso, mais precisamente do colapso da construção da sociedade do trabalho no Brasil, justamente – mas agora em plano global, pois estamos falando de modernização capitalista – por uma falha do “motor humano” de todo o edifício. Como não posso me explicar, corto o caminho por uma recapitulação de época, afinal estamos tentando desde o início identificar o fim de uma época e não a enésima alternância de ciclo e crise.

O fim de uma narrativa de Brasil

Como lembrado, o raio detonador da crise caiu em junho de 2013. Em março daquele ano, a aprovação do governo beirava níveis norte-coreanos. Três meses depois, se ainda não estava no chão como agora, rolava ladeira abaixo. Por isso ganhou mal as eleições, ao contrário da direita que perdera convencida de que o seu ressentimento já era uma praga nacional – outro recurso que se esgotou e marquetagem alguma renovaria. Para uma comunidade política de expectativas imaginadas como a brasileira, e como tal embalada desde o berço por uma procissão de milagres e miragens, uma reversão traumática. Em menos de quinze dias de ação direta nas ruas, e outros tantos de uma insurgência coxinha jamais vista, embora estivesse na cara a tremenda sociedade aquisitiva-conservadora que o elixir lulista irrigara, virou letra morta a grande narrativa contemporânea do Brasil global player que deu certo e rendia conforto e boa consciência à recaída neodesenvolvimentista da esquerda, literalmente um projeto amazônico de poder para escola superior de guerra nenhuma botar defeito.
 Mas deixemos de lado, por enquanto, nossa Segunda Guerra Fria, parcialmente imaginária como a primeira, embora quentíssima na periferia, também como a outra. Numa palavra, a fórmula mágica da paz simplesmente se esgotou, como todos os demais recursos que alimentaram o jogo de cena da trégua lulista. Todo mundo sabe de trás para frente quais eram esses recursos: o consenso das commodities, o acesso facilitado ao crédito e consequente endividamento popular em grande escala, o consumo de massa puxado por uma descomunal e caótica expansão urbana etc. Como também todo mundo sabe, nada disso teria sido possível caso o monstruoso renascimento do poder de mercado chinês não tivesse subvertido todo o metabolismo do capitalismo global, tanto pela reconfiguração da divisão internacional do trabalho como pela divisão internacional da natureza, Amazônia incluída.
 Como resumiu Camila Moreno, “nós estamos dentro da China, e a China está dentro de nós”. Um dia ainda nos daremos conta de que o drama de época que está se encerrando agora foi representado em dois palcos distintos, transitando do finado Consenso (financeiro) de Washington ao não menos fantasmagórico Consenso (extrativista) de Pequim. Mas não estou querendo resumir toda essa época dizendo que o cobertor encurtou, o armistício rompeu-se e a guerra social voltou, pois ela nunca foi embora, nossa “pacificação”, como as aspas de rigor indicam, nunca deixou de ser crescentemente armada, a quarta população carcerária do mundo não é apenas uma enormidade estatística, mas uma política de sequestro de populações selecionadas para apodrecer.
 O que, portanto, está virando pó, ou definitivamente já virou, não era em absoluto um horizonte em expansão, mas antes de brutal contração, ofuscada, no entanto, pela poeira de uma ditadura que batia em retirada. Nem por isso deixa de virar pó aquela narrativa ascensional, segundo a qual uma nação reencontrara o seu destino, deixando para trás um ciclo autoritário, constitucionalizando a nova ordem, contendo a hiperinflação e estabilizando a moeda para em seguida incluir os pobres num mercado interno de consumo de massa, desenhar políticas sociais celebradas mundo afora como best practices, projetar suas próprias transnacionais e arrastar consigo megacanteiros de obras de infraestrutura e muitos outros etcéteras, todos igualmente milagrosos, pois sem ônus para qualquer interesse estabelecido.
 Nada nessa narrativa de redenção que acabou rendendo capa na Economist era inteiramente falso, pela simples razão de que poderia ter sido muito pior. Mal menor não é progresso, mas estabilização numa desgraça de qualquer modo incontornável, como de resto sabem todos os envolvidos no conflito Israel-Palestina, para dar um exemplo extremo porém congruente, um impasse que um insuspeito historiador do problema dos refugiados palestinos, Beny Morris, chamou de apocalíptico. A verdade verdadeira em nosso caso de sucesso, a caminho, de sucesso em sucesso, do esgotamento de agora, consistia, ao fim e ao cabo, no êxito na contenção de um processo de desintegração múltipla que exigia um novo tipo de governo na contramão da rigidez disciplinar do desenvolvimentismo de caserna.
 O horizonte de expectativas tão brutalmente rebaixado de Junho para cá tinha na realidade um perfil baixo desde o início. O fato é que lá atrás recomeçamos por baixo, com uma democracia de baixa intensidade (novamente “racionada”, como diria Marighella e relembrou recentemente Lincoln Secco), acoplada a um processo de desestruturação produtiva altamente explosivo que da noite para o dia descartou por falta de interesse econômico uma massa considerável de futuros trabalhadores inviáveis, salvo para o subemprego nos mercados informais ou ilícitos.
 O sopro novo conquistado no processo de saída da Ditadura, sem ser de modo algum efeito de uma respiração artificial, foi se esgotando desde então à medida que uma queda social jamais vista exigia uma política “presentista” de pronto atendimento, igualmente inédita em termos de engenharia social. Resumindo de outro modo: à constatação silenciosa de que a construção de uma sociedade do trabalho no Brasil era página virada, respondeu-se com a invenção (aliás, bipartidária) de um novo governo do social, cuja fratura a eclipse do trabalho selara. Como no seu país de origem, a França, estava fora de cogitação uma sociedade salarial no Brasil. Porém, o mais desconcertante naquela saída em falso, na qual somente mais tarde reconheceríamos o que era, a rigor uma saída de emergência, é que com ela se abria uma outra frente de trabalho.
 Entendamo-nos. Por assim dizer, o que se deteriorava por um lado brotava do outro: uma onda nunca vista de trabalho social militante parecia varrer o país, que passava a ser visto como um imenso mutirão de resgate de uma dívida social histórica que a Ditadura agravara ainda mais. Tudo se passava, então, como se o choque causado pela crise da dívida, que explodiria na moratória de 1987, tivesse intensificado por sua vez uma certa percepção social de emergências acumuladas, como se o flagelo da hiperinflação, a fome velha e nova, a demanda por direitos achados na rua, a dívida externa impagável que ninguém contraíra etc. etc. formassem um grande continuum de urgências pedindo outras tantas intervenções. O take off celebrado mais à frente, quando moeda estável e inclusão através dessa mesma moeda formaram outro continuum, decolaria justamente desse campo humanitário minado.
 Sob o signo da carência sem fim, aos poucos a política deixava de ser vista como luta para se converter em ação terapêutica voluntária. Até mesmo o ciclo de acumulação primitiva e seu cortejo de violências saneadoras representada pela onda de privatizações e âncoras cambiais também não deixaram de ser uma fuga para frente e como tal uma outra ilusão encobridora de nossa queda. A dominância financeira que se consolidou a seguir amarrou de vez nosso capitalismo de cupinchas (nossa versão do crony capitalism inventado no sudeste asiático), do qual o Estado, paradoxalmente ampliado pelas privatizações, tornou-se o nó de todos os nós de toda aquela rede de big shots consorciados.

Uma exaustão que não deixa nada

Empurrada pelo trabalho social de inclusão – em suas várias vertentes: estatal, empresarial, Terceiro Setor, igrejas, e operadores dos mercados de substâncias ilícitas – pode-se dizer que a monetização integral do laço social era uma questão de tempo… E dinheiro. A começar pela redenção em dinheiro vivo justamente daqueles sujeitos monetários sem dinheiro, deixados no caminho pela marcha de nosso crescimento oco pós-colapso. Mas é claro que não vou reabrir agora o dossiê das Transferências Monetárias Condicionadas, o Welfare do século 21, segundo Lena Lavinas. Um modelo (isso mesmo, mais um modelo) cujos recursos (em todos os sentidos, mágicos inclusive) estão precisamente, não custa repetir, se esgotando (também em todos os sentidos), por incrível que pareça. Ou melhor, faz todo o sentido: política social como colateral de acesso ao sistema financeiro, de forma a potencializar o consumo represado por pobreza e salários historicamente baixos.
 O fato é que batalhando por, e em nome de, emancipação, alargávamos uma espécie bizarra de Câmaras de Compensação e Reparações onde cabia todo tipo de acertos de contas: novamente um continuum no qual se expressa uma outra relação da política com o tempo, uma tremenda novidade em sociedades nacionais que se formaram orientadas para o futuro, de acertos seja com as contas de um passado de abandono ao deus dará social, seja com um passado de grandes violações de direitos humanos em que a reparação monetária passa a entrar, sim, em linha de conta, como se os crimes da história se pagassem agora com dinheiro (note-se de passagem que a história deixou de ser uma estrela guia), ou ainda na forma de ajustes pontuais a título de redução de danos, e mais uma montanha de etecéteras na mesma linha da política de ambulância e governos terceirizados. Uma sociedade cansada de gestão e agora em crise dessa mesma gestão é isso: intervenções para enxugar gelo e retardar um pouco um processo entrópico maior. No limite, uma sociedade em que até trabalhar pela própria emancipação parece cansar mais do que se deixar sucumbir de uma vez pela intensificação alucinada desse mesmo trabalho que ninguém consegue encontrar.
 Estamos viajando? Pois voltemos aos trilhos. Não é mero acaso que toda a engrenagem da transição para um pretenso capitalismo descarbonizado (e mais ou menos como num processo dito de Justiça de Transição) esteja baseada precisamente num mercado de compensações no qual se compra o direito ao mal menor das emissões excedentes, tal como o dano colateral num ataque de Drone desincumbindo-se de sua kill list entra na conta de uma prevenção humanitária maior (um massacre de turistas numa praia mediterrânea qualquer). Tudo se compensa, além do mais, e cada vez mais, monetariamente, neste cenário de desgraças comparadas, sob o fundo do qual falar no avanço de nossas conquistas sociais que a “crise” estaria estancando, se não digo que beira o escárnio é por ser simples falta de noção, embora sempre se possa dizer: antes isso do que nada.
 Mas é justamente essa visão progressista do progresso por degraus de melhoria a subir ou a descer que caducou. E esvaziou-se precisamente tal lógica ascensional escandindo o curso do mundo quando se passou, enfim, a convocar como último recurso (novamente) o direito dos pobres ao dinheiro, se não estou abusando do esforço esclarecedor do filósofo Homero Santiago de pensar os efeitos paradoxais do Bolsa Família.
 Entretanto, vai na direção contrária, embora raciocine a bem dizer nos mesmos termos, a figuração da segmentação dos pobres nas periferias segundo o sociólogo Gabriel Feltran, cenário sombrio onde se aposta pesado no dinheiro como única mediação do conflito entre grupos que de outro modo se confrontariam em condições de alteridade radical e violenta: sejam legais ou ilegais os mercados onde circula livremente o pagamento à vista em efetivo, o dinheiro é a última fronteira do “comum”. Como é o último recurso mesmo, quando também ele começar a secar na chapa quente de um outro aquecimento global, o regime de espoliação punitiva que é o Estado de Austeridade, voltaremos a rolar ladeira abaixo depois da insustentável pausa conservadora das antirreformas ou não-reformas lulistas (urbana, agrária, tributária etc.).
 Para se ter uma ideia dessa ladeira e dos sucessivos horizontes que por ela vão se estreitando desde que caímos para cima, como diziam os humoristas nos tempos da descompressão política com inflação nas nuvens, basta lembrar que houve época em que o assalariamento e a correspondente subordinação ao comando do capital parecia aos despossuídos e estropiados em geral a única rota de fuga aos horrores do mando proprietário num país de raízes coloniais. E para alguns, selecionados a dedo pela máquina varguista da “cidadania regulada”, na fórmula famosa de Wanderley Guilherme, uma estreita porta de acesso ao mundo dos direitos básicos do eleitor-trabalhador. Agora que o assalariamento se dessocializou, pulverizando a classe, o acesso ao dinheiro nu e cru se apresentou como a tábua de salvação da vez. Qual será a próxima em nossa Câmara de Compensações, cujo fornecimento de oxigênio a atual geopolítica de recursos escassos está cortando?
 Para que não haja mesmo dúvida a respeito do que vem por aí, relembro que um coletivo carioca, agrupado teórica e politicamente em torno da Crítica do Valor, há algum tempo vem refinando suas análises acerca do que denominam “gestão da barbárie”, sobre a qual se explicam e ilustram, por exemplo, no livro Até o último homem, a respeito da gestão armada da vida social na cidade olímpica do Rio de Janeiro. Foi precisamente essa gestão da barbárie que se esgotou com a crise exposta pela reviravolta de Junho, esquerda e direita confundidas na mesma ressaca, e que evoquei nesta digressão sobre a crise de exaustão numa sociedade cansada. Sai a gestão, resta a barbárie. Como tal gestão e o fabuloso arranjo lulista são uma só e mesma coisa, pode-se dizer que deixará saudades – que seja dito em agradecimento e louvor à esquerda que está sendo escorraçada agora na ignomínia. Alguém lembrou com justeza que o ônus será coletivo. Iremos todos pedalar no inferno por uma geração, na melhor das hipóteses.
 Fonte: Correio da Cidadania


domingo, 21 de junho de 2015

O CAOS IDEOLÓGICO (NO BRASIL)

Parece necessário reconhecer que a origem da grande confusão ideológica do país, neste momento, são as próprias forças progressistas e o governo
“O PSDB não tem um projeto de país”
Alberto Goldman, vice-presidente nacional do PSDB (FSP, 27/05/2015)
“O governo está sem rumo e está levando o PT junto”
Senador Paulo Paim (PT-RS) (Brasil 247, 27/05/2015)
Em meio à crise política e à retração econômica brasileira, o jantar do dia 12 de maio, da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, no Waldorf Astoria de Nova York, reunindo banqueiros, empresários e políticos da alta cúpula do PSDB, em torno da pessoa dos ex-presidentes Bill Clinton e Fernando H. Cardoso, foi um clarão no meio da confusão ideológica dominante. Em termos estritamente antropológicos, representou uma espécie de pajelança tribal de reafirmação de velhas convicções e alianças que estiveram na origem do próprio partido socialdemocrata brasileiro. Mas do ponto de vista mais amplo, pode se transformar numa baliza de referência para a clarificação e remontagem do mapa político brasileiro.
Afinal, este grupo liderado pelo ex-presidente FHC, foi o único que esteve presente e ocupou um lugar de destaque nas reuniões formais e informais que cercaram a posse de Bill Clinton, em 1993, em Washington. Naquele momento foi sacramentada a aliança do PSDB com a facção democrata e o governo liderada pela família Clinton. Uma aliança que se manteve durante os dois mandatos de Clinton e FHC, assegurando o apoio do Brasil à criação da ALCA e garantindo a ajuda financeira americana que salvou o governo FHC da falência. Estes dois grupos estiveram juntos na formulação e sustentação das reformas e politicas do Consenso de Washington e voltaram a estar juntos nas reuniões da “Terceira Via”, criada por Tony Blair e Bill Clinton, em 2008, reencontrando-se agora de novo, na véspera da candidatura presidencial de Hillary Clinton.
Durante todo este tempo, os socialdemocratas brasileiros mantiveram sua defesa incondicional do alinhamento estratégico do Brasil, ao lado dos EUA, dentro e fora da América Latina; sua opção irrestrita pelo livre-comércio e pela abertura dos mercados locais; pela redução do papel do Estado na economia; pela defesa da centralidade do capital privado no comando do desenvolvimento brasileiro; e finalmente pela aplicação e irrestrita das politicas econômicas ortodoxas. Estas posições orientaram a politica interna e a estratégia internacional dos dois governos do PSDB, na década de 90, e seguem orientando a posição atual do PSDB, favorável à reabertura de negociações para criação da ALCA; à mudança do regime de exploração do “pré-sal”; ao fim da exigência de conteúdo nacional nos mercados de serviços e insumos básicos da Petrobras e das grandes construtoras brasileiras.
Isto pode não ser “um projeto de país”, mas com certeza é um programa de governo rigorosamente liberal, que só coincide de forma circunstancial e oportunista com as teses neoconservadoras defendidas hoje no Brasil por movimentos religiosos de forte conteúdo fundamentalista. A novidade destes movimentos no cenário politico brasileiro atual surpreende o observador, mas suas teses sobre família, sexo, religião etc não são originais e sua liderança carece da capacidade de formular e propor um projeto hegemônico para a sociedade brasileira. O mesmo pode ser dito com relação ao poder real das recentes mobilizações de rua e de redes sociais, que fazem muito barulho mas também não conseguem dar uma formulação intelectual e ideológica consistente às suas próprias iras e reivindicações.
Deste ponto de vista, parece necessário reconhecer que a origem da grande confusão ideológica do país, neste momento, são as próprias forças progressistas e o governo que acabou de ser eleito por uma coalizão de centro-esquerda. Não é fácil identificar o denominador comum que une todas estas forças, mas não há duvida que seu projeto econômico aponta muito mais para o ideal de um “capitalismo organizado” sob liderança estatal, do que para o modelo anglo-saxônico do “capitalismo desregulado”; para uma politica agressiva de redistribuição de renda e prestação gratuita de serviços universais, do que para uma política social de tipo seletiva e assistencialista; e finalmente, para uma estratégia internacional de liderança ativa dentro de América Latina, e de uma aliança multipolar com as potências emergentes sem descartar as velhas potencias do sistema, muito mais do que para um alinhamento focado em algum país ou bloco ideológico de países.
Se assim é, como explicar à opinião publica mais ou menos ilustrada, que um governo progressista deste tipo coloque no comando de sua politica econômica um tecnocrata que não tem apenas convicções e competências ortodoxas, mas que seja também um ideólogo neoliberal que defende abertamente em todos os foros, uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo para o país absolutamente idêntica a que é defendida pelo grupo que participou do jantar no Waldorf Astoria, no dia 12 de maio? E como entender um ministro de Energia, que defende em reuniões internacionais, o fim da politica de “conteúdo local” e do “regime de partilha”, do pré-sal, duas politicas que são uma marca dos últimos 13 anos de governo, e uma diferença fundamental com a posição defendida pelos mesmos comensais de Nova York?
Por fim, para levar a confusão até o limite do caos, como explicar que o ministro de Assuntos Estratégicos deste mesmo governo, proponha abertamente, pela imprensa, como se fosse apenas um acadêmico de férias, que se faça uma revisão completa da política externa brasileira da última década, com a suspensão do Mercosul que foi criado e é liderado pelo Brasil, e com a mudança do foco e das prioridades estratégicas do país, que deveria agora alinhar-se com os EUA para enfrentar a ameaça da “ascensão econômica e militar chinesa”?
Tudo isto dito de forma absolutamente tranquila, exatamente uma semana antes da visita oficial do primeiro-ministro chinês ao Brasil, que já havia sido anunciada junto com um pacote de projetos e de recursos para levar a frente uma estratégia de longo prazo que passa – entre outras coisas – pela construção de uma ferrovia transoceânica capaz de dar ao Brasil, finalmente, um acesso direto ao Pacifico, com repercussões óbvias no campo da geopolítica e geoeconomia continental. Além disto, este “grande estratego” do governo fez sua proposta um mês antes da reunião do BRICS, na Rússia, em que será criado o banco de investimento conjunto do grupo, sob a óbvia liderança econômica da China. Uma trapalhada pior do que esta, só se fosse proposta também a internacionalização da Amazônia.
Talvez por isto tantos humanistas sonhem hoje com o aparecimento de uma nova utopia de longo prazo, como as que moveram os revolucionários e os grandes reformadores dos séculos XIX e XX. Mas o mais provável é que estas utopias não voltem mais, e que o futuro tenha que ser construído a partir do que está aí, a partir da sociedade e das ideias que existem, com imaginação, criatividade, a uma imensa paixão pelo futuro do país.

Por:  JOSÉ LUÍS FIORI

sábado, 13 de junho de 2015

A rebelião não será gourmetizada

“Esta “nueva derecha práctica”. No es izquierda sino ex-quierda. 
…desde quando “somos todos de esquerda”?! Desde quando “é tudo a mesma coisa”?! Até quando sustentarão essa farsa conciliatória de classes do “amplo, geral e irrestrito” campo “democrático-popular”?!
A nossa rebeldia sentida na pele, atualizada a cada novo dia de trabalho, de transporte público e de humilhação cotidiana vivida nestas Cidades-Mercadorias frente os patrões e o estado, por quem hoje seguimos sendo monitorados, criminalizados e reprimidos pela simples rebeldia de existir pobre, preto ou periférico, desde pelo Exército de Lula e Dilma na Favela da Maré no Rio de Janeiro – e tb sempre a postos diante de qualquer manifestação popular mais radical (nossos presos de Junho e dos despejos e espoliações da #CopaDasCopas que o digam…); ou nas vilas e Cabulas cotidianas chacinadas pela Polícia Militar Baiana dos governadores-genocidas petistas, Sres. Jaques Wagner, este sionista baba-ovo de torturador, e agora o sr. Rui Costa (PT-BA); ou pela Guarda Civil Metropolitana de Haddad e seus “rapas” de todos os dias, por toda a região central da cidade de São Paulo. Esquerda?! Onde, cara pálida?! Essa “Democratização”, esse “Desenvolvimento” e essa “Pacificação” promovida por vocês… essa Exquerda e essa Paz são “uma senhora branca que nunca sequer olhou na nossa cara!”.”
Crítica coletiva e pública à realização do Seminário Internacional “Cidades Rebeldes”,organizado pela Boitempo Editorial e o SESC São Paulo. Por Movimento Independente Mães de Maio
“Eu sou problema de montão / De carnaval a carnaval / Eu vim da selva / Sou leão / Sou demais pro seu quintal” – Racionais MCs em “Negro drama”
No final da semana passada, após o cancelamento – por questões de saúde – da participação do intelectual-companheiro Stephen Graham no Seminário Internacional “Cidades Rebeldes”, alguns companheiros-trabalhadores da Boitempo Editorial (organizadora do seminário) convidaram integrantes de nosso movimento para completar a mesa específica sobre “Polis, polícia: violência policial & urbanização”, que compõe a sua programação completa (Confira as mesas na íntegra aqui:).
Diante do convite de última hora, durante o fim de semana nós do Movimento Independente Mães de Maio meditamos e discutimos bastante, coletivamente, e decidimos não participar deste Seminário Internacional pelas razões a seguir, as quais também achamos importante tornar públicas (não apenas para os inscritos e demais participantes do Seminário, mas também para a reflexão de toda esquerda autônoma e anticapitalista).
 Para começo de conversa, uma primeira grande decepção: com toda nossa história de luta cotidiana contra a violência policial no Brasil ao longo dos últimos 9 anos, e (humildemente) o barulho, as denúncias, as medidas práticas (e as reflexões) que temos feito, todos os dias, frente a cada execução/chacina da polícia não só aqui em SP, mas em todo o Brasil, o movimento Mães de Maio ter sido chamado apenas após a desistência de um dos intelectuais da mesa não nos soou digno, à altura do respeito que exigimos e fazemos por onde merecer cotidianamente nas ruas. Os companheiros intelectuais, sobretudo os de esquerda, a nosso ver deveriam ser os primeiros a tomar a iniciativa e construir espaços em conjunto com/de/para os movimentos sociais populares, principalmente para escuta e aprendizado mútuo. Rebeldemente rompidas algumas dessas persistentes torres de marfim – reprodutoras de hierarquizações e privilégios seculares, possivelmente muito teríamos a aprender de parte a parte. Porém, salvo raras exceções – as estrelas de sempre de alguns movimentos, as catracas das mesas de seminários, da participação em pesquisas ou em grandes colóquios públicos, as cercas dos “latifúndios do ar”, infelizmente, seguem erguidas para a grande maioria dos integrantes dos movimentos sociais.
 Por outro lado, num primeiro momento, soou francamente tentador (e para nós seria uma honra) poder trocar ideia com intelectuais-realmente-compromissados-e-companheiros como Lúcio Gregori, David Harvey, Mariana Fix, entre outros que compõem as mesas atualizadas do Seminário e, sobretudo, trocar ideia com as centenas de pessoas inscritas no ciclo – a grande maioria delas, certamente, pessoas de esquerda e interessadas em buscar conhecimento crítico e transformador – que tem na editora e nesses intelectuais referências importantes nas suas trajetórias. Além de nossa contribuição ao debate-papo, poderíamos também levar os materiais de agitação/informação/formação do nosso movimento (camisetas, livros, DVDs etc produzidos nós por nós), que geralmente vendemos (a preços baixos) para garantir a nossa autonomia na luta cotidiana, ao mesmo tempo em que dividimos/difundimos nossa caminhada com outros tantos compas. Uma troca de ideia proveitosa com alguns verdadeiros camaradas, o “luxo curricular” de constar o nome de alguns de nossos integrantes em meio à galáxia de estrelas da nossa intelectualidade de esquerda (e de exquerda tb, de currículos que lattes-mas-não-mordem), muito possivelmente venderíamos um bocado de material – o que, tudo somado, poderia ser muito interessante para nós… (Particular e pessoalmente?)
PORÉM, HÁ UMA QUESTÃO MUITO SÉRIA E ANTERIOR A TUDO ISSO, REFERENTE A ESTE SEMINÁRIO ESPECÍFICO, que diz respeito a toda esquerda anticapitalista, implicando todos nós: participar desta programação significaria, a nosso ver, de alguma maneira, compactuar com a forma como foram concebidos e estão sendo realizados tanto a tônica/composição dessas mesas, como o mecanismo seletivo das suas inscrições (ao preço de R$ 60,00). Opções que, infelizmente, dão um sentido político claro e alarmante ao Seminário como um todo: uma verdadeira “gourmetização” da Rebeldia, bem concreta, vivida por muitas e muitos de nós no cotidiano. Na pele, na mente, e nos corações.
 Ora, em primeiro lugar, a nosso ver um Seminário Internacional intitulado “Cidades Rebeldes”, cujo tema remete de imediato às Revoltas Populares de Junho de 2013 e a uma publicação que a própria Boitempo coorganizou sobre esses acontecimentos (“Cidades Rebeldes – Passe Livre e as manifestações que tomaram conta das ruas do Brasil” -), num evento subsidiado e correalizado junto à organização patronal SESC – Serviço Social do Comércio, não poderia de maneira nenhuma ter este valor de inscrição (R$ 60,00) como efetiva Catraca para o público em geral. Quem conhece a realidade da classe trabalhadora brasileira – como muitos autores da Boitempo bem analisam em diversos livros, sabe que este valor é muito pesado no orçamento mensal dos trabalhadores, ainda mais pressionados pela crise atual. A nosso ver, preços mais acessíveis ou, de preferência, a entrada gratuita deveria ser um “princípio de esperança” e de “rebeldia” (de classe?) da própria organização do seminário para a plena realização dos fins anunciados pela sua convocatória.
TODAVIA, TALVEZ AINDA MAIS GRAVE DO QUE ISSO, a nosso ver, é tanto a ausência de nossos irmãos e irmãs, trutas de batalhas, do Movimento Passe Livre São Paulo na programação original – e mesmo na atualizada – do Seminário Internacional que leva o nome de sua rebeldia, ao mesmo tempo em que assistimos à simultânea presença de figuras como o Sr. Luís Inácio Lula da Silva (originalmente na Abertura do seminário, para uma palestra sobre “Das Diretas Já às Jornadas de Junho: os desafios para uma esquerda democrática” – palestra depois cancelada por ele); bem como do Sr. Fernando Haddad (que vai participar do Encerramento, junto ao David Harvey, na mesa “Da Primavera dos Povos às cidades rebeldes: para pensar a cidade moderna”). Afora a presença de algumas figurinhas carimbadas de mediadores e comunicadores totalmente integrados, e sempre a postos, à máquina petista-governista de lavagem cerebral (“progressista”, “livre” e “amorosa”) de trabalhadores e trabalhadoras…
Nós não acreditamos ser mais possível, a esta altura do campeonato, intelectuais de esquerda dignos deste nome, organizarem um seminário sugerindo que o Sr. Luís Inácio Lula da Silva tenha qualquer legitimidade para falar sobre “os desafios para uma esquerda democrática”. Logo este Sr. que, todos sabemos – ou deveríamos saber, se trata das figuras mais centralizadoras e autoritárias da chamada exquerda brasileira; que capitaneou, usou, abusou e ainda capitaliza até hoje todo um projeto coletivo de décadas e gerações de trabalhadores brasileiros [o hoje – não por acaso – agonizante Partido dos Trabalhadores (PT)], em torno de si e em favor de um projeto pessoal permanente de poder, que se renova a cada ciclo eleitoral. Uma figura cercada por fiéis correligionários que fazem todo o trabalho sujo para ele, que nunca permitiram qualquer democracia interna dentro do PT, e que nunca toleraram a ascensão de qualquer forma de questionamento/oposição a sua figura (desde a época de liderança sindical no ABC, e as muitas histórias tenebrosas que aquelas cidades escondem, até os dias atuais de Instituto Lula). Ademais, foi o próprio Lula quem disse, já em 2008, para um insuspeito Mino Carta e para quem mais quisesse ouvir, em alto e bom som, que ele “NUNCA FOI DE ESQUERDA”.
O que este sujeito, então, teria agora a dizer sobre as “Jornadas de Junho” e a noção de “rebeldia” para a verdadeira esquerda brasileira nos dias de hoje – que não sejam dicas para a melhor cooptação (ou repressão) de movimentos sociais e para a preservação/renovação da ordem do capital e seus espaços/territórios de acumulação (e espoliação, como nos ensina Harvey) atualmente no Brasil?!
 A quem interessa promover, pela enésima vez, esta confusão na cabeça das pessoas realmente de esquerda (que acompanharão o Seminário), colocando joio e trigo juntos e misturados: sugerir que o Sr. Luís Inácio Lula da Silva, e a alta-burocracia do Campo Majoritário do PT (Lula, Dirceu, Pallocci et caterva, que destruíram este projeto coletivo de 30 e tantos anos, e ainda por cima carimbaram por longo-tempo o selo da “corrupção” em toda a esquerda do país), tenham qualquer coisa a dizer (em favor) ou a contribuir para uma real renovação da esquerda brasileira?! A quem interessa esta confusão (ou este proposital “red washing” na imagem de Lula), se não única e exclusivamente aos interesses pessoais, político-eleitorais, do Sr. Lula – o eterno-candidato dessa alta-burocracia e seus asseclas?! Acompanharíamos a sua bela retórica, pela enésima vez “na história deste país”, com uma total ingenuidade ou um total cinismo? Temos cara de trouxas?! Até quando?!
O mesmo raciocínio vale – ou deveria valer – para a participação do Sr. Prefeito Fernando Haddad na mesa de Encerramento do Seminário Internacional, justamente aquela que tratará “Da Primavera dos Povos às cidades rebeldes: para pensar a cidade moderna”, e que, emblematicamente, também não conta com nenhum integrante do Movimento Passe Livre São Paulo – nem de qualquer uma das centenas de organizações autônomas de trabalhadores que nos rebelamos e saímos às ruas cotidianamente ANTES, DURANTE E DEPOIS DE JUNHO DE 2013 (até os dias atuais), não apenas para “pensar”, mas efetivamente construir “uma cidade moderna” desde baixo, horizontal e coletivamente, sem velhos nem novos guias geniais dos povos, visando uma sociabilidade realmente mais igualitária, justa, não-punitivista, diversificada, autônoma e livre.
A organização de um Seminário Internacional intitulado “Cidades Rebeldes”, que se inspira na luta popular do Passe Livre e de todos nossos movimentos que saímos às ruas “por uma vida totalmente sem catracas”, não chamar nenhum dos integrantes desses movimentos para a mesa sobre o tema e, ao contrário, chamar aquele que criminalizou, reprimiu e até sugeriu que os integrantes do MPL seriam espécies de “fundamentalistas” “intolerantes” – os comparando com os terroristas do atentado contra o jornal Charlie Hebdo, nos parece uma tomada de posição política bastante clara por parte dos organizadores do Seminário. Em uma palavra: revisionismo total de Junho (e, inclusive, de muitos dos textos/análises editadas pela própria editora, a começar pelo livro homônimo do Seminário). Sob qual interesse? A soldo ou a serviço de quem?
Sob esta lógica, valeria então também convidar o governador-genocida Sr. Geraldo Alckmin, que no fatídico dia 19 de Junho de 2013 foi quem tomou a iniciativa, depois de toda pressão popular daquelas semanas, e telefonou ao Sr. Haddad, avisando que iria revogar o aumento ANTES deste e, se o Prefeito quisesse o seguir, que fosse ao Palácio dos Bandeirantes (sic) o acompanhar (desde que no humilhante papel de coadjuvante!) para o anúncio oficial da derrota de ambos os gestores – frente à persistente “rebeldia das ruas”.
[Ainda se Haddad tivesse cedido (bem) antes à pressão da esquerda autônoma por singelos R$ 0,20 Centavos na passagem do Busão, que ali representavam uma vitória histórica, clara e necessária das ruas de esquerda (e talvez não tivesse sido criado todo este espaço/tempo/condições para a onda coxinha fascista subsequente…): só que não, Haddad quis demonstrar ser um gestor capaz de “segurar a pressão popular” “no limite da irresponsabilidade” e dos seus ótimos serviços prestados (em benefício das planilhas e dos lucros de quem?). A Direita o agradece profundamente até hoje… E pouco nos importa que o Sr. Prefeito Fernando Haddad se autodefina como um “gestor da nova esquerda” – diferente do assumidamente conservador Lula, afinal, na prática, Haddad cotidianamente beija a cruz das empreiteiras, construtoras, dos grandes empresários do transporte (cuja tarifa ele voltou a aumentar para pesados R$ 3,50 apenas um ano e meio depois de Junho: rebeldia?), do próprio padrinho Lula, e de todo o grande capital que financiou a sua eleição (a reboque do projeto de poder lulo-petista dos últimos anos). Ouviremos Haddad analisar, no Seminário, se ele será ou não rifado nas próximas eleições de 2016, mesmo sustentando-se nas Tattolândias e Andres Sanchezlândias deste neoPT, e mesmo com os já amarrados apoios “renovadores” do PMDB de Gabriel Chalita e do PDT de Luis Antônio Medeiros: a que projeto de “rebeldia” ISSO diz respeito? Porque não tem nada a ver com a nossa. Enquanto a esquerda intelectual insiste em cultivar seus autoenganos e seus gourmetizados ovos de serpente – não levando a sério sequer aquilo que ela própria escreveu, editou e publicou, eles todos (da exquerda à velha direita) sabem muito bem o que fazem…]
E por que seriam justamente eles, agora, na Abertura e no Encerramento do Seminário, o Criador e a Criatura – que, não esqueçamos, foram lá num ato de subversão incrível, não?, literalmente, beijar a mão do Sr. Paulo Maluf para a eleição de 2012 – a ditar os novos desafios e rumos da nossa histórica rebeldia?! A nossa rebeldia sentida na pele, atualizada a cada novo dia de trabalho, de transporte público e de humilhação cotidiana vivida nestas Cidades-Mercadorias frente os patrões e o estado, por quem hoje seguimos sendo monitorados, criminalizados e reprimidos pela simples rebeldia de existir pobre, preto ou periférico, desde pelo Exército de Lula e Dilma na Favela da Maré no Rio de Janeiro – e tb sempre a postos diante de qualquer manifestação popular mais radical (nossos presos de Junho e dos despejos e espoliações da #CopaDasCopas que o digam…); ou nas vilas e Cabulas cotidianas chacinadas pela Polícia Militar Baiana dos governadores-genocidas petistas, Sres. Jaques Wagner, este sionista baba-ovo de torturador, e agora o sr. Rui Costa (PT-BA); ou pela Guarda Civil Metropolitana de Haddad e seus “rapas” de todos os dias, por toda a região central da cidade de São Paulo. Esquerda?! Onde, cara pálida?! Essa “Democratização”, esse “Desenvolvimento” e essa “Pacificação” promovida por vocês… essa Exquerda e essa Paz são “uma senhora branca que nunca sequer olhou na nossa cara!”.
Definitivamente, companheiros e companheiras deste Seminário: desde quando “somos todos de esquerda”?! Desde quando “é tudo a mesma coisa”?! Até quando sustentarão essa farsa conciliatória de classes do “amplo, geral e irrestrito” campo “democrático-popular”?! O que nós temos a ver com as construtoras, empreiteiras e banqueiros que financiaram, por anos a fio e às pilhas de dinheiro, pelos Caixa 1, 2 ou 3, este projeto de poder-pelo-poder?! O que há de esquerda e de rebeldia nisto?! Quem foi que nos colocou neste balaio de gatos e ratos, cobras e porcos, nos tornando reféns da constante chantagem desta nova direita prática?! Desde quando houve/haverá “governabilidade” possível (à esquerda) com o padrão sarney-temer-renan-cunha que hegemoniza as instituições de todo o estado brasileiro há décadas – e estamos vendo muito bem a que ponto chegou na atual hiper-atuação, sob a regência de Cunha e Renan, das bancadas do Boi, da Bíblia e da Bala, sempre tratadas a pão de ló como “base aliada”, nos últimos anos, pelos “habilidosos” gestores petistas?! Verdadeiros “craques”… Em que?! Para quem?!
Qual será o próximo engodo de “esperança” e “rebeldia” “paz e amor” lulo-petista: uma “frente ampla” de exquerda forjada como “livre e independente” para esconder a desgastada “marca PT” nas próximas cédulas eleitorais?! Nossos sonhos e nossas rebeldias se restringirão, mais uma vez, ao ritual cívico de apertar algumas teclas a cada dois anos, em verdadeiras urnas funerárias de nossas ações diretas, para ato-contínuo tomar uma sucessão de tapas na cara e vacas tossindo, e nos conformar a participar todos os santos-dias de cada novo aparato-embuste criado pelo sistema petista de governabilidade biopolítica e contenção da nossa revolta (Conselhos, Encontros, Audiências, Fóruns, Seminários, Diálogos, Festivais etc etc etc)?! Como já disse os nossos companheiros Hamilton Borges e Fred Aganju, da campanha Reaja ou Será Mort@, frente ao sucesso de tantas políticas públicas de “inclusão social”, “afirmação dos direitos humanos”, “participação popular”, “mesas de diálogo”, “promoção da igualdade racial” e blá blá blá “nós preferimos o fracasso de enfrentar o Terror nas ruas”. O Terror para o qual eles, quando não protagonizam, colaboram ativamente contra as nossas Raças Perigosas e Classes Rebeldes.
De uma vez por todas: a alta burocracia, o Campo Majoritário petista e seus principais gestores – Sr. Lula e Sra. Dilma Rousseff à frente – não são de esquerda! A maioria deles sequer ex-querda é. Nunca foram, nem nunca “voltarão” a ser. Não nos confundam com eles! Simplesmente parem: não mais em nosso nome! Já basta!
Enfim, por tudo isso (e muito mais!), o nosso Movimento Independente Mães de Maio acha que seria – no mínimo – contraditório demais com a nossa caminhada autônoma, que trilhamos com muita luta, compromisso e sacrifício no dia-dia (sem receber favores nem pagar simpatia para ninguém), aceitar a cômoda e glamurosa participação neste seminário “Cidades Rebeldes” e, ao fim e ao cabo, compactuar com essa verdadeira operação político-ideológica de reescrita das Revoltas de Junho de 2013 e da história recente do país, com a colaboração e coparticipação ativa de nossos inimigos. Sentar à mesma mesa, como “aliados”, daqueles que nunca sequer olharam na nossa cara ao longo desses mais de 12 anos?! Jamais! Lembrem-se: os Crimes de Maio de 2006, que vitimaram fatalmente mais de 500 jovens, nossos filhos e filhas, irmãos e amigos – dando origem ao nosso movimento, ocorreram sob a gestão Lula no governo federal, o qual seguido por Dilma nunca sequer nos recebeu nem de forma protocolar – mesmo diante de pedidos formais feitos há anos – a não ser indiretamente, por meio de seus correligionários, para tentar nos cooptar… Por que nos receberiam, pois?! Não temos uma conta bancária que faça jus ao cerimonial do Palácio do Planalto (quantas vezes será que os Sres. Lula e Dilma Rousseff já não se reuniram com banqueiros do quilate e dos círculos íntimos dos Henriques Meirelles e Joaquins Levys que, afinal das contas, dão a tônica política-econômica de seus governos… Rebeldes?). E seguem comodamente encrustados no alto poder do país há mais de uma década (fazendo também lobbies internacionais para grandes corporações brasileiras, junto a sanguinários gestores mundo afora – Teodor Obiang da Guiné Equatorial que o diga, com dinheiro do FAT e FGTS dos trabalhadores brasileiros, via BNDES, para mais espoliações territoriais na reprodução ampliada do espaço capitalista global). Rebeldia?
Para colocar em prática estas operações de falsificação da realidade (das revoltas e das esperanças reais dos trabalhadores) eles não precisariam deste Seminário, pois já têm uma série de canais de comunicação-marketing, de certas mídias tradicionais ligadas ao que há de pior nas igrejas exploradoras da fé de nosso povo aos ditos meios “progressistas”, passando pelos Joãos Santanas contratados a peso de ouro, permanentemente à serviço de seu eterno projeto de poder (dentro e em prol da renovada ordem capitalista). De nosso lado, na “Margem Esquerda” do chão de terra que nós pisamos cotidianamente, mirando firmemente “Para Além do Capital”, não há espaço para compactuar com esses oportunistas da exquerda – que do alto de seus gabinetes e contratos com as agências de comunicação oficial do governo torciam e incentivavam que a Gaviões da Fiel “escorraçasse” das ruas os nossos companheiros de trincheiras da verdadeira Periferia Rebelde, tratados como cachorros “vira-latas” por quem desde lá – sem saber? – já fazia coro com os coxinhas fascistas antes destes saírem às ruas pedindo – na mesma toada de “escorraçar” e “ fazer faxina”, só que agora, em 2015, pela limpeza (leia-se prisão) dos petistas e pelo impeachment de Dilma Rousseff. Que rebeldia real há nesta falsa polarização histérica, doentia e fascista que marca a disputa espelhada entre a horda da fé oposicionista versus a horda da fé governista?! Não jogamos este jogo sujo.
Não ficaremos mais reféns deste tipo de exquerda, suas falsificações da história, nem cairemos mais em suas armadilhas. Não seria intelectualmente honesto de nossa parte, seja em relação aquilo que lemos (inclusive em vários livros da Boitempo – que deveriam ser levados mais a sério), seja principalmente em relação aquilo que vivenciamos na prática. David Harvey colocado lado-a-lado com um dos principais lobbistas globais da Oderbrecht, juntos no mesmo balaio de “rebeldia”?! Onde isso vai parar?! É urgente voltarmos a demarcar muito claramente limites, que não falamos essa mesma novilíngua, não “jogamos no mesmo time”, não estamos do mesmo lado da trincheira: NÃO!
Só nos faltava mais esta: seriam Lula e Haddad, agora, os “novos rebeldes” na visão da Boitempo?! Figuras para quem a verdadeira rebeldia é um espectro a assombrá-los, cotidianamente, ao menos, desde o ápice das revoltas populares de Junho de 2013…
En Mayo de 2006, la policía Paulista comete una masacre que permanece impune. A raíz de ésta, una entre muchas que siguen hasta el día de hoy, se organizan desde su dolor y dignidad las Madres de Mayo
“Cidades Rebeldes”, “Periferias Rebeldes”: no que depender de nossas forças, não se tornarão o novo “Nome da Marca”. Recusamos este espetáculo que nos sufoca e, por trás das suas “Videologias”, se alimenta do sangue de nossos mortos, aqui na periferia do “Planeta Favela”, que segue sangrando… Não em nosso nome! Nossos mortos têm voz em nossa luta, e exigimos respeito a sua memória – e à rebelde tradição dos oprimidos que nós carregamos no dia-dia conosco. Os movimentos sociais autônomos, em meio ao vertiginoso e sufocante “Novo Tempo do Mundo” e do Brasil, não permitiremos que a nossa rebelião seja gourmetizada pela exquerda que encarcerou e enterrou muitos dos nossos: sonhos, projetos e irmãos/ãs de carne e osso. E seguem enterrando.
O mínimo de rebeldia necessária, diante desta proposta política indecente, é a RECUSA pública deste convite.
Rebeldia, para nós, começa pela luta para se garantir a respiração. E pela ressuscitada fúria.
Movimento Independente Mães de Maio, Junho de 2015
PS – Fazemos questão de distinguir a postura pessoal dos companheiros-trabalhadores da Boitempo Editorial, em especial dos compas editores-adjuntos Kim Dória e Isabella Marcatti (sempre muito respeitosos conosco), das opções políticas-ideológicas e comerciais de seus patrões. Receamos que este “Seminário Internacional”, da forma como foi concebido – aparentemente sob milimétrica encomenda dos interesses político-eleitorais do Instituto Lula e cia. ltda., muito provavelmente tenha o “selo Emir Sader” de subserviência intelectual e política. Um selo-vergonha (reiterado até quando?) para uma editora que, simultaneamente, é capaz de trazer verdadeiros intelectuais de esquerda como David Harvey ou István Mészaros, e editar coleções como a “Tinta Vermelha” ou a “Estado de Sítio”, coordenada pelo compa-de-várias-horas, o professor e intelectual-rebelde Paulo Arantes. Menos submissão editorial ao “estado de sítio” atual no Brasil (copromovido pelo lulo-petismo e seus pau-mandados), e cada vez mais tinta vermelha de rebeldia real cairá bem para uma editora que pretende se manter como referência para as novas gerações da esquerda autônoma e anticapitalista no Brasil. “O dia é um pasto azul que o gado reconquista(rá)”.
 

domingo, 7 de junho de 2015

Assalto à Gameleira

Nos debates sobre temas considerados urgentes para o país, muitos pontos podem ser levantados, mas quase todos nascem e morrem a partir de duas perspectivas básicas. Uma vê o mundo como algo distante e alheio da porta de casa para fora. Outro observa a própria casa como parte integrante do mundo. Este se preocupa com o que acontece a quilômetros de sua porta porque não ignora um pressuposto: o vento soprado à distância ganha força ao chegar em nossa janela. A definição, com outras palavras, é do filósofo Gilles Deleuze e consta de um pequeno vídeo sobre o que é ser esquerda hoje (prometo usar outros termos para evitar restrições gástricas e cognitivas).
No ranking das preocupações do país, designou-se que a impunidade sobre jovens infratores, eleitos os responsáveis pelo clima de insegurança dentro e fora de nossas casas, consta da lista das causas urgentes a serem resolvidas. A abordagem envolve dois pressupostos que se anulam. Uma diz: “quero uma solução, mas este não é um problema meu”. A outra responde: “quero (também) uma solução, mas este é um problema nosso”.
Ninguém, em sã consciência, diria ser natural ver um adolescente apontar uma arma na cabeça de quem quer que seja. Ou participar, desde muito cedo, da violenta cadeia da produção e distribuição de drogas. Há, porém, pontos e pontos a serem levantados. O índice de adolescentes armados é realmente alarmante? São eles os responsáveis pela insegurança de um país composto por jovens, adultos e idosos? Existe mesmo impunidade? Cadeia resolve? Medidas restritivas resolvem? Quando passamos a ser responsáveis pelos nossos atos?
Nesses debates, é comum ouvir sentenças inabaladas e nem sempre aberta aos fatos ou contrapontos – e quem vê a casa como uma entidade isolada do mundo costuma escorregar na própria ânsia.
Listo abaixo algumas das falas mais comuns ouvidas após escrever sobre a questão na semana retrasada:
“É só não fazer merda”.
“É a certeza da impunidade que leva o adolescente a praticar o crime”.
“O ECA protege bandido”.
Confortável em uma suposta distância higiênica de qualquer desvio, o sujeito que diz trabalhar, estudar e pagar impostos costuma usar sua própria zona de segurança para lavar as mãos.
O discurso triunfalista tenta fechar numa caixa escura um canhão luminoso do nosso fracasso. Sim: nosso. Esse fracasso começa de muitas formas, mas termina quase sempre num arremedo: “não me importo com o mundo que eu patrocino e contribuo para a (in)segurança das crianças, mas quero solução urgente caso essas crianças precocemente amadurecidas ameacem minha segurança”.
Olhada de casa para dentro, a violência pode ser só uma questão de escolha: apertar o gatilho ou não. Os caminhos que levam até a arma é que são ignorados. Vejamos o caso do “Assalto à Gameleira”, documentário de conclusão de curso em Jornalismo da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul sobre o assalto a uma propriedade rural em Campo Grande, capital do estado. No filme, dirigido por André Patroni, os estudantes tiveram a coragem de fazer o básico: ouvir os personagens. Assaltado, assaltantes, amigos, familiares, carcereiros, polícia, pedagogos, especialistas, professores, direção escolar, apresentadores de TV…todos são chamados para participar do filme. Todos, direta ou indiretamente, estão envolvidos em uma tragédia maior.
O resultado não é, como poderiam supor os alarmistas, um monumento ao vitimismo ou à mão indulgente sobre a cabeça de criminosos. No documentário, o crime é tratado como crime. O mérito do documentário é mostrar o mundo, o de casa e o exterior, como um mesmo mundo: um mundo de veredas que se perdem e se bifurcam.
A conclusão causa um desconforto considerável. Entre o mundo ideal, digno e seguro, e uma ação considerada execrável (um assalto, que de fato é condenável), existem uma série de pequenas tragédias de urgências proteladas: alcoolismo, violência doméstica, machismo, omissão, leis não aplicadas, despreparo do poder público, das autoridades, das escolas.
Em meio a tanta opinião formada por quem jamais leu o Estatuto da Criança e do Adolescente, os responsáveis pelo filme fizeram um trabalho aparentemente simples: mostraram que o documento, que completava 20 anos em 2010, ano da produção do documentário, era simplesmente ignorado não apenas pelos criminosos, ignorantes sobre seus direitos ou deveres, mas também pela sua família, seus amigos, o sistema carcerário e pela direção da escola onde estudavam os condenados.
A condenação, mostra o filme, começara muito antes de o carcereiro fechar as grades da unidade de ressocialização – uma unidade tomada pelo tédio, pelo descaso e pelas baratas.
Um dos garotos detidos, por exemplo, ganharia R$ 1.500 no assalto, o dobro do que ganhava como ajudante na fazenda. Dizia não ter dinheiro para comprar fraldas da filha recém-nascida e, por isso, topou a empreitada. Não tinha ideia de que poderia obter o benefício com a ajuda da prefeitura – no mundo de livre circulação de conhecimento, o acesso a informações é o primeiro selo do privilégio. Ali os direitos sociais, embora restritos, chegaram antes dos direitos civis. A consequência é um fosso considerável entre uns e outros.
Da mesma forma, quem defende o armamento como direito do cidadão poderia ver no filme uma consequência da própria campanha. Um dos adolescentes, que perdera a perna num acidente de trem (problema dele, certo?) se cansa de ser humilhado em subempregos e começa a fazer pequenos serviços para o tráfico. Descobre, então, o que qualquer adolescente da sua idade aprendeu nas escolas, propagandas, lições de moral: a gente é o que a gente veste, compra, ostenta. Morto em conflito, ele legou aos seus irmãos, que nada tinham com a história, dívidas e ameaças. Onde o Estado não atua, o cidadão se arma: com medo dos traficantes e sem ter pra onde correr, os irmãos mais novos começam a se armar. É claro que a história do abandono não poderia acabar bem.
Alguns, atrás do muro de casa, poderiam dizer: bastava ter estudado para escapar da vida, certo? A USP, afinal, tem portas abertas a todos, garante o menino rico que só queria ter aula de microeconomia e não queria debater as ampliações de acesso à universidade. Pois o documentário mostra que, naquele bairro esquecido, a direção escolar e os professores não tinham a menor ideia do seu papel no mundo. A diretora, entre o deboche e o conforto, fala sem qualquer constrangimento que JAMAIS havia lido o Estatuto da Criança e do Adolescente. Naquele bairro, um pesquisador entrevistado no documentário mostra que ninguém ali jamais ouvira falar dos direitos, nem em casa nem em sala de aula, mas quase todos conheciam alguém que acabou preso.
“Aqui funciona o regimento interno”, diz a diretora a certa altura do filme. Nada mais simbólico: de regimento interno a regimento interno, perdemos o sentido das leis universais – as mesmas que nos garantiriam, entre humanos, viver em segurança. A escola, quando ignora esses princípios, torna-se um depositário de crianças. À medida que não propõe luz ou caminhos, torna-se também uma forma de aprisionamento.
O ECA protege criminosos, diz o senso comum de quem, trancafiado em casa, pede soluções urgentes para um problema que não reconhece como seu. Se assistisse ao documentário, este saberia que os rapazes detidos antes mesmo de nascer não têm ideia sequer do que está escrito no documento.
Vítima do assalto, o fazendeiro chora ao relembrar o episódio traumático, mas o revide sobrevoa o próprio muro: até quando vamos suportar escolas que fingem ensinar e governos que fingem proteger?
As perguntas podem ser ampliadas. Onde estava o Estado quando a mãe de um dos criminosos procurava ajuda para fugir das surras do dono da casa? Onde estavam os defensores da pena de morte para estupradores quando mandavam uma mãe violentada se vestir decentemente e obedecer ao marido? Onde estavam os defensores dos “humanos direitos” quando os meninos que sonhavam em fazer curso de informática para tirar a mãe da verdadeira prisão domiciliar passaram também a ser violentados? Ou quando a mãe morrera de tanto apanhar em silêncio? Onde estavam os soldados da guerra às drogas que não se sensibilizaram com a cachaça vendida no bar que alimentava as fúrias do patriarca da porta de casa para dentro? Onde estavam os meritocratas para explicam como é possível estudar e planejar o futuro com botinas e armas apontadas para a cabeça? Que tipo de futuro construímos em escolas que obedecem o regimento interno e desconhece qualquer noção de direitos e cidadania?
Em outro depoimento, um juiz da cidade se queixa da falta de estrutura do conselho tutelar da cidade (uma profissional para dezenas de milhares de habitantes) e pergunta: o que dá mais votos na eleição, um trabalho invisível de orientação e proteção à infância ou imagens de prisão e apreensão?
As perguntas sobrevoam nossas casas. Podemos tirar delas uma conclusão quase óbvia. Por exemplo, que o crime e os riscos de ser pego desgraçadamente ainda compensam quando a vida, dentro ou fora das grades, é rebaixada a quase nada. A outra opção é erguer muros para evitar que as perguntas atinjam a nossa mais arraigada convicção: a de que nós (escola, família, formadores de opinião, Estado) não temos culpa nessa tragédia chamada Brasil.



terça-feira, 28 de abril de 2015

Inês Etienne Romeu – Uma vida devotada à luta contra a tortura


 A morte de Inês Etienne Romeu, última sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, encerra o ciclo da história oral dos que ali foram torturados. Agora que ela se foi, só nos restam os documentos escritos e as centenas de depoimentos que ela prestou sobre este triste episódio, que envergonha a história brasileira.
Obstinada na busca pela justiça, ela mostrou, a todos os que se dispuseram a ouvir, até que ponto pode chegar um sistema ditatorial que transforma os homens em fera e, no dizer da pensadora Hannah Arendt, banaliza o mal , transformando a ação bárbara da tortura em um ato de mera rotina profissional.
O fato de ter sobrevivido às sessões de tortura e o erro cometido por seus arrogantes algozes, que esperavam ter dominado sua mente, julgando-a incapaz de reagir, deu a nossa população as condições de saber exatamente o que eram os porões da ditadura e a existência desses centros clandestinos, como a Casa de Petrópolis, onde inúmeros opositores do regime militar de 1964 foram eliminados.
Inês Etienne foi incansável na sua vida após a prisão. Devotou o que restou dela na denúncia dos que participaram de seu sequestro, prisão, tortura e seviciamento: cobriu todo o país com palestras, e deu importantes depoimentos às Comissões da Verdade que mais tarde foram criadas. Mostrou o quanto foi cruel o Sistema ilegal montado por aqueles que se apropriaram do poder, derrubando um presidente legitimamente eleito, e a que ponto eles puderam chegar através dessas Casas de Tortura.
Certamente, trata-se de uma personagem importante na nossa história, honrando uma geração de jovens utópicos que não tiveram dúvidas em enfrentar um inimigo poderoso, na busca pela liberdade que naquele momento faltava ao país.
Oxalá sua vida e sua morte chamem à reflexão os incautos que acreditam que um sistema ditatorial pode ser melhor do que a liberdade política que ainda temos, e expressam tal vontade instigando os militares a se apropriarem novamente do poder político.
Nenhuma proposta de avanço econômico ou material pode justificar supressão da liberdade, em qualquer dos seus níveis, pois nos seus porões os regimes ditatoriais geram apenas excrescências inumanas – com as quais Etienne se deparou.
Sabemos que a sua luta não foi em vão e a história não se repetirá.
Fonte: Alindenor

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