quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Aonde vamos chegar?

Que fez a inteligência, assim que desabrochou, como uma flor luminosa, no primeiro cérebro humano? Quis saber o que era ela própria, e o que era a humanidade, e o que era a Terra, e o que era o Universo. E endereçou então a tudo essa grande pergunta ansiosa e dolorosa, que ainda não teve resposta...
– Olavo Bilac (1865-1918)


Segundo cientistas antenados, o Universo teria surgido há 13,5 bilhões de anos e a Terra há 4,5 bilhões de anos. O primeiro hominídeo, denominado australopiteco, aproximadamente 5 milhões de anos atrás. Daí, a humanidade com o intrínseco fado de revolucionar a constituição de toda criação. Assim, os então “frágeis” humanos saíram da primitiva ferocidade de cavernas, em bandos de nômades aculturados na arribação, desbravaram selvas, romperam distantes prados e íngremes montes, rumaram largos rios e oceanos de procelas, adiante, automatizaram-se os membros de manipulação e mobilidade, passaram flutuantes a cruzar com revoadas soberbas, pulularam a espécie, poluíram e afoguearam o planeta, escarafuncharam a infinitesimal estrutura do átomo, produziram a bomba do caos ardente, recriaram o cérebro à eletrônica e dão ar de onipresença em esferas outras do sistema solar, com o estro aos extremos.

Mas, como revolução se faz com engenharia política, choque de superenergias, dinâmica entre forças antagônicas e a dor tenebrante dos tempos geológico e histórico, ocorreu um sem-número de vidas sacrificadas em selvageria de guerras e conflitos sociais, jorros de suor e sangue, para que, enfim, ousássemos transcender a condição de homo sapiens. Domamos e clonamos feras, idem, alteramos a genética de microorganismos. Isolamos raios. Superamos a velocidade do som. Arquitetamos edifícios sobre amortecedores, inabalados a terremotos. Prolongamos a estética do organismo com longevidade, configurando-nos em ultrabiônicos próprios. Demos intenso brilho à sapiência, quais entusiasmados isodeuses. E agora, em menos tempo, no anonimato, brotam-se da gênese mais geniais Aristóteles, Newton, Da Vinci, Shakespeare, Einstein... Não precisamos tanto da premissa “Deus” (deixemo-Lo descansar da Fiat Lux e do Sétimo dia!) para dominarmos os mistérios da existência.

Embora o massacre das potências bélicas e econômicas sobre a maioria das nações subjugadas. Embora mais, o horror da nescidade e a miséria sobrepondo-se a multidões socialmente excluídas, pela tirania de impérios. O extermínio à carnificina de raças afins. A história traçada a Poder e Mito, à força da crueldade e à comunicação alienista das elites sobre o povo. A democracia de oligarcas cunhada na ironia e na grasnada da politicagem. O desbarato de metade de toda produção alimentícia e a fome rude na Terra... E saciem-se, vermes! Ainda nesta desigual luta para eliminar nosso principal devorador: o Capitalismo – como que criado por um gênio gerado de ejaculação precoce e de gravidez indesejada.

O Capitalismo nos dias de Estados falidos, sitiado por protestos populares nas ruas da Europa e pela bananosa na economia dos EUA. O Capitalismo (carrasco dos “sonhos” de consumistas) que produz dívidas a números infinitamente negativos e geométricos pesadelos. Que dissemina ódio e sordidez universais, que induz à guerra entre nações para o faturamento insano de engenhos exterminadores, e reações estarrecedoras de homens-bomba. Que reduz a vida humana a mero produto carnal, na exploração da força do trabalho e do tráfico de jovens em ‘negócios’ de aluguel do sexo e de drogas horridamente necróticas. O Sistema que, excruciante, propiciou as pútridas condições de sobrevivência, que atualmente transforma centenas de milhões de mentes servis em presa de transtornos psiquiátricos e acumula capital pelas multinacionais de antidepressivos. E que alucina bilhões de vidas no fanatismo do futebol e da “palavra do Senhor”, para movimentação de nebulosas e incomparáveis cifras, mundo afora.

Na tredice da linguagem capitalista, Ética passou a significar utopia de filósofos, apenas; Karl Marx e comunismo, páginas cheirando a mofo. Sindicatos e partidos políticos, reduzidos a representações do crime organizado contra o erário. E, cada vez mais raro, encontrar militantes ideológicos da Esquerda tem sido trabalho para pesquisadores acadêmicos. Deste modo, o dedo indicador do capitalismo permite e financia o carreirismo político ascendente ao poder de novas caras (e com direito a jingle romântico!), desde que sejam dóceis e reneguem seus históricos de rebeldia. Ou “vão nadar, nadar e morrer na praia”. A exemplo de tantos arrivistas: Lula e Dilma no Brasil, Obama nos EUA e outros bonecos de ventríloquo na história recente.

Mas, como redimir a humanidade de todas essas maldições e prantos? O que fazer com os capitalistas de rapina? Fuzilá-los, cremá-los e jogar suas infames cinzas em Plutão? Esterilizar essa minoria de concentradores de riqueza, e todos os mercenários e pelegos que os servem, para que não reproduzam mais herdeiros de vastas fortunas e de vassalos? Transmutar genes de falantes parasitas da pregação? E, absortos no próprio breu da ganância, soterrar na grande vala de bestas-feras, ainda vivos, banqueiros e demais hematófagos do sistema financeiro?

À luz deste milênio, intelectivo seria o processo de reeducação coletiva, de democratização do conhecimento – pesquisa, tecnologia e sustentabilidade. De socialização da riqueza e bem-estar das massas, com justiça de Estado ilibada. De pluralização dos meios de comunicação livres e responsáveis, sem patrocínio e domínio de grupos econômicos. Restituir a revolta dos primeiros cristãos, cuja doutrina visava conscientizar e evolucionar o homem contra a exploração e opressão de seus semelhantes, o legado do alarmado e original Cristo (Agitador da inteligência, Mártir pelo amor); rejeitar o estereótipo do inumano alienígena, sacro-belo e casto, lêmure de supostos milagres e alucinações, matreiramente falsificado pelos poderosos para sufocar e dominar os cristãos do primeiro século. E que perdura sobre incautos fiéis.

Ao atingirmos a Era Digital da comunicação sem fronteiras ao vivo em fibra ótica e em redes sociais, ao dominarmos – por cognição e sabedoria – as ciências da Natureza e, excelsamente, suplantarmos a decrepitude com a regeneração do organismo através das células-tronco... Na condição de homo tressapiens, assim a Terra vai ficando apequenada e extenuantemente monótona ante a assombrosa elevação do cérebro iluminado. Dentro em breve, esta galáxia será povoada por nossa privilegiada espécie. E que supremacia, memorável poeta! (“ouvir estrelas?”) Contudo, antes, convém redefinirmos a relação social e econômica entre os humanos, inutilizando o abjeto Capitalismo. Do contrário, esses bilionários terráqueos hão de migrar e alienar mão-de-obra escrava, moldar corrupção noutros longínquos planetas. Ora, vates! Obamas, Lulas e coisas-à-toa da vida não faltarão para tanto, se vacilarem os supercérebros da civilidade.

Julio Cesar de Castro presta assessoria técnica em Construção Civil.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A renda dos 100 mais ricos poderia acabar com a pobreza no mundo

Uma mulher limpa o logo do Fórum Econômico Mundial em uma das salas de reunião do resort suíço em Davos. Foto: Johannes Eisele / AFP
Uma mulher limpa o logo do Fórum Econômico Mundial em uma das salas de reunião do resort suíço em Davos. Foto: Johannes Eisele / AFP
A renda líquida obtida em 2012 pelas 100 pessoas mais ricas do mundo, 240 bilhões de dólares, poderia acabar quatro vezes com a extrema pobreza no planeta. A conclusão está num relatório publicado (link em PDF, em inglês) no fim de semana pela ONG britânica Oxfam. A entidade não entra em detalhes a respeito das contas que fez para chegar ao dado, mas os números servem como alerta para a intensa e crescente desigualdade social no mundo. O documento serve para chamar a atenção para os debates do Fórum Econômico Mundial, que começa nesta terça-feira 22 em Davos, na Suíça. A desigualdade ganhou um painel próprio no encontro, marcado para sexta-feira 25, mas tanto suas conclusões quanto os avisos da Oxfam devem cair em ouvidos moucos. O mundo hoje está construído para ampliar a desigualdade e não há sinais de mudança.
O relatório da Oxfam ecoa estudos e análises econômicas recentes sobre a desigualdade. Hoje, as diferenças entre os países estão diminuindo, mas a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres dentro de cada nação está crescendo. Essa é a regra na maior parte das nações em desenvolvimento e também nas desenvolvidas.
Nos Estados Unidos, a desigualdade social é tão grande hoje em dia que, nas palavras da revista The Economist, supera a das últimas décadas do século XIX, a chamada “Era Dourada” do capitalismo norte-americano. A porcentagem da renda nacional que vai para o 1% mais rico da população dobrou desde 1980, de 10% para 20%. Para o 0,01% mais rico, a bonança foi maior: sua renda quadruplicou.
Na União Europeia, a situação também é ruim. No livro Inequality and Instability (Desigualdade e Instabilidade, em tradução livre), o economista James Galbraith mostrou que, se tomada como um conjunto, a UE supera os Estados Unidos em desigualdade. Isso se explica, em parte, pelas diferenças entre os diversos países do bloco. Ainda assim, se tomadas separadamente, as nações europeias também têm observado aumento da desigualdade. Um estudo sobre o tema publicado em 2012 pela OCDE, concluiu que “desde a metade dos anos 1980″, os 10% mais ricos de cada país “capturam uma crescente parte da renda gerada pela economia, enquanto os 10% mais pobres estão perdendo terreno”. No Japão, onde 100 milhões de pessoas se diziam de classe média, estudos mostram, desde o fim da década de 1990, o aumento da desigualdade a partir da metade dos anos 1980.
A política sequestrada
Não é uma coincidência o aumento da desigualdade no mundo desenvolvido desde os anos 1980. Foi nesta época que começaram a ter efeito as políticas lideradas pelos governos de Ronald Reagan nos Estados Unidos (1981-1989) e Margaret Thatcher (1979-1990) no Reino Unido, mas adotadas em boa parte do mundo por outros governantes, como Helmut Kohl (Alemanha), Ruud Lubbers (Holanda) e Bob Hawke (Austrália): impostos mais baixos, desregulamentação do sistema financeiro, redução do papel do governo e outras medidas integrantes do receituário neoliberal. Essa política, arrimo da globalização, teve alguns efeitos positivos, mas foi levada a extremos por quem se beneficia delas. Para manter as políticas desejadas, que aumentavam sua riqueza (e também a desigualdade) esses grupos de interesse se encrustaram nos círculos de poder. Eles sequestraram a política.
Idoso pede esmola no chão de uma rua de Kandahar, no Afeganistão, na segunda-feira 14. Um relatório da ONU apontou que um terço da população do país vive "na mais abjeta pobreza porque os governantes estão mais interessados em proteger seus interesses escusos". Foto: Mamoon Durrani / AFP
Idoso pede esmola no chão de uma rua de Kandahar, no Afeganistão, na segunda-feira 14. Um relatório da ONU apontou que um terço da população do país vive “na mais abjeta pobreza porque os governantes estão mais interessados em proteger seus interesses escusos”. Foto: Mamoon Durrani / AFP
Este fenômeno é analisado no livro Winner-Take-All Politics (Política do vencedor leva tudo, em tradução livre), dos professores Jacob S. Hacker, de Yale, e Paul Pierson, da Universidade da Califórnia. Em artigo de capa da revista Foreign Affairs em dezembro de 2011, o jornalista George Packer resume o argumento do livro em duas palavras: dinheiro organizado. Foi no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 que as grandes corporações de diversos setores da economia passaram a financiar as campanhas eleitorais, dando início a uma “maciça transferência de riqueza para os americanos mais ricos”.
Este modelo de política, e de fazer política, grassou no mundo desenvolvido e foi transplantado para os países em desenvolvimento, onde foi emulado com maestria pelas elites econômicas locais. Não é uma surpresa, então, que a desigualdade esteja aumentando também nesta região. A Índia acumula diversos bilionários, mas continua sendo o país com mais pobres no mundo. A África do Sul é mais desigual hoje do que era no fim do regime segregacionista do Apartheid. Na China, onde não é preciso sequestrar a política, apenas pertencer ou ter um bom relacionamento com o Partido Comunista, a desigualdade é semelhante à sul-africana: os 10% mais ricos ficam com 60% da renda.
A América Latina e o caso do Brasil
O único lugar do mundo onde a desigualdade está caindo de forma sistemática é a América Latina, justamente a região mais desigual do mundo. Isso ocorreu nos últimos anos por dois motivos. O modelo neoliberal, e a ascensão do “dinheiro organizado”, também chegaram aos países latino-americanos, mas em alguma medida entraram em choque com forças políticas contrárias a uma parte importante do receituário, a não-intervenção do Estado na economia. Assim, os governos da região, entre eles o de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, conseguiram estabelecer a redução da desigualdade social como uma prioridade. Em segundo lugar, os países da região, também incluindo o Brasil, foram muito beneficiados pelo rápido crescimento econômico provocado pela existência de um mundo faminto por commodities.
Imagem mostra a favela de Kataanga, em Kampala, a capital de Uganda. Foto: Michele Sibiloni / AFP
Imagem mostra a favela de Kataanga, em Kampala, a capital de Uganda. Foto: Michele Sibiloni / AFP
Há, entretanto, inúmeras dúvidas a respeito da sustentabilidade do modelo latino-americano de redução da desigualdade, especialmente quando a economia começar a desacelerar, situação em que o Brasil já se encontra. Como notou o colunista Vladimir Safatle em edição de dezembro de CartaCapital, o capitalismo de Estado do governo Lula promoveu um processo de oligopolização e cartelização da economia, o que favorece a concentração de renda nas mãos de pequenos grupos. Ao mesmo tempo, Lula não fez, e Dilma Rousseff não dá indícios de que promoverá, a universalização e qualificação dos sistemas públicos de educação de saúde. Sem essas reformas, a classe média seguirá gastando metade de sua renda com esses dois serviços básicos e os pobres continuarão com acesso a escolas e hospitais precários. Os ricos, por sua vez, não terão problemas. A desigualdade de renda poderá cair ainda mais, mas a desigualdade de oportunidades vai perseverar, e a imensa maioria dos pobres continuará pobre.
Para fazer essas reformas, e outras potencialmente capazes de reduzir a desigualdade, como a taxação de grandes fortunas e de heranças e reformas estruturais, o Brasil e outros países latino-americanos enfrentarão as mesmas questões do mundo desenvolvido. Em grande medida, a política latina foi sequestrada pelo “dinheiro organizado”. Levantamento do repórter Piero Locatelli mostra que, em 2010, 47,8% das doações eleitorais no Brasil foram feitas por empresas e que apenas 1% dos doadores foram responsáveis por 73,6% do financiamento da campanha.
O resultado disso, seja nos Estados Unidos, na Europa, na Índia ou no Brasil, é uma grave crise de representação. O cidadão não consegue participar da vida pública e ter seus anseios ouvidos pelo governantes. Os partidos, à esquerda e à direita, caminham cada vez mais para o centro e, como diz o filósofo esloveno Slavoj Zizek, fica cada vez mais difícil diferenciá-los. A esquerda, supostamente contrária aos absurdos do liberalismo econômico, ou aderiu a ele e também tem suas campanhas financiadas por grandes corporações ou não tem um modelo alternativo e crível a apresentar.
Em seu relatório, a Oxfam pede aos governos para tomar medidas que, ao menos, reduzam os níveis atuais de desigualdade social aos de 1990. É bastante improvável que os política e economicamente poderosos resolvam fazer isso do dia para a noite. Estão aí os brasileiros que chamam o Bolsa Família de bolsa-esmola e o ator francês Gerard Depardieu, que preferiu dar apoio a um ditador a correr o risco de pagar impostos de 75%, para provar isso. Talvez apenas o entendimento de que, como diz a ONG britânica, a desigualdade social é economicamente ineficiente, politicamente corrosiva e socialmente divisiva, provoque mudanças. Para isso, no entanto, é preciso que os poderosos entendam os riscos da desigualdade.
 
 Fonte Carta Capital

domingo, 6 de janeiro de 2013

A quem interessa confundir a construção da cidadania, em especial a emancipação das mulheres, com a ideia de consumo?

A badalada entrevista de Walquíria Rêgo para a revista Marie Claire ostenta o processo de emancipação das mulheres garantido pelo programa Bolsa Família.  Como as reflexões da autora estão mais próximas de uma propaganda governamental, ao menos é isso que consta na matéria publicada pela revista das organizações Globo, considero importante apresentar um contraponto. Cito, portanto, o trecho de um artigo de Silvana Mariano e Cássia Carloto que problematizam o conteúdo central dos argumentos de Rêgo. "A principal questão que norteia nossa reflexão neste trabalho, em particular, é compreender o modo como o PBF, em uma estratégia de combate à pobreza, desenvolve mecanismos que reforçam a tradicional associação da mulher com a maternidade e as tarefas pertencentes à clássica esfera reprodutiva." 
Encerro as minhas considerações com uma pergunta

A quem interessa confundir a construção da cidadania, em especial a emancipação das mulheres, com a ideia de consumo?

O Bolsa Família e a revolução feminista no sertão

A antropóloga Walquiria Domingues Leão Rêgo testemunhou, nos últimos cinco anos, a uma mudança de comportamento nas áreas mais pobres e, talvez, machistas do Brasil. O dinheiro do Bolsa Família trouxe poder de escolha às mulheres. Elas agora decidem desde a lista do supermercado até o pedido de divórcio

 O dinheiro do Bolsa-Família trouxe poder de escolha às mulheres do sertão (Foto: Editora Globo)

Uma revolução está em curso. Silencioso e lento - 52 anos depois da criação da pílula anticoncepcional - o feminismo começa a tomar forma nos rincões mais pobres e, possivelmente, mais machistas do Brasil. O interior do Piauí, o litoral de Alagoas, o Vale do Jequitinhonha, em Minas, o interior do Maranhão e a periferia de São Luís são o cenário desse movimento. Quem o descreve é a antropóloga Walquiria Domingues Leão Rêgo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nos últimos cinco anos, Walquiria acompanhou, ano a ano, as mudanças na vida de mais de cem mulheres, todas beneficiárias do Bolsa Família. Foi às áreas mais isoladas, contando apenas com os próprios recursos, para fazer um exercício raro: ouvir da boca dessas mulheres como a vida delas havia (ou não) mudado depois da criação do programa. Adiantamos parte das conclusões de Walquiria. A pesquisa completa será contada em um livro, a ser lançado ainda este ano.
MULHERES SEM DIREITOS
As áreas visitadas por Walquiria são aquelas onde, às vezes, as famílias não conseguem obter renda alguma ao longo de um mês inteiro. Acabam por viver de trocas. O mercado de trabalho é exíguo para os homens. O que esperar, então, de vagas para mulheres. Há pouco acesso à educação e saúde. Filhos costumam ser muitos. A estrutura é patriarcal e religiosa. A mulher está sempre sob o jugo do pai, do marido ou do padre/pastor. “Muitas dessas mulheres passaram pela experiência humilhante de ser obrigada a, literalmente, ‘caçar a comida’”, afirma Walquiria. “É gente que vive aos beliscões, sem direito a ter direitos”. Walquiria queria saber se, para essas pessoas, o Bolsa Família havia se transformado numa bengala assistencialista ou resgatara algum senso de cidadania.
BATOM E DANONE
“Há mais liberdade no dinheiro”, resume Edineide, uma das entrevistadas de Walquiria, residente em Pasmadinho, no Vale do Jequitinhonha. As mulheres são mais de 90% das titulares do Bolsa Família: são elas que, mês a mês, sacam o dinheiro na boca do caixa. Edineide traduz o significado dessa opção do governo por dar o cartão do benefício para a mulher: “Quando o marido vai comprar, ele compra o que ele quer. E se eu for, eu compro o que eu quero.” Elas passaram a comprar Danone para as crianças. E, a ter direito à vaidade. Walquiria testemunhou mulheres comprarem batons para si mesmas pela primeira vez na vida. Finalmente, tiveram o poder de escolha. E isso muda muitas coisas.
O DINHEIRO LEVA AO DIVÓRCIO E À DIMINUIÇÃO DO NÚMERO DE FILHOS?
“Boa parte delas têm uma renda fixa pela primeira vez. E várias passaram a ter mais dinheiro do que os maridos”, diz Walquiria. Mais do que escolher entre comprar macarrão ou arroz, o Bolsa-Família permitiu a elas decidir também se querem ou não continuar com o marido. Nessas regiões, ainda é raro que a mulher tome a iniciativa da separação. Mas isso começa a acontecer, como relata Walquiria: “Na primeira entrevista feita, em abril de 2006, com Quitéria Ferreira da Silva, de 34 anos, casada e mãe de três filhos pequenos,em Inhapi, perguntei-lhe sobre as questões dos maus tratos. Ela chorou e me disse que não queria falar sobre isso. No ano seguinte, quando retornei, encontrei-a separada do marido, ostentando uma aparência muito mais tranqüila.”
A despeito do assédio dos maridos, nenhuma das mulheres ouvidas por Walquiria admitiu ceder aos apelos deles e dar na mão dos homens o dinheiro do Bolsa. “Este dinheiro é meu, o Lula deu pra mim (sic) cuidar dos meus filhos e netos. Pra que eu vou dar pra marido agora? Dou não!”, disse Maria das Mercês Pinheiro Dias, de 60 anos, mãe de seis filhos, moradora de São Luís, em entrevista em 2009.
Walquiria relata ainda que aumentou o número de mulheres que procuram por métodos anticoncepcionais. Elas passaram a se sentir mais à vontade para tomar decisões sobre o próprio corpo, sobre a sua vida. É claro que as mudanças ainda são tênues. Ninguém que visite essas áreas vai encontrar mulheres queimando sutiãs e citando Betty Friedan. Mas elas estão começando a romper com uma dinâmica perversa, descrita pela primeira vez em 1911, pelo filósofo inglês John Stuart Mill. De acordo com Mill, as mulheres são treinadas desde crianças não apenas para servir aos homens, maridos e pais, mas para desejar servi-los. Aparentemente, as mulheres mais pobres do Brasil estão descobrindo que podem desejar mais do que isso.

Fonte: Marie Claire


Gênero e combate à pobreza: programa bolsa família

RESUMO
A política de assistência social brasileira orienta-se pela perspectiva de ações de combate à pobreza, com prioridade aos programas de transferência condicionada de renda. Esses são programas que priorizam o repasse de renda às mulheres e envolvem-nas em uma rede de obrigações e condicionalidades, a exemplo do Programa Bolsa Família. A prática encerrada no Programa Bolsa Família coloca em evidência algumas contradições entre as ações estatais e as demandas feministas, notadamente no que diz respeito à problematização acerca da maternidade. Esse é, então, um ponto central para o diálogo entre o feminismo e as políticas sociais estatais de combate. 


Introdução
Os programas brasileiros de transferência condicionada de renda veem as mulheres como foco prioritário, e até objeto, de suas intervenções com vistas ao combate à pobreza. A mulher, a partir de seus papéis na esfera doméstica ou de reprodução, tem sido, portanto, a interlocutora principal dessas ações, tanto como titular do benefício quanto no cumprimento das condicionalidades impostas. O Programa Bolsa Família (PBF) é um exemplo paradigmático dessa política. Diante desse contexto, estudiosas feministas têm insistido que a categoria "gênero" não pode ser prescindida das análises sociológicas acerca das ações estatais, que têm por foco a família. Essa categoria de análise contribui para a compreensão da instrumentalização dos papéis femininos nessas políticas.
A implantação do PBF, de acordo com suas regras de seletividade e exigências de condicionalidades, bem como com as dimensões assumidas ao incluir mais de 11 milhões de famílias, expressa, em certa medida, a extensão da pobreza no Brasil. Do mesmo modo, a composição do público beneficiário ilustra o quadro de desigualdades persistente na história da sociedade brasileira. De acordo com dados do Retrato das desigualdades de gênero e raça, podemos, mais uma vez, constatar que a pobreza brasileira tem sexo e cor.1
A presença mais notável de mulheres negras entre as pessoas pobres é reflexo de um processo histórico de (re)produção de desigualdades sociais. Essas desigualdades têm como eixos estruturantes os marcadores sociais como gênero e raça-etnia, os quais orientam a construção da cidadania e a efetivação de direitos no Ocidente. Portanto, sexo e cor são também definidores das desigualdades sociais.
Esse processo interfere diretamente na relação entre as mulheres, brancas e negras, e o Estado. Um ponto de ilustração a esse respeito é o modo como os grupos de mulheres estão sujeitos a obrigações impostas pelo Estado e geram efeitos para o tempo e o trabalho femininos.2 Tais obrigações se expressam no cumprimento de atividades e responsabilidades estipuladas pelas políticas sociais, com destaque para as políticas de desenvolvimento e, mais recentemente, para as de combate à pobreza. O Estado cobra das mulheres pobres a execução de tarefas relacionadas ao cuidado de crianças, adolescentes, idosos, doentes e pessoas com deficiência. Igualmente, convoca as mulheres para a participação em atividades extras, como, por exemplo, grupos de geração de trabalho e renda (com duvidosa potencialidade para a melhoria do bem-estar) e grupos de ações educativas, sendo estas, via de regra, relacionadas às tarefas reprodutivas. Ao fazê-lo, o Estado está gerando, para as mulheres pobres, responsabilidades ou sobrecarga de obrigações relacionadas à reprodução social. Consideramos esse tipo de ocupação do trabalho e do tempo das mulheres um dos fatores vinculados à desigualdade, entre homens e mulheres e entre estratos sociais, pois disponibiliza menos as mulheres para o trabalho remunerado. Esse fator deve ser colocado em evidência quando nos dedicamos a investigar o modo de inclusão das mulheres nas ações estatais, a exemplo do PBF, uma vez que esse programa opera instituindo condicionalidades nas áreas de educação, saúde e atividades complementares, como os grupos socioeducativos.
A principal questão que norteia nossa reflexão neste trabalho, em particular, é compreender o modo como o PBF, em uma estratégia de combate à pobreza, desenvolve mecanismos que reforçam a tradicional associação da mulher com a maternidade e as tarefas pertencentes à clássica esfera reprodutiva.
O PBF, dada sua extensão em número de famílias beneficiárias no país e sua capacidade de exercer influências nas relações entre os indivíduos envolvidos nas ações estatais, torna-se um importante objeto de análise de pesquisas preocupadas em refletir o modo como o Estado incorpora padrões de relações de gênero e concepções de família e de mulher em seus programas que se dirigem ao âmbito das relações de cuidado.
A reflexão aqui desenvolvida se inspira em pesquisa qualitativa realizada em Londrina, PR, a fim de trazer questões sobre as relações entre gênero e políticas de combate à pobreza de forma geral. Londrina é um município com avançado processo de implantação do novo sistema de gestão da Política Nacional de Assistência Social, o que inclui ações de acompanhamento às famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família.

Mulher e papéis de gênero no Programa Bolsa Família
A política de assistência social brasileira orienta-se pela perspectiva das políticas de combate à pobreza. Desde a década de 1990 têm recebido destaque os programas focalizados de transferência de renda. Os principais deles são o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o PBF, sendo o primeiro sem e o segundo com condicionalidades. As transferências condicionadas de renda priorizam o repasse de renda às mulheres e envolvem-nas em uma rede de obrigações com as ações estatais. Desse modo, referimonos a políticas e programas com claro marcador de gênero e, a partir de perspectivas feministas, os interpelamos acerca da condição de cidadania das mulheres usuárias.
Ao cruzarmos as demandas por cidadania com a problemática da pobreza e, de modo mais amplo, com a persistente situação de desigualdade brasileira, devemos tomar sexo e gênero, assim como cor e raça, como dimensões indispensáveis de análise acerca das políticas sociais. Gênero e raça devem, portanto, ser mobilizados como categorias de análise. Nesse sentido, o Retrato das desigualdades de gênero e raça traz relevante contribuição ao apresentar dados macrossociais desagregados por sexo e cor e raça que nos permitem captar as interconexões desses dois marcadores sociais na (re)produção das desigualdades. Os dados sobre renda explicitam, de modo mais cabal, o quadro de discriminação contra mulheres e negros e, ainda, a "dupla discriminação sofrida pelas mulheres negras".3
Esses dados são exemplos que demonstram parte da problemática relacionada à cidadania das mulheres, em especial das mulheres negras. Devemos, ainda, tomar em consideração que a divisão sexual do trabalho, as responsabilidades com as tarefas de reprodução, sobretudo quanto às atribuições domésticas, e a quase interdição dos espaços de poder às mulheres, notadamente as negras, são fatores que contribuem para obstar a conquista das mulheres no campo da cidadania.4
Conforme observação de Lena Lavinas e Marcelo Nicoll,5ainda que as condições de pobreza não sejam determinadas pela questão de gênero, os dados nos revelam que esse é um marcador que influencia as situações das famílias pobres quando analisamos, por exemplo, o fenômeno da chefia familiar feminina entre famílias pobres, grupo no qual esse fenômeno é mais expressivo se comparado às famílias com maior renda. Nesse caso, articula-se uma vulnerabilidade adicional.6
No Brasil, 22,3% das famílias eram chefiadas por mulheres em 1993. No ano de 2007 essa proporção aumentou para 33%.7 Tratando-se de Londrina e comparando-se as famílias chefiadas por mulheres, sem o critério de renda, observa-se que, em 1991, as mulheres respondiam por 20,42% das famílias e, em 2000, esse número saltou para 27,53%, o que representa um crescimento de 34,81%.8
Se nos perguntarmos em qual estrato de renda a chefia familiar feminina está mais presente, perceberemos diferenciais significativos entre as famílias com rendimento familiar por pessoa de até ½ salário mínimo e as famílias com renda superior a 2 salários mínimos. No primeiro estrato social, as famílias chefiadas por mulheres cresceram de 25,57% para 37,7%, o que representa um aumento de 47,43%. No segundo estrato social, as famílias chefiadas por mulheres cresceram de 17,54% para 25,54%, o que representa um aumento de 45,61%. O crescimento entre os dois estratos de renda é quase equivalente, com os números um pouco mais elevados entre as famílias pobres.
Comparando-se as famílias desses dois estratos de renda, percebe-se que a chefia familiar feminina concentra-se justamente entre os grupos sociais mais vulneráveis e ainda lhes acrescenta um grau a mais de vulnerabilidade por serem, muitas vezes, famílias monoparentais. é coerente com esses dados a suposição de que no universo de famílias pobres chefiadas por mulheres exista uma ocorrência maior entre aquelas chefiadas por mulheres negras, pois existem mais famílias negras em situação de pobreza e miséria. A esse respeito serve de comparativo o dado segundo o qual 11,7% dos domicílios urbanos em favelas são chefiados por mulheres brancas, enquanto 26% deles são chefiados por mulheres negras.9 Esse fenômeno revela a importância da incorporação da perspectiva de gênero, bem como do quesito cor e raça, nos programas de enfrentamento à pobreza e de desenvolvimento social.
Ao ser incluída no PBF, a mulher é tomada como representante do grupo familiar, vale dizer, o grupo familiar é materializado simbolicamente pela presença da mulher. Esta, por sua vez, é percebida tão somente por meio de seus 'papéis femininos', que vinculam, sobretudo, o ser mulher ao ser mãe, com uma identidade centrada na figura de cuidadora, especialmente das crianças e dos adolescentes, dadas as preocupações do PBF com esses grupos de idade. O papel social de cuidadora pode até, em algumas situações, ser desempenhado por outra mulher, como, por exemplo, a avó ou tia da criança ou do adolescente. Contudo, seguirá sendo um 'papel feminino'. Logo, o cuidado preserva, no âmbito do PBF, seu caráter vinculado aos papéis de gênero. Assim, tanto a maternidade (relacionada à procriação e/ou ao papel social de mãe) quanto a maternagem (o cuidado da criança e do adolescente desempenhado por outra mulher, geralmente com vínculo de parentesco, porém sem se designar como sua mãe) são funções focalizadas pelo PBF.
De acordo com observações e entrevistas realizadas no estudo de caso, em uma família beneficiária do PBF a mulher-mãe ou aquela que eventualmente a substitui na função de maternagem tem como responsabilidade, entre outras: a) a realização do Cadastro Único para inclusão da família no programa; b) a atualização do referido cadastro sempre que ocorre alguma modificação na situação familiar (por exemplo, mudança de endereço, alteração no número de pessoas no domicílio, oscilação nos rendimentos); c) o recebimento do recurso repassado pelo programa; d) a aplicação do recurso de modo a beneficiar coletivamente o arranjo familiar; e) o controle sobre crianças e adolescentes, tendo em vista o cumprimento das condicionalidades do programa; e f) a participação em reuniões e demais atividades programadas pela equipe de profissionais responsáveis pela execução e pelo acompanhamento do programa.
Ao analisar o Programa Bolsa Escola, antecessor do PBF, Carin Klein10 observou que

Ao pagar um valor determinado, definido como salário, pretende-se que a mãe sinta "[...] a dignidade de seu trabalho e a importância de investir na construção de um futuro melhor para os seus filhos". Como importantes argumentos apresentados na cartilha 100 perguntas e respostas que você precisa saber sobre o Bolsa-Escola, encontramos que é através do Programa que se investe também na "valorização da mulher" ao torná-la a "provedora do núcleo familiar", contribuindo, assim, para que ela assuma um papel ativo na vida da família e no "controle da educação" de seus/suas filhos/as. Buarque considera que o benefício da Bolsa-Escola, pago à mãe para que ela cuide da educação de seu/sua filho/a, representa um "Emprego Social", pois garante estabilidade econômica e social para toda a família.
Carin Klein11 chama atenção na atuação desses programas que atuam para converter em termos equivalentes categorias como "mulher" e "mãe". A estratégia de inclusão e de interpelação das mulheres supõe a seguinte operação ideológica: mulher = mãe ou família = mãe. Essa estratégia relaciona-se ao processo de revalorização da família. Diante dos novos desenhos das políticas sociais voltadas para o combate à pobreza e dirigidas às famílias, uma antiga questão feminista deve ser retomada: qual é o lugar das mulheres na família e na relação com o Estado? Nesse aspecto, as contribuições feministas atualizam o debate sobre os riscos da cristalização dos papéis sociais de gênero que aprisionam as mulheres nas tarefas relacionadas ao cuidado, à maternagem e, de modo mais geral, à reprodução social.
As atividades reprodutivas das mulheres pobres aparecem como recurso aditivo dos programas de combate à pobreza, de modo a tornar mais eficientes os impactos produzidos pela transferência condicionada de renda. As contrapartidas do PBF, relacionadas à saúde e à educação,12 exigidas notadamente das mulheres, facilitam a ação da política na tarefa de mobilizar as mulheres para o cumprimento das obrigações, as quais são primordialmente consideradas 'femininas'.
Ocorre no PBF uma estratégia semelhante à encontrada em ações estatais junto às organizações populares de mulheres, pelo menos desde a década de 1980. Nessas ações são fomentadas as demandas que focalizam as necessidades das mulheres, como é o caso dos tradicionais projetos de geração de renda com trabalhos manuais.13 Essas demandas correspondem às necessidades práticas, visando minimizar as dificuldades das mulheres dentro do padrão das relações de gênero, sem atacar diretamente a questão da subordinação feminina e sem alterar, portanto, o padrão das relações sociais de gênero.14 As necessidades das mulheres, nesses casos, são interpretadas em relação à situação de pobreza, sem levar em consideração a situação de subordinação feminina.
No caso de ações como o PBF, as preocupações quanto à pobreza são dirigidas à família. O próprio direito ao recurso transferido é tipificado em termos de benefício à família, e não a indivíduos. Como consequência, as demandas feministas por atenção prioritária à situação das mulheres vão se transformando em familismos, que, no processo de tradução político-cultural, substituíram a demanda por empoderamento das mulheres por demandas que visam ao fortalecimento das famílias.15 A defesa da família como foco de preocupação é uma característica constitutiva de políticas de combate à pobreza como o PBF. Na medida em que a defesa da família é operacionalizada com foco nas funções femininas, logo essas políticas familistas reforçam a associação da mulher à maternidade.
O que nos interessa destacar para os objetivos da análise aqui proposta é que, mesmo com revisões teóricas a respeito da subordinação feminina, a maternidade segue sendo um ponto de debate e de preocupação entre as feministas, especialmente nas circunstâncias atuais de políticas familistas.
A família é, entre outros aspectos, o lugar social e simbólico16 em que a diferença, especialmente a diferença sexual, é assumida como base e, ao mesmo tempo, construída como tal. Chiara Saraceno comenta que não se trata apenas da necessidade fisiológica da reprodução e muito menos de legitimar a sexualidade, na família o reconhecimento de que a humanidade tem dois sexos torna-se princípio organizativo social global e a estrutura que organiza as relações sociais e os destinos individuais. A autora comenta que

Lugar em que os dois sexos se encontram e convivem, a família é também o espaço histórico e simbólico no qual e a partir do qual se desenvolve a divisão do trabalho, dos espaços, das competências, dos valores, dos destinos pessoais de homens e mulheres, ainda que isso assuma formas diversas nas várias sociedades. é, antes de mais nada, em nível da família que o fato de se pertencer a um determinado sexo se transforma em destino pessoal, implícita ou explicitamente regulamentado e que se situa numa hierarquia de valores, poder, responsabilidade.17
A gerência do recurso para beneficiar a família, principalmente as crianças, tem sido citada por diferentes autores e gestores dos programas de combate à pobreza, nos diferentes escalões, desde o âmbito federal até o municipal, e é nesse sentido que tem recaído sobre a mulher a preferência pela titularidade do benefício. As mulheres, na sua grande maioria, realmente utilizam o benefício para melhoria das condições de vida da família, em particular das crianças, nos quesitos alimentação, vestuário, compra de material escolar, mobiliário para a casa e material de construção para melhoria das condições físicas da casa.
A família moderna, como família dos sentimentos e da educação,18 nasce em torno das figuras da mãe e da criança, não só porque o espaço que as circunscreve é, cada vez mais, exclusivamente o doméstico-familiar, mas "porque se trata exatamente de duas figuras interdependentes. é a mulher identificada como mãe, não só no sentido biológico, mas também em termos afetivos e educativos, que exprime antes de tudo esta nova atenção e responsabilidade familiar para com as crianças".
Chiara Saraceno19 observa que o programa educativo e moral que está no centro da família moderna diz respeito à mãe como educadora e como sujeito a educar na própria "autêntica e natural vocação".
Quanto à utilização dos recursos para uso em benefício exclusivo dos filhos, a autora afirma, tendo por base a realidade europeia, que neste caso não difere da brasileira, que mais frequentemente a mulher-mãe renuncia "naturalmente a consumos individuais a favor dos consumos dos outros membros da família, o marido ou os filhos". E é sempre ela que põe todo o dinheiro no caixa comum, no caso de trabalhar, enquanto o marido e, eventualmente, os filhos descontam uma parte para si.20 A autora afirma, com base em uma pesquisa inglesa feita por Pahl, o quanto pode ser difícil, para uma mulher, distinguir entre despesas familiares e despesas para si, mesmo quando o dinheiro gasto é ganho por ela. O uso de recursos por parte da mulher constitui-se em um bom indicador, embora não único, das dinâmicas de poder e controle dentro da família.
Os discursos sobre feminilidade e maternidade apropriados pelo PBF com o intuito de potencializar o desempenho de suas ações no combate à pobreza reforçam o lugar social tradicionalmente destinado às mulheres: a casa, a família, o cuidado, o privado, a reprodução. é preciso que o programa se questione sobre o peso de cada uma dessas categorias para a subordinação e a autonomia das mulheres.

Considerações finais
A pesquisa qualitativa do estudo de caso em Londrina e as reflexões suscitadas nos possibilitaram apreender como uma política de combate à pobreza pode atuar para reforçar lugares sociais marcados pelos papéis tradicionais de gênero e, ao fazê-lo, encontra sérias dificuldades para se viabilizar como um programa de redução das desigualdades. A experiência coloca em evidência obstáculos que são gerados pelo uso acrítico de tradições sociais e culturais, que, na realidade, atuam de modo a favorecer a (re)produção das desigualdades. Os papéis de gênero, ao mesmo tempo binários e complementares, simbolizam essas tradições incorporadas pelo PBF. Consideramos que o PBF teria mais contribuições a oferecer na luta pela redução das desigualdades se viesse a incorporar concepções mais críticas acerca dos papéis de gênero.
Perante a política de assistência social, a família é identificada pela figura da mulher, e não pela do homem. E a mulher, por sua vez, é considerada com base nas funções maternas, o que fixa e essencializa o sujeito mulher, vinculando-o à maternidade. Consideramos, à luz de influências feministas a partir de autoras como, por exemplo, Joan Scott,21 Judith Butler,22 Chantal Mouffe23 e Nancy Fraser,24 que os processos de fixação e 'essencialização' de identidades, de homens e mulheres, constituem-se em sérios obstáculos para uma sociedade democrática, a qual exige a construção de sujeitos plurais e identidades contingentes. Consideramos, ainda, que a fixação de papéis sexuais, a exemplo do aprisionamento das mulheres às tarefas reprodutivas, contribui para o reforço da lógica binária de classificação e para a (re)produção da subordinação feminina.25
O modo como o Programa Bolsa Família atua em Londrina cria mecanismos que minimizam a responsabilidade dos homens e produzem a responsabilização das mulheres com o cuidado de crianças e adolescentes. Ao fazê-lo, contribui para a cristalização dos papéis de gênero. 


Silvana Aparecida MarianoI; Cássia Maria CarlotoII
IUniversidade Federal de Uberlândia
IIUniversidade Estadual de Londrina


Referências bibliográficas
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1 Luana PINHEIRO et al., 2008.
2 Henrietta MOORE, 1996.
3 PINHEIRO et al., 2008, p. 33.
4 Maria Lygia Quartim de MORAES, 2003.
5 Lena LAVINAS e Marcelo NICOLL, 2006.
6 Adotamos a referência de Mary Garcia CASTRO (2002), que compreende a vulnerabilidade social como o resultado negativo da relação entre a disponibilidade dos recursos materiais ou simbólicos dos atores, sejam eles indivíduos ou grupos, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais, econômicas, culturais que provêm do Estado, do mercado e da sociedade. Esse resultado se traduz em debilidades ou desvantagens para o desempenho e a mobilidade social dos atores. Esse enfoque faz referência a três elementos de conformação de situações de vulnerabilidade de indivíduos, famílias ou comunidades: recursos materiais ou simbólicos, também chamados de ativos (Carlos Henrique FILGUEIRA, 2001); estruturas de oportunidades dadas pelo mercado, pelo Estado e pela sociedade; e estratégias de uso dos ativos.
7 PINHEIRO et al., 2008.
8 IBGE, 2000.
9 PINHEIRO et al., 2008.
10 Carin KLEIN, 2005, p. 37.
11 KLEIN, 2005.
12 De acordo com orientações do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MS), "ao entrar no Programa, a família se compromete a cumprir as condicionalidades do Bolsa Família nas áreas de saúde e educação, que são: manter as crianças e adolescentes em idade escolar freqüentando a escola; e cumprir os cuidados básicos em saúde, que é seguir o calendário de vacinação para as crianças entre 0 e 6 anos, e a agenda pré e pós-natal para as gestantes e mães em amamentação" (2009, grifo nosso).
13 Silvana Aparecida MARIANO, 2001 e 2008.
14 Leda Maria Vieira MACHADO, 1999.
15 Sonia ALVAREZ, 2000.
16 Chiara SARACENO, 1997.
17 SARACENO, 1997, p. 14.
18 SARACENO, 1997, p. 194.
19 SARACENO, 1997.
20 SARACENO, 1997, p. 195.
21 Joan SCOTT, 2002.
22 Judith BUTLER, 1998 e 2003.
23 Chantal MOUFFE, 1999 e 2003.
24 Nancy FRASER, 2002.
25 MARIANO, 2005 e 2008.




 


 

sábado, 29 de dezembro de 2012

O papel da social-democracia na luta de classes por Francisco José Soares Teixeira [*]


I. As origens política da crise social

1. A social-democracia e a desconstrução da luta de classes: Breve digressão histórica


Frankfurt, 1951. Naquele ano, os principais líderes da social-democracia europeia resolvem criar a Internacional Socialista (IS), considerada como herdeira da II Internacional, que, no início da Primeira Guerra Mundial, abandona a luta pelo socialismo e adere à política de colaboração de classes. Na verdade, a IS é uma criação da Fundação Friedrich Ebert (FFS), assim denominada em homenagem ao social-democrata alemão Friedrich Ebert, um dos fundadores da república de Weimar (1919-1933), criada pela revolução de 1918/1919.

Num breve registro histórico, Friedrich Ebert assumiu a presidência do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), em 1913. Pertencia a ala direita do Partido, explicitamente contrarrevolucionária. Seus integrantes eram muito diferentes dos social-democratas históricos do século XIX [1] . Há tempo haviam abandonado a estratégia revolucionária do marxismo e as tarefas históricas da classe operária, em nome da preservação das instituições e valores da sociedade capitalista. Seu objetivo histórico se era tornar representantes de um partido operário-burguês, como de fato assim aconteceu.

Durante a revolução alemã que começa de 1918 e se estende, segundo alguns historiadores, até o ano de 1923, o SPD, de Friedrich Ebert, desempenha papel fundamental como agente contrarrevolucionário. A Revolução, que começara em janeiro daquele ano, quando um movimento grevista exigindo a paz une mais de um milhão de trabalhadores, agrava-se com o passar do tempo. Em agosto, o alto comando do exército imperial, certo de que a Alemanha sairia derrotada da Primeira Grande Guerra, propõe um governo de união nacional para que começasse a negociar a paz com os países aliados: França, Inglaterra, Rússia e os Estados Unidos.

Vã tentativa! Em outubro, estoura a revolta dos marinheiros que se recusaram a combater os ingleses. São violentamente reprimidos e jogados nas prisões. A resposta à ação do Exército contra os marinheiros veio no mês seguinte, quando eclode, em Kiel, um movimento em prol da libertação dos insurretos de outubro. A partir de então a Alemanha torna-se um palco de várias manifestações insurrecionais, que culminam na greve geral na cidade de Berlim, no dia 9 de novembro. O imperador renuncia e Ebert assume a chefia do governo, na condição de primeiro ministro [2] .

Cai a coroa; em seu lugar, vem a faixa presidencial. Em fevereiro de 1919, na pacata cidade de Weimar, instala-se a assembleia constituinte. Friedrich Ebert é eleito provisoriamente para ocupar o cargo até que seja promulgada a Constituição.

Foi uma simples troca de ornamentos: a faixa presidencial substituiu a coroa. Realmente, com Ebert à frente do novo governo, a burguesia podia dormir tranquila, segura de que os alicerces que sustentam seu domínio de classe não seriam abalados, como de fato não o foram. Ardoroso defensor da ordem e dos valores burgueses, Ebert nunca quis a revolução e de tudo fez para evitá-la. Como ressalta Montagny, o senhor Ebert
[...] não queria a revolução, odiava-a como um pecado, mas quando se desencadeou em 1918 e 10 mil conselhos operários e de soldados detiveram o poder real em quase todo o país, tudo fez para desviá-la do seu verdadeiro objetivo: deu seu apoio aos revolucionários, não hesitando em utilizar as palavras de ordem para se eleger a frente dos conselhos e os controlar. O dia em que a República foi proclamada e ele foi designado Primeiro-Ministro, fez um apelo aos manifestantes para deixarem as ruas e assegurarem a calma e a ordem. Durante a noite faz um acordo secreto com os chefes do exército imperial para "lutar em conjunto contra o bolchevismo". [3]
Quanta estreiteza de espírito a do senhor Friedrich Ebert! O compromisso que celebra na calada da noite foi um compromisso, como diria Lênin, de traidores que dissimulam sob a capa de pseudocausas objetivas o seu egoísmo e covardia. Um compromisso feito com um claro intuito de conquistar as boas graças dos capitalistas em troca de algumas esmolas do grande capital. Isso não significa que a classe trabalhadora não deve assumir compromissos com os representantes ou os donos do capital. Mas há compromissos e compromissos. Que o diga Lênin, para quem,
[...] é preciso saber analisar a situação e as condições concretas de cada compromisso ou de cada variedade de compromissos. É preciso saber distinguir o homem que deu aos bandidos o dinheiro e as armas para diminuir o mal causado pelos bandidos, do homem que dá aos bandidos e o dinheiro e as armas para participar da partilha do saque. Em política, isto está longe de ser sempre tão fácil como este pequeno exemplo de uma simplicidade infantil. Mas seria simplesmente um charlatão quem pretendesse inventar para os operários uma receita que desse antecipadamente soluções prontas para todos os casos da vida ou prometesse que na política do proletariado revolucionário não haveria nenhumas dificuldades e nenhumas situações complicadas [4] .
Aí está o tipo de compromisso que a ala direita da social-democracia alemã, liderada pelo senhor Ebert, celebra com os "bandidos" (atente-se para as aspas, pois a exploração não pode ser confundida com um simples roubo [5] ) do imperialismo. Não se trata, pois, de um compromisso temporário, um recuo da classe trabalhadora para restabelecer suas forças e, assim, voltar à luta [6] , mas, sim, de um compromisso anticomunista com o fim de canalizar a mudança para a política de colaboração de classes; um compromisso, portanto, de deliberada renúncia ao socialismo.

Esse registro histórico é importante porque, a partir dele, pode-se compreender melhor a natureza da política praticada pela social-democracia, notadamente a alemã. Para tanto, vale a pena acompanhar, ainda que de forma extremamente breve, os tumultuados acontecimentos da revolução e da república de Weimar.

Entre os anos de 1919-1923, várias revoltas eclodem por toda a Alemanha. Todas debeladas com a ajuda direta ou indiretamente da social-democracia. Mas é com a chegada do chamado "terrível" ano de 1923 que o movimento revolucionário atinge seu ápice. Loureiro descreve a atmosfera econômica, social e política daquele ano, nos seguintes termos:
[...] para a maioria dos alemães, 1923 foi o ano da fome e da mais violenta crise social até então. Os trabalhadores tiveram seus salários reduzidos a menos da metade do que recebiam em 1914, a pequena burguesia viu suas economias evaporarem pela inflação. A sociedade burguesa parecia à beira do colapso: a especulação, a corrupção e a prostituição triunfavam. 1923 também foi o ano em que a unidade do Reich se viu ameaçada: os franceses dominavam as regiões do Reno e do Ruhr, a extrema direita na Baviera, a extrema esquerda na Alemanha Central, e o governo oficial no Norte. 1923 foi o ano em que a extrema esquerda e a extrema direita planejaram golpes para tomar o poder. Foi por fim o ano em que pagando um preço altíssimo, a democracia burguesa conseguiu sobreviver. E ela se manteve, a duras penas, por mais dez anos, até a chegada de Hitler ao poder [7] .
A desestruturação econômica da sociedade durante o ano de 1923 teve como resultado político, de um lado, a exacerbação das paixões nacionalistas da extrema direita; de outro, um notável crescimento do Partido Comunista Alemão (KPD). Acuado, Friedrich Ebert faz uso do artigo 48 [8] da Constituição e declara estado de sítio para todo o país, transferindo o poder executivo para as mãos do ministro do Exército. Instaura-se, assim, uma ditadura militar, que foi de grande utilidade, principalmente, contra a esquerda [9] .

Mais uma vez a social-democracia revela sua aversão a quaisquer ações de massa, principalmente quando promovidas pela esquerda comunista, em nome da ordem e da legalidade constitucional. E é sob essa ditadura militar, e também econômica, que a República conseguiu se impor no outono de 1923, contra a esquerda e a direita. De acordo com Loureiro,
[...] as tentativas de golpe de ambos os lados foram reprimidas, a inflação contida com uma reforma fiscal, os conflitos na política externa começaram a diminuir, a política interna foi se acalmando lentamente, é claro que à custa dos trabalhadores: a maior conquista de novembro de 1918, a jornada de oito horas, acabou sendo suprimida [10] .
Essa é a herança que a social-democracia deixa para seus contemporâneos do pós Segunda Grande Guerra. Sua ojeriza ao comunismo e a qualquer movimento de massa, sempre identificado como ataque à ordem constituída, mergulhou a República num mar de sangue. Sua obstinação obsessiva em combater os comunistas acabou por deixar as portas abertas para o nazismo. Quando Hitler assumiu o poder em 1933, o SPD, para se manter na legalidade, mostrou mais uma vez seu oportunismo. Não mediu as consequências dos efeitos de suas ações, para falar numa linguagem weberiana: propôs uma série de concessões ao Partido Nacionalista, e até mesmo chegou a prometer expulsar os judeus de suas fileiras, justamente a quem o SPD tanto devia e que tiveram marcante influência no crescimento e fortalecimento do Partido. De nada lhe adiantou tanto servilismo. Em fevereiro, o Partido e os sindicatos foram fechados, e seus dirigentes presos.

Igualmente, não se pode eximir o KPD da responsabilidade pela ascensão do nazismo. Em sua luta contra os social-democratas não percebeu, ou não levou na devida conta o crescimento das forças do nacionalismo, que iria jogar a Alemanha em mais uma guerra mundial que deixou um saldo de mais de 50 milhões de mortos.

E assim chega ao fim a tumultuada república de Weimar. A Alemanha saía de um estado de sítio para mergulhar numa ditadura que duraria até a queda de Hitler em 1945. Mesmo assim, o maior vencedor de Weimar foi, sem dúvida, o grande capital.

2. Os herdeiros da República de Weimar: Construtores da obediência de classe

Com o fim da Segunda Grande Guerra, social-democratas e comunistas [11] elaboram suas interpretações da república de Weimar. Os primeiros entendem que a colaboração da social-democracia com o Exército Imperial não foi uma traição dos seus líderes, mas, sim, uma ação necessária e impreterível que impediu a "bolchevização" da Alemanha.

Com o fim do nazismo, essa interpretação, na avaliação de Loureiro,
[...] era bem-vinda, pois ligava a RFA aos democratas de Weimar. O comportamento de Ebert e da social-democracia majoritária era julgado de forma positiva, algo perfeitamente compreensível depois da difamação que haviam sofrido durante o período nazista. Ao mesmo tempo, essa avaliação positiva também tinha implicações políticas atuais: o início da guerra fria oferecia a oportunidade de mostrar o vínculo entre proteção da democracia e rejeição do comunismo – daí o paralelo entre 1918- 1919 e 1945 [12] .
É sob essa atmosfera político-ideológica que é reconstituída, em 1947, a Fundação Friedrich Ebert (FES), que havia sido fundada em 1925 e fechada pelos nazistas em 1933. Seu documento de apresentação expressa que seu objetivo é 1) educar politicamente os homens de todas as origens; 2) promover a cooperação entre os povos; e 3) ajudar os estudantes mais destacados, sejam alemães ou estrangeiros. Infere-se daí que a formação política é, portanto, o centro de atuação da Fundação. A realização de seminários, dirigidos a todas as categorias da população (operários, funcionários, mulheres, jovens e até mesmo famílias inteiras), ocupa uma considerável parte de todas as suas atividades. Avaliando o sucesso alcançado por esse tipo de atividade, Montagny constata que o número de seminários passou
[...] de 410 em 1974 a mais de 1.100 em 1977 (isto é, cerca de 30.000 participantes em 1977). Eles se dirigem, antes de tudo, aos operários das grandes regiões industriais, como Ruhr, assim como aos sindicalistas. Tratam de assuntos diretamente relacionados com a atualidade: como, por exemplo, impedir a eleição de comunistas nos conselhos das empresas. O relatório anual de 1977 estima que são 'os seminários de preparação desse gênero que permitiram reduzir a influencia da juventude comunista nos órgãos regionais de co-gestão dos alunos' [13] .
Outro tipo de atividade é a distribuição de bolsas de estudos para alunos alemães e estrangeiros. No final dos anos 1970, de acordo com Montagny, foram distribuídas 1200 bolsas: 800 para estudantes alemães e 400 para estrangeiros. A Fundação espera que esses alunos venham a ocupar cargos importantes nos setores de economia, ensino e pesquisa.

Trata-se, portanto, de formar na Alemanha e no resto do mundo quadros fiéis aos ideais da social-democracia. Nesse sentido,
[...] um exame do programa de seminários previstos para uma das escolas da fundação é revelador. Seu tema principal: a social-democracia e as reformas. Outros assuntos: os meios de comunicação de massa, a Internacional Socialista; a Comissão Norte-Sul e o Terceiro Mundo; ampliação CEE; a situação na África do Sul; Oriente Médio [...] etc [14] .
Outro setor de destaque da FFE é o de pesquisa e de publicações, que absorvem mais da metade do orçamento da fundação, com mais de 300 pessoas ocupadas em tais atividades, das quais uma centena delas operando no exterior. No que concerne às publicações, todas têm como tema central o KPD e a RDA. Mais uma vez valendo-se de Montagny, este constata que
[...] até o fim de 1977 o grupo de trabalho sobre as relações RFA-RDA elaborou 42 cadernos na série 'RDA-realidade – argumento', assim como 45 fichas na série 'informações rápidas sobre o diálogo interalemão'. Nenhuma outra instituição política é capaz, na RFA, de proporcionar um material de propaganda sobre todas essas questões [15] .
Trata-se de uma grande ofensiva ideológica cujo conteúdo é sempre definido contra o comunismo. Com efeito, seus principais temas são questões que abordam temáticas tais como "reforma ou revolução", "partido do povo ou partido de classe", "democracia parlamentar ou sistema de conselhos", "controle democrático da economia ou nacionalização dos meios de produção", "a co-gestão como forma de humanização do trabalho", dentre outros temas do gênero.

Essa ofensiva ideológica não é somente uma construção ideal. Ela tem uma base material, produto da práxis dos partidos e sindicatos social-democratas. Desde o Congresso de Bad Godesberg, 1959, as lideranças do SPD e da Confederação dos sindicatos alemães, conhecida pela sigla DGB [16] , resolvem abandonar toda referência à luta de classes, às nacionalizações e à concepção de classe do Estado. É, portanto, significativo, como afirmam Cornillet e Montagny,
[...] que tais opções tenham sido tomadas naquela época: o 'milagre' alemão havia espalhado a ilusão de um eterno consenso social no interior do sistema capitalista. A guerra fria era violenta. O Partido Comunista Alemão (KPD) estava interditado desde 1956, seus militantes atirados na prisão. Tudo o que estava um pouco à esquerda, inclusive nos sindicatos, [era] impiedosamente perseguido e frequentemente arrastado aos tribunais [17] .
Em 1969, Willy Brandt é eleito primeiro-ministro da Alemanha. Em suas promessas de campanha, comprometia-se a construir o "socialismo", porém se recusou a nacionalizar os setores chaves da economia porque isso, segundo ele, seria adotar o coletivismo da República Democrática Alemã (RDA). Sua intenção era clara: não tocar nos meios de produção nem atacar o capital. Com o advento da crise de 1973-1974, quando o preço do petróleo atinge patamares estratosféricos, seu discurso muda de tom: as palavras "mudanças", "inovação", "modernização", "reformas" deram lugar ao realismo e ao necessário. De acordo com Cornillet e Montagny,
[...] as reformas que tiveram lugar no período de Brandt se dedicaram essencialmente a tornar mais flexível a legislação (divórcio, aborto, extensão do seguro doença, introdução de um critério de idade para aposentadoria) [...] e não a introduzir verdadeiras modificações. Henry Ménudier, especialista da RFA, que não esconde suas simpatias pela social-democracia, reconhece encantado: 'o desejável cedeu o passo ao possível. A história da coalizão social-liberal poderia ser escrita através do abandono progressivo das reformas mais do que sob o ângulo de sua realização efetiva' [18] .
É que faz o Partido Trabalhista Britânico a partir da crise de 1973. Substitui seu discurso otimista pelo realista. Isso significou como afirma Bernas
[...] abandonar ou colocar em segundo plano todo o lirismo dos anos 60 sobre as 'ideias novas' e 'dinâmicas' do partido, sobre seus 'dirigentes novos e viris' que saberão 'criar no país um estado de espírito empreendedor e inventivo que [...] aconteça o que acontecer, impedirá qualquer retorno à política desacreditada dos Tories, qualquer retorno a uma estagnação crescente, ao crescimento intermitente de um desemprego agudo, um aumento contínuo dos preços'. É desenvolver, ao lado do discurso da 'revolução tecnológica' e a necessária 'modernização' a 'racionalização da indústria britânica, toda uma retórica de acordo de planificação, compreendidos como 'uma estreita cooperação entre governo e os dois sócios da indústria, tendo como objetivo o desenvolvimento de um novo tipo de relações que permite uma harmonização crescente dos planos futuros do governo e da indústria, no interesse do crescimento econômico [19] .
Tal como fizera o SPD, o Partido Trabalhista Britânico, em nome da racionalidade do mercado, substituiu seu programa de reformas por uma política incentivadora do crescimento econômico. O bipartidarismo britânico ajudou a realização desta guinada praticada pelos trabalhistas que, para se manterem no poder, sempre recorreram ao uso de "chantagens políticas" do tipo "eles" (conservadores) ou "nós".

Podem fazer isso até com certa facilidade. Afinal, somente o Partido Trabalhista tem experiência para realizar uma colaboração estatal não conflitante com os aliados da indústria (trabalho e Estado). Com efeito,
[...] é o Partido trabalhista que, com toda a evidência, goza de uma posição privilegiada no dispositivo das forças sindicais e políticas. Somente ele pode harmonizar e fazer convergir interesses que o Partido Conservador, em seu dogmatismo, sempre jogou uns contra os outros. Somente ele pode 'fazer da economia britânica um sistema econômico responsável' e assegurar 'o consenso nacional' sem o qual não haverá saída [20] .
Aliás, foi o que fizeram os trabalhistas quando chegaram ao poder. No tempo que estiveram à frente do executivo, "não derrubaram nada",
[...] nem antes nem depois da guerra. Houve certamente algumas nacionalizações e importantes reformas sociais que melhoraram efetivamente a sorte dos trabalhadores. Mas as bases do capitalismo britânico não ficaram abaladas [21] .
Poderia o capital sonhar com melhor parceiro? O governo de Willy Brandt não deixa dúvidas quanto a isso. Com efeito, quando foi discutida a lei de co-gestão, Brandt prometia a igualdade de direitos e de peso nas decisões dos conselhos entre os trabalhadores e os donos do capital. Quando a lei foi aprovada em março de 1976, assegurava a maioria de votos para o capital daquelas empresas com mais de dois mil funcionários.

Bela reforma que dá ao capital a última palavra! Não sem razão, entre 1970 e 1976, os encargos fiscais, que recaem sobre o trabalho, aumentaram duas vezes mais rapidamente do que os salários. Os impostos sobre os salários financiavam, no final dos anos 1970, 31% das receitas fiscais em comparação aos 9% de 1950 [22] . Daí a razão por que a participação dos salários no rendimento nacional vem caindo não só na Alemanha, como também em toda comunidade europeia. O caso da França é emblemático. Em 1925-1995, os salários representavam 66,4% do rendimento, cai para 54,8% no período 2004-2007 [23] . Esses dados seriam aplicáveis a qualquer outro país capitalista.

Mesmo assim, com exceção das revoltas dos trabalhadores na França e em outros poucos países europeus, nos anos de 2009 e 2010, não se tem notícias de greves de massas e perturbações sociais na Europa significativas. Afinal, a função do SPD, como também de todos os partidos social-democratas, é
[...] trabalhar para a integração da classe operária, impedi-la de combater a política que está sendo realizada. O autor dessa declaração é o presidente do SPD e da Internacional Socialista, o próprio Willy Brandt [24] .
Falar de democracia num país em que o capital sempre tem a última palavra é, no mínimo, uma hipocrisia. Em 1972, Willy Brandt instaura os famosos "Berufsverbote", um verdadeiro atentado à democracia, como assim afirmam Cornillet e Montagny, para os quais os Berufsverbote proíbem
[...] de exercer a profissão como professores, magistrados ou mesmo funcionários dos correios ou ferroviários, aos comunistas e também, em medida crescente, aos membros 'críticos do SPD, assim como a outros democratas. Isto em nome de uma 'ordem livre e democrática', que assimila falsamente a Constituição ao sistema capitalista! [25]
E complementam seu raciocínio:
[...] esses 'Berufsverbote' são apenas a ponta visível de um iceberg que abrange ainda muitas outras disposições antidemocráticas: a legislação de exceção, que autoriza especialmente o exército a intervir contra manifestantes, a restrição aos direitos de defesa, a extensão do direito de investigação que torna possível tal medida sem testemunhas e sem ordem escrita, segundo a apreciação da situação da polícia [...]. [26]
Mas nada disso põe em cheque o "modelo" social-democrata. Afinal, instituições como a Fundação Friedrich Ebert existem para convencer os trabalhadores de que o capitalismo é o melhor dos mundos possíveis. Não sem razão, os sindicatos são os seus principais interlocutores. Sendo a principal financiadora do SPD, a Fundação procura impedir desejos de mudanças que possam pôr em risco a política de colaboração de classes, com o intuito de desviá-los de seu curso normal e, consequentemente, assegurar a continuidade do "pacto social". Sua ação é, portanto, assegurar ou preservar o domínio da grande burguesia – as reações das massas contra os donos do capital.

Não sem razão, na direção, o "Kuratorium", da Fundação Friedrich Ebert estão presentes vários representantes dos trustes das maiores empresas alemães tais como o senhor
[...] Friedrich Thomee, membro da direção da Volkswagem, ou ainda de Herald Koch, Vice-Presidente do Conselho Fiscal do truste siderúrgico Hoesch, e também ErnstWolf Mommsen, antigo Presidente do Comitê Diretor da sociedade Friedrich Krupp. Em outras palavras, a fina flor do capital germânico-ocidental. Também está presente Walter Hesselbach, Presidente do Bank Für Gemeinwirtshaft ou, como se diz, 'o banco dos Sindicatos', que é o principal instituto financeiro do SPD e da DGB [27] .
A social-democracia tornou-se um partido da ordem, no governo ou fora dele; sócia do capital. Não é de admirar que os sindicatos, particularmente na Alemanha, há muito perderam seu caráter de classe e se transformaram em grandes empresas. É o caso da Confederação dos Sindicatos Alemães, conhecida pela sigla DGB. Essa Central possui "empresas comunitárias", que lhe asseguram um considerável poder financeiro. De acordo com Montagny, a DGB é dona
[...] de um dos bancos mais importantes da RFA, com mais de cem filiais, uma das mais importantes sociedades de seguros (Volksfürsorge), a maior empresa de construção de habitações na Europa ocidental (Neue Heimat), uma cadeia de lojas de alimentação considerada como a maior empresa do gênero no país (co op ag), uma casa editora em Colônia (Bund-Verlag) [28] .
Ainda assim, quando a social-democracia falava às grandes massas sob o verniz de "esquerda revolucionária", conseguiu várias vitórias que melhoraram a vida da classe trabalhadora. Conseguiu transformar o voto censitário num direito universal; em muitos países europeus, reduziu a semana de trabalho de 72 para 35 horas; ampliou o sistema de proteção social e, hoje, os inválidos e doentes contam com serviços de assistência médica e aposentadoria; criou o seguro-desemprego; universalizou a educação; além de outros direitos sociais e políticos.

Mas é preciso considerar o reverso da medalha. Não se pode esquecer que todas essas conquistas foram realizadas a um preço muito alto, cujas cifras estão registradas na história com números indeléveis de sangue e fogo. O balanço é de Mandel [29] , para quem a social-democracia internacional, com honrosas exceções, justificou e facilitou a carnificina de dez milhões de seres humanos durante a Primeira Guerra Mundial, em nome de pretensas razões de defesa nacional. Os governos social-democratas, ou com a participação da social democracia, organizaram ou defenderam guerras na Indochina, Malásia, Indonésia e Argélia. Foram mais longe ainda. Defenderam práticas de torturas e limitaram as liberdades democráticas na Índia, Indonésia, Egito, Iraque e Singapura. Protegeram o regime do apartheid na África do Sul. Participaram da Guerra Fria, além de se tornarem cúmplices das políticas imperialistas. Em nome do grande capital, apoiaram e organizaram as políticas de austeridade monetárias e fiscais, que tiveram como consequência o desmantelamento do Estado Social, que ajudaram a construir.

Os social-democratas contemporâneos não são diferentes dos seus consortes da república de Weimar. Destes herdaram o mesmo ódio visceral ao comunismo e a quaisquer manifestações de massa. Como aqueles, os representantes da social-democracia de hoje são amigos da ordem e da disciplina (de mercado). Tão logo começa a crise dos anos 1970, abandonaram o seu programa de reforma e passaram a adotar uma política de austeridade, jogando o ônus da conta nos ombros da classe trabalhadora. Ressuscitaram o liberalismo tal como fizeram Reagan e Margaret Thatcher, considerados, principalmente pela esquerda, como os vilões da desregulamentação da economia internacional.

A social-democracia é parte integrante da implementação das políticas neoliberais em todo o mundo. Como apropriadamente esclarece Fiori,
[...] a derrota dos social-democratas e o declínio da esquerda, já vinha de antes (sic), e não reverteu nestas últimas eleições por uma razão muito simples: os social-democratas são parte essencial da própria crise. Relembrando uma história conhecida: a social-democracia europeia abandonou a "utopia" socialista, depois da II Guerra Mundial, e só se converteu às teses e políticas keynesianas, no final da década de 1950. Mas, em seguida, a partir dos anos 1970, aderiu às novas teses e políticas neoliberais hegemônicas até o início do século XXI. E até hoje, na burocracia de Bruxelas, e dentro do Banco Central Europeu, são os social-democratas e os socialistas que em geral defendem com mais entusiasmo a ortodoxia macroeconômica e liberal. Neste momento, por exemplo, o ministro das Finanças alemão, o social-democrata Peer Steinbruech, é considerado por todos como a autoridade financeira mais ortodoxa e radical, nos governos das grandes potencias capitalistas. Além disto, os social-democratas e socialistas europeus não participaram da origem do projeto de integração europeia, e nunca conseguiram formular uma visão consensual do projeto de unificação. Portanto, nestas últimas eleições parlamentares, os social-democratas e socialistas europeus não podiam ser vistos como uma alternativa frente à crise do modelo neoliberal, porque eles são de fato uma parte essencial da própria crise e, além disto, não dispõem de nenhuma proposta específica para os impasses atuais da União Europeia [30] .
Ora, se os social-democratas e os socialistas europeus são também sócios na construção das políticas neoliberais; são direta ou indiretamente responsáveis pela crise que se arrasta desde a década de 1970, quer dizer, então, que não existem mais alternativas políticas para enfrentar as mazelas do capitalismo? Até quando vai durar a passividade da classe trabalhadora, educada e disciplinada pela social-democracia, para conviver em harmonia com os donos do grande capital? Como enfrentar o seu discurso hegemônico de que não há saídas para além do capital? Como, então, combater a ideia que propaga a ideologia de que a história da humanidade chegou ao fim? De que tudo se passa como se o antes e o depois tivessem se dissolvido para dar lugar unicamente ao presente, e que o mundo de hoje não tem mais relação com o passado e não traz mais em suas entranhas o devir de uma sociedade diferente da imediatamente existente? Ainda há perspectivas para a reconstrução de uma esquerda revolucionária?

Que fazer, então? Essa é uma questão para a qual o autor do presente texto não tem uma resposta pronta e acabada. Mas uma coisa é certa: o que se está a fazer, (salvação de bancos falidos, arrocho salarial, cortes dos gastos públicos etc.), certamente não é o que se deve fazer. Já é muita coisa saber o que não se quer. Não é?

II. A ofensiva ideológica da social-democracia na periferia capitalista: o caso Brasil e a ação do Partido dos Trabalhadores (PT)

1. A "social-democracia" petista: breves considerações históricas


A política social-democrática, que sempre se pautou como alternativa ao comunismo, aliou-se ao grande capital e se tornou defensora dos seus interesses. Como visto antes, tem sido esse o papel adotado pela Fundação Friedrich Ebert (FES), uma das principais instituições defensora e financiadora do SPD. Mesma orientação adotada pela Internacional Socialista (IS) – forma organizada da social-democracia em escala internacional e de caráter supranacional, cuja política adota a ideologia da colaboração de classes.

Colaboradora direta da IS, a FES conta atualmente com centena de filiais instaladas na África, na Ásia e na América Latina [NR] . As questões discutidas nesses países têm o mesmo conteúdo ideológico divulgado e propagandeado na Europa: difundir os valores e crenças da democracia como alternativa ao comunismo. Não sem razão, esse trabalho de propaganda ideológica, na periferia capitalista, como apropriadamente lembra Montagny, começa nos anos 1960, justamente quando têm início as lutas pela emancipação dos povos oprimidos. Obviamente, o objetivo da atuação da Fundação nesses países é mais do que claro: propagar as idéias do chamado "socialismo democrático", com a intenção deliberada de combater qualquer investida comunista.

Não sem razão, é justamente no período em que começa a abertura política, durante o Governo Geisel, que a FES, sigla pela qual é conhecida no Brasil, se instala no país, na cidade do Rio de Janeiro, em 1976. Adota o nome de Instituto Latino Americano de Desenvolvimento Econômico e Social (ILDES), desde a sua chegada até os anos 2000. A partir de então, a Fundação tem utilizado os dois nomes, com a tendência de permanecer somente o nome original da fundação. Sua ação segue os mesmos parâmetros da matriz alemã: lutar para consolidar na periferia capitalista o chamado socialismo democrático.

A Fundação chega ao Brasil, portanto, num momento de efervescência política. Partidos e movimentos sociais começam a jogar fora a mordaça que lhes fizeram calar a voz por mais de dez anos. Era o início da luta pela volta da democracia, das eleições diretas e das liberdades de pensamento e de expressão. Mas nem tudo parecia caminhar sob a bandeira da "ordem e progresso". A esquerda se fortalecia e fazia eco no seio da sociedade com suas palavras de ordem de "não pagamento da dívida externa", "reforma agrária já", "acabar com a fome e a miséria", "igualdade social e política para todos", dentre outras questões.

É nessa atmosfera de inquietação social que nasce o PT, em 1980. Define-se como um partido marcadamente anticapitalista31. Desde os seus primeiros documentos e manifestações, o Partido dos Trabalhadores defende a construção de uma sociedade na qual não haja explorados nem exploradores. É o que afirma seu manifesto de lançamento, aprovado pelo movimento pró-PT, em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion (SP), e publicado no Diário Oficial da União de 21 de outubro de 1990. Nesse documento, declara que
[...] o PT buscará conquistar a liberdade para que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores. O PT manifesta sua solidariedade à luta de todas as massas oprimidas do mundo.
31 Pelo menos é o que diz, ainda que de forma não muito precisa, a Tese de Santo André-Lins, em janeiro de 1979, no IX Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos e de Material Elétrico do Estado de São Paulo, berço do qual surgiria, em 1980, o Partido dos Trabalhadores. Literalmente: "[...] Enquanto vivermos sob o capitalismo, este sistema terá como fim último o lucro, e para atingi-lo utiliza todos os meios: da exploração desumana de homens, mulheres e crianças até a implantação de ditaduras sangrentas para manter a exploração. Enquanto estiver sob qualquer tipo de governo de patrões, a luta por melhores salários, por condições dignas de vida e de trabalho, justas a quem constrói todas as riquezas que existe neste País, estará colocada na ordem do dia a luta política e a necessidade da conquista do poder político" A TESE DE SANTO ANDRÉ-LINS, 1979. In: Fundação Perseu Abramo. WWW.fabramo.org.br.

Esta passagem do Manifesto é nitidamente marcada por um corte de classe. Aliás, esse documento faz da classe trabalhadora a protagonista da luta pela construção de uma sociedade socialista. Com efeito, noutra passagem desse documento, lê-se que
[...] o Partido dos Trabalhadores nasce da vontade de independência política dos trabalhadores, já cansados de servir de massa de manobra para os políticos e os partidos comprometidos com a manutenção da atual ordem econômica, social e política. Nasce, portanto, da vontade de emancipação das massas populares. Os trabalhadores já sabem que a liberdade nunca foi nem será dada de presente, mas será obra de seu próprio esforço coletivo. Por isso protestam quando, uma vez mais na história brasileira, vêem os partidos sendo formados de cima para baixo, do Estado para a sociedade, dos exploradores para os explorados. Os trabalhadores querem se organizar como força política autônoma. O PT pretende ser uma real expressão política de todos os explorados pelo sistema capitalista. Somos um Partido dos Trabalhadores, não um partido para iludir os trabalhadores. Queremos a política como atividade própria das massas que desejam participar, legal e legitimamente, de todas as decisões da sociedade. O PT quer atuar não apenas nos momentos das eleições, mas, principalmente, no dia-a-dia de todos os trabalhadores, pois só assim será possível construir uma nova forma de democracia, cujas raízes estejam nas organizações de base da sociedade e cujas decisões sejam tomadas pelas maiorias.
Seria o PT um partido nitidamente obreirista, uma vez que seu Manifesto de lançamento é dirigido preferencialmente à classe trabalhadora? Essa questão é enfrentada por Lula em seu discurso por ocasião da realização da 1ª Convenção Nacional do Partido, em setembro de 1981. Depois de comentar que Partido nasceu pelas mãos dos operários de macacão, e que disso se orgulha, afirma que tinha
[...] consciência de que, independentemente do setor social a que pertencesse, os que acreditavam na classe trabalhadora, mais cedo ou mais tarde, estariam ao nosso lado. Foi com imensa alegria que recebemos, como primeiro intelectual a aderir ao Partido, este trabalhador das artes chamado Mário Pedrosa, há mais de 50 anos dedicando sua atividade à luta dos trabalhadores brasileiros [...]. Bastou que isso acontecesse para que surgissem os eternos descrentes, dizendo que o PT, embora nascido dos trabalhadores, se convertia em partido de intelectuais [...].
E conclui declarando que
[...] o Partido dos Trabalhadores não pede atestado de ideologia ou caráter profissional a quem quer que seja, mas sim disposição de luta, fidelidade ao nosso programa e ao nosso estatuto. Dentro do Partido, somos to dos iguais, operários, camponeses, profissionais liberais, parlamentares, professores, estudantes etc.
Lula não deixa dúvidas. Embora construído pelas mãos de sindicalistas [32] , que por mais de duas décadas formariam o núcleo duro do Partido [33] , o PT surge como um partido de massa. Além dos sindicalistas, sua formação contou com a participação ativa da Igreja, de intelectuais marxistas e diversos movimentos sociais.

Que o diga Lula, para quem o Partido não pode se confundir com o sindicato. Para ele, a atividade partidária deve completar a sindical, sem que isto signifique a sua exclusão. Concedendo-lhe a palavra, declara que
[...] o sindicato é a ferramenta adequada para melhorar as condições do trabalhador explorado pelo capitalista. Queremos mudar a relação entre capital e trabalho. Queremos que os trabalhadores sejam donos dos meios de produção e dos frutos do seu trabalho. E isso só se consegue com a política. O Partido é a ferramenta que nos permitirá atuar e transformar o poder neste país. Em nossa luta, a atividade partidária deve completar a sindical, sem que uma queira substituir ou excluir a outra [34] .
Quando Lula diz que " queremos que os trabalhadores sejam donos dos meios de produção e dos frutos do seu trabalho " , está a afirmar que o Partido nasce para lutar pela construção de uma sociedade socialista, na qual não hajam explorados nem exploradores. Mas como construir o socialismo, se o Partido, desde o seu nascedouro, declara-se como um Partido eminentemente legal, que visa à tomada do poder unicamente pela via parlamentar?

Ainda que reconheça que as ações ilegais (extra-parlamentares) de vários movimentos políticos, Lula deixa claro que o Partido de tudo fará para que esses movimentos se submetam ao "veredicto popular". Não seria isso, eleger a via parlamentar como único caminho para se chegar a uma sociedade sem classes? A história do Partido não deixa dúvidas. Vale a pena ouvir, do próprio Lula, essa preferência que faz exclusivamente do parlamento o palco da ação política. É o que diz em seu discurso, quando reconhece que
[...] as tendências políticas encontram-se em nossa sociedade. Reconhecemos o direito desses companheiros se organizarem em torno de suas visões e de suas propostas. Lamentamos que, por força do regime repressivo em que vivemos, essas tendências atuem na ilegalidade , embora sejam justas e legítimas as suas bandeiras. Lutamos e lutaremos pela legalização de todas elas , a fim de que suas práticas sejam comprovadas pelo veredicto popular. Preocupa-nos, entretanto, se um militante veste, por baixo de nossa camisa, outra camisa. Nunca pedimos nem pediremos atestado ideológico de ninguém [35] .
Não seria, portanto, o PT um partido social-democrata, que luta pela construção do socialismo democrático, a exemplo do SPD e outros do gênero? Essa questão é levantada pelo próprio Lula em seu discurso e para qual oferece resposta. Mas é somente no VII Encontro Nacional do PT, em junho de 1990, que são dissipadas as dúvidas sobre a linha política do Partido. Na Resolução que define o chamado "socialismo petista", depois de afirmar o caráter anticapitalista do Partido, lê-se que
[...] frentes social-democratas não apresentam, hoje, nenhuma perspectiva real de superação histórica do capitalismo. Elas já acreditaram, equivocadamente, que a partir dos governos e instituições do Estado, sobretudo o Parlamento, sem a mobilização das massas pela base, seria possível chegar ao socialismo. Confiavam na neutralidade da máquina do Estado e na compatibilidade da eficiência capitalista com uma transição tranquila para outra lógica econômica e social. Com o tempo, deixaram de acreditar, inclusive, na possibilidade de uma transição parlamentar ao socialismo e abandonaram não a via parlamentar, mas o próprio socialismo. O diálogo crítico com tais correntes de massa é, com certeza, útil à luta dos trabalhadores em escala mundial. Todavia o seu projeto ideológico não corresponde à convicção nem aos objetivos emancipatórios do PT [36] .
Assim como rejeita a ideologia social-democrata, o PT nega o projeto do chamado socialismo real. Na mesma Resolução, declara que

[...] o PT identificou na maioria das experiências do chamado socialismo real uma teoria e prática incompatíveis com o nosso projeto de socialismo. A sua profunda carência de democracia, tanto política quanto econômica e social; o monopólio do poder por um único partido, mesmo onde formalmente vigora o pluralismo partidário; a simbiose Partido/Estado; o domínio da burocracia enquanto camada ou casta privilegiada; a inexistência de uma democracia de base e de autênticas instituições representativas; a repressão aberta ou velada ao pluralismo ideológico e cultural; a gestão da vida produtiva por meio do planejamento verticalista, autoritário e ineficiente – tudo isso nega a essência do socialismo petista [37] .
Nessas duas passagens, a Resolução do VII EN deixa claro que o PT se constitui como um partido que rejeita tanto a vida trilhada pela social-democracia como também a do socialismo real. Refuta esses dois caminhos em nome da construção de uma democracia radical, na qual não haja nenhum tipo de repressão aberta ou velada, como diz na citação anterior, ao pluralismo ideológico e cultural, como também refuta a prática do planejamento centralizado da economia e a ausência de uma democracia de base.

Qual é, então, o projeto de socialismo defendido pelo PT? Na mesma Resolução do VII EM, o Partido define que seu projeto socialista deverá buscar a efetiva democracia econômica. Para tanto, afirma que tal democracia somente será viável
[...] a partir da propriedade social dos meios de produção . Propriedade social que não se confunda com a propriedade estatal, gerida pelas formas (individual, cooperativa, estatal etc.) que a própria a sociedade, democraticamente, decidir. Democracia econômica que supere tanto a lógica perversa do mercado capitalista quanto o intolerável planejamento autocrático estatal de tantas economias ditas socialistas. Cujas prioridades e metas produtivas correspondam à vontade social e não a supostos interesses estratégicos do Estado. Que busque conjugar – desafio dos desafios – o incremento de produtividade e a satisfação das necessidades materiais com uma nova organização de trabalho , capaz de superar a sua alienação total. Democracia que vigore tanto para a gestão de cada unidade produtiva – os conselhos de fábricas são referência obrigatória – quanto para o sistema no seu conjunto, por meio de um planejamento estratégico sob controle social [38] .
" Propriedade social dos meios de produção "? Mas o Partido não define nenhuma medida concreta para organizar e efetivar essa chamada propriedade social dos meios de produção. " Nova organização do trabalho "? Novamente, deixa-se em aberto essa questão, não se diz o que o Partido chama de nova forma de organização do trabalho. Seria um modelo de autogestão do trabalho? Cooperativas de produção? Co-gestação das empresas nas quais trabalhadores e empresários teriam iguais direitos de votos? " Planejamento estratégico sob controle social "? De quem ou de quais instituições? Das já existentes ou de novas instituições que deverão ser criadas?

Para essas questões o PT não tem respostas, nem tampouco se preocupa em respondê-las. Como declarou Lula em seu discurso por ocasião da 1ª Convenção Nacional do Partido, já referido antes, tais questões, diria, só "[...] servem para expressar a desconfiança em relação à capacidade política dos trabalhadores brasileiros em definirem o seu próprio caminho".

É assim mesmo que o VII EN do Partido se expressa. Tal como diz Lula, para a extinção do socialismo e a construção da sociedade socialista,
[...] será necessária uma mudança política radical; os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica na sociedade civil e no poder de Estado. Outros aspectos do nosso projeto socialista são desafios em aberto, para os quais seria presunçoso e equivocado supor que podemos dar respostas imediatas. Sua superação demandará, provavelmente, insuspeitada fantasia política e criatividade prática, legitimadas não apenas pelas nossas opções ideológicas, mas pela aspiração concreta das massas oprimidas a uma existência digna [39] .
No plano estritamente teórico, tudo indica que tanto Lula quanto os delegados do VII EN estão certos em não definir a priori o "modelo" de socialismo que perseguem, como se este pudesse ser introduzido da noite para o dia, e sem oferecer nenhuma dificuldade. Ora, não existem receitas prontas e acabadas para se chegar ao socialismo. Querer defini-lo como uma questão que depende unicamente da um ato de decisão tomado num belo dia, seria o mesmo que apresentar a impaciência como argumento teórico, como assim se manifesta Engels contra o voluntarismo blanquista [40] .

A julgar pelo que expressam os documentos do PT, o Partido está certo em não oferecer uma receita pronta e acabada para alcançar o socialismo. Os avanços e retrocessos da Revolução de Outubro revelaram para Lênin que a construção do socialismo exige a travessia de um longo caminho, que não está pronto para ser trilhado como se fosse um passeio numa avenida num dia de domingo. A experiência de anos de militância política mostrou que, na luta pela construção do socialismo, não existem receitas prontas. Para ele,
[...] seria simplesmente um charlatão quem pretendesse inventar para os operários uma receita que desse antecipadamente soluções prontas para os casos da vida ou prometesse que na política do proletariado revolucionário não haveria nem dificuldades, nem situações complicadas [41] .
É complicado porque, acrescenta Lênin,
[...] a força de hábito de milhões e dezenas de milhões de homens é a força mais terrível. Sem um partido férreo e temperado na luta, sem um partido que goze da confiança de tudo quanto há de honrado dentro da classe, sem um partido que saiba acompanhar o estado de espírito das massas e influenciá-lo, é impossível travar essa luta com êxito. É mil vezes mais fácil vencer a grande burguesia centralizada do que vencer milhões e milhões de pequenos patrões, e eles, com a sua atividade cotidiana, corriqueira, imperceptível, invisível, desagregadora, realizam os mesmos resultados que são necessários à burguesia, que restauram a burguesia [42] .
Talvez seja essa a razão por que o PT se nega a definir seu projeto de construção de uma sociedade socialista, como se fora uma receita pronta e acabada. Será que sim? Em seu VII EN, 1993, enfatiza que é preciso ganhar o imaginário da população para engajá-la na luta contra o capitalismo. Textualmente, declara, ainda com tintas moralizantes, que aqueles
[...] que lutam por mudanças precisam ganhar o coração de cada brasileiro para as ideias da democratização da propriedade, do rendimento, da terra, da comunicação e o do poder.
Mas a teoria nem sempre, ou quase sempre, andou de mãos dadas com prática política do PT. A história seguiu outro curso, bem diferente daquele do discurso expresso nos documentos e manifestações do Partido. A Articulação Nacional de Movimentos Populares e Sindicais (ANAMPOS), braço sindical do PT, e a igreja católica assumiram a hegemonia na condução do futuro rumo político do partido. Aliás, não se pode esquecer que a ANAMPOS foi, desde então, a corrente diretamente responsável pela integração do PT com as centrais sindicais europeias, anticomunistas de berço, que contribuíram com vultosas soma de recursos para o caixa do partido, bem como prestando assessoria direta ao seu principal líder – Luís Inácio Lula da Salva. Tudo isso com o claro objetivo de não deixar Lula enveredar pelos caminhos da esquerda revolucionária do partido.

Quando surgiu a CUT, em 1983, nasce como uma verdadeira instituição do Partido dos Trabalhadores, a exemplo do que ocorre com a Confederação dos Sindicados Alemães (DGB), que chega até mesmo a se confundir com o SPD e com a Fundação Friedrich Ebert, uma vez que todos esses institutos estão empenhados na luta contra qualquer possibilidade de revolução, que possa pôr em risco a política de colaboração de classe.

A CUT não somente seguiu a linha política da social-democracia, como também foi financiada e assessorada pelas centrais sindicais ligadas ao imperialismo norte-americano. Com efeito, aquela Central sempre contou com o apoio direto da AFL-CIO43, organização que sempre acobertou as atividades criminosas da CIA em várias partes do mundo, notadamente na periferia capitalista [44] .

Para não revelar a sua face oculta, a CUT adota o mesmo discurso das centrais sindicais europeias e norte-americanas. Assume posições combativas para atrair seguidores, arrastar as massas e ganhar força. Promove e apóia greves em nome da defesa de reajustes salariais, promove passeatas para exigir do governo uma reforma agrária radical sobre o controle dos trabalhadores, repudia a ingerência do FMI na economia nacional e declara guerra ao sindicalismo amarelo, de pelegos.

Esse discurso radical é a forma como a Central se apresenta para a sociedade. Na verdade, sua intenção é outra: é manter o movimento dos trabalhadores sob sua tutela, tal qual assim age a social-democracia nos países ricos. Com efeito,
[...] a social-democracia é, de certa maneira, uma expressão das relações suscitadas hoje nas massas populares pelas consequências da crise. Leva em conta e reflete as questões reais que foram resolvidas. Apóia-se no descontentamento, ou melhor, sobre esse desejo de mudança. Por outro [...], ela drena, canaliza, num sentido muito preciso, este impulso popular para a mudança, com o intuito de desviá-la de seu curso normal e impedi-la de chegar a seu fim. Em outras palavras, ela conduz a um impasse. Contribui assim para preservar o domínio atual da grande burguesia eliminando – ao mesmo provisoriamente – o perigo que a ameaça, e permitindo aos detentores do capital prosseguir, sem receio de reações populares, em sua política de adaptação à situação criada pela crise, a fim de poderem defender seus próprios interesses, em detrimento dos interesses da população [45] .
Esse é o caminho que PT e a CUT seguem quando Lula assume a presidência do País. Já era de se esperar. Uma leitura dos documentos do PT, desde a Tese de Santo André-Lins, de 1979, até os mais recentes¸ deixa claro que o caráter de classe do Estado nunca foi questionado. Muito pelo contrário, em toda a produção documental do Partido, o Estado é chamado a exercer importante papel na regulação da economia, seja normatizando os investimentos, seja intervindo diretamente em determinadas áreas estratégicas. Além disso, o Estado é visto como importante instrumento de realização de uma profunda redistribuição do rendimento, de combate à inflação e ao desemprego, de pôr fim a ciranda financeira e, acima de tudo, como única instituição capaz de realizar uma reforma tributária progressiva.

Ora, para um Partido que nasce para destruir o capitalismo, age justamente ao contrário, quando procura reforçar o poder Estado, dessa instituição de dominação de classe. Ainda que em seus documentos afirme, com certa insistência, que o PT não se confunde com o governo, mas este deve estar a serviço da construção de uma nova sociedade, as propostas que apresenta, para quando assumir o poder, são extremamente tímidas; não questionam a lógica do mercado. Fala-se em quebrar ou limitar o poder dos grupos dominantes, em democratizar a propriedade privada, em desprivatizar a máquina estatal, democratizá-la, como isso significasse um passo em direção ao socialismo.

2. "O jeito petista de governar" [46]

Quando chega ao poder, em 2003, o Partido dos Trabalhadores traz de sua bagagem de campanha a promessa de que é capaz de assumir não somente a sua função de contestação, de combater o capitalismo, como também de gerir o sistema melhor do que os outros partidos conservadores. O resultado é conhecido: nada de substancial foi mudado, nem antes nem depois do governo Lula. É claro que foram implementadas algumas "políticas públicas", que melhoram a sorte de quem vivia a passar fome. Mas as bases do capitalismo brasileiro não foram abaladas; muito pelo contrário, foram reforçadas. Com efeito,
[...] entre o início de 1975 e o final de 2004, as despesas anuais do país com serviços de fatores de produção (lucros e dividendos de investimentos diretos e juros de empréstimos intercompanhia; lucros, dividendos e juros de investimentos em carteira; e juros de empréstimos convencionais) cresceram 1.085% (passaram de US$ 2 mil milhões para US$ 23,7 mil milhões), enquanto, no mesmo período, o PIB cresceu 129% e o PIB per capita 42%. Assim, enquanto o envio de rendimentos para o exterior cresceu nesse período 10,9 vezes, o PIB cresceu 1,3 vezes e o PIB per capita apenas 0,4 vezes [47] .
Acrescente-se a isso o fato de que, hoje, as multinacionais respondem por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e por quase metade das exportações brasileiras48. E com uma agravante: a desnacionalização da economia e a sua consequente dependência de decisões de investimentos tomadas fora de suas fronteiras domésticas. Dependência que também afeta a política econômica, à medida que o capital externo, investido no país, precisa ser remunerado. Por isso, o Estado é obrigado a concentrar esforços para promover as exportações e assim gerar divisas necessárias para o pagamento de lucros, dividendos, royalties (direito de patentes) juros, etc. às empresas estrangeiras.

O PT nada fez para mudar esse quadro. Pelo contrário, reforçou-o à medida que aprofundou a política econômica herdada do governo anterior. Fez a reforma da previdência que outros partidos não teriam condição de fazê-la. Com isso, deu ao capital financeiro mais um nicho de mercado: os fundos de pensões, que são verdadeiros adeptos da política de juros elevados. Afinal, esses fundos dependem, em grande parte, dos rendimentos gerados pelos títulos da dívida pública.

O PT segue, assim, a mesma política da social-democracia. Poderia o capital financeiro contar com melhor parceiro?

3. A questão Brasil: Lições de Caio Prado Júnior

O Brasil não rompeu, portanto, com sua condição de país periférico. Continua sendo um país dependente, embora sua dependência tenha passado por profundas transformações. Nesse sentido, é interessante entender as razões dessa dependência secular. Trinta e cinco anos depois da publicação do seu clássico Formação do Brasil Contemporâneo , num adendo escrito em A Revolução Brasileira , 1977, Caio Prado Júnior escrevia que o Brasil é um
[...] país que no contexto do mundo moderno [...] não representa mais do que um setor periférico e dependente do sistema econômico internacional sob cuja égide se instalou e originalmente organizou como colônia a serviço dos centros dominantes do sistema. E em função dessa situação se estruturou econômica e socialmente. É certo que deixamos de ser, em nossos dias, o engenho e a "casa grande e senzala" do passado, para nos tornamos a empresa, a usina, o palacete e o arranha-céu; mas também o cortiço, a favela, o mocambo, o pau-a-pique, mal disfarçados, aqui e acolá, por aquele moderno, em que minorias dominantes e seus auxiliares mais graduados se esforçam com maior ou menos sucesso por acompanhar aproximadamente, com o teor de suas atividades o trem da vida, a civilização de nossos dias [49] .
E prossegue com seu exame da perspectivação do Brasil. Afirma que, apesar das
[...] adaptações necessárias determinadas pelas contingências de nosso tempo, somos o mesmo passado. Se não quantitativamente, na qualidade. Na "substância", diria a metafísica de Aristóteles. Embora em mais complexa forma, o sistema colonial brasileiro se perpetuou e continua muito semelhante. Isto é, na base, uma economia fundada na produção de matérias-primas e gêneros alimentares demandados nos mercados internacionais [50] .
Se vivo fosse, hoje, Caio Prado certamente não mudaria muita coisa do que escreveu em 1977; pelo menos, qualitativamente. A economia brasileira é a maior exportadora mundial de oito commodities agrícolas, tais como açúcar, café, suco de laranja, soja, carne bovina, carne de frango, fumo e etanol. É o maior produtor mundial de minério de ferro e de castanha-do-pará. Hoje, quase 2/3 de suas exportações são do commodities (agrícolas, minerais e metálicos), oriundas de setores em recursos naturais. Os restantes 35% representam a participação de manufaturas; mesmo assim, com poucos itens de alta tecnologia, aptos a competirem em mercados internacionais mais dinâmicos. Com efeito, em 1989, 45,28% de sua pauta de exportação eram de commodities primárias. De alta tecnologia, o país exportava apenas 10,88%. Quase quinze anos depois, em 2006, a participação dos produtos agrícolas subiu para 48,40% e a participação de produtos de alta tecnologia permaneceu baixa: subiu de 10,88%, em 1989, para 12,15% [51] . Comparada com a China, cuja pauta de exportação é composta por 93% de produtos manufaturados, o Brasil está longe de ingressar no rol das economias exportadoras de mercadorias intensivas em tecnologia. Na Índia, o percentual de manufaturados responde por 80% por cento de suas exportações.

Tais condições explicam porque, hoje, a economia brasileira é marcada por profundas desigualdades sociais. Para se ter uma ideia das disparidades sociais, a parcela da riqueza produzida no país, que cabia à classe trabalhadora, cai de quase 60%, nos anos 1950 e 1960, para um pouco menos de 30%, em 2004. Noutras palavras, os ricos ficaram mais ricos e os pobres, mais pobres, a despeito da comemorada redução das desigualdades sociais realizada pelo governo Lula [52] .

De acordo com pesquisa realizada por Márcio Pochmann, hoje,
[...] somente 5 mil clãs apropriam-se de 45% de toda a riqueza e rendimento nacional, embora o país tenha mais de 51 milhões de famílias. Se considerar somente a parcela da população que se concentra nos 10% mais ricos, verifica-se que 75% de toda a riqueza contabilizada são por ela absorvida. Em outras palavras, restam para 90% da população brasileira somente 25% da riqueza e do rendimento nacional [53] .
Essa concentração do rendimento não é uma consequência das políticas neoliberais, que tomaram conta do país nos últimos 20 anos. Muito pelo contrário. Ainda de acordo com Pochmann,
[...] já no período da colônia portuguesa durante o século XVIII havia 10% da população responsável pela absorção de cerca de 2/3 da riqueza. Mesmo com o abandono da condição colonial, passando para a situação de Independência nacional e pelo regime imperial, o país continuou a registrar uma incrível estabilidade no padrão excludente de repartição do rendimento e riqueza [54] .
A ironia desse processo secular de concentração do rendimento reside no fato de que graças a essa apropriação extremamente desigual da riqueza, mais de 30% das ocupações no Brasil dependem do trabalho prestado às famílias ricas. Valendo-se mais uma vez de Pochmann, este constata que
[...] 20,5 milhões de famílias no Brasil possuem pelo menos um membro desenvolvendo atividades de prestação de serviços às famílias. Há o caso, por exemplo, de 4,3 milhões de famílias (7,3% do total) que possuem dois ou mais membros ocupados no trabalho para famílias. No ano de 1996, o universo de unidades familiares com a presença de um ou mais membros exercendo atividades de prestação de serviços às famílias era de 13,1 milhões, o que equivaleu a 30,6% do total. Em dez anos, a quantidade de famílias dependentes da prestação para famílias aumentou 56,5% [55] .
Um verdadeiro retrato do Brasil dos barões do café e do açúcar, que dependiam de uma enorme criadagem para servir a si e a sua família. Fenômeno que se reproduz no Brasil do século XXI. Atualmente, há famílias que contam com até 20 empregados, que vão desde o jardineiro, esteticista, passando pelo motorista, piloto de helicóptero, caseiros, personal trainers , guarda-costas, etc.

Até mesmo a tão decantada geração de empregos, de que tanto se gaba Lula, não é lá essas coisas. Mesmo a economia crescendo a uma taxa de 4 a 5% ao ano, como aconteceu em 2007 e 2008, mal consegue gerar um número suficiente de postos de trabalho, para empregar a mão de obra que chega ao mercado de trabalho pela primeira vez [56] . E com uma agravante. Como observa Pochamn em um artigo de jornal, além das elevadas taxas de desemprego, no Brasil, cerca de dois milhões de pessoas, crianças com menos de 14 anos, que deveriam estar na escola, estão trabalhando ou procurando trabalho. Não só este contingente deveria estar fora do mercado de trabalho, como também seis milhões de aposentados e pensionistas que continuam trabalhando. Para piorar a situação, mais de três milhões de pessoas têm mais de um emprego, o que reduz as oportunidades de trabalho para aqueles que chegam ao mercado de trabalho a procura do primeiro trabalho.

Esse retrato de extrema exclusão social não parece ser muito diferente daquele registrado e analisado nas páginas de Formação do Brasil Contemporâneo e de A Revolução Brasileira . Neste último livro, Caio Prado, acusado pela crítica de não ter olhado para o mercado interno, enxergou muito bem que o padrão de acumulação que se instaurou no país foi o de um crescimento econômico sem desenvolvimento. Com razão, afirma que as
[...] atividades econômicas expressivas [...] permanecerão restritas a reduzidos setores que constituem o pequeno núcleo significativo da economia brasileira [...]. O surto relativamente vigoroso observado nos pós-guerra, gerador de tantas ilusões "desenvolvimentistas", e que se alimentou, sobretudo, da industrialização na base da produção substitutiva de artigos antes importados, alcançou seu limite muito cedo [...] [57] .
E não poderia ser diferente, como diz em seguida, pois
[...] o progresso conseguido, na perspectiva do mundo moderno e dos padrões de uma economia realmente desenvolvida, é mínimo. Tanto mais que o sentido que assume esse progresso, é o mais precário e insatisfatório. O que efetivamente se encontra na sua base e essência é uma produção orientada para o atendimento de um consumo que, nas condições do Brasil, se pode dizer suntuário e conspícuo, de reduzidas parcelas da população [58] .
Caio Prado tem razões de sobra, quando destaca as disparidades desse modelo de acumulação sem desenvolvimento. "Para não falar em coisa muito pior", diz ele,
[...] considere-se, por exemplo, o caso da maior, mais opulenta e industrializada cidade brasileira, São Paulo, onde alguns reduzidos setores ostentam seus modernos arranha-céus de arrojadas linhas arquitetônicas, e seus luxuosos bairros residenciais, em tão violento contraste com o restante da cidade, e, sobretudo, seus bairros periféricos onde se concentra a massa da população, e que nem mesmo se podem dizer propriamente urbanizados, com suas rudimentares construções servidas com água de poço em comunicação com as fossas que fazem às vezes de esgoto, e plantadas ao longo de pseudo-ruas, ou antes, "passagens" desniveladas onde ao sabor do tempo uma poeira sufocante alterna com lodaçais intransponíveis. É isso a maior parte de São Paulo, e não como estágio inicial e momentâneo com perspectivas de modificações em prazos previsíveis, e sim como situação que considera mais ou menos definitiva. Que dizer então do Rio de Janeiro com suas favelas, Recife e seus mocambos, Salvador, com seus aglomerados de casebres dispersos por morros e brejos, e outras capitais de quase todo Brasil com suas multidões andrajosas e depauperadas que rondam luxuosos palacetes e clubes de piscinas ultramodernas de água filtrada [...]. [59]
Cabe ainda observar o que dizia Caio Prado, em 1977. A lição que ele deixou permanece tão atual que parece estar a escrever nos dias de hoje. Com efeito, como negar, como assim escrevia naquele ano, que
[...] nos encontramos em fase de nossa história na qual se fazem profundamente e cada vez mais sentir as contradições entre uma nação e nacionalidade que procura se libertar de seu passado, e esse passado que lhe pesa ainda consideravelmente nos ombros. Por mais que um atroador neo-ufanismo, misto de publicidades comerciais e de ingenuidade desprevenida e mal-informada a respeito da realidade desse mundo em que vivemos, procure impingir ideias de que somos um país em desenvolvimento e prestes a alcançar os altos níveis de progresso e civilização contemporâneas, o fato é que infelizmente estamos bem longe disso [...]. Temos uma fachada, não há dúvida, que apresenta certo brilhantismo. Mas é uma tênue fachada apenas, que disfarça muito mal, para quem procura verdadeiramente enxergar e não tenta iludir-se, o que vai por detrás dela neste imenso país de desnutridos, doentes e analfabetos onde se dispersam ilhados alguns medíocres arremedos da civilização do nosso tempo [60] .
Para ir além dessa fachada, o Brasil precisa, dizia Caio Prado, em seguida, [...] de uma sólida base sobre que assentar a nossa nacionalidade, e que vem a ser uma população liberta da miséria física e cultural, e capacitada, no seu conjunto, para usufruir alguma coisa do conforto, bem-estar e elevação do espírito que a ciência moderna proporciona [61] .
Notas

1 Em 1869, August Bebel (1840-1913) e Wilhelm Liebknecht fundam o Partido Operário Social-Democrata alemão (SDAP). Vinte anos depois, 1890, o partido suprime o nome "operário" e passa a ser designado apenas como Partido Social-Democrata Alemão (SPD), nome que se conserva até hoje. O programa aprovado no Congresso de Eisenach, proposto por Bebel, defendia a abolição da dominação de classe; era um programa eminentemente revolucionário e anticapitalista. No Congresso de Gotha, 1875, os lassalleanos elegem a maioria dos delegados: 75 seguidores de Lassalle contra 56 participantes marxistas. As duas correntes se unem e adotam, então, um programa reformista centrado nas reivindicações imediatas: sufrágio universal, voto secreto, liberdades democráticas e melhoria das condições de vida dos trabalhares pela via parlamentar. Como se pode notar, o programa não faz menção à revolução nem ao caráter de classe do Estado. Daí a crítica impiedosa de Marx contra o programa aprovado. Cf. Crítica ao Programa de Gotha. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas . São Paulo: Alfa-Ômega, Tomo 2. Mesmo assim o partido não só experimentou um crescimento exponencial, como também foi um importante instrumento eleitoral de conscientização política das massas. Com efeito, "[...] nas eleições gerais de 1877, a social-democracia obteve quinhentos mil votos, e com seus 12 deputados eleitos para o Reichstag, tornou o quarto partido político do Reich. Contra o perigo representado pela social-democracia, Bismarck fez promulgar a lei de exceção (21 de outubro de 1878), que proibia o funcionamento das associações e a publicação dos jornais socialistas. Apenas um exemplo: na Prússia, de outubro 1879 a novembro de 1880, mais de 11 mil pessoas foram presas por motivos políticos. Foi a fase heróica da social-democracia alemã que, apesar da repressão e das medidas de política social com o objetivo de afastar os operários do socialismo, sobreviveu e cresceu camuflada em associações eleitorais e culturais diversas. De 1887 a 1890, a social-democracia duplicou seus votos levando 35 deputados ao Reichstag. Quando Bismarck quis prorrogar a lei de exceção e fortalecê-la, o Reichstag recusou, e o partido voltou à legalidade, com 1,5 milhões de eleitores (18% do total)". LOUREIRO, Isabel Maria. 0p. cit., p. 34.

2 Antes de assumir a presidência da republica, o príncipe Max de Bade, temendo pela sorte do imperador e de toda a nobreza, faz um acordo com Ebert e lhe transfere o cargo de chanceler. Era novembro de 1918. No dia 9 daquele mês, "[...] a onda revolucionária atinge Berlin, capital do Império. Por vota do meio-dia, manifestações gigantescas coroadas de milhares de bandeiras vermelhas enchem as ruas da capital. Muitos estão armados com pistolas, fuzis e granadas. Os soldados nas casernas aderem ao movimento e o príncipe Max de Bade, ao ver que a situação foge ao controle, anuncia, mesmo sem ser autorizado, a abdicação do imperador, transferindo o cargo de chanceler a Ebert e propondo a convocação de uma Assembléia Nacional com poderes constituintes. Pela primeira vez, um 'homem do povo' estava no comando do Reich". LOUREIRO, Isabel Maria. A Revolução Alemã, 1918-1923. – São Paulo: Editora UNESP, 2005, p. 55-56 (Revoluções do século XX).

3 Montagny, Claude. A Fundação Friedrich Ebert: agente eficaz da social-democracia alemã. In: A Social-Democracia na atualidade . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 95.

4 LÉNINE, V.I. A doença infantil do esquerdismo no comunismo. In: Obras Escolhidas . Lisboa: Edições Avante, Tomo 3, 1979, p. 291.

5 A esse respeito ver TEIXEIRA, Francisco José Soares. Pensando com Marx : uma leitura crítico-comentada de O Capital. São Paulo: Ensaio: 1996, notadamente o capítulo 7.

6 A respeito da tática recuo-avanço, ver LÊNIN, A doença infantil do esquerdismo no comunismo ; op. cit.

7 Idem, Ibidem, p. 138.

8 O artigo 48 da Constituição de Weimar foi uma iniciativa de Max Weber que havia participado do anteprojeto constitucional com o jurista liberal Hugo Preuss. Esse artigo "[...] dava ao presidente do Reich (diretamente eleito pelo povo para um mandato de sete anos e podendo se reeleito) poderes excepcionais, 'caso a segurança e a ordem públicas sejam gravemente afetadas ou ameaçadas no Reich alemão', o que significava poder decretar o estado de sítio, suspender os direitos fundamentais, instituir tribunais de exceção, dissolver o Reichstag, autorizar o chanceler a governar por decretos-lei. Em suma, o presidente tinha poderes ditatoriais que foram utilizados mais tarde, de 1930 a 1933. Foi utilizando o artigo 48 que o marechal Hindenburg, então presidente da República, nomeou Hitler para o cargo de chanceler em janeiro de 1933, Segundo o historiador Pierre Broué, todas as disposições democráticas da Constituição não passavam de cláusulas secundárias em face o artigo 48, que dava ao Estado instrumentos para aniquilar toda tentativa revolucionária ou mesmo toda evolução democrática inquietante no interior constitucional'" (Loureiro, p. 112-113).

9 Ver Loureiro, p. 152-153.

10 Idem, Ibidem, p. 164.

11 Do lado dos comunistas, a Republica Democrática Alemão considera que "[...] a Liga Spartakus figurava como a força principal. Essa historiografia analisava a revolução de 1918-1919 em função do presente: seu objetivo era tirar 'lições' visando a orientar a luta contra o imperialismo naquele momento. Por isso a direção do Partido Socialista Unificado (SED, nome do KPD na época da RDA) já nos anos 1950 elegeu a revolução de novembro como modelo, para que os historiadores da RDA demonstrassem o papel dirigente do partido naqueles acontecimentos".
"[...] Em 1958, o comitê do SED elaborou 'teses' sobre a revolução de novembro. Enquanto anteriormente
alguns historiadores comunistas interpretavam essa revolução como uma revolução proletária derrotada, nas 'teses' de 1958 ela foi assim definida: 'de acordo com seu caráter a revolução de novembro é uma revolução democrático-burguesa, que em certa medida foi conduzida como meios e métodos proletários'. Se não houve na Alemanha uma 'revolução proletária', embora existissem as condições objetivas para isso, a responsabilidade recai sobre a falta de maturidade do 'fator subjetivo': as massas não estavam satisfatoriamente organizadas para a luta pela tomada do poder. Em outras palavras, o que (ainda) faltava naquela época na Alemanha era um 'partido marxista-leninista combatente'" (Loureiro, Isabel Maria, op. cit., p. 172).

12 Idem, Ibidem., p. 171.

13 MONTAGNY, Cloude. Op. cit., p. 99.

14 Idem, Ibidem, p. 109-110.

15 Idem, Ibidem, p. 100.

16 A DGB responde por quase 99% dos sindicatos. É considerada praticamente como um sindicato único na Alemanha (Ver Cornillet, Gérard & Montagny, Claude. República Federal da Alemanha: o "modelo". In: A social-democracia na atualidade . Op. cit.

17 Idem, Ibidem, p. 71.

18 Idem, Ibidem, p. 73.

19 BERNAS, Colette. Grã-Bretanha, O Socialismo de Sua Majestade. In: A social-democracia na atualidade . Op. cit., p. 50-51.

20 Idem, Ibidem., p. 53-54.

21 Idem, Ibidem., p. 47.

22 Cornillet, Gérard & Montagny, Claude. Op. cit. p. 74.

23 Apuntos teóricos para entender La crisis, Seminário Taifa, junio de 2009, disponível na Internet.

24 Cornillet e Montagny. Op. cit., p. 77.

25 Idem, Ibidem, p. 75.

26 Idem, Ibidem, p. 75.

27 POULAIN, Jean Claude. Pontos de Referência Sobre a Atualidade. In: Atualidades da social-democracia . Op. cit., p. 27. (Os grifos são de nossa responsabilidade).

28 MONTAGNY, Claude, Op., cit., p. 104.

29 MANDEL, Ernest. Situação e futuro do socialismo. In: O Socialismo do Futuro : revista de debate político, Lisboa, Publicações Dom Quixote Ltda. Vol. I, n. 1, 1990, p. 84/86.

30 Fiori, José Luis. Entre Berlim e o Vaticano . – Carta Maior, 16 de junho de 2009.

31 Pelo menos é o que diz, ainda que de forma não muito precisa, a Tese de Santo André-Lins, em janeiro de 1979, no IX Congresso dos Trabalhadores Metalúrgicos e de Material Elétrico do Estado de São Paulo, berço do qual surgiria, em 1980, o Partido dos Trabalhadores. Literalmente: "[...] Enquanto vivermos sob o capitalismo, este sistema terá como fim último o lucro, e para atingi-lo utiliza todos os meios: da exploração desumana de homens, mulheres e crianças até a implantação de ditaduras sangrentas para manter a exploração. Enquanto estiver sob qualquer tipo de governo de patrões, a luta por melhores salários, por condições dignas de vida e de trabalho, justas a quem constrói todas as riquezas que existe neste País, estará colocada na ordem do dia a luta política e a necessidade da conquista do poder político" A TESE DE SANTO ANDRÉ-LINS, 1979. In: Fundação Perseu Abramo. WWW.fabramo.org.br.

32 Faziam parte da Comissão Nacional Provisória, de 1979, os seguintes nomes: Jacó Bitar (Presidente do Sindicato dos Petroleiros de Campinas), Arnóbio Silva (Presidente do Sindicato dos Bananeiros da Região do Vale do Ribeira), Edson Khair (Deputado Federal pelo MDB), Henos Amorina (Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco), José Ibrahim (ex-Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco), Luiz Inácio Lula da Silva (Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo), Manoel da Conceição (Ex-Presidente dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais Pindaré-Mirim), Olívio Dutra (Presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre), Paulo Skromov (Presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Couro e Luva de São Paulo), Wagner Benevides (Presidente do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais), Ignácio Hernandez (Metalúrgico – oposição sindical – de Belo Horizonte) Luiz Soares Dulci (Presidente da União dos Trabalhadores de Ensino de Minas Gerais), Francisco Auto Filho (Jornalista de Fortaleza), Firmo Trindade (Economiário em Porto Alegre), Carlos Borges (Gráfico em Porto Alegre), Godolfredo Pinto (Diretor do Centro Estadual dos Professores do Rio de Janeiro) e Sidney Lianza (Rio de Janeiro). www.fpabramo.org.br.

33 SILVA, Antônio Ozaí da. Ruptura e tradição na organização política dos trabalhadores (Uma análise das origens e evolução da Tendência Articulação – PT. Revista Espaço Acadêmico , ano II, n. 22, março de 2003. Revista Eletrônica: www.espacoacademico.com.br, p. 19, nota [1. "[...] Um dado que permite mensurar o peso real desse setor (sindical) é a composição da direção nacional: a primeira Comissão Nacional Provisória, de 1979, era composta por doze dirigentes sindicais, num total de 16 membros. Entre 1979 e 1981, esse setor sempre foi majoritário na composição da direção. Essa não é uma questão que se resuma aos números. Ainda que tenha diminuído a participação de lideranças de origem sindical na composição da direção petista, sua influência se manteve, por muito tempo, inabalável".

34 Discurso de Lula durante a 1ª Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, 1981, op. cit.

35 As passagens sublinhas são de minha responsabilidade.

36 O Socialismo Petista, VII Encontro Nacional do PT , Anhembi, SP, 31/5 a 03/6/90. In: WWW.fpabramo.org.br.

37 Idem, Ibidem.

38 Idem, Ibidem. (As passagens sublinhadas são por minha conta).

39 O Socialismo Petista , op., cit.

40 Os blanquistas se diziam comunistas porque acreditavam que poderiam chegar ao socialismo num passo de mágica: sem se deterem em estações intermediárias que, para eles, apenas afastam o dia da vitória e faz prolongar o período de servidão. É então que brada Engels num tom de sarcasmo: "Que pueril ingenuidade a de apresentar a própria impaciência como argumento teórico!". F. Engels apud LÊNIN, V.I. A doença infantil do esquerdismo no comunismo, op. cit., p. 312.

41 Idem, Ibidem, p. 291.

42 Idem, Ibidem, p. 298.

43 "Ciosl (Confederação Interamericana das Organizações dos Sindicatos Livres). Já em 1949 financiada pelo USA como dissidência pelo USA como dissidência da Federação Sindical Mundial (FSM). A Cosl é junção da AFL (American Federation os Labor Unions), TUC (Trades Union Congress) e CIO (Congress of Industrial Organizations). Seu braço (secretariado) para a América Latina é a ORIT (Organização Regional Interamericana de Trabalhadores) fundada em 1951, ligada ao Iadesil (Instituto Americano de Desenvolvimento dos Sindicatos Livres), que administra cursos contra-revolucionários de 'liderença sindical'. A CUT, a Força Sindical, a CGT (Confederação Geral dos Trabalhadores) etc, são filiadas à CIOSL" [Silveira, Gustavo. 8º Congresso Nacional da CUT: o fim de um ciclo de traição do sindicalismo amarelo . Acessado da Internet em 4/01/11].

44 Idem, Ibidem.

45 POULAIN, Jean-Claude, op. cit., p. 17-18.

46 Para uma análise mais aprofundada do governo Lula, ver PAULO NETTO, José. Uma face contemporânea da barbárie. In: III Encontro Internacional "Civilização ou Barbárie" . Serpa, 30-31 de outubro/1º de novembro de 2010 (mimeo).

47 PAULANI, Leda Maria; PATO, Christy Ganzert. Investimentos e servidão financeira: o Brasil do último quarto de século. In: Adeus ao desenvolvimento – a opção do governo Lula . Belo Horizonte: Autêntica, 2005., p. 40.

48 Os dados são do economista Reinaldo Gonçalves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, retirados da internet: www.Fenafisco.org.br; acesso em 30.08.09.

49 PRADO JÚNIOR, Caio. A Revolução Brasileira . 7. ed. São Paulo: Brasiliense, p. 239-240.

50 Idem, Ibidem, p. 240.

51 Ver DIAS, Rodnei Fagundes; PINHEIRO, Bruno Rodrigues. Análise da pauta de exportações brasileiras com base nos critérios da UNCTAD para os anos de 1989-1996-2006 : como tem sido a inserção brasileira no comércio internacional. – Curso de mestrado da Universidade Federal da Bahia (artigo). In: www.nec.ufba.br, 19/8/2009.

52 A redução na desigualdade do rendimento, de acordo com um estudo realizado pela FGV, refere-se à distribuição do rendimento dentro do universo dos que vivem do trabalho. Noutros termos, refere-se à desigualdade de remuneração entre o maior e o menor rendimento auferido pelos trabalhadores. Bem diferente é a participação dos rendimentos (dos salários) no total do rendimento nacional ou do produto interno bruto (PIB). Visto desta perspectiva, os pobres ficaram mais pobres. Com efeito, em 1964, os salários representavam 62,3% de todo o rendimento gerada na economia. A partir de 1990, os trabalhadores passaram a se apropriar de uma fatia cada vez menor de toda riqueza gerada: 45,4%, em 1990; 37,2%, em 2000; 36,1%, em 2001; 31,5%, em 2003 e 29,4%, em 2004.

53 POCHMANN, Marcio. Qual desenvolvimento? : oportunidades e dificuldades do Brasil contemporâneo. São Paulo: Publisher Brasil, 2009., p.114.

54 Idem, Ibidem, p. 114.

55 Idem, Ibidem, p. 149.

56 Cláudio Dedecca, do Instituto de Economia da UNICAMP, em entrevista a Álvaro Kassab, publicada no jornal da UNICAMP – 23 de junho de 2008, afirma que "[...] a geração de empregos formais tem sido expressiva, mas é preciso ter ciência que é insuficiente para alterar esse quadro estrutural socioeconômico. É verdade que o país gerou mais empregos, mas temos que analisar outros componentes". Indagado sobre quais componentes, o economista declara que "o país tem criado anualmente entre 1,6 e 1,8 milhão postos de trabalho formal, e tudo indica que o país vai gerar, este ano, dois milhões. Ocorre que a nossa população economicamente ativa ainda cresce dois milhões de pessoas por ano. A geração de empregos formais mal dá conta do crescimento da PEA. Portanto, o aumento do emprego é insuficiente para provocar uma queda significativa do desemprego. Em segundo lugar, continua praticamente intocado o estado de precariedade que predomina no mercado nacional de trabalho. Não adianta aplaudir este crescimento, ignorando os seus limites para modificar positivamente a precariedade da nossa estrutura econômica".

57 PRADO JÚNIOR, Caio. A Revolução Brasileira , op. cit., p. 160.

58 Idem, Ibidem, p. 160.

59 Idem, Ibidem, p. 161.

60 Idem, Ibidem, p. 228.

61 Idem, Ibidem, p. 229.


[NR] E na Europa também.   O Partido Socialista de Portugal foi constituído no dia 19 de Abril de 1973, na cidade alemã de Bad Münstereifel, sob os auspícios da Fundação Friedrich Ebert.   Um dos seus fundadores, Rui Mateus , escreveu Contos Proibidos - Memórias de um PS desconhecido, que revela muito dos métodos da social-democracia europeia e rapidamente desapareceu da circulação.   Para descarregar o livro clique contos_proibidos_rui_mateus.pdf com o botão direito do rato e faça Save As... (49 MB).

[*] Professor da Universidade Regional do Cariri (URCA), acopyara@uol.com.br .

O original encontra-se na revista Novos Temas , nº 3, pgs. 75-102 (foram efectuadas pequenas alterações terminológicas)

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