Acompanhe aqui o vídeo na íntegra de uma interessante palestra realizada pelo professor Sergio Lessa em 2009. O professor Sérgio Lessa discute o capitalismo atual com base na distinção entre excedente e escassez. Lessa traça a história da humanidade como uma evolução de sistemas econômicos baseados na escassez para um modo de produção no qual o sistema de preços não mais consegue alocar de forma eficiente recursos que não mais são escassos. A eficiência do sistema de mercado e da alocação via preços serviu como forma eficiente somente enquanto recursos produtivos tinham restrições de oferta em face da demanda. O mercado, porém, deixou de ser eficiente como alocador de recursos justamente porque estes recursos econômicos deixaram de ser escassos. Cabe agora repensar o nosso sistema econômico baseado na produção de excedente. O professor também traça um panorama do capitalismo nos últimos 100 anos e explica como social-democracia e sobre-produção se entrelaçavam para garantir a continuidade do sistema. As diversas crises são tematizadas e analisadas através de uma abordagem crítica.
Reparem:
Qual é o limite para as pescas anuais – os barcos de pesca (capital) ou
o que resta de peixe no mar (recursos naturais)? Nitidamente este
último. Qual é o limite para o número de barris de petróleo extraídos –
as plataformas e plataforms de perfuração (capital) ou o que resta dos
depósitos de petróleo acessível – ou a capacidade de a atmosfera
absorver o CO2 do petróleo queimado (ambos recursos naturais)? Qual é o
limite para a produção de madeira – o número de moto-serras e de
serrações, ou as florestas e o seu ritmo de crescimento? Qual é o limite
para a agricultura por irrigação – as bombas e os aspersores ou o ritmo
de reposição aquífera e os caudais dos rios? Isto deve chegar para pelo
menos sugerir que vivemos num mundo refreado pelos recursos naturais e
não num mundo refreado pelo capital.
A lógica económica recomenda que se invista e se economize o factor
limitativo. A lógica económica não mudou; o que mudou foi o factor
limitativo. Actualmente aquilo que temos que economizar e aquilo em que
temos que investir é nos recursos naturais, e não no capital. Os
economistas ainda não reconheceram esta mudança fundamental no padrão da
escassez. Frederick Soddy, prémio Nobel da química e economista por
vocação, previu esta mudança há oitenta anos. Argumentou que, em última
análise, a humanidade vive da luz solar, captada através das plantas, do
solo e da água. Esta base permanente fundamental para a vida é
temporariamente complementada com a libertação da luz solar capturada
durante os Verões do Paleozóico que está a ser rapidamente delapidada
para alimentar aquilo a que ele chamava "a época do desperdício".
Estamos tão viciados neste subsídio a curto prazo que os nossos
tecnocratas defendem que se reduza parte da energia solar que recebemos
para dar mais espaço térmico para a queima dos combustíveis fósseis!
Estes doutores cretinos também andam atarefados a degradar quimicamente o
solo superficial e a poluir a água, enquanto brincam com a base
genética das plantas, tudo isto com o objectivo de maximizar o
crescimento a curto prazo. Como diz Wes Jackson, as plantas agrícolas
agora têm genes escolhidos pelo Conselho do Comércio de Chicago, e não
por se adequarem ao ecossistema e à geografia dos organismos que as
rodeiam.
O que é que impede os economistas de aceitarem a visão de Soddy? A
sua animosidade contra a dependência da natureza, e a sua devoção ao
domínio. Esta atitude básica tem sido auxiliada pelo compromisso teórico
ao factor da substituição e pela rejeição da complementaridade pelos
economistas clássicos actuais. Sem complementaridade não pode haver
factor limitativo – se o capital e os recursos naturais são substitutos
na produção, então nenhum deles pode ser limitativo – se um deles
começar a faltar, basta substitui-lo pelo outro e continuar a produzir.
Se são complementares, ambos são necessários e o que for mais escasso é
limitativo.
Antigamente os economistas acreditavam que o capital era o factor
limitativo. Portanto, implicitamente, deviam ter acreditado na
complementaridade entre o capital e os recursos naturais nessa economia
de um mundo pobre. Mas, quando os recursos começaram a ser limitativos
na economia do novo mundo rico, em vez de reconhecerem a mudança no
padrão da escassez e o novo factor limitativo, abandonaram toda e
qualquer ideia de factor limitativo, realçando a capacidade de
substituição e excluindo a complementaridade. A nova razão para destacar
o capital sobre os recursos naturais é a afirmação de que o capital é
um substituto quase perfeito para os recursos.
William Nordhaus e James Tobin foram muito explícitos ("Is Growth
Obsolete?," 1972, NBER, Economic Growth, New York: Columbia University
Press):
O modelo de crescimento standard predominante parte do princípio que
não há limites quanto à viabilidade de ampliar os abastecimentos dos
agentes de produção não humanos. É basicamente um modelo de dois
factores em que a produção depende apenas da mão-de-obra e do capital
reprodutível. A terra e os recursos, o terceiro membro da tríade
clássica, foram postos de lado… a justificação tácita tem sido que o
capital reprodutível é um substituto quase perfeito para a terra e para
outros recursos não renováveis.
A afirmação de que o capital é um substituto quase perfeito para os
recursos naturais é um absurdo. Para já, a substituição é reversível. Se
o capital é um substituto quase perfeito para os recursos, então os
recursos são um substituto quase perfeito para o capital – então, porque
é que se dão ao trabalho de acumular capital se a natureza já nos dotou
com um substituto quase perfeito?
Não é por acaso que o nosso sistema se chama "capitalismo" em vez de
"recursismo natural". É ideologicamente inconveniente para o capitalismo
que o capital tenha deixado de ser o factor limitativo. Mas essa
inconveniência tem sido contornada afirmando-se que o capital é um bom
substituto para os recursos naturais. Sempre fiel à sua animosidade
básica na negação de qualquer dependência fundamental da natureza, a
economia neoclássica só encontrou duas alternativas – ou a natureza não é
escassa e o capital é limitativo, ou a escassez da natureza não
interessa porque o capital feito pelo homem é um substituto quase
perfeito para os recursos naturais. Em qualquer dos casos é o homem que
controla a natureza, graças ao capital, e isso é que é importante. O
facto de o capital feito pelo homem ser ele próprio feito a partir de
recursos naturais, não tem qualquer importância.
O absurdo da afirmação de que o capital e os recursos naturais são
bons substitutos foi ainda mais profundamente demonstrado por Georgescu-Roegen na
sua teoria da produção fundos-fluxos. Reconhece que os factores de
produção são de dois tipos qualitativamente diferentes: (1) fluxos de
recursos que são transformados fisicamente em fluxos de produtos e de
desperdícios; e (2) fundos de capital e de mão-de-obra, agentes ou
instrumentos de transformação que não são incorporados fisicamente no
produto. Se encontrarmos um parafuso duma máquina ou um bocado de um
dedo de um trabalhador numa lata de sopa, temos razão para uma
reclamação, e não a confirmação da noção metafísica de que o capital e a
mão-de-obra se encontram "incorporados" no produto!
Há graus variáveis de substituição entre diferentes fluxos de
recursos naturais e entre os fundos da mão-de-obra e do capital. Mas a
relação básica entre fluxo de recursos, por um lado, e fundos de capital
(ou mão-de-obra), por outro, é a complementaridade. A causa eficiente
(capital) não substitui a causa material (recursos). Não podemos fazer o
mesmo bolo com metade dos ingredientes, mesmo que se duplique ou
triplique o número de cozinheiras e de fornos. Os fundos e os fluxos são
complementares.
Mais ainda, o capital é a produção actual excedentária trocada por
uma garantia contra a produção futura – fisicamente é feito a partir de
recursos naturais. Não é fácil substituir recursos naturais quando o
presumível substituto é ele próprio feito a partir dos recursos
naturais.
Reconhece-se hoje de forma geral, até mesmo os economistas, que há
demasiado endividamento a nível mundial, tanto público como privado. A
razão para tão grande endividamento é que temos tido expectativas
absurdamente irrealistas quanto à eficácia do capital em produzir o
crescimento real necessário para resgatar a dívida, que é "capital" com
outro nome. Por outras palavras, a dívida que se vai amontoando nas
tentativas falhadas de fazer crescer a riqueza tão depressa quanto a
dívida é prova da realidade dos limites ao crescimento. Mas, em vez de
ser vista como tal, é considerada como a principal razão para tentar
atingir um crescimento ainda maior, contraindo mais dívidas, e passando
as dívidas incobráveis da contabilidade dos bancos privados para a do
erário público, ou seja, monetarizando-as.
A ilusão que levou a essas infundadas expectativas de crescimento foi
a crença de que, através do crescimento, podíamos acabar com a pobreza
sem a necessidade de partilhar. À medida que os pobres ficassem mais
ricos, os ricos ficariam ainda mais ricos" Pouca gente esperava que o
crescimento agregado, por si mesmo, se tornasse anti-económico,
começasse a custar-nos mais do que o seu valor marginal, tornando-nos
colectivamente mais pobres e não mais ricos. Mas foi o que aconteceu.
Apesar disso, os nossos economistas, os nossos banqueiros e os nossos
políticos ainda têm expectativas irrealistas quanto ao crescimento. Tal
como o jogador perdedor tentam apostar o dobro ou nada num crescimento
maior.
Não podíamos fazer uma folga da roleta do crescimento para reavaliar a
economia em estado estacionário? Afinal, a ideia está profundamente
enraizada na economia clássica, assim como na física e na biologia. O
movimento perpétuo e o crescimento infinito não são premissas razoáveis
sobre as quais se possa basear uma política económica.
Até certo ponto há muita gente que certamente sabe isso. Então porque
é que mantemos o crescimento como a primeira prioridade nacional?
Primeiro, somos enganados porque a nossa medida de crescimento, o PIB,
conta toda a "actividade económica", misturando assim os custos e os
benefícios, em vez de comparar os seus valores marginais. Segundo, o
benefício líquido acumulado do crescimento passado atinge o máximo
exactamente no ponto em que o crescimento futuro se torna anti-económico
(quando o benefício marginal decrescente se torna igual ao custo
marginal crescente) e a experiência passada deixa de ser um bom guia
para o futuro neste aspecto. Terceiro, porque, mesmo que os benefícios
do crescimento futuro sejam neste momento menores do que os custos, as
nossas elites que tomam decisões descobriram como manter os benefícios
extras que estão a diminuir, "partilhando" os custos extras em explosão
com os pobres, com o futuro e com outras espécies. Os meios de
comunicação, propriedade das elites, os grupos de pensamento financiados
pelas grandes empresas, os economistas enfeudados da academia, e o
Banco Mundial – para não falar da Gold Sacks e de Wall Street – todos
entoam hinos ao crescimento em perfeita sintonia e iludem os cidadãos
ordinários.
O que é que vai acontecer?
Fonte: Resistir