quarta-feira, 4 de julho de 2012

Sergio Lessa: Excedente, Sobre-Acumulação e Crises



Acompanhe aqui o vídeo na íntegra de uma interessante palestra realizada pelo professor Sergio Lessa em 2009. O professor Sérgio Lessa discute o capitalismo atual com base na distinção entre excedente e escassez. Lessa traça a história da humanidade como uma evolução de sistemas econômicos baseados na escassez para um modo de produção no qual o sistema de preços não mais consegue alocar de forma eficiente recursos que não mais são escassos. A eficiência do sistema de mercado e da alocação via preços serviu como forma eficiente somente enquanto recursos produtivos tinham restrições de oferta em face da demanda. O mercado, porém, deixou de ser eficiente como alocador de recursos justamente porque estes recursos econômicos deixaram de ser escassos. Cabe agora repensar o nosso sistema econômico baseado na produção de excedente. O professor também traça um panorama do capitalismo nos últimos 100 anos e explica como social-democracia e sobre-produção se entrelaçavam para garantir a continuidade do sistema. As diversas crises são tematizadas e analisadas através de uma abordagem crítica.

terça-feira, 3 de julho de 2012

"Lula não tem caráter" Professor emérito da USP falou de política e eleições no centro do Roda Viva



O Roda Viva do dia 2 de julho recebeu o sociólogo Chico de Oliveira, professor emérito da Universidade de São Paulo. Na pauta, estiveram temas da política, as eleições municipais deste ano e a proximidade do início do julgamento do Mensalão no Supremo Tribunal Federal.

Um dos fundadores do PT, Chico de Oliveira abandonou o partido em 2003. Fez parte do grupo de dissidentes que ajudou a criar o PSOL, com o qual também viria a romper. Autor de diversos livros, foi premiado com um Jabuti em 2004, pela obra Crítica a Razão Dualista - O Ornitorrinco. Para o professor, "O ornitorrinco é um fracasso de Darwin" e por isso pode ser comparado ao Brasil, que alcançou a modernidade, porém ainda vive em atraso – “uma necessidade de como o país foi formado”.
No período de ditadura militar, Chico foi torturado em São Paulo e preso em Pernambuco. O esquerdista defende que os que cometeram crimes devem ser julgados e afirma que sabe quem foram os seus torturadores. Durante o programa, Chico citou o nome de dois delegados. Assista a entrevista na íntegra e veja a declaração.

O sociólogo diz que o Estado tem que ir atrás dessas pessoas e que se a Comissão da Verdade quiser o seu depoimento ele está disposto a falar. “A minha tortura não vale um tostão, só vale se foi sofrida em nome da liberdade”, declarou ainda.

Chico que participou efetivamente de partidos políticos, hoje afirma que não tem interesse em fazer parte do meio governante. “Eu não sirvo a nenhum governo. Não quero nada com o Poder, estou sempre contra ele”.
Além de criticar o governo, Chico fez declarações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Lula é muito mais esperto do que vocês pensam. O Lula não tem caráter, ele é um oportunista”. O sociólogo defende que Lula não liderou greves dos metalúrgicos. “Se ele quiser, que me processe. O Lula é uma vocação de caudilho, a ante-sala do ditador”.

Para o professor, a diminuição da pobreza é a parte fundamental de um governo de esquerda, mas não foi o Lula que fez. “Essa condição de benefícios sociais vem desde José Sarney”.

Sobre Fernando Henrique Cardoso, Chico disse o presidente se esqueceu do que o sociólogo sabia. “FHC foi de esquerda e foi até do Partido Comunista. Ele resolveu mudar porque decifrou que no Brasil ninguém chega ao poder sendo totalmente de esquerda”.

Já sobre Dilma, ele questionou se ela tem feito mesmo um governo de esquerda e disse ainda que a presidenta não consegue governar porque “Lula não deixa”.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A greve e a democracia virtual

No contexto da greve nacional dos professores tem se manifestado um debate no mínimo curioso. Um certo sindicalismo que é a reapresentação grotesca do velho sindicato ministerialista da época de Getúlio Vargas, tem apresentado o argumento que a greve não é um instrumento legítimo de luta e que as assembleias que estão na base de sua deflagração não são “representativas”, colocando como alternativa a consulta eletrônica e os plebiscitos.
Tal argumento ignora, oportunamente, o fato de que esta greve tem uma dinâmica própria e, em vários aspectos, distinta das outras experiências grevistas vivenciadas pelos professores federais e que foram responsáveis por inúmeras conquistas e importantes resistências. Já começou bastante forte em 33 universidades e rapidamente ganhou a adesão de mais de cinquenta universidades e instituições de ensino.
Sua principal razão de ser pode ser encontrada nas trapalhadas do governo na condução das discussões entorno da carreira docente, mas fundamentalmente nas condições de trabalho que resultaram da proposta de expansão materializada no REUNI. Nossa última grande greve foi em 2001 e ninguém pode acusar, portanto, o ANDES-SN de não estar dispostos ao diálogo, como demonstra a boa vontade de nossa entidade durante todo o ano de 2011 na verdadeira comédia de erros que o Ministério do Planejamento protagonizou.
Diante do fato inquestionável da greve e de seus motivos, vendo as universidades aderirem ao movimento mesmo naquelas unidades onde esse sindicalismo neo-conservador tentou por todos os meios impedi-lo, esses senhores lançam mão de um argumento que busca deslegitimar o movimento, ou seja, ele seria resultado da ação de uma minoria (no caso da UFRJ, um dos dirigentes do sindicalismo ministerialista não hesita em classificar os dirigentes e grevistas como uma “militância paga”) que em assembleias pouco representativas imporiam a greve à uma maioria que seria contra.
Pierre Bourdieu afirmou certa vez que o que há de específico no campo da política é a disputa pelo silêncio dos “profanos”, desta forma esses senhores se consideram os porta-vozes daqueles que em silêncio e ausência estão contra a greve, mas não dizem, enquanto os grevistas seriam aqueles que reivindicam este silêncio como concordância. O problema, portanto, passa a ser como averiguar estas suposições. Enquanto o movimento docente, como base em uma experiência construída em mais de trinta anos de resistência, luta e militância, procura realizar isso através de reuniões de unidade, seminários, materiais impressos e digitais, que levem ao conjunto dos professores os elementos para que estes possam formar suas convicções para que em assembleias enfrentem as alternativas e decidam pelos caminhos que devem trilhar; nossos senhores do sindicalismo oficialista insistem que o mais democrático seria uma consulta eletrônica na qual os professores deveriam dizer sim ou não à greve.
Parece-me que há aqui um importante tema a tratar. Com o fim do ciclo da autocracia burguesa o debate centrava-se entre uma mera democracia representativa e uma democracia participativa de forma que questionávamos o fato que a mera manifestação da vontade pelo voto e a eleição de representantes seria suficiente para se tornar o canal de expressão da vontade e dos interesses dos trabalhadores e da maioria da população em luta contra as demandas da ordem e dos poderosos interesses de classe que ela manifestava.
Neste cenário a defesa da democracia direta ou participativa procurava os canais que fosse adequados à dinâmica da luta de classes naquele momento colocada e insistíamos nas assembleias, nos comitês, nos conselhos, na luta direta como nas greves, nas manifestações, nos atos públicos e na organização política que fosse construída com base nesse princípio, ou seja, dos núcleos de base e nas formas de controle das bases sobre suas direções.
Em contraposição a tudo isso o argumento da ordem era o do respeito às instituições, aos sindicatos oficiais e atrelados, ao Governo e ao Congresso, ainda que esses encouraçados de legalidade jurídica carecessem de legitimidade política.
Interessantemente, a ordem que derivou deste ciclo e que levou o PT ao governo, tem transformado esses instrumentos de democracia participativa (o exemplo mais contundente são os conselhos) em instrumentos de apassivamento. O chamado “controle social” entendido no contexto das lutas populares como forma da população controlar a elaboração e execução de políticas públicas, como no caso do movimento sanitarista, se transforma em “controle social” restritamente concebido como controle exatamente do movimento para que não prejudique a implantação de políticas privatizantes e mercantilizantes dos serviços essenciais como saúde, educação, moradia, transporte e outros.
A contradição entre “democracia” e “participação”, isto é, o paradoxo pelo qual uma forma política que almeja ser da maioria ter que disciplinar a participação para que a maioria de fato não governe, leva a retorno dos instrumentos cada vez mais típicos da “representação” e não da participação direta. Isso no contexto político geral se materializa no fetiche do voto que como dizia o próprio Rousseau é o ato pelo qual um povo que se ilude que é soberano transfere a soberania aos que de fato Irão detê-la e governá-lo.
Mas, o fetiche do voto vai além. Uma relação entre seres humanos se transforma numa fantasmagórica relação entre coisas, dizia Marx, quando a relação entre seres humanos mediada por coisas eleva esta mediação ao papel de protagonista. Assim como na relação mercantil, esvaziasse o valor de uso, aquele conteúdo que está relacionado a satisfação das necessidades humanas, revelasse como fundamental o valor de troca como expressão do valor, do trabalho abstrato.
Assim, não são mais as demandas reais, os interesses de classe e suas contradições essenciais com a produção e reprodução social da vida que estão em jogo, mas voto em si mesmo, o mento da decisão por este ou aquele representante ou essa ou aquela decisão. Desta forma a política pode prescindir daquele tormentoso e difícil momento do debate e ir direto ao que interessa: o voto.
A mediação dos meios eletrônicos só aprofunda o fetichismo, assim como o dinheiro na forma mercadoria. Da mesma forma que o dinheiro nas relações de valor permite que trabalhos concretos distantes se confrontem nas relações de troca como iguais, soterrando suas diferenças concretas sob a objetividade impalpável do valor, o voto soterra o conteúdo qualitativo das diferenças e antagonismos, no ato em si do ato de votar. Você, indivíduo encapsulado com suas convicções que lhe parecem pessoais mas são de fato a expressão do senso comum construído por uma certa ordem societária que lhe é imposta, se ilude de decidir porque aperta o botão ao mesmo tempo que muitos outros.
No pavilhão construído por ocasião da Rio + 20 e que recebe o nome sugestivo de pavilhão da humanidade (financiado por empresários, a Fundação Roberto Marinho e outros que pretensamente esperam representar a humanidade) há uma instalação na forma de biblioteca e ao centro uma espécie de pendulo fora do prumo.  Para que o pendulo fique no prumo todos tem que apertar vários botões simultaneamente. Segunda a representante da Fundação Roberto Marinho, isso para “dar a sensação de que a saída depende de todos nós”.
Trata-se exatamente disso: uma sensação. Enquanto um número muito grande de pessoas apertam seus botões para vivenciar a gratificante sensação de que estão decidindo alguma coisa, um número bem pequeno de pessoas, aquelas que controlam os verdadeiros botões que podem definir o prumo das coisas, estão de fato decidindo.
A votação virtual pode ser um bom instrumento eletrônico para realizar uma consulta, mas de forma alguma pode substituir o processo político do debate, do contraditório, do conhecimento de causa, da informação. Esse é o mesmo processo pelo qual o fetiche da comunicação substitui a comunicação propriamente dita.
É significativo que aqueles setores que abandonara a democracia direta e se renderem à democracia formal, que escondem o particularismo de seus interesses sob o véu ideológico de uma universalidade abstrata, queiram agora levar a mesma inflexão para a ação sindical.
A resposta, no entanto, veio exatamente de onde deveria vir. Estes senhores que passaram o ano passado inteiro em salas fechadas com o governo numa atitude subserviente e vergonhosa (na prática como assessores do Governo), e até o final do ano passado ainda não tinha uma proposta integral para discutir a carreira além de alguns míseros pontos, estão sendo varridos por assembléias nas próprias universidades que diziam “controlar”, como foi na UFG, em parte da UFSCar, na UFBA e no UFC. Nesta última com um requinte de poesia. Forçaram um plebiscito eletrônico que ocorreu esta semana e o resultado foi esse: 883 professores favoráveis à greve e 379 contrários.
Saberemos enterrar esses senhores fetichistas e seus fetiches na mesma cova onde enterraremos um dia a raiz de tudo isso: a mercadoria, o Estado e o capital. Como dizia Silvio Rodriguez: onde há homens não há fantasmas.

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Com apoio da mídia, Paraguai inaugura o “golpe transgênico”

 Monsanto golpeia no Paraguai: Os mortos de Curuguaty e o juízo político de Lugo

Quem está por trás desta trama tão sinistra? Os promotores de uma ideologia que busca o máximo benefício econômico a qualquer preço e quanto mais, melhor, agora e no futuro.
Na quinta-feira, 15 de junho de 2012, um grupo policial que cumpriria ordem de despejo no estado de Canindeyú, na fronteira com o Brasil, foi emboscado por franco-atiradores, misturados a camponeses que reclamavam terras para sobreviver. A ordem foi dada por um juiz e uma promotora para proteger um latifundiário. Como resultado houve 17 mortes; 6 policiais e 11 camponeses, além de dezenas de feridos graves. As consequências: o governo fraco e temeroso de Fernando Lugo ficou com debilidade crescente e extrema, apesar de cada vez mais direitista, a ponto de ser levado a juízo político por um Congresso dominado pela direita; um duro revés para a esquerda, as organizações sociais e camponesas, acusadas pela oligarquia latifundiária de instigar os camponeses; avanço do agronegócio extrativista nas mãos de multinacionais como a Monsanto, através da perseguição e tomada de terras dos camponeses, e finalmente, a instalação de uma cômoda plateia para os partidos de direita, para seu retorno triunfal nas eleições do Executivo em 2013.
No dia 21 de outubro de 2011, o Ministério de Agricultura e Pecuária, dirigido pelo liberal Enzo Cardozo, liberou ilegalmente o plantio de algodão transgênico Bollgard BT, da companhia norte-americana de biotecnologia Monsanto, para uso comercial no Paraguai. Os protestos de camponeses e de organizações ambientalistas não se fizeram esperar. O gene deste algodão é misturado com o gene da Bacillus Thurigensis, uma bactéria tóxica que mata algumas pragas do algodão, como as larvas do pulgão, que bota ovos no casulo do têxtil. O Serviço Nacional de Qualidade, Saúde Vegetal e de Sementes, SENAVE, outra instituição do estado paraguaio, dirigido por Miguel Lovera, não registrou dita semente transgênica nos registros de cultivares, por carecer de análise do Ministério da Saúde e da Secretaria de Meio Ambiente, como exige a legislação.
Campanha midiática
Durante os meses posteriores, a Monsanto, através da União de Grêmios de Produção, UGP, estreitamente ligada ao Grupo Zuccolillo, que publica o diario ABC Color [o jornal mais importante do Paraguai], arremeteu contra o SENAVE e seu presidente por não inscrever a semente transgênica da Monsanto para uso comercial em todo o país.
A contagem regressiva decisiva se deu com uma nova denúncia por parte da pseudosindicalista do SENAVE, de nome Silvia Martínez, que acusou Lovera, em 7 de junho passado, de corrupção e nepotismo na instituição que dirige, através do ABC Color. Martínez é esposa de Roberto Cáceres, representante técnico de várias empresas agrícolas, entre elas a Agrosán, recentemente adquirida por 120 milhões de dólares pela Syngenta, outra multinacional, ambas sócias da UGP.
No dia seguinte, sexta-feira 8 de junho, a UGP publicou no [diário] ABC, em seis colunas: “12 razões para destituir Lovera”. Estes supostos argumentos foram apresentados ao vice-presidente da República, correligionário do ministro da Agricultura, o liberal Federico Franco, que neste momento desempenhava o papel de presidente do Paraguai, na ausência de Lugo, que viajava pela Ásia.
Na quinta-feira 15 do mês corrente, por ocasião de uma exposição anual organizada pelo Ministério da Agricultura e da Pecuária, o ministro Enzo Cardoso deixou escapar um comentário diante da imprensa sobre um suposto grupo de investidores da Índia, do setor de agroquímicos, que teria cancelado um projeto de investimento no Paraguai por suposta corrupção no SENAVE. Nunca esclareceu do que se tratava. Nessas horas daquele dia se registravam os acontecimentos trágicos de Curuguaty.
No marco da exposição preparada pelo citado ministério, a multinacional Monsanto apresentou outra variedade de algodão, duplamente transgênico: BT e RR, ou resistente ao Roundup, o herbicida fabricado e patenteado pela Monsanto. A pretensão da multinacional norte-americana era a inscrição no Paraguai de dita semente transgênica, assim como aconteceu na Argentina e em outros países do mundo.
Previamente a estes fatos, o diário ABC Color denunciou sistematicamente os supostos atos de corrupção da ministra da Saúde, Esperanza Martínez, e do ministro do Meio Ambiente, Oscar Rivas, dois funcionários que não deram decisões favoráveis à Monsanto.
A Monsanto faturou no ano passado 30 milhões de dólares, livre de impostos (porque não declara parte de sua renda) somente com os royalties pelo uso de sementes transgênicas de soja no Paraguai. A Monsanto também fatura com a venda de sementes transgênicas, de forma independente. Toda a soja cultivada no Paraguai é transgênica, numa extensão de cerca de 3 milhões de hectares, com uma produção em torno de 7 milhões de toneladas em 2010.
Por outro lado, a Câmara dos Deputados já aprovou o projeto de Lei da Biossegurança, que contempla criar uma agência de biossegurança no Ministério da Agricultura, com amplo poder para a aprovação do cultivo comercial de todas as sementes transgênicas, sejam de arroz, mandioca, algodão e algumas hortaliças. Este projeto de lei contempla a eliminação da atual Comissão de Biossegurança, que é um ente colegiado de funcionários técnicos do Estado paraguaio.
Enquanto transcorriam estes acontecimentos, a UGP vinha preparando um ato de protesto nacional contra o governo de Fernando Lugo no dia 25 de junho próximo. Trata-se de uma manifestação com máquinas agrícolas, fechando estradas em distintos pontos do país. Uma das reivindicações do denominado “tratoraço” era a destituição de Miguel Lovera do SENAVE, assim como a liberação de todas as sementes transgênicas para seu cultivo comercial.
As conexões
A UGP é dirigida por Héctor Cristaldo, apoiado por outros apóstolos como Ramón Sánchez — que tem negócios no setor de agroquímicos –, entre outros agentes multinacionais do agronegócio. Cristaldo integra a equipe de várias empresas do Grupo Zuccolillo, cujo principal acionista é Aldo Zuccolillo, diretor proprietário do diário ABC Color desde sua fundação, sob o regime de Stroessner, em 1967. Zuccolillo é dirigente da Sociedade Interamericana de Imprensa, SIP. O Grupo Zuccolillo é o principal sócio no Paraguai da Cargill, uma das maiores multinacionais de agronegócio do mundo. A sociedade construiu um dos mais importantes portos graneleiros do Paraguai, denominado Porto União, a 500 metros da tomada de água da empresa de distribuição de água do estado paraguaio, no rio Paraguai, sem qualquer restrição.
As multinacionais do agronegócio do Paraguai praticamente não pagam impostos, mediante a proteção férrea que conseguem no Congresso, dominado pela direita. A carga tributária do Paraguai é de apenas 13% do PIB. Sessenta por cento do imposto arrecadado pelo estado paraguaio é o IVA, Imposto sobre Valor Agregado. Os latifundiários não pagam impostos. O imposto imobiliário representa apenas 0,04% da arrecadação tributária, cerca de 5 milhões de dólares, segundo um estudo do Banco Mundial, ainda que o agronegócio produza cerca de 30% do PIB, que representam cerca de 6 bilhões de dólares anuais. O Paraguai é um dos países mais desiguais do mundo. Oitenta e cinco por cento das terras, cerca de 30 milhões de hectares, estão nas mãos de 2% dos proprietários, que se dedicam à produção meramemnte extrativista ou, no pior dos casos, à especulação com a terra.
A maioria destes oligarcas possui mansões em Punta del Este ou Miami e tem relações estreitas com as multinacionais do setor financeiro, que guardam seus bens ilegais em paraísos fiscais ou facilitam investimento no estrangeiro. Todos eles, de alguma maneira, estão ligados ao agronegócio e dominam o espectro político nacional, com ampla influência sobre o poder do estado. Ali reina a UGP, apoiada pela multinacionais do setor financeiro e do agronegócio.
Os fatos de Curuguaty
Curuguaty é uma cidade que fica na região oriental do Paraguai, a 200 quilômetros de Assunção, capital do país. A alguns quilômetros de Curuguaty se encontra a fazenda Morombí, propriedade de Blas Riquelme, que tem mais de 70 mil hectares na região. Riquelme vem das entranhas da ditadura Stroessner (1954-1989), sob cujo regime juntou uma imensa fortuna, aliado ao general Andrés Rodríguez, que executou o golpe de estado que derrubou o ditador. Riquelme, que foi presidente do Partido Colorado por muitos anos e senador da República, dono de vários supermercados e frigoríficos, se apropriou usando subterfúgios legais de uma área de 2 mil hectares que pertence ao estado paraguaio.
Esta área foi ocupada por camponeses sem terra que vinham solicitando ao governo de Fernando Lugo sua distribuição. Um juiz e uma promotora ordenaram o desalojamento dos camponeses, através do Grupo Especial de Operações, GEO, da Polícia Nacional, cujos membros de elite foram, em sua maioria, treinados na Colômbia, durante o governo Uribe, para a luta contrainsurgente.
Apenas uma sabotagem interna, dentro dos quadros de inteligência da polícia, com cumplicidade da Promotoria, explica a emboscada na qual morreram 6 policiais. Não se compreende como policiais altamente treinados, no marco do Plano Colômbia, puderam cair tão facilmente numa emboscada de camponeses, como quer fazer crer a imprensa dominada por oligarcas. Os colegas dos mortos reagiram e atacaram os camponeses, matando 11, com outros 50 feridos. Entre os policiais mortos estava o chefe do GEO, comissário Erven Lovera, irmão do tenente-coronel Alcides Lovera, chefe de segurança do presidente Lugo.
O plano consiste em criminalizar, promover o ódio extremo contra todas as organizações de camponeses, para empurrá-los a deixar o campo exclusivamente para o agronegócio. É um processo lento, doloroso, de retirada do campo paraguaio, que atenta diretamente contra a soberania alimentar, a cultura alimentar do povo paraguaio, por serem os camponeses os produtores e recriadores ancestrais de toda a cultura guaraní.
Tanto a Promotoria quanto o Ministério Público, o Poder Judiciário e a Polícia Nacional, assim como diversos organismos do estado paraguaio, estão sob controle externo através de convênios de cooperação com a USAID, a agência de cooperação dos Estados Unidos.
O assassinato do irmão do chefe de segurança do presidente da República foi uma mensagem direta a Fernando Lugo, cuja cabeça seria o próximo objetivo, provavelmente através de um juízo político, que em resposta endireitou ainda mais seu governo, tentando acalmar os oligarcas.  O que aconteceu em Curuguaty derrubou o ministro do Interior Carlos Filizzola, sendo nomeado Rubén Candia Amarilla, proveniente do partido opositor Colorado, ao qual Lugo derrotou nas urnas em 2008 depois de 60 anos de ditadura, que incluiram a tirania de Alfredo Stroessner.
Candia foi ministro da Justiça do governo colorado de Nicanor Duarte (2003-2008) e desempenhou o papel de procurador-geral do Estado até o ano passado, quando foi substituído por outro colorado, Javier Díaz Verón, decisão do próprio Lugo.
Candia é acusado de ter promovido a repressão a dirigentes de organizações camponesas e movimentos populares. Sua nomeação para a Procuradoria Geral do Estado em 2005 foi aprovada pelo então embaixador dos Estados Unidos, John F. Keen. Candia foi responsável por um controle maior da USAID sobre o Ministério Público e foi acusado no início do governo Lugo de conspirar para afastar o presidente do poder.
Depois de assumir como ministro político de Lugo, o primeiro ato de Candia foi anunciar a eliminação do protocolo de diálogo com os camponeses que invadem propriedades. A mensagem é de que não haverá conversações, simplesmente a aplicação da lei, o que significa empregar a força policial repressiva sem contemplação.
Dois dias depois de Candia Amarilla assumir, os membros da UGP, encabeçados por Héctor Cristaldo, visitaram o ministro do Interior, a quem solicitaram garantias para a realização do chamado tratoraço. Na ocasião, Cristaldo disse que a manifestação poderia ser suspensa em caso de novos sinais favoráveis à UGP (leia-se a liberação das sementes transgênicas da Monsanto, a destituição de Lovera e de outros ministros, entre outras vantagens para o grande capital e os oligarcas), endireitando ainda mais o governo Lugo.
Cristaldo é pré-candidato a deputado nas eleições de 2013 por um movimento interno do Partido Colorado, liderado por Horacio Cartes, um empresário investigado em passado recente pelos Estados Unidos por lavagem de dinheiro e narcotráfico, segundo o próprio jornal ABC Color, que publicou vários telegramas do Departamento de Estado, divulgados pelo WikiLeaks, entre eles um que aludia diretamente a Cartes, em 15 de novembro de 2011.
Julgamento político de Lugo
Nas últimas horas, enquanto eu redigia esta crônica, a UGP, alguns integrantes do Partido Colorado e os próprios integrantes do Partido Liberal Radical Autêntico, PLRA, dirigido pelo senador Blas Llano e aliado do governo, ameaçavam com um julgamento político de Fernando Lugo para destituí-lo da presidência da República do Paraguai.
Lugo depende do humor dos colorados para seguir como presidente da República, assim como de seus aliados liberais, que agora o ameaçam com julgamento político, com certeza buscando mais espaço no poder (dinheiro) em troca de paz. O Partido Colorado, aliado a outros partidos minoritários da oposição, tem a maioria necessária para destituir o presidente de suas funções.
Talvez esperem pelos “sinais favoráveis” de Lugo à UGP — em nome da Monsanto, da pátria financeira e dos oligarcas. Caso contrário, passariam à fase seguinte dos planos de controle deste governo, que nasceu progressista e lentamente terminou conservador, controlado por poderes de fato.
Entre alguns de seus feitos, Lugo é responsável pela aprovação da Lei Antiterrorista, promovida pelos Estados Unidos em todo o mundo depois do 11 de setembro. Autorizou a implementação da Iniciativa Zona Norte, que consiste na instalação e deslocamento de tropas e civis norte-americanos no norte da Região Oriental — no nariz do Brasil — supostamente para desenvolver atividades em favor de comunidades camponesas.
A Frente Guazú, coalizão de esquerda que apoia Lugo, não conseguiu unificar seu discurso e seus integrantes perderam a capacidade de análise do poder real, caindo em jogos eleitorais imediatistas. Infiltrados pela USAID, muitos integrantes da Frente Guazú participam da administração do Estado e sucumbem ante o canto de sereia do consumismo galopante, do neoliberalismo. Corrompem-se até o tutano e na prática se convertem em copiadores vaidosos dos novos ricos que integravam recentes governos do direitista Partido Colorado.
Curuguaty também encerra uma mensagem para a região, especialmente para o Brasil, em cuja fronteira se produziram os fatos sangrentos, claramente dirigidos pelos senhores da guerra, cujos teatros de operação se pode observar no Iraque, Líbia, Afeganistão e agora na Síria. O Brasil está construindo hegemonia mundial junto com a Rússia, Índia e China, denominados conjuntamente de BRICs. No entanto, os Estados Unidos não cedem seu poder de persuasão ao gigante da América do Sul. Já está em marcha o novo eixo comercial integrado por México, Panamá, Colômbia, Peru e Chile. É um muro de contenção aos desejos expansionistas do Brasil em direção ao Pacífico.
Enquanto isso, Washington segue sua ofensiva diplomática em Brasília, tratando de convencer o governo de Dilma Rousseff a estreitar vínculos comerciais, tecnológicos e militares. Entretanto, a Quarta Frota dos Estados Unidos, reativada há alguns anos depois de ficar fora de serviço depois da Segunda Guerra Mundial, vigia todo o Atlântico Sul, representando outro cerco ao Brasil, se o país não aceitar a persuasão diplomática.
O Paraguai está em disputa entre ambos países hegemônicos, dominado amplamente agora pelos Estados Unidos. Por isso, Curuguaty é também um pequeno sinal para o Brasil, no sentido de que o Paraguai pode se converter em um estopim que pode comprometer o desenvolvimento do sudoeste do Brasil.
Mas, acima de tudo, os mortos de Curuguaty são vítimas do capital, do grande capital, do extrativismo espoliador, que assola o Planeta e destrói a vida em todos os rincões da Terra em nome da civilização e do desenvolvimento. Por sorte, os povos do mundo também vão dando respostas a estes sinais de morte, com sinais de resistência, de dignidade e de respeito a todas as formas de vida do Planeta.

 Por: Idilio Méndez Grimaldi
 Jornalista, investigador e analista. Membro da Sociedade de Economia Política do Paraguai, SEPPY. Autor do livro Os Herdeiros de Stroessner.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Nós, os puros

Deu-se estes dias que chegamos a uma encruzilhada inaudita. Assim, os que ousaram se alinhar ao sentimento de Luiza Erundina, de repúdio à ligação do PT e de Lula a Paulo Maluf, passaram a ser chamados de “puros”. Assim mesmo, entre aspas, para que fique claro a conotação de que, uma vez puros, são também tolos, tristes sonhadores, idealistas cuja atitude pueril não só transgride as …regras do jogo como, no fim das contas, subverte a ordem de uma guerra santa. Em meio ao jihadismo estabelecido nas eleições paulistanas, de demônios tão nítidos quanto malignos, a atitude de Erundina contra a aliança da esquerda com um bandido procurado pela Interpol, com o cúmplice ativo dos assassinos da ditadura militar, com o construtor da vala comum do cemitério de Perus, com a representação do pior da direita, enfim, tornou-se um ato de traição, de purismo político, de angelical perversão.
Ato contínuo, os mesmos que dias antes haviam comemorado a chegada da deputada do PSB à campanha de Fernando Haddad passaram, de uma hora para outra, a demonizá-la, curiosamente, pelo viés de um purismo atávico e infantil. Erundina, a louca idealista, a tresloucada individualista capaz de destruir os planos de redenção da esquerda por causa de uma foto, uma imagem de nada, um instantâneo sem relevância nem simbolismo, apenas o registro banal de um líder da resistência a se confraternizar com chefe da escória. Ah, os puros, como são tolos! Justo quando deles se exige fortaleza e dedicação, aparecem esses sonhadores cheios de escrúpulos e regramentos éticos.
De toda parte, então, passaram a rugir leões do pragmatismo político, militantes de uma realpolitik feroz, implacável, a pregar a irrelevância dos puros, dos tolos da ética, quando não de sua influência nefasta sobre os jovens e, claro, do enorme desserviço prestado à democracia e ao admirável mundo novo que se anuncia. Os puros, dizem, nunca ganham eleições. E se não o fazem, portanto, que não atrapalhem os que as querem ganhar a qualquer custo. É preciso impedi-los, portanto, de se mostrar em público. É preciso calá-los, desqualificá-los, torná-los ridículos, patéticos em sua fraqueza.
Nem que para isso seja preciso transformar em traidora uma brasileira digna, com 40 anos de vida pública inatacável, uma heroína da resistência, uma política que passou a vida levando assistência a favelas e cortiços, uma parlamentar que dedica seus mandatos a defender a democratização da comunicação e o resgate da memória dos que foram seqüestrados, torturados e mortos pelo regime ao qual serviu Paulo Maluf. Este mesmo Maluf contra o qual os puros, os tolos e os sonhadores da política, vejam vocês, tem a ousadia de se voltar.

Por: Leandro Fortes

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Monocultura e seca

Estamos no estado do Rio Grande do Sul, passando por um período de estiagem que dura sete meses.
  Mesmo em regiões ricas em águas,como o município de Pelotas os efeitos da estiagem se fazem presente, como o racionamento de água no perímetro urbano,bem como o uso de caminhões pipas na área rural do município.
  Se de um lado vemos o racionamento de água em domicílios das áreas da periferia da cidade, encontramos o desperdício de água na lavagem de automoveis nos lava jatos,postos de gasolina,tubulações quebradas,bem como nas áreas centrais e nobres do município e adjacências.
  A seca é um fenômeno natural que esta presente desde os primórdios, com os avanços tecnológicos na meteorologia,podemos até nos previnir, algo em que não tem acontecido.
  As freqüêntes secas que a cada ano tem atingido o estado do Rio Grande do Sul um dos principais estados agrícolas do país, onde grande parte dos municípios tem a raiz econômica na agricultura e pecuária.
  A seca não é apenas um fenômeno natural, mas está ligado ao modelo agrícola que vem dominando o Brasil e  mundo há décadas.Este modelo capitalista, machista e patriarcal que se sustenta através do latifúndio,da monocultura de exportação,da priorização financeira as multinacionais e grandes empresas  que detém o controle das sementes,das máquinas, dos agrotóxicos, da alta tecnologia e inclusive,do processamento dos alimentos e da produção de medicamento.
  Além do hidronegócio que tem se adonado dos mananciais e do mar expulsando as comunidades ribeirinhas e pesqueiras.
  Temos visto o avanço descontrolado do agronegócio sobre o pampa,através das empresas de florestamento( pinus,acasias,eucalipto), como a fruticultura,monocultura de soja que tem causado sérios desequilíbrios sócio-ambientais, como a expulsão de camponeses de seus locais de moradia.
  Bem como o assoreamento de rios,arroios e a destruição de nascentes,que tem causado a fome, miséria e pobreza,bem como o aparecimento de doenças.O atual modelo de desenvolvimento tem causado o desaparecimento também de espécies de animais e plantas,causando sérios desequilíbrios ecológicos que tem afetado a população rural dos pequenos, médios municípios, como dos municipios pólos e metropolitanos.
  O modelo econômico de desenvolvimento da região tão defendido pelas autoridades políticas, setores empresariais e ruralistas é o responsavel pela crescente seca.
  Ao mesmo tempo em que vemos o descaso dos políticos perante as situações de emergências no campo, como a seca, onde recorrem a medidas paliativas, para resolver a problemática em beneficio da monocultura e salvar os bancos e as empresas transnacionais, grandes proprietários rurais para que não tenham prejuisos.
  Vemos que tais benefícios não ajudam os camponeses,pois tais projetos,autoridades e entidades desconhecem a realidade camponesa, como a perda da produção agrícola,falta de água, a perda das sementes e a biodiversidade.
  Que faz com que os camponeses/as ficam mais empobrecidos e tendo que migrar para as cidades pólos enchendo os bolsões de miséria e o desemprego.
   A questão da seca podemos resolver mudando o atual modelo ecônomico, como garantindo o acesso a terra, água e a preservação da biodiversidade( sementes, mananciais de água,animais e plantas nativas), pelas populações camponesas.
  A questão da seca é política e só resolveremos quando mudarmos o modelo econômico e tivermos um outro mundo possível e necessario.

Por: Júlio Lázaro Torma
* Membro da Equipe da Pastoral Operária Arquidiocesana, Pelotas /RS
Colaborador deste Blog

terça-feira, 5 de junho de 2012

Eduardo Galeano aponta quatro mentiras sobre o meio ambiente

 

A civilização que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem

Quatro frases que aumentam o nariz do Pinóquio

1- Somos todos culpados pela ruína do planeta.
A saúde do mundo está feito um caco. “Somos todos responsáveis”, clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, ninguém é. Como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a maior taxa de natalidade do mundo: os experts geram experts e mais experts que se ocupam de envolver o tema com o papel celofane da ambiguidade.
Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao “sacrifício de todos” nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras – inundação que ameaça se converter em uma catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial asfixia a realidade para outorgar impunidade à sociedade de consumo, que é imposta como modelo em nome do desenvolvimento, e às grandes empresas que tiram proveito dele. Mas, as estatísticas confessam. 
Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20% da humanidade comete 80% das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis. A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, “faltariam 10 planetas como o nosso para satisfazerem todas as suas necessidades”. Uma experiência impossível.
Mas, os governantes dos países do Sul que prometem o ingresso no Primeiro Mundo, mágico passaporte que nos fará, a todos, ricos e felizes, não deveriam ser só processados por calote. Não estão só pegando em nosso pé, não: esses governantes estão, além disso, cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está fazendo adoecer nosso corpo, está envenenando nossa alma e está deixando-nos sem mundo.
2- É verde aquilo que se pinta de verde.
Agora, os gigantes da indústria química fazem sua publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus empréstimos. “Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais estritas”, esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação.
Quando se aprovou, no Parlamento do Uruguai, uma tímida lei de defesa do meio-ambiente, as empresas que lançam veneno no ar e poluem as águas sacaram, subitamente, da recém-comprada máscara verde e gritaram sua verdade em termos que poderiam ser resumidos assim: “os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotarem o desenvolvimento econômico e a espantarem o investimento estrangeiro.”
O Banco Mundial, ao contrário, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez, por reunir tantas virtudes, o Banco manipulará, junto à ONU, o recém-criado Fundo para o Meio-Ambiente Mundial. Este imposto à má consciência vai dispor de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza. Intenção inatacável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está admitindo, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio-ambiente.
O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou promete.
A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.
3- Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.
Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas… As empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco-92: a conferência internacional que se ocupou, no Rio de Janeiro, da agonia do planeta. E essa conferência, chamada de Reunião de Cúpula da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e vivem dela, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno.
No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química se veste de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo que, para ajudarem a natureza, estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas, esses desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, mas sim buscam novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas do mundo produtoras de sementes, seis fabricam pesticidas (Sandoz-Ciba-Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.
A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles. Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil.
Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social e cega ante o compromisso político.
4- A natureza está fora de nós.
Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo.
Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão.
Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer.
Eduardo Hughes Galeano, jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História. Sua obra mais famosa é o livro “Veias Abertas da América Latina”.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ANEL DE TUCUM




  • "Mais que uma aliança, um compromisso contínuo!"


    Quando me pediram para escrever sobre o “anel preto”, meu Deus, lembrei logo de Dom José Gomes e de tanta gente querida comprometida com o Reino de Deus!
    Há quatro anos, quando Dom Pedro Casaldáliga completou 80 anos de vida, Dom Tomás Balduíno escreveu: “Pedro foi sagrado bispo em 1971, na cidade de São Félix, circundado pelo povo pobre de toda aquela região. Ele recebeu os símbolos litúrgicos que foram inculturados nas culturas dos povos indígenas e camponeses. A mitra era um chapéu de palha, o báculo um remo tapirapé e o anel era feito de tucum, tornando-se, em seu dedo e no de muitos agentes de pastoral, um sinal do empenho pela caminhada da libertação.”
    É bom lembrar que na época do império, quando o ouro era usado em grande escala entre os opressores, principalmente nos anéis, os negros e os índios, não tendo acesso ao ouro, criaram um anel alternativo para o pacto matrimonial, símbolo de amizade entre si e também de resistência na luta por libertação. Era um sinal clandestino e apocalíptico, cuja linguagem somente eles sabiam. Ele agregava os oprimidos, em busca de vida, mesmo no meio de tanta opressão.
    O anel de tucum, desde os tempos do CIMI e da CPT, até hoje, sempre é usado por aqueles/as que acreditam no Deus da vida e tem um engajamento, na perspectiva da educação popular, com as pessoas excluídas da sociedade. Representa a solidariedade que está nas mãos de muita gente que luta pela justiça e se engaja em pastorais sociais e em diversas entidades que lutam a favor dos que são explorados pelo capitalismo selvagem. O objetivo é denunciar as causas da pobreza e apoiar as iniciativas de outro mundo, que é possível!
    Este é o compromisso simbolizado nesta aliança, já que, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, os profetas e apóstolos afirmam a fidelidade de Deus aos pobres e oprimidos. A aliança de tucum é o sinal desta fidelidade. Além da Bíblia, a opção pelos pobres é testemunhada por toda a tradição da Igreja, a partir do Concílio Vaticano II e das Conferências latino-americanas de Medellín e Puebla. Nossa Diocese de Chapecó caminha nesse rumo.
    Quem usa o anel como enfeite ou porque está na moda é bom saber disso! No filme “Anel de Tucum”, Dom Pedro Casaldáliga explica assim o sentido desta aliança: “Este anel é feito a partir de uma palmeira da Amazônia (Bactris setosa). É sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas. E, as suas consequências. Você toparia usar o anel? Olhe, isso compromete, viu? Muitos, por causa deste compromisso foram até a morte”.

    (Texto de Pe. Cleto Stülp - Publicado no Encarte Voz da Juventude/PJ Diocese de Chapecó de Jun. 2012 - Jornal Diocesano/Diocese de Chapecó)
    *Foto de Dom José Gomes, na 5ª Assembleia Diocesana de Pastoral - 1996



segunda-feira, 28 de maio de 2012

"500 anos de falcatruas" - artigo de José Arbex Jr. sobre a impunidade da corrupção no Brasil

“Vou quebrar. Agora virei leproso, né? Agora eu só tenho defeitos, eu sou bandido”, queixa-se Fernando Cavendish, compadre do governador carioca Sérgio Cabral (PMDB) e dono da empreiteira Delta (afastado do cargo de presidente, em 25 de abril), acusado de manter relações espúrias com Carlos Augusto de Almeida Ramos, o bicheiro Carlinhos Cachoeira – a mesma empresa que, em 2008, contratou como assessor o deputado federal cassado e ex-chefe da Casa Civil José Dirceu (PT), por módicos R$ 20 mil mensais. E Cachoeira é o mesmo que, em 2002, gravou uma tentativa de extorsão feita por Waldomiro Diniz, braço direito de José Dirceu, produzindo uma evidência que, dois anos mais tarde, daria origem ao espetáculo do “mensalão”. A rigor, portanto, o novo escândalo nada tem de novo: é apenas um desdobramento tardio do outro. Com a sinceridade típica dos derrotados, o queixume de Cavendish revela um traço fundamental da suposta democracia brasileira: ele virou “leproso” apenas e unicamente por ter “quebrado”, por ter sido apanhado com a boca no botija e não por estar no centro de uma imensa máquina de corrupção. O grande pecado no Brasil é perder, não é lesar o erário.

A eclosão do “novo” escândalo abriu, mais uma vez, as comportas à sofreguidão midiática dos tradicionais arautos do moralismo. As sessões da CPI mista criada para investigar o caso servirão de palco para que parlamentares vestidos de puras vestais apareçam sedentos de vingança, sangue e punição dos “leprosos”. Arremedos risíveis de Carlos Lacerda entoarão a mesma cantilena cívica e “republicana”, palavra predileta que soa como escárnio na boca de políticos do naipe do ainda senador Demóstenes Torres (desligado do DEM), amigo íntimo de Cachoeira e hoje a caminho do cadafalso. O curioso currículo “republicano” de Demóstenes inclui, entre outras pérolas, a “tese” de que escravas brasileiras consentiam no próprio estupro. Semanas, meses e anos se passarão, e nada – absolutamente nada – acontecerá, exceto por um ou outro episódio anedótico.

Nada acontecerá no sentido de que até mesmo a queda de um presidente sob acusação de corrupção, nos idos de 1992, deixou intacta a estrutura clientelista e opaca do Estado brasileiro. Tão intacta, que o atual senador Fernando Collor de Mello foi indicado para representar o seu partido (PTB) na “CPI do Cachoeira”. Seu primeiro pronunciamento, logo na abertura dos trabalhos, foi comicamente radical: tentou aprovar, em vão, a convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, além de ter participado de conchavos e conversas de pé de ouvido com seus companheiros do PT. Nada, absolutamente nada acontecerá.

Em seu livro O poder do atraso – ensaios de sociologia da história lenta (Hucitec, 1994), o sociólogo José de Souza Martins mostra que o espantoso, em 1992, não foi a queda de Collor de Mello por prática de corrupção, mas  sim o mero fato de ele ter sido reconhecido como um político corrupto. Afinal, ele não fez nada de substancialmente distinto de seus antecessores. No Brasil contemporâneo, por exemplo, não foi reconhecido como um escândalo nacional a decretação, em 17 de abril, da extinção da pena, pela Justiça do Rio de Janeiro, do ex-banqueiro Salvatore o Cacciola, que estava em liberdade condicional desde 23 de agosto de 2011. Preso por prática de fraude contra o erário (incluindo o recebimento de uma “ajuda” do Banco Central, concedida em 1999, sob o governo FHC, no valor de R$ 1,5 bilhão, aproximadamente R$ 5 bilhões em valores atuais), foi condenado, em 2005, a 13 anos de reclusão. Passeia agora por aí, nem tão lindo, mas leve e solto, de posse de todo o dinheiro subtraído ao erário, ao passo que mães que furtam comida em mercearias e supermercados para alimentar filhos famintos amargam penas de até dez anos. A liberdade de Cacciola não aparece como um imenso e insuportável escândalo nacional, e é neste fato que reside a verdade da “democracia” brasileira, e não no grande circo dos bicheiros encalacrados.

Em 1992, a destituição de Collor parecia indicar que o Brasil, finalmente, entrava em uma nova fase de legitimidade institucional. Isso não aconteceu. A “história lenta” esmaga, com o peso de séculos de escravismo, quaisquer possibilidades de mudanças reais exigidas pela juventude, pelos trabalhadores, pela nação: O Brasil “moderno” paga propina ao Brasil arcaico para poder existir, sintetiza Souza Martins. A origem mais remota da corrupção é o sistema de casa grande e senzala, ainda muito longe de seu fim. Os donos da casa grande se julgam, com cínica razão, no direito de manobrar as instituições de Estado como se fossem assunto privado, infenso ao controle público – já que “público”, no caso, se confunde com a própria senzala. E exercem esse direito, com desenvoltura. A casa grande acredita, firmemente, não dever explicações à senzala. A “modernização” do Brasil e a incorporação à economia de vastos setores que antes estavam fora da esfera do consumo – a chamada “classe c” ou coisa que o valha – não alterou essa estrutura, apenas fortaleceu as máfias e oligarquias regionais, que também se sentem no direito de exigir a sua participação no bolo.

Não será necessário, aqui, descrever com pormenores o esquema tentacular montado por Cavendish e asseclas – tarefa cumprida por uma mídia que vai lucrar horrores com mais uma exposição das vísceras do cadáver eternamente putrefato daquilo que se convenciona chamar democracia brasileira -, para demonstrar aquilo que já se sabe, o que sempre se soube: parlamentares, governadores e figuras emblemáticas dos maiores partidos estão envolvidos. Sabemos até a quantia necessária para comprar, hoje, a boa-vontade de senadores e deputados, a se acreditar no próprio Cavendish: “Se eu botar 30 milhões de reais na mão de políticos, sou convidado para coisas para caralho”, afirmou. Cavendish, Cachoeira e assemelhados são apenas faces de uma velha, velhíssima prática historicamente consagrada no Brasil, mediante a qual o dinheiro privado compra os favores dos encarregados de gerenciar a coisa pública. Ou, em outros termos, são agentes da privatização do estado por meio da corrupção. É uma prática que se alastra por todos os níveis de governo, dos municípios ao Planalto.

O cientista político Fernando Abrucio, colunista da revista Época, chama a atenção para um estudo recente publicado pelo Instituto Ethos (www.ethos.org.br), que demonstra a ocorrência de uma crescente concentração de poderes nas mãos dos poderes executivos estaduais. No controle do uso da máquina do estado, os governantes formam maiorias avassaladoras nas assembleias legislativas e impedem o surgimento de uma oposição real, além de angariar meios para sufocar qualquer tentativa de eventual investigação de práticas lesivas à democracia. Entre 2007 e 2010, diz o estudo, “em oito das 27 unidades federativas, a coalizão que venceu as eleições para governador obteve a maioria também na Assembleia Legislativa. Após a formação do governo, esse grupo cresceu para 21 Estados. Desse grupo, em sete a oposição foi reduzida a menos de 30%, em dois a menos de 20% e em outros dois a menos de 10%”. Ainda segundo o mesmo estudo, na maioria dos estados brasileiros os colegiados dos Tribunais de Contas têm relações de “forte proximidade política” com os governantes. Em resumo: os governadores controlam a maioria das assembleias legislativas, reduzidas à mais absoluta impotência, e são “amigos” dos “fiscais” dos TCUs. As raposas vigiam os galinheiros.

Repete-se, portanto, nos Estados, o mesmo esquema que se presencia no âmbito federal, onde nunca vigorou o “equilíbrio entre poderes”: o país é sistematicamente governado por medidas provisórias que brotam aos milhares do Executivo, reduzindo o Congresso a um grupo destinado a atribuir legitimidade aos atos emanados de um monarca eleito a cada quatro anos. O máximo que se negocia, no Congresso, são as fatias do orçamento que servirão para alimentar os esquemas regionais de favores e clientelismo – precisamente, o espaço em que atuam empreiteiras, bicheiros e que tais. Há, em resumo, um simulacro de equilíbrio entre os poderes, uma grande farsa que apenas se torna momentaneamente perceptível quando algum grande esquema é desmontado, como acontece agora.

Nos raros momentos de “abertura forçada”, as engrenagens do sistema são perigosamente expostas, a sua lógica real se revela, a tampa do bueiro se abre e deixa escapar os gases fétidos do esgoto. As linhas de clivagem, de disputas de interesse entre máfias, de desafetos e ressentimentos se abrem e atingem todos os poderes, incluindo o ultra fechado, opaco e aristocrático Supremo Tribunal Federal. Ao deixar a presidência do STF, em 18 de abril, Cezar Peluzo sequer recebeu a tradicional homenagem de seus pares, fato sem precedentes num ambiente em que o cerimonial é tudo. Conhecido pela sede de sangue com que lutou pela extradição do italiano Cesare Battisti, ex-preso político no Brasil, e pelas tentativas de obstar a ação da corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, Peluzo concluiu o mandato jogando pedras no seu par, o ministro Joaquim Barbosa, que, ao rebater, qualificou-o como "ridículo", "brega", "caipira", "corporativo", "desleal", "tirano" e "pequeno". Mas, muito provavelmente, há mais em jogo do que meros desafetos pessoais: Barbosa é relator do “mensalão” e assumirá em sete meses a presidência do STF, como sucessor de Ayres Britto, que substitui Peluzo. Como é público e notório, Peluzo e Barbosa jogam em times diferentes, tanto no caso do “mensalão” como em tantos outros. A eclosão da crise agita os implicados, aquece a retórica e diminui a prudência.

Vísceras expostas, o espetáculo midiático se encarrega de criar a sensação de que “desta vez” a justiça será feita, e que a democracia sairá fortalecida. Leitores, telespectadores e ouvintes aguardam com ansiedade por novos acontecimentos, torcem pelos seus ídolos no congresso, aplaudem os discursos, vaiam os bandidos, organizam passeatas. Em momentos extremos, a justa expectativa cívica quase supera a paixão pelo futebol. “Desta vez” a justiça será feita. Como num passe de mágica, a histeria coletiva parece impossibilitar qualquer análise minimamente crítica. O que importa se o vilão Collor ressurge das cinzas como o campeão da moralidade? Quem se lembra de João Arruda, senador pelo PSDB e líder do governo no senado, em 2001, quando foi forçado a renunciar, em patético pranto nacionalmente veiculado pela TV, em meio a um escândalo de corrupção, apenas para ser eleito governador do Distrito Federal, pelo DEM, cinco anos depois, de onde saiu preso, em 2010, novamente por prática de crime contra a ordem pública? Alguém se atreve a dizer que ele não voltará? O que importa se mesmo a mobilização de milhões, em 1984, pelas Diretas Já, acabaram desembocando na condução do oligarca José Ribamar Sarney, ex-presidente da Arena, o grande partido da ditadura, ao cargo máximo da suposta democracia brasileira? Ribamar, o presidente democrata.

A memória desaparece, sob o impacto da catarse. “Desta vez” a justiça será feita. Mas não será, pelos simples fato de que os fundamentos do esquema de corrupção não serão sequer arranhados. É ainda o sociólogo Souza Martins que oferece um diagnóstico contundente: “Corruptos não são apenas alguns. A maioria dos brasileiros, sem o saber, está envolvida na trama da corrupção. É que a corrupção entre nós é endêmica e histórica, impregnou a cultura do povo e está distribuída por praticamente toda a esfera pública. Ela se originou no regime patrimonial que deu nascimento a esta nação: troca de favores materiais por favores políticos, troca de voto por favorecimentos, fazer política negando a igualdade de direitos, o voto como bem material e privado e não como direito que encerra deveres para com o país. A grande corrupção não seria possível se não fosse expressão de uma cultura da corrupção miúda e cotidiana. Vários notoriamente envolvidos no caso do mensalão foram reeleitos na eleição seguinte. Vários retornaram ao parlamento proclamando que tiveram a inocência reconhecida pelo povo no ato de reelegê-los. Aqui, ao votar, com as muitas e óbvias exceções que há, nós apenas nos rendemos, entregamos incondicionalmente a nossa vontade política aos eleitos, renunciamos.”

Mas, ao contrário do que se poderia depreender de sua análise, não há uma inexorabilidade histórica em curso. O Brasil não é “cronicamente inviável”, nem há um destino previamente traçado. Há um caminho a ser percorrido para promover mudanças reais. Basta destruir o sistema que faz coincidir três mapas: o mapa dos donos do latifúndio, do agronegócio e do sistema financeiro, o mapa dos donos da mídia e o mapa dos que controlam o congresso nacional. Mas isso está muito longe de acontecer, a julgar, por exemplo, pela brilhante vitória que eles tiveram com a aprovação, em 25 de abril, do novo Código Florestal, com a prestimosa ajuda de seus lacaios do PC do B. Quando, enfim, esses três mapas deixarem de ser um só –-, mesmo nos marcos de um regime capitalista ou social democrata (se isso por possível neste país), o Brasil será outro. Mas, para isso, terá que abolir a escravidão. 


Fonte:Npc

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Catastroika (legendas em português)



O novo documentário da equipa responsável por Dividocracia chama-se Castastroika e faz um relato avassalador sobre o impacte da privatização massiva de bens públicos e sobre toda a ideologia neoliberal que está por detrás. Catastroika denuncia exemplos concretos na Rússia, Chile, Inglaterra, França, Estados Unidos e, obviamente, na Grécia, em sectores como os transportes, a água ou a energia. Produzido através de contribuições do público, conta com o testemunho de nomes como Slavoj Žižek, Naomi Klein, Luis Sepúlveda, Ken Loach, Dean Baker e Aditya Chakrabortyy.
De forma deliberada e com uma motivação ideológica clara, os governos daqueles países estrangulam ou estrangularam serviços públicos fundamentais, elegendo os funcionários públicos como bodes expiatórios, para apresentarem, em seguida, a privatização como solução óbvia e inevitável. Sacrifica-se a qualidade, a segurança e a sustentabilidade, provocando, invariavelmente, uma deterioração generalizada da qualidade de vida dos cidadãos.
As consequências mais devastadores registam-se nos países obrigados, por credores e instituições internacionais (como a Troika), a proceder a privatizações massivas, como contrapartida dos planos de «resgate». Catastroika evidencia, por exemplo, que o endividamento consiste numa estratégia para suspender a democracia e implementar medidas que nunca nenhum regime democrático ousou sequer propor antes de serem testadas nas ditaduras do Chile e da Turquia. O objectivo é a transferência para mãos privadas da riqueza gerada, ao longo dos tempos, pelos cidadãos. Nada disto seria possível, num país democrático, sem a implementação de medidas de austeridade que deixem a economia refém dos mecanismos da especulação e da chantagem — o que implica, como se está a ver na Grécia, o total aniquilamento das estruturas basilares da sociedade, nomeadamente as que garantem a sustentabilidade, a coesão social e níveis de vida condignos.
Se a Grécia é o melhor exemplo da relação entre a dividocracia e a catastroika, ela é também, nestes dias, a prova de que as pessoas não abdicaram da responsabilidade de exigir um futuro. Cá e lá, é importante saber o que está em jogo — e Catastroika rompe com o discurso hegemónico omnipresente nos media convencionais, tornando bem claro que o desafio que temos pela frente é optar entre a luta ou a barbárie.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

VIVEMOS ATUALMENTE EM UMA REALIDADE DISTORCIDA E QUE INTERESSA A UMA MINORIA DE PODEROSOS

Há algumas décadas os aparelhos de hegemonia privados, termo criado e muito bem utilizado por Antônio Gramsci, professor italiano preso e torturado até a morte pelo regime fascista de Benito Mussolini na segunda guerra mundial, vem desempenhando um papel central para manutenção do sistema capitalista. Para dar embasamento ao restante do texto é importante esclarecermos o que são esses tais aparelhos de hegemonia privados, eles resumidamente nada mais são do que organizações que estão fora da estrutura do Estado, mas que junto a ele trabalham para manter a sociedade sob o domínio de uma minoria, através da divulgação de ideias reformistas e outras formas de alienação de massas. Bons exemplos são os meios de comunicação e as igrejas, que sempre estão com um discurso afinado e sereno para defender os interesses da classe dominante.
É notório o quanto essas organizações são tendenciosas. A manipulação de informações como ferramenta de domínio das massas é uma antiga estratégia, seu exemplo mais clássico nos tempos modernos pode ser personificado na imagem do Ministro Nacional de Esclarecimentos Públicos e Propaganda da Alemanha de Adolf Hitler, Joseph Paul Goebbels, que logo após os alemães atacarem covardemente um destacamento das forças polonesas e assassinar todos, os vestiram com os uniformes do exército nazista e os fotografaram, isso tudo a mando do próprio Goebbels, em seguida divulgaram ao resto do mundo a notícia de que as forças alemãs tinham sido atacadas e que havia sim a necessidade de uma resposta imediata e enérgica para com a Polônia. Através dessa mentira o regime nazista justificou sua invasão e toda a barbárie que se seguiu no leste europeu perante a comunidade internacional.
No momento atual estamos vivendo uma grave crise. Para Istvan Mészáros, húngaro e grande pensador marxista, essa crise não é mais cíclica e sim estrutural, caracteriza se assim pelo fato de as medidas que são adotadas para contornar uma crise cíclica não terem efeitos mais que amenizadores nessa. A falta de uma estrutura econômica e social sustentável para o capitalismo faz com que suas fragilidades se exponham e exacerbam muito mais, aumentando às lacunas e diferenças sociais através da expropriação das terras de pequenos camponeses e acumulação dos meios de produção nas mãos de poucos. Historicamente nesses momentos acontecem grandes revoltas que acabam culminando em processos revolucionários que acabam por alterar toda a estrutura da sociedade a começar pelas relações de trabalho.
Infelizmente mesmo nós estamos vivendo em uma conjuntura favorável a busca pela emancipação da classe trabalhadora não estamos unidos e muito menos consciente do que está acontecendo. Vivemos em uma sociedade que foi dividida em varias castas diferentes por esses aparelhos de hegemonia privados. Ao invés de existir as duas classes que caracterizam e dão corpo ao capitalismo, a classe trabalhadora e a classe burguesa, a grande massa enxerga sociedade repartida em homens, mulheres, jovens, velhos, negros, brancos, amarelos, descrentes, crentes, lésbicas, gays, índios entre outras diferenciações feitas e impostas como dogmas à opinião pública pelos interessados em manter esse sistema explorador e gerador de diferenças.
Manter as minorias afastadas umas das outras, impedir com que o trabalhador se reconheça como agente histórico e desperte sua consciência classista garante uma sobrevida ao capitalismo, já que ele depende desse individualismo para se reproduzir. A ganância e o egoísmo são ensinados as crianças desde o primeiro momento que estão expostas a sociedade. A banalização do ser e a supervalorização do ter tem se mostrado a principal forma de adestramento das massas.
Temos que estar preparados se quisermos construir uma sociedade livre, justa e igualitária nos direitos e deveres coletivos, múltipla e com diversidade nas opções individuais, costumes e culturas. Manter se preso no conservadorismo pode parecer ser muito cômodo no momento, mas nada mais é que uma negação da nossa própria existência enquanto agentes políticos e transformadores da realidade. Nossa luta é para que as diferenças sociais sejam repudiadas e combatidas com veemência, mas as diferenças de opinião ou opção sejam respeitadas e assimiladas.
Como diria o sábio Antonio Gramsci; "O desafio da modernidade é viver sem ilusões , sem se tornar desiludido ".
 Por: Marcelo Cadore, Cordenador Estadual - SindaspiSC
 

domingo, 13 de maio de 2012

Crise capitalista: O que é o factor limitativo?

 [Herman Daly] No mundo pobre de antigamente o capital era o factor limitativo do crescimento económico. Mas agora vivemos num mundo rico.

Reparem: Qual é o limite para as pescas anuais – os barcos de pesca (capital) ou o que resta de peixe no mar (recursos naturais)? Nitidamente este último. Qual é o limite para o número de barris de petróleo extraídos – as plataformas e plataforms de perfuração (capital) ou o que resta dos depósitos de petróleo acessível – ou a capacidade de a atmosfera absorver o CO2 do petróleo queimado (ambos recursos naturais)? Qual é o limite para a produção de madeira – o número de moto-serras e de serrações, ou as florestas e o seu ritmo de crescimento? Qual é o limite para a agricultura por irrigação – as bombas e os aspersores ou o ritmo de reposição aquífera e os caudais dos rios? Isto deve chegar para pelo menos sugerir que vivemos num mundo refreado pelos recursos naturais e não num mundo refreado pelo capital.
A lógica económica recomenda que se invista e se economize o factor limitativo. A lógica económica não mudou; o que mudou foi o factor limitativo. Actualmente aquilo que temos que economizar e aquilo em que temos que investir é nos recursos naturais, e não no capital. Os economistas ainda não reconheceram esta mudança fundamental no padrão da escassez. Frederick Soddy, prémio Nobel da química e economista por vocação, previu esta mudança há oitenta anos. Argumentou que, em última análise, a humanidade vive da luz solar, captada através das plantas, do solo e da água. Esta base permanente fundamental para a vida é temporariamente complementada com a libertação da luz solar capturada durante os Verões do Paleozóico que está a ser rapidamente delapidada para alimentar aquilo a que ele chamava "a época do desperdício". Estamos tão viciados neste subsídio a curto prazo que os nossos tecnocratas defendem que se reduza parte da energia solar que recebemos para dar mais espaço térmico para a queima dos combustíveis fósseis! Estes doutores cretinos também andam atarefados a degradar quimicamente o solo superficial e a poluir a água, enquanto brincam com a base genética das plantas, tudo isto com o objectivo de maximizar o crescimento a curto prazo. Como diz Wes Jackson, as plantas agrícolas agora têm genes escolhidos pelo Conselho do Comércio de Chicago, e não por se adequarem ao ecossistema e à geografia dos organismos que as rodeiam.
O que é que impede os economistas de aceitarem a visão de Soddy? A sua animosidade contra a dependência da natureza, e a sua devoção ao domínio. Esta atitude básica tem sido auxiliada pelo compromisso teórico ao factor da substituição e pela rejeição da complementaridade pelos economistas clássicos actuais. Sem complementaridade não pode haver factor limitativo – se o capital e os recursos naturais são substitutos na produção, então nenhum deles pode ser limitativo – se um deles começar a faltar, basta substitui-lo pelo outro e continuar a produzir. Se são complementares, ambos são necessários e o que for mais escasso é limitativo.
Antigamente os economistas acreditavam que o capital era o factor limitativo. Portanto, implicitamente, deviam ter acreditado na complementaridade entre o capital e os recursos naturais nessa economia de um mundo pobre. Mas, quando os recursos começaram a ser limitativos na economia do novo mundo rico, em vez de reconhecerem a mudança no padrão da escassez e o novo factor limitativo, abandonaram toda e qualquer ideia de factor limitativo, realçando a capacidade de substituição e excluindo a complementaridade. A nova razão para destacar o capital sobre os recursos naturais é a afirmação de que o capital é um substituto quase perfeito para os recursos.
William Nordhaus e James Tobin foram muito explícitos ("Is Growth Obsolete?," 1972, NBER, Economic Growth, New York: Columbia University Press):
O modelo de crescimento standard predominante parte do princípio que não há limites quanto à viabilidade de ampliar os abastecimentos dos agentes de produção não humanos. É basicamente um modelo de dois factores em que a produção depende apenas da mão-de-obra e do capital reprodutível. A terra e os recursos, o terceiro membro da tríade clássica, foram postos de lado… a justificação tácita tem sido que o capital reprodutível é um substituto quase perfeito para a terra e para outros recursos não renováveis.
A afirmação de que o capital é um substituto quase perfeito para os recursos naturais é um absurdo. Para já, a substituição é reversível. Se o capital é um substituto quase perfeito para os recursos, então os recursos são um substituto quase perfeito para o capital – então, porque é que se dão ao trabalho de acumular capital se a natureza já nos dotou com um substituto quase perfeito?
Não é por acaso que o nosso sistema se chama "capitalismo" em vez de "recursismo natural". É ideologicamente inconveniente para o capitalismo que o capital tenha deixado de ser o factor limitativo. Mas essa inconveniência tem sido contornada afirmando-se que o capital é um bom substituto para os recursos naturais. Sempre fiel à sua animosidade básica na negação de qualquer dependência fundamental da natureza, a economia neoclássica só encontrou duas alternativas – ou a natureza não é escassa e o capital é limitativo, ou a escassez da natureza não interessa porque o capital feito pelo homem é um substituto quase perfeito para os recursos naturais. Em qualquer dos casos é o homem que controla a natureza, graças ao capital, e isso é que é importante. O facto de o capital feito pelo homem ser ele próprio feito a partir de recursos naturais, não tem qualquer importância.
O absurdo da afirmação de que o capital e os recursos naturais são bons substitutos foi ainda mais profundamente demonstrado por Georgescu-Roegen na sua teoria da produção fundos-fluxos. Reconhece que os factores de produção são de dois tipos qualitativamente diferentes: (1) fluxos de recursos que são transformados fisicamente em fluxos de produtos e de desperdícios; e (2) fundos de capital e de mão-de-obra, agentes ou instrumentos de transformação que não são incorporados fisicamente no produto. Se encontrarmos um parafuso duma máquina ou um bocado de um dedo de um trabalhador numa lata de sopa, temos razão para uma reclamação, e não a confirmação da noção metafísica de que o capital e a mão-de-obra se encontram "incorporados" no produto!
Há graus variáveis de substituição entre diferentes fluxos de recursos naturais e entre os fundos da mão-de-obra e do capital. Mas a relação básica entre fluxo de recursos, por um lado, e fundos de capital (ou mão-de-obra), por outro, é a complementaridade. A causa eficiente (capital) não substitui a causa material (recursos). Não podemos fazer o mesmo bolo com metade dos ingredientes, mesmo que se duplique ou triplique o número de cozinheiras e de fornos. Os fundos e os fluxos são complementares.
Mais ainda, o capital é a produção actual excedentária trocada por uma garantia contra a produção futura – fisicamente é feito a partir de recursos naturais. Não é fácil substituir recursos naturais quando o presumível substituto é ele próprio feito a partir dos recursos naturais.
Reconhece-se hoje de forma geral, até mesmo os economistas, que há demasiado endividamento a nível mundial, tanto público como privado. A razão para tão grande endividamento é que temos tido expectativas absurdamente irrealistas quanto à eficácia do capital em produzir o crescimento real necessário para resgatar a dívida, que é "capital" com outro nome. Por outras palavras, a dívida que se vai amontoando nas tentativas falhadas de fazer crescer a riqueza tão depressa quanto a dívida é prova da realidade dos limites ao crescimento. Mas, em vez de ser vista como tal, é considerada como a principal razão para tentar atingir um crescimento ainda maior, contraindo mais dívidas, e passando as dívidas incobráveis da contabilidade dos bancos privados para a do erário público, ou seja, monetarizando-as.
A ilusão que levou a essas infundadas expectativas de crescimento foi a crença de que, através do crescimento, podíamos acabar com a pobreza sem a necessidade de partilhar. À medida que os pobres ficassem mais ricos, os ricos ficariam ainda mais ricos" Pouca gente esperava que o crescimento agregado, por si mesmo, se tornasse anti-económico, começasse a custar-nos mais do que o seu valor marginal, tornando-nos colectivamente mais pobres e não mais ricos. Mas foi o que aconteceu. Apesar disso, os nossos economistas, os nossos banqueiros e os nossos políticos ainda têm expectativas irrealistas quanto ao crescimento. Tal como o jogador perdedor tentam apostar o dobro ou nada num crescimento maior.
Não podíamos fazer uma folga da roleta do crescimento para reavaliar a economia em estado estacionário? Afinal, a ideia está profundamente enraizada na economia clássica, assim como na física e na biologia. O movimento perpétuo e o crescimento infinito não são premissas razoáveis sobre as quais se possa basear uma política económica.
Até certo ponto há muita gente que certamente sabe isso. Então porque é que mantemos o crescimento como a primeira prioridade nacional? Primeiro, somos enganados porque a nossa medida de crescimento, o PIB, conta toda a "actividade económica", misturando assim os custos e os benefícios, em vez de comparar os seus valores marginais. Segundo, o benefício líquido acumulado do crescimento passado atinge o máximo exactamente no ponto em que o crescimento futuro se torna anti-económico (quando o benefício marginal decrescente se torna igual ao custo marginal crescente) e a experiência passada deixa de ser um bom guia para o futuro neste aspecto. Terceiro, porque, mesmo que os benefícios do crescimento futuro sejam neste momento menores do que os custos, as nossas elites que tomam decisões descobriram como manter os benefícios extras que estão a diminuir, "partilhando" os custos extras em explosão com os pobres, com o futuro e com outras espécies. Os meios de comunicação, propriedade das elites, os grupos de pensamento financiados pelas grandes empresas, os economistas enfeudados da academia, e o Banco Mundial – para não falar da Gold Sacks e de Wall Street – todos entoam hinos ao crescimento em perfeita sintonia e iludem os cidadãos ordinários.
O que é que vai acontecer?

Fonte: Resistir
CARTA DAS MÃES SEM TERRA

Falamos aos filhos e filhas da terra, de todas as nações. Aos que não foram convidados para o banquete. Aos que por séculos esperam na fila da história. Não seremos espectadoras de um filme esperando a luz se apagar. É tempo de acreditar na possibilidade de vencer a dor.
Levantamos-nos com as mães que perdem seus filhos e filhas nas guerras, nas chacinas urbanas, no cano de fuzil, nos campos de concentração, nos atos de femicídios e genocídios, na violência doméstica, nas perseguições políticas, nas cercas aramadas. Nos levantamos com as mães que perdem seus filhos e filhas por não ter o leite, o pão, a terra e o acesso aos conhecimentos acumulados pela humanidade. Nos levantamos com as mães que perambulam com seus filhos e filhas em busca de um mundo novo. Nos levantamos para clamar por justiça social e dignidade!
Erguemos nossas mãos, nossas enxadas, nossas foices e nossas consciências para convocar todas as mulheres trabalhadoras do mundo para nos unirmos contra os exploradores da terra, da vida, da nossa força de trabalho e do nosso corpo.
Dirigimos-nos aos que se dizem senhores do mundo. Não queremos e nem pedimos sua permissão para cortar cercas e semear flores e sonhos. Não lhes falaremos palavras dúbias. Estamos em luta pela terra, água, em defesa das sementes e da biodiversidade, pelo direito de decidir sobre nossa vida, nossos alimentos, pelo direito ao trabalho, por nosso futuro e pela solidariedade entre os povos.
O “desenvolvimento e a modernidade” avançam sobre o mundo e abrem feridas. Em seu nome outorgam-se leis que colocam em risco a humanidade. Contra o deserto verde e a desesperança rompemos o silêncio e denunciamos o pó sobre o sonho e o cárcere das flores. A sua modernidade é da escuridão e da fome, por isso, não nos serve. Não ousem senhores, dar um passo a frente com seu projeto de morte.
A manipulação criminosa da biogenética, os monocultivos, o agrocombustível e o agronegócio vêm atentar contra a soberania alimentar e a possibilidade de um mundo ecologicamente correto e socialmente justo. Não permitiremos a destruição da humanidade. Saibam senhores, não aceitaremos que assassinem nossos filhos e filhas seja por violência ou por falta de comida.
Neste dia das mães reafirmamos nossa determinação em transformar o campo em espaço de esperança, de alegria e acima de tudo, de luta. No nosso projeto, todos e todas têm direito a uma vida digna, a melhores condições de vida, ao aroma e perfume das flores. Queremos transformar o mundo para que seja mais justo e igualitário. E que sejam respeitados todos os sujeitos que dele fazem parte.
Seguiremos semeando a inquietude revolucionária por reforma agrária, por justiça social e por soberania popular e alimentar. Essa é a nossa missão, e assim deverá ser para todas as mães camponesas perseguidas pela violência do agronegócio e hidronegócio.
A todas as mães do mundo inteiro só resta a organização e a luta. Lutemos incansavelmente contra o sistema neoliberal que transforma os alimentos, a água, a terra, os conhecimentos dos povos e o corpo das mulheres em mercadorias.
É chegado o tempo de exigir justiça e punição aos responsáveis pela exploração, pela violência, pelo genocídio, pelos massacres.
É chegado o tempo de erguer novas paisagens, novos homens e novas mulheres.
É chegado o tempo de vislumbrar o novo horizonte. Estamos de pé vigilantes e esculpindo noite e dia a fertilidade e a rebeldia que nascem das entranhas da mãe-terra.
Viva a mãe terra. Para que vivam as mães da terra.
Maio de 2007
MST - Reforma Agrária: Por Justiça Social e Soberania Popular!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

I Feira Regional dos Saberes e Sabores da Agricultura Familiar Camponesa‏



DIAS 01, 02 E 03 DE JUNHO
GUARUJÁ DO SUL - SC
I FEIRA REGIONAL DE SABERES E SABORES DA AGRICULTURA FAMILIAR CAMPONESA.
 IV FEIRA REGIONAL DE ECONOMIA SOLIDÁRIA.
I SEMINÁRIO REGIONAL DA AGROECOLOGIA E CAMPESINATO.
ACAMPAMENTO REGIONAL DA JUVENTUDE.
Show com PEDRO ORTAÇA e Saci Arte


A Feira acontecerá nos dias 01, 02 e 03 de Junho. Além de um espaço de troca de experiências e intercâmbio entre o público participante, o evento será um dos primeiros momentos de discussão política de uma série de organizações espontâneas e autônomas que nasceram no último período de luta e enfrentamento ante o avanço da exploração dos trabalhadores do campo e da cidade, apontando à necessidade de articulação e aliança concreta entre as mesmas.
A forma espontânea como nasceram tais organizações evidenciam que aquela série de instrumentos criados ao longo dos anos 80, 90 e 2000 não deram conta de incluir grande parcela desses trabalhadores na luta efetiva contra o avanço do capitalismo no campo. Certamente, esse processo revela a possibilidade real da construção de novas ferramentas organizativas que garantam a participação mais efetiva dos camponeses enquanto sujeitos concretos da transformação da realidade.
Portanto, tem-se como objetivo promover a valorização e o resgate da cultura e conhecimentos históricos dos pequenos agricultores do Oeste de Santa Catarina; fortalecer as experiências de resistência existentes na região; oferecer contraponto ao padrão hegemônico da Indústria Cultural; fomentar a produção agroecológica de alimentos básicos às necessidades das famílias; discutir a conjuntura nacional e agrícola, as formas de luta no campo e os desafios organizacionais do campesinato.

EXPOSIÇÃO.
O evento contará com a exposição de produtos da Agricultura Camponesa e da economia solidária, como: Sementes, mudas, comidas e bebidas, frutas, derivados de leite, cana-de-açúcar, carnes, panificados, cereais, hortaliças, compotas, artesanato, plantas medicinais e medicina natural, pequenos animais, receitas populares, exposição de saberes populares e das ciências naturais, etc.
A exposição será feita por agricultores e entidades advindas de diversas realidades: sindicatos, cooperativas, agroindústrias familiares, agricultores (as), Epagri, movimentos sociais, pastorais, ONG’s, Universidades, Fórum regional de economia solidária, parceiros, entre outros.
Os stands serão disponibilizados sem custo para os expositores, pois o objetivo da feira não é gerar lucro, mas difundir os saberes e sabores da Agricultura Familiar Camponesa, bem como promover a troca e partilha dos mesmos.
 OFICINAS TEMÁTICAS
No sábado á tarde e domingo pela manhã serão realizadas diversas oficinas. Elas acontecerão concomitante uma a outra e os participantes poderão participar de todas, conforme o interesse, pois após acompanhar um espaço podem se dirigir a outro. Há a previsão de realização das seguintes oficinas:
11.      Pastoreio Racional Voisin (PRV)
22.      Cultivo e Preparo de Ervas Medicinais
33.      Criação de Bezerras
44.      Armazenamento de Água no Solo
55.      Homeopatia e Fitoterapia Animal
66.      Confecção de Biofertilizantes
77.      Experiências de produção caseira
88.      Agrobiodiversidade X Transgênicos
99.      Homeopatia Humana
110.  Farinha de Rocha
111.  Centro de Formação em Economia Solidária (Experiências urbanas – Construção civil e confecção)
112.  Cooperativismo
113.  Compostagem
114.  Bambu (Mobiliário)
115.  Sementes Florestais
116.  Sementes Crioulas

ACAMPAMENTO REGIONAL DA JUVENTUDE
Da mesma forma, paralelo a feira, será organizado o acampamento regional da juventude. Será um espaço de intercâmbio e troca de experiências, bem como oportunizará aos jovens a participação, de forma integral, na feira e no seminário.
 PROGRAMAÇÃO DA FEIRA.

1º dia – Sexta Feira:
19:00 horas, Abertura oficial da Feira, Palestras com Carlos Schmidt e Olavo Ghedini (Os desafios da Economia Alternativa e a Cooperação Camponesa, respectivamente),  e chegada das caravanas da juventude;

2º dia: Sábado.
08:30 Horas: Visitação aos stands;
09:00 Horas: Início do I Seminário Regional da Agroecologia e Campesinato;
12:30 Horas: Almoço (R$ 5,00);
14:00 Horas: Reinício do Seminário e realização de oficinas temáticas;
17:00 Horas: Encerramento do Seminário;
18:00 Horas: Fechamento dos stands;
18:30 Horas: Café Colonial;
21:00 Horas: Show com PEDRO ORTAÇA;
23:00 Horas: Baile da Roça;

3º dia - Domingo.
08:00 Horas: Abertura dos stands, visitação e oficinas temáticas;
09:00 Horas: Apresentações populares;
12:00 Horas: Almoço;
13:30 Horas: Matiné da terceira idade, visitação aos stands, apresentações de artistas locais e regionais;
16:30 Horas: Matiné aberto;
19:00 Horas: Encerramento.

CONTATOS
Claudio: (49)9135-8175 (Vivo) – claudiojuniorgs@gmail.com
Luiz: (49)9952-1328 (Tim) – luizcampones@hotmail.com



Pag. 6 (Verso) PROGRAMAÇÃO DO I SEMINARIO REGIONAL DA AGROECOLOGIA E CAMPESINATO – 02\06 (Sábado).
Programação – Manhã
Programação – Tarde
09:00 – 09:30
Abertura
13:30 – 14:00
Animação
09:30 - 10:10
Palestra I
Tema: Análise de Conjuntura Mundial e Brasileira
Mário Maestri
Pós–Doutor em História pela Université Catholique de Louvain, UCL, Bélgica.
14:00 – 14:40
Palestra III
Tema: Movimentos Sociais Hoje
1.      Renato Nucci
2.      Intelectual Orgânico, militante dos Movimentos Sociais de Campinas – SP.

10:10 - 10:50
Debate
 14:40 – 15:20
Debate
10:50 – 11:00
Animação
15:20 – 15:30
Animação
11:00 – 11:40
Palestra II
Tema: Conjuntura Camponesa no Brasil Hoje
Horácio Martins de Carvalho
Engenheiro Agrônomo formado pela Escola Nacional de Agronomia da Universidade Rural do Brasil e especialista em Ciências Sociais pela PUC de São Paulo.
15:30 – 16:10
Palestra IV
Tema: Exploração e Expanção do Capitalismo no Campo: Desafios e Perspectivas para o campesinato

Clarilton Edzard  Davoine Cardoso Ribas

Doutorado em Ciências Sociais. Universidade Estadual de Campinas. Pós-Doutorado. Universidade Técnica de Lisboa.

 11:40 – 12:20
Debate
16:10 - 16:40
Debate
12:30 – 13:30
Almoço
16:40 - 17:15
Encaminhamentos\Encerramento

 Pessoas de Chapecó interessadas em participar do evento, podem entrar em contato com este blogueiro.
produtodamente@hotmail.com
49-33230697

Ao visitante

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não faça nada.
enfim, sinta-se a vontade.

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